Sangue quente.
41 Como uma fênix.
Notas iniciais

Sephiron...
A criaturinha se colocou na nossa frente em posição de ataque. Todos os pelos do meu corpo se ouriçaram ao imagina-la enfrentando completamente sozinha esses monstros horríveis. Ela era apenas um bebê e esses dois seres na nossa frente... eram algo com um poder inimaginável e imensurável.
—“Sophia... NÃO!” Ian tentou chegar até ela, mas o segurei firme e o mantive ao meu lado. Eu sabia que se um desses monstros tentasse tirar o Ian dos meus braços, eu não teria a menor chance de protegê-lo, mas tê-lo perto de mim me deixava mais tranquilo.
—“Oh... que gracinha! O bebê quer brincar é? Huhuhu... então vem cá que o vovô te mostra como se brinca.” Shadowy deu um passo à frente e abriu os braços em um claro convite para a briga.
—“Não vá criaturinha... é uma armadilha!” Eu a preveni das intenções de Shadowy e fiquei totalmente alerta aos movimentos dele e de Uriel. Eles claramente haviam nos encurralado dentro da nossa própria casa e Shadowy obviamente queria a criaturinha. Era obvio que ele desejava que ela fosse pra cima dele ao em vez de correr na direção contrária.
Mas acho que correr não era uma boa opção, eles nos alcançariam logo e provavelmente se irritariam com a perseguição... Acho que a melhor coisa a se fazer é tentar lutar, talvez se nós todos formos pra cima deles juntos, talvez possamos derrot... Não, quem eu estou tentando enganar? Eu sei que mesmo lutando juntos, nós não temos chances.
Mesmo com o meu claro aviso de armadilha, a criaturinha não me deu ouvidos, ela saltou na direção de Shadowy e o atacou.
Como previ, ele tentou segura-la enquanto ela estava no meio do pulo, mas ela foi rápida e deu uma cambalhota em pleno ar, se esquivando de suas mãos com elegância. Ela então pousou no ombro dele e rapidamente voltou a pular, dessa vez para longe dele.
—“Hmm hu hu hu... E não é que ela é rápida...” Shadowy sorriu diabolicamente para a criaturinha quando um corte surgiu em seu rosto e sangrou. Eu nem vi quando foi que ela fez um corte no rosto dele, mas acho que foi quando ela pousou em seu ombro. O ferimento logo fecho e Shadowy agiu como se não tivesse sentido nada.
A criaturinha voltou a pular contra ele, mas dessa vez eu não pude ver o movimento de Shadowy. Tudo virou um borrão na minha frente e de repente a criaturinha estava no chão diante dos pés de Shadowy.
Uriel assistia tudo com um sorriso diabólico e até orgulhoso de seu parceiro.
—“Você pode ser rápida... Mas eu sou mais rápido do que você!” Shadowy ampliou seu sorriso monstruoso antes de chutar a criaturinha na nossa direção com todas as forças. Eu me antecipei e me posicionei preparado para pega-la nos braços antes que ela atingisse o chão.
Senti a força do impacto do corpinho dela contra o meu peito. Isso foi o suficiente para rachar as minhas costelas, então isso comprova que o chute foi violento o suficiente para feri-la gravemente... Maldito! Ele não a quer viva? Então porque a atacou dessa forma?
—“Hrgh...” Ela gemeu ao tentar se mover nos meus braços, o sangue escorreu de seus lábios... provavelmente ela estava tendo uma hemorragia interna.
—“Sophia!” Ian a abraçou junto comigo e unidos recuamos sem nunca desgrudar os olhos dos monstros à nossa frente, Leonard não largava a barra da camisa de Ian, nem por um segundo.
A criaturinha se remexeu e tentou sair de meus braços.
—“Não...” Tentei segura-la mais forte para impedi-la de tentar lutar de novo, eu sabia que ela não conseguiria enfrentar aquelas coisas, não adiantava ficar tentando... ela só ia se ferir mais.
Mas ela era mais forte que nós, ela conseguiu se desvencilhar de meus braços e tomar a nossa frente, já recuperada dos danos que aquele chute causou nela.
—“Sophia... não, por favor!” Ian tentou voltar a abraça-la, mas ela nem o deixou a tocar, ela se afastou de nós sem nos olhar, mas quando ela estava prestes a atacar Shadowy de novo, ela parou e suspirou.
—“Meus pais... escutem, por favor.” A criaturinha falou séria sem nunca nos olhar diretamente, sua atenção estava toda nos monstros à nossa frente, eu não podia ver o rosto dela, somente suas pequenas costas voltadas para nós.
—“...” Eu e Ian nos entreolhamos, Leonard estava ao nosso lado tremulo.
—“Eu não sei se tenho chances contra esses dois... então, eu quero que vocês saibam tudo sobre mim...” A criaturinha baixou a cabeça e tremeu ao dizer isso... o que ela está dizendo? Porque isso me soa como um adeus?
Porque cada pelo do meu corpo está tão arrepiado, que está ardendo em alerta? Porque meu coração está tão apertado?
—“Sophia...” Ian tentou chegar nela novamente, dessa vez eu fui com ele, mas de repente uma bolha de tom rosado se formou ao nosso redor, prendendo eu, Ian e Leonard, ela parecia macia e aconchegante por dentro, mas era impossível de arrebenta-la para sair... Por um minuto fiquei com medo de que isso fosse uma prisão criada por Shadowy e Uriel, mas quando os vi se entreolharem admirados e impressionados com a bolha, como se nunca tivesse visto nada igual, eu tive a certeza de que aquilo era obra da criaturinha... talvez fosse um escudo.
—“Criaturinha... o que você está fazendo?” O desespero tomou conta de mim. Passei a tentar arrebentar a bolha ao nosso redor, assim como Ian e Leonard... isso estava errado, ela deveria estar aqui dentro conosco.
—“Eu não sou a Sophia... Meu nome é Sebastian. Eu sou... irmão da Sophia... eu... sou... Bem, eu acho que vocês sabem quem eu sou, não é?” A criaturinha nos deu um olhar triste de relance, seus olhos não eram mais violeta, mas sim negros como a noite.
Ian me olhou sem entender, mas eu sabia que ele havia entendido o que estava acontecendo aqui... Esse ser era aquele monstro que matou todos no barco e aranhou o peito de Ian... Na época eu não tinha entendido, mas agora eu sabia, esse monstro era o gêmeo que morreu! Mas como? E onde estava a Sophia?
—“Eu fiz coisas ruins... coisas muito terríveis mesmo. Eu matei muita gente... inclusive a Sophia... eu machuquei o Leonard e... planejei matar vocês e os meus outros irmãos, mas...” A criaturinha baixou a cabeça culpado ao falar isso e meu estômago se revirou. Como assim ele matou a Sophia?... O que ele quer dizer com isso?
—“...” Ian ao meu lado estava tremendo muito e suas lágrimas já começavam a brotar junto com seus soluços.
—“Mas... eu... eu...” A criaturinha... não, o Sebastian tentou se explicar, mas acho que ele não tinha explicações para os seus atos, então preferiu se calar... Eu agradeci por isso, pois eu não queria ouvir desculpas esfarrapadas, não quando ele mesmo admitiu que fez essas coisas e que planejava fazer de novo.
—“...” O pior era que eu não tinha palavras... eu não sabia dizer o que estava sentido, eu não sabia como agir diante dessa informação... Minha filha se foi, mas ainda está aqui de alguma forma... no entanto não é mais ela... Nunca mais será ela... nunca mais terei ela em meus braços.
O que estava diante de mim agora era outro e isso explicava a diferença que estávamos sentindo nas últimas semanas.
—“Me perdoem por tudo... Eu só queria que vocês soubessem que eu também sou filho de vocês e que... eu não vou deixar esses caras tocarem nos meus irmãozinhos... Afinal, eles são meus futuros inimigos.” Sebastian sorriu para nós antes de voltar a sua atenção ao Shadowy.
Eu realmente não estava entendendo o que estava acontecendo aqui, mas se eu entendi direito... esse bebê que está na minha frente não é mais a Sophia e sim o outro bebê que eu achei que Ian tinha perdido a muito tempo atrás... como isso era possível?
A criaturinha... que agora eu não sabia mais como chamar, pulou na direção daqueles monstros e meu coração quase parou... Então eu percebi que independente desse bebê ser ou não a Sophia, eu ainda me importo com ele de alguma forma... ele ainda é meu filho... ele ainda é meu bebê.
Shadowy sorriu e se moveu, foi impossível ver o que realmente aconteceu, mas em um minuto Sebastian estava pulando contra ele e no outro minuto ele estava voando contra a parede da sala.
Sebastian se chocou com violência contra a parede, o som de seus ossos quebrando foi terrível, meu interior revirou de ânsia ao ver meu filho se machucar desse jeito... Droga, eu odeio isso! Pais normais sofrem ao ver seus filhos ralando o joelho ao cair, mas como um pai deve agir ao ver seu filho sofrer tal ferimento? Eu me sinto tão impotente sendo protegido por ele e não o contrário... era eu quem deveria estar lá fora lutando para protege-lo.
Shadowy sorriu para Sebastian que estava atirado no chão, ele tentava se levantar, mas alguns de seus ossos ainda não haviam se recuperado. Já o desgraçado do Shadowy não tinha um fio de cabelo fora do lugar, mas o Sebastian não se deu por vencido, ele cuspiu um pouco de sangue e se levantou com um sorriso.
—“Finalmente um desafio à minha altura... Vamos dançar... vovô.” Sebastian mostrou uma fileira de dentes afiados ao dizer isso. Tanto Shadowy quanto Uriel ergueram as sobrancelhas espantados.
Sebastian novamente partiu pra cima de Shadowy, dessa vez eu não pude ver nada, mas os sons dos impactos reviravam meu estômago.
Segurei Ian com força, ele estava quase arfando de tão nervoso e Leonard se abraçou na minha perna tão tremulo que parecia vibrar... e eu só pude assistir sem fazer nada, enquanto o desastre se desenrolava na minha sala.
Eu não podia ver o que estava acontecendo graça a supervelocidade em que eles se locomoviam, mas eu podia ver os estragos que eram deixados pra trás onde eles passavam.
Meus móveis ora voavam pela sala e ora simplesmente viravam pedaços irreconhecíveis na minha frente.
Olhar isso era quase como ver um filme realista de Poltergeist.
Os móveis de madeira viraram apenas farpas, as janelas explodiram em cacos de vidro, as cortinas foram desintegradas, as paredes racharam e o chão ficou destorcido.
O ar parecia elétrico e uma ventania terrível derrubava vasos, sacudia os lustres e levava de arrasto tudo que era leve o suficiente para o vento levar.
O teto ruiu em alguns pontos e pedaços assustadoramente grandes de entulho caiu sobre nós, revelando a noite fria lá fora.
Por sorte estávamos protegidos por essa bolha. Qualquer coisa sólida que se chocava contra o escudo era praticamente desintegrado sem que o mesmo sofresse danos, o que me fazia acreditar que por fora essa bolha tinha algum mecanismo de defesa e vaporizava qualquer coisa que ousasse toca-la... Acho que isso foi tudo que manteve Uriel longe de nós até agora.
Estrondos altíssimos eram ouvidos vez ou outra, parecia que trovões estavam caindo na minha sala, mas eu sabia que isso era o som dos golpes sendo acertados... Eu só torcia para ser Sebastian quem estava acertando.
Uriel nem se mexeu, ele assistia a luta com deleite. Seu sorriso de prazer era quase assustador.
De repente algo pequeno passou voando a toda a velocidade pela minha visão periférica e se chocou com força contra o chão a alguns metros de nós, o tingindo de vermelho vivo.
Meu coração realmente parou ao ver Sebastian sangrando muito no chão daquele jeito. Ele tentava se levantar, mas fraquejava e voltava a desmoronar sobre uma poça de sangue.
—“Já cansou? Eu nem cheguei a suar... minha adorada netinha.” Shadowy se gabou ajeitando sua roupa suja de pó, isso era a única coisa que indicava que ele estava lutando, não havia mais nada de diferente em seu corpo, nem mesmo um arranhão.
Shadowy andou na direção de Sebastian se preparando para ataca-lo, Sebastian tinha que levantar agora ou seria pego com a guarda baixa.
—“Levante Sebastian... É UMA ORDEM!” Gritou Leonard ao nosso lado, ele parecia determinado ao fazer isso. E isso me irritou um pouco, quem era esse moleque para ordenar algo ao meu filho que estava praticamente sendo trucidado lá fora?!
Mas para a minha surpresa, a ordem surtiu efeito imediato, Sebastian se levantou cambaleante, o sangue escorria por todo o seu corpo, mas ele respirou fundo e se manteve de pé.
—“NÃO DESISTA SEBASTIAN... LUTE... ACABE COM ESSE DESGRAÇADO, EU SEI QUE VOCÊ CONSEGUE!” Leonard gritou para Sebastian com determinação.
Sebastian pareceu recuperar as forças e voltou a atacar o Shadowy.
Mas dessa vez pude acompanhar alguns movimentos, acho que o Sebastian estava mais fraco e lento agora por causa da perda de sangue, mas ele não se deu por vencido.
O Sebastian tentou arranhar o rosto de Shadowy, mas ele se esquivou sem dificuldades, ele tentou arranhar seu peito, mas Shadowy se defendeu com destreza... Droga! Sebastian não estava conseguindo acertar nenhum golpe.
Foi a vez de Shadowy atacar, ele acertou um soco tão forte na barriga de Sebastian, que ele novamente foi arremessado longe, mas dessa vez se chocou contra uma parede que desmoronou sobre ele.
A bolha ao nosso redor sumiu, acho que isso tinha a ver com uma possível perda de consciência de Sebastian.
—“NÃO!” Ian tentou correr na direção de Sebastian, para tentar tira-lo de baixo dos escombros, mas eu o segurei firme ao meu lado.
Shadowy se virou para nós e sorriu.
—“Acho que você deve levar o Ian para casa agora Uriel... Não seria legal ele presenciar o que eu vou fazer com o ex-namorado dele e com esse moleque.” Shadowy apontou para mim com um brilho assustador nos olhos e depois para Leonard, o garoto tremeu de medo sobre o olhar assassino de Shadowy.
—“É verdade... o Ian não pode passar por tal estresse! Venha querido, vamos ver a sua nova casa.” Uriel sorriu para Ian e veio em nossa direção.
—“NÃO!” Ian se agarrou em mim com todas as suas forças, recuei com ele até não poder mais, pois havia uma parede em nossas costas.
Leonard então corajosamente peitou Uriel, ele se colocou na nossa frente com os braços abertos.
—“Você não vai passar por mim.” Disse o garoto.
—“Que gracinha... dá vontade de arrancar as tripas.” Uriel encarou Leonard e falou como se estivesse vendo algo muito fofo e isso lhe dava um ar mais assustador ainda.
—“Sr. Ian... foge... por favor.” Leonard pediu isso a Ian, antes de ser segurado pelo pescoço por Uriel e erguido no ar.
—“NÃO... DEIXE-O EM PAZ...” Falei com raiva ao ver Uriel começar a esganar o garoto corajoso na nossa frente... Em pensar que eu era contra o Leonard e ele realmente queria proteger o Ian.
—“Cof... urgh... cof... corram...” Leonard tentava gritar isso pra nós, mas sua garganta estava sendo espremida cruelmente.
—“Seu pescoço é tão frágil que parece um palito de dente... basta eu fazer uma simples pressão e...” Uriel se calou de repente.
Demorei um tempo até entender o que havia de errado na cena... Em um momento Leonard estava sendo esganado por Uriel e no outro momento, Leonard havia sumido, junto com a mão de Uriel.
—“Uouu... mas o quê?” Uriel olhou para o cotoco de mão que já se regenerava e formava uma nova, ele nem esboçou dor pela perda.
Olhei em volta até ver do outro lado da sala o Sebastian com Leonard são e salvo.
—“Meu mestre... ninguém toca no MEU MESTRE!” Sebastian rosnou enraivecido para Uriel enquanto se abraçava protetoramente no Leonard... O que está acontecendo aqui? Sinto que perdi algo importante.
—“Sebastian?” Leonard olhou para Sebastian impressionado.
Sebastian o soltou e se afastou dele, seu corpo estava se transformado, acho que ele estava virando aquela criatura que matou todos no barco.
—“Eu não queria apelar para isso, pois isso me causa muitos danos... mas já que não tem jeito...” Disse Sebastian enquanto devorava a mão decepada de Uriel e continuava com sua transformação, um arrepio passou pela minha espinha ao ver de novo aquele ser que feriu Ian.
—“Impressionante... parece que nós nos superamos dessa vez, não é amor?” Shadowy sorriu para Uriel que agora tinha sua mão completamente reformada de novo.
—“Pois é... parece que finalmente teremos um brinquedinho forte o suficiente para nos tirar do interminável tédio.” Uriel sorriu de forma doentia ao olhar com desejo para Sebastian que lentamente se transformava em algo quase animalesco.
Sebastian pulou pra cima de Uriel, mas aí a coisa começou a ficar covarde, pois os dois monstros que com certeza já eram mais fortes que o Sebastian por natureza, se juntaram para bater nele.
De início Sebastian estava conseguindo desviar dos ataques e revidar, aparentemente nessa forma ele era muito mais rápido, resistente e forte. Ele até conseguiu causar um dano ou outro naqueles monstros, mas eles se regeneravam tão rápido que parecia que nem chegavam a sentir a dor do ferimento. E logo Sebastian começou a perder um pouco do gás ao ser atacado sem descaço por dois ao mesmo tempo.
A batalha começou a ficar mais visceral. Todos os pelos do meu corpo estavam em pé com a sensação gelada do ar. Nem em um milhão de anos eu seria capaz de ter tamanho poder, eu até experimentei uma parcela desse poder quando matei aqueles soldados no ataque ao circo, mas aquilo não era nada comparada com isso.
Era algo além do acreditável pra mim, era como ver uma batalha de titãs. Ian agora respirava de forma anormal, eu nem reparei quando ele caiu de joelhos ao meu lado tentando respirar.
—“Ian? O que foi?” Me ajoelhei ao lado dele e o segurei em meus braços, ele parecia estar sufocando.
—“Seph... estou com medo... arf... arf...” Os olhos de Ian não saiam de cima do Sebastian que estava tentando arrancar pedaços grandes de Uriel com uma mordida.
—“Fique calmo Ian... vai ficar tudo bem... eu te prometo.” Tentei segurar seu rosto e força-lo a olhar para mim e não para a batalha que agora causava a ruína da minha casa.
—“Mentiroso... não prometa o que não pode cumprir...” Ian choramingou isso pra mim, suas mãos estavam sobre o ventre de forma protetora.
—“...” Eu não sabia o que dizer, eu estava tão assustado e sem esperança quando ele. Minha mente só conseguia imaginar que eu nunca mais estaria com Ian novamente.
Eu sabia que Ian sofreria nas mãos de Uriel, mas eu morreria aqui, as ruínas da minha casa seriam o meu túmulo... As ruínas da minha casa sepultariam os dias de amor e felicidade que tive aqui, junto com o meu corpo... Eu finalmente estaria livre desse mundo, mas Ian não teria seu merecido descanso ao meu lado, não, ele sofreria até seu último suspiro.
—“Ah!” Ian se agarrou em mim em desespero quando viu Sebastian ser usado como bola de futebol, ele foi chutado de um lado para o outro como um boneco de pano... CRETINOS, COVARDES!
—“Calma Ian... ele está bem... eles o querem vivo... eles não vão machuca-lo... tente respirar e se acalmar... pense nos bebês.” Por mais que eu estivesse tão preocupado com Sebastian quanto Ian, no momento meu único trabalho nessa batalha era manter o Ian calmo, respirando e vivo.
—“Bebês...” Ian alisou a barriga ainda lisinha, sua respiração antes arfante ficou mais profunda, suspirei aliviado, mas logo Ian começou a soluça e a chora, talvez por imaginar o futuro dele e dos bebês.
—“Shh... Vai ficar tudo bem... logo, logo vamos ter mais criaturinhas fazendo bagunça na casa e tirando o meu sossego, você vai ver... Eu vou ficar puto da vida e vou me vingar de você com uma boa noite de sexo selvagem.” Pintei um futuro diferente na mente de Ian para acalma-lo e acabei me surpreendendo ao perceber que eu estava me agarrando desesperado a esse futuro também.
—“Você os quer?” Ian me olhou surpreso por um momento... Que bom que ele estava olhando pra mim, porque se ele visse o que estavam fazendo com Sebastian, ele entraria em pânico total.
—“Que pergunta idiota... não era eu que queria um exército de bebês poderosos?” Consegui forçar um sorriso sonhador nos meus lábios e mantive Ian me encarando, Sebastian estava sendo brutalmente espancando agora.
—“Vamos ser felizes, né?...” Ian me perguntou isso com lágrimas nos olhos, parecia que ele precisa muito dessa resposta.
—“É claro que vamos...” O abracei forte ao mentir descaradamente para ele, pois eu não tinha mais fé num possível milagre ou salvação divina. Sebastian não tinha a menor chance, ele já nem estava conseguindo levantar para revidar os ataques.
—“Mas e a Sophia?” Ian piscou e as lágrimas escorreram por seu rosto. Ah, Sophia... pelo menos você não está mais aqui para sofre o mesmo destinos que seus irmãos... onde quer que esteja, espero que esteja melhor que nós.
—“...” Eu fiquei em silêncio por um minuto, tentando pensar em algo para dizer que não fosse... ela está em um lugar melhor.
—“Ugh...” Mas meu silêncio causou mal ao Ian, ele se retorceu e choramingou nos meus braços.
—“Tá tudo bem... temos o Sebastian agora... ele precisa tanto da gente quanto a Sophia precisava... Finalmente vamos conhecer o nosso outro filho.” Tentei buscar em Sebastian a resposta para a pergunta de Ian e isso pareceu ter resultados, pois Ian se acalmou um pouco e voltou a me encarar.
—“Vamos ficar bem de verdade?” Ian me perguntou esperançoso.
—“Vamos... eu prometo!” Menti sem nenhum pingo de remorso.
—“Você mente tão bem...” Ian sorriu ao me pegar mentido.
—“Eu sei!” Sorri de volta, mas meu coração quase foi estraçalhado ao perceber que esse papo parecia um adeus.
—“Não quero ir com eles...” Ian se agarrou tão forte em mim que minhas costelas recém curadas doeram.
—“Não quero que vá... eu não vou deixar!” O abracei protetoramente.
—“Seph... se... se...” Ian tentava falar agora, mas o choro não o deixava e ele acabou gaguejando miseravelmente.
—“Shhh... pronto, pronto, não fale nada.” O ninei em meus braços para acalma-lo.
—“Se o Sebastian perder... eu... eu prefiro morrer... eu não quero ir com Uriel... eu não quero ser forçado a dormir com ele... eu não quero ser forçado a ter filhos dele... eu...” Ian se afastou do meu abraço para poder me olhar nos olhos com uma clara decisão. Sua mão esquerda se agarrava ao meu bíceps do braço direito com tanta força que suas unhas se cravaram fundo em minha pele.
—“Calma... você não vai... Ahh...” Foi apenas um segundo de descuido, apenas um único segundo... esse foi o tempo que levou para Ian sumir da minha frente, uma dor lancinante atingir meu braço direito e meus ouvidos captarem um grito agoniante de Ian.
Minha mente demorou mais alguns segundos para conseguir juntar as peças e entender o que aconteceu... entender toda aquela cena diante de meus olhos.
Enquanto Sebastian estava sendo chutado violentamente por Shadowy sem chances de revidar, Uriel veio até nós e pegou o Ian. Mas ele não pegou Ian simplesmente, ele nos desmembrou... Ian estava agarrado em mim e eu nele, Uriel usou alguma coisa afiada, talvez alguma parte de seu próprio corpo, como uma de suas asas para cortar o que nos mantinha juntos e nos separar.
Diante dos meus pés jazia meu braço e antebraço direito e o braço esquerdo de Ian. A dor me apunhalou com violência no mesmo momento em que meu cérebro capitou que aquele braço no chão era meu.
Gritei de dor segurando meu ombro direito, isso era tudo que me restava, mas isso não tinha problema, eu era um vampiro, eu iria me regenerar... ou melhor... Eu ia formar um novo braço em algumas horas... isso é... se eu vivesse mais algumas horas para isso, mas o que mais me preocupava no momento... era o Ian.
—“AAARGH....” Ian gritava de dor enquanto se debatia nos braços de Uriel, segurando o braço que fora cortado um pouco abaixo do cotovelo, ele poderia se regenerar também... Se for bem alimentado, é claro... mas o verdadeiro problema é que ele está grávido... O que aconteceria se ele perdesse muito sangue?
—“Opa... foi mal aí... eu não pretendia te ferir junto meu querido. Mas espero que isso sirva de lição para você aprender a não me desobedecer... Quando eu digo vem comigo... É MELHOR VOCÊ ME OBEDECER!” Uriel começou falando essa frase com uma falsa voz culpada e terminou quase rosnando para Ian, enquanto suas mãos esmagavam o corpo frágil de Ian.
—“SEPHH... AAARGH!” Ian chamou por mim com lágrimas nos olhos, seu braço seguia vertendo sangue de uma forma horrível.
—“SR. IAAAAN!” Leonard correu na direção de Uriel com um pedaço de madeira em mãos, acho que era um pedaço de uma cadeira que virou uma excelente estaca.
Leonard conseguiu enfiar essa estaca de madeira na perna de Uriel. Droga! Sai daí garoto... Vamos!
Corri na direção deles, para salvar Ian e Leonard, mas foi tarde demais, Uriel enraivecido com Leonard o chutou com força, o garoto foi jogado contra alguns entulhos, onde havia alguns pedaços afiados e pontiagudos de metal retorcido e estacas de madeiras, o vermelho tingiu o lugar.
—“NÃAAAO!” Ian lutou mais desesperadamente ao ver Leonard imóvel sobre os escombros com pedaços de objetos estranhos atravessando seu corpo completamente.
—“Fedelho nojento... sujou a minha roupa nova.” Uriel segurou Ian com um braço só e com a mão livre ele arrancou o pedaço de madeira que Leonard cravou em sua perna. Ele jogou a estaca para o lado como se aquilo não fosse nada, seu ferimento nem chegou a sangrar muito e já não existia mais.
Enquanto isso Sebastian estava sendo massacrado por Shadowy, ele estava caído de bruços no chão sem reação alguma, mas Shadowy não parava de lhe chutar com um sorriso sinistro nos lábios.
Nunca senti tanta raiva na minha vida... minha família estava sendo destruída na minha frente e eu não podia fazer nada.
Ian tentou morder o braço de Uriel e isso o irritou.
—“Ora seu... quando chegarmos em casa, você vai aprender uma lição!” Uriel o ameaçou enquanto o segurava melhor em seus braços... o que ele pretende fazer?
De repente asas longas e negras saíram das costas de Uriel.
—“Não se preocupe... vou tratar de satisfazê-lo na cama, ele nem sentirá a sua falta.” Uriel sorriu cruelmente ao falar isso pra mim, sua expressão doentia me arrepiou. Rosnei pra ele, mas ele simplesmente me lançou um último olhar monstruoso antes de alçar voou.
—“SEEEPH!” Ian gritou por mim quando Uriel voou até o buraco feito pela batalha de Shadowy e Sebastian no meu teto, tentei chegar até eles em tempo, mas eles se foram, sumiram completamente no céu escuro da noite.
Merda... merda... MERDAA!
Pensei em correr atrás deles, mesmo que fosse de noite e eu não pudesse vê-los, eu poderia seguir o cheiro de Ian... isso se o cheiro não se dissipasse no vento.
Mas eu não podia ir... não quando meus filhos estavam a mercê de Shadowy. Eu precisava salvá-los, antes de salvar o Ian... sim... eu vou salvar o Ian... Me aguarde Ian... eu vou te buscar, eu te fiz muitas promessas a você, eu preciso cumpri-las.
Corri até Leonard e temi pelo pior, ele não estava dando sinais de vida, mas quando me aproximei mais, percebi que ele respirava fraquinho, passei a trabalhar em tentar tira-lo das estacas e pedaços de metal retorcido sem feri-lo mais, mas meus olhos não paravam de ir até Sebastian... O filho que eu não fazia ideia que tinha meia hora atrás e que agora já me importava o suficiente para querer enfrentar Shadowy para salva-lo.
Sebastian continuava no chão, sendo ferido por Shadowy, eu ia só garantir a segurança de Leonard... O filho que agora posso dizer com orgulho que é meu filho, sim! Ele provou amar o Ian e ter coragem... agora sempre irei confiar nele acima de tudo.
Assim que eu colocar Leonard em segurança, eu vou lá salvar Sebastian... aguente firme filho.
...
Sebastian...
Não dá, não consigo acabar com esse ser sozinho. Eu não tenho a menor chance... meu corpo todo está no limite, eu não posso ir mais longe que isso, eu não vou conseguir vencê-lo.
Todos os ferimentos que eu causo nele se curam antes que ele possa sentir a dor ou que meu veneno faça enfeito... desse jeito não dá... Droga... Eu perdi!
Eu vou me tornar uma cobaia... sabe-se lá o que esses caras vão fazer comigo a partir de agora... Droga!... Eu não quero isso!
Eu posso não ser a melhor pessoa do mundo, mas acho que não mereço passar por isso... Ninguém merece.
Não, não, não, não... isso não pode ser verdade. Eu estou com medo... eu não quero isso.
—“Alguém... por favor... ME AJUDA!” Nunca pensei que me humilharia a esse ponto... nunca sequer imaginei que um dia tais palavras sairiam dos meus lábios. Mas como um idiota eu esperei pela ajuda, eu tive esperanças de que alguém se importaria comigo e viria me salvar, mas tudo que recebi foi mais um golpe violento do ser que deveria ser meu avô, ele parecia se divertir em me massacrar... será que isso era um castigo pelas coisas que fiz?
Meu corpo latejou de dor quando fui ferido de novo... DOR... algo que eu não podia entender antes... mas agora que sei o quanto isso é ruim, eu até me sinto mal por ter infringido isso a outros e por ter desejado causar isso em outros.
Isso chega até a ser sarcástico, afinal eu passei tanto tempo procurando um inimigo a minha altura, que pudesse me fazer sangrar em uma batalha e agora que eu não queria mais um inimigo... agora que eu queria apenas viver ao lado dos meus familiares, eu encontrei algo com o qual eu não tenho a capacidade de lutar... acho que isso é um castigo divino.
Acho que assim como a Sophia, eu tive meu tempo para aproveitar esse mundo e os meus pais, mas eu esnobei esse momento, agora eu nunca poderei saber como é ter amor de alguém.
Séria melhor simplesmente morrer. É... talvez seja melhor perder e me render a morte. Pelo menos assim eles não poderão disfrutar de mim como bem entendem.
—“Já desistindo... Maninho?” Uma voz soou na minha cabeça.
—“O quê? Quem?...” Será que estou enlouquecendo de vez?
—“Como assim quem? Já não se lembra de mim? Há quanto tempo estou adormecida?” A voz voltou a soar na minha mente.
-“Sophia?” Meu coração acelerou.
—“Sentiu saudades?” Ela sorriu angelicalmente na minha mente... Será que eu estou delirando? Talvez eu tenha apagado depois da surra que levei e estou sonhando.
—“Caramba Maninho... você mudou, hein... Eu lembro quando você era sanguinário. Naquela época você faria picadinho desses caras, mas agora você está aí, no chão choramingando... Bom, pelo menos assim eu fico desanimada para me vingar de você.” Sophia debochou de mim... é verdade então? Ela voltou?
—“Mas como?” Me questionei e perguntei a ela ao mesmo tempo.
—“Eu voltei das cinzas e mais forte do que nunca.” Ela sorriu novamente.
—“...” Eu não estou entendendo, eu tenho certeza que a matei, caso contrário eu teria sentido a presença dela presa em minha mente.
—“Maninho... eu estive adormecida, me recuperando dos ferimentos que você me causou. Acho que eu ficaria mais um tempo adormecida e latente em sua mente até que me recuperasse por completo, mas...” A voz dela parecia o som da esperança e ao mesmo tempo o som do medo para mim.
—“Mas eu ouvi você chamar por ajuda... eu senti o imenso poder ao qual você estava enfrentando e percebi que as pessoas que eu amo corriam perigo... então eu tive que voltar ainda com falhas, eu ainda não estou pronta, mas acho que agora é a hora de conhecer o meu querido vovô.” Sua voz tomou um tom decidido.
Ela pretendia lutar com Shadowy e eu pretendia ajudar.
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