Sangue quente.
23 A criaturinha.
Notas iniciais
Sephiron...
—“Ian... eu não posso fazer isso... desse jeito você... você não vai conseguir!” Eu estava tão nervoso que mal conseguia falar, a respiração de Ian já estava ficando mais pesada e rasa.
Ian puxou a minha mão ao qual se agarrava e me trouxe para mais perto dele, encostei minha testa na dele, ela estava suada e quente, Ian fechou os olhos e respirou fundo.
—“Eu sei dos ricos Seph, mas quanto mais tempo eu fico nesse sofrimento... UGH... menos chances eu e ele temos de sobreviver! Talvez se você fizer isso agora... a gente tenha uma chance!” Ian fez um carinho em meu rosto com a mão livre, sua outra mão apertou mais a minha, mas eu podia sentir seus dedos ficando gelados.
—“Ian...” Balancei a cabeça negativamente e tentei esconder meu rosto entre seu pescoço e ombro, senti seu fraco cheiro misturado a sangue, seu coração estava batendo acelerado, eu podia sentir as veias de seu pescoço pulsando.
—“Seph... se eu não conseguir...” Ian começou a falar com uma voz chorosa, mas eu o interrompi.
—“Cala a boca Ian, não comece a falar essas merdas!” Eu estava começando a ficar irritado com a situação, eu queria socar algo agora!
—“Ah... Seph, por favor, não culpe o bebê, não culpe James, não culpe a si mesmo... eu só estou fraco... e isso é obra do acaso, por favor, cuida dele com carinho, por mim... tá bem?” Ian me implorou em meio a soluços, lágrimas rolavam em seus olhos.
—“Ian, para de falar essas besteiras!” Olhei no fundo dos olhos dele, minha vontade era a de dar uns tabefes nele e o mandar lutar mais, mas eu podia claramente ver que ele estava muito esgotado agora.
—“Seph... eu te amo! E eu amo ele também... diga isso pra ele todo dia, tá bem?” Ian me implorou.
—“Droga Ian! Eu já disse pra você calar essa maldita boca! Se você morrer eu vou odiar essa criança, você sabe muito bem que eu vou jogá-lo pra fora dessa caverna e deixar os animais selvagens devorá-lo, então trate de viver por ele!” Falei isso com todas as minhas convicções, não havia o porquê eu deixar essa criatura viver se Ian não estivesse aqui comigo.
—“... Seph... por favor, não me diga esse tipo de coisa... se eu morrer, minhas preocupações vão estar todas nisso, você acha que vou conseguir descasar em paz de jeito?... Urrg” Ian se contorceu de dor novamente.
—“Você sabe muito bem que é verdade, só deixei essa coisa viver por você! Porque eu sabia que você o queria, mas eu não tenho a menor vontade de cuidar dele... eu não me importo com ele!” Respondi isso fazendo uma careta pra barriga de Ian.
—“Isso... arg é mentira... você tem sentimentos por ele também... aaarg” Ian se agarrou mais em mim.
Não respondi, eu descordava dele e tinha muitos argumentos pra isso, mas ele se retorceu e gritou e eu me calei, sabia que ele estava muito fraco até pra discutir no momento.
—“Seph... por favor, faça isso.... AAARGH” Ian voltou a se retorcer e dessa fez senti cheiro de sangue.
—“Me recuso!... Eu não vou te matar! Você sabe muito bem que se eu fizer isso... eu estarei te matando! Se é pra você morrer, eu prefiro pensar que foi ele que te matou!” Virei o rosto e olhei para qualquer coisa menos pra ele.
—“Por favor, Seph... não faz isso! Por favor, Seph... NÃO DEIXA ELE MORRER ASSIM COMIGO AAAAAAAAARGH!” Ian agora chorava em meio aos gritos de dor, continuei olhando pro lado, se ele vai morrer, eu não quero ver!
—“SEPH, POR FAVOR, EU TE IMPLORO, SALVA ELE, SALVA!” Ian puxava inutilmente minha mão, tentando me fazer olhar pra ele.
—“Por favor... uhg... arf... por favor, Seph...” A respiração de Ian estava ficando cada vez mais difícil.
—“Tem de haver alguma coisa que possa fazer...” Eu cochichei isso mais pra mim.
Ian ficou em silêncio e eu me assustei com a possibilidade dele ter morrido, olhei pra ele apavorado, mas ele só estava calado com uma expressão pensativa.
—“Seph... acabo de ter uma ideia que pode ajudar... me escuta com atenção... eu preciso de sangue humano... eu tenho sangue humano em minhas veias...” Ian falou tão baixinho que tive que prestar muito atenção mesmo no que ele dizia.
—“Tá querendo se auto devorar como naquela fez em que ficou faminto no meu calabouço? Mas aquilo não deu certo!” Resmunguei pra ele, eu sabia que ele estava tendo criar uma falsa esperança para me fazer seguir com esse plano idiota de lhe mutilar.
—“Não deu certo porque eu estava me ferindo no processo, toda vez que eu me mordia, o meu corpo tentava se regenerar e gastava o que eu estava absorvendo... a ideia que eu tive, é melhor e pode funcionar... a placenta... a placenta vai estar cheia de sangue e proteínas... quando o bebê nascer me dê o sangue da placenta... pode ajudar!” Ian me lançou um olhar esperançoso e eu pude ver que ele acreditava nisso de verdade, então me agarrei a essa esperança também.
—“Tudo bem... eu vou tentar! Mas saiba que se não der certo eu vou quebrar o pescoço dessa coisa com minhas próprias mãos!” Falei sério e Ian suspirou cansado.
Tomando coragem, levantei o seu moletom expondo sua barriga, me concentrei em alongar e afiar a minha unha do dedo indicador, ela se tornou tão afiada quanto um bisturi, olhei para Ian e ele fez que sim com a cabeça antes de fechar os olhos com força.
Tomando mais coragem pra mutilar e torturar Ian dessa forma, eu pressionei a unha contra a lateral de seu baixo ventre e comecei a arrastar a unha sobre a pele, o sangue brotou e ele gritou alto se retorcendo e lutando contra a dor por reflexo, droga! Eu não podia deixa-lo sofre assim... eu tinha que apaga-lo, ou isso ia demorar mais ainda com ele se retorcendo.
—“Ian... olhe em meus olhos!” Pedi com intensidade e ele vagarosamente o fez, seus olhos estavam cheios d’água, tentei hipnotiza-lo, mas não sei se conseguiria fazer isso com sucesso, eu também estava fraco por causa dos efeitos colaterais daquele imenso poder que usei.
Mas para a minha satisfação, Ian caiu em sono profundo e seu corpo relaxou, suspirei aliviado e rezei para que agora ele não conseguisse sentir eu lhe fatiar vivo.
Voltei para o meu serviço, e tentei fazer um bom trabalho, apesar de não saber direito o que eu tinha que fazer. Cortei a primeira camada de pele dele, depois a segunda, o sangue dele transbordou e manchou tudo ao seu redor, senti sede, mas afastei essa vontade pra longe e segui cortando em seu baixo ventre até chegar a um órgão viscoso e inchando dentro de Ian, tomei a decisão de acreditar que era aquilo o que eu deveria abrir pra tirar a criaturinha de dentro dele... céus que sorte que não posso vomitar, essa imagem é asquerosa!
Cortei aquele órgão e mais líquido branco com um pouco de sangue se espalhou, a primeira coisa que vi foi um pedaço da cabeça minúscula cheia de cabelos negros e gosmentos, recolhi minha unha e enfiei a mão dentro do órgão, segurei a cabeça da criaturinha pela nuca, então eu enfiei a outra mão lá também e apoiei as costas da criaturinha, com um único puxão eu o tirei de lá, ele escorregou pra fora e começou a se debater e chorar, acho que ele estava furioso por ter saído de dentro de Ian, não o culpo, devia ser quentinho e confortável ali dentro, nem dei muita atenção pra ele no momento, segurei ele com um braço sem dar bola pra seu choro desesperado e me foquei em Ian, pra mim, Ian era a prioridade no momento.
Segurei um cordão que ainda ligava Ian e a criaturinha, se eu me lembro de alguma coisa sobre placentas, foi porque li livros que tinham nascimentos envolvidos na trama, então eu sei que esse negócio está ligado ao cordão e sai de dentro da mãe junto com o bebê, dei um puxãozinho e a placenta saiu também... ai caramba, que bom que não posso vomitar mesmo!
O ferimento de Ian tentava fechar, mas isso estava indo tão lentamente que ele iria morrer de hemorragia desse jeito!
Mas o que eu faço agora? Como separo a criaturinha desse negócio? Se eu cortar vai doer nele? Espero que não, afinal isso é algo natural, mas eu não tenho tesoura nem nada pra amarrar no cordão como já li na maioria dos livros.
Ian estava ficando cada vez mais pálido... que se foda! Mordi o cordão próximo à barriga da criaturinha que ainda se debatia loucamente e cortei com os dentes o cordão, pra minha sorte a parte do cordão que ficou na criaturinha não sangrou muito e a ponta cortada do cordão cicatrizou na hora... ótimo! Acho que não preciso amarrar nada ali, me virei para Ian e abri sua boca com a mão livre, fiz um corte na placenta e espremi o órgão sobre a boca aberta de Ian, o sangue caiu em sua boca e ele engoliu por reflexo, ainda dormindo ele procurou por mais, então aproximei o órgão de seus lábios e ele o mordeu e começou a sugar, em questão de segundos ele secou aquela coisa e então ainda dormindo ele arrancou um pedaço, mastigou e engoliu, acabei o ajudando a comer o restante daquele negócio nojento, assim que acabou, a cor de Ian melhorou levemente, ele continuou a dormir e sua respiração se tornou mais estável, seu corpo começou a se regenerar, eu podia ver as fibras de sua carne se ligando umas as outras, ele estava se recuperando, ainda não era uma recuperação rápida, mas pelo menos agora ele não morreria de hemorragia... espero também que não morra mais tarde de infecção, afinal... isso não foi lá muito higiênico e recomendado.
Agora que eu tinha certeza que Ian tinha chances de se recuperar e sobreviver, eu me virei para a criaturinha e o olhei com atenção pela primeira vez.
Seu rosto era redondo e menor do que eu imaginava que seria, talvez fosse porque era pré-maturo, ele estava de olhos fechados e chorava a plenos pulmões, o que era um bom sinal, quer dizer que seus pulmões estão funcionando, ele estava esperneando em meu colo, seu cabelo agora quase seco estava ficando arrepiado e era negro como o meu, não dava pra ver a cor de sua pele, ele estava coberto de uma gosma branca e de sangue também, examinei suas mãos, haviam cinco dedos em cada mão... ótimo! Cinco dedos em cada pé também, perfeito, não temos uma aberração pra criar, mas algo importante em minha opinião estava faltando, cadê o pinto dele? Não me diga que é menina! Droga... que decepcionante... já começou errado criaturinha... eu não quero uma menina... será que tem a opção de destrocar?
—“Droga criaturinha... você é mesmo teimosa como o Ian... aposto que resolveu ser menina só porque eu queria menino!” Falei sem esconder a decepção em minha voz.
Assim que a criaturinha ouviu a minha voz, ela parrou de chorar e então olhos violetas com pupilas em fendas me encaram. Uooou, é assustador, mas ao mesmo tempo lindo.
Ela me olhou fixamente... será que ela está me enxergando? Ouvi dizer que bebês recém-nascidos são parcialmente cegos! Abanei minha mão na frente do rosto dela e suas mãozinhas minúsculas agarram os meus dedos com força... bem, na verdade a força dela é igual a de um gatinho, mas ainda assim estou impressionado.
Ela levou o meu dedo indicado a sua boca e pensei que ela fosse tentar sugar meu dedo, mas ao em vez disso ela começou a tentar mastiga-lo, ri disso, ela não tinha dentes ainda! Me surpreendi quando ela rosnou alto por não conseguir arrancar um pedaço de mim, agora eu realmente estava rindo alto.
Tentei tirar o dedo de sua boca e ela se agarrou mais forte e rosnou mais alto, mas eu tirei o dedo mesmo assim, ela fez cara de choro.
—“Calma... já te devolvo criaturinha!” Ri e levei o meu dedo a minha boca, com minhas presas eu fiz um corte em meu dedo e o devolvi pra ela.
Ela rapidamente se agarrou mais forte a minha mão e farejou meus dedos até achar o que estava sangrando, ela achou o dedo cortado e se agarrou nele esnobando os outros dedos. Vejo que ela já tem um forte extinto de caça, estou um pouco mais satisfeito agora, apesar de ainda querer que ela fosse ele.
Ela sugou meu dedo com voracidade, caramba... ela está mesmo faminta!
—“Hey... devagar, desse jeito vai se afogar!” Tentei tirar o dedo da boca dela e ela rosnou novamente pra mim e me encarou como se dissesse se tirar o meu rango de mim, eu vou te bater! Nossa... ela tem atitude!
—“Tá bom... tá bom... calma!” A deixei beber o sangue do meu dedo, que logo cicatrizaria e a deixaria sem seu lanchinho e fui examiná-la melhor. Eu queria saber qual era cor da pele dela, então lambi sua testa, para meu deleite ela parece ser albina... mas seus cabelos são negros... que raro!... E que bonito!
O gosto daquele negócio que cobria a pela dela era delicioso e estranhamente me dava um pouco de alívio da dor muscular, não resisti e acabei dando um banho nela estilo papai gato e seu filhote.
Quando terminei de lamber cada pedacinho que pude alcançar, eu estava me sentido renovado, mas a criaturinha rosnava pra mim, o meu dedo havia se regenerado e ela estava sem lanchinho.
Tirei minha mão dela à força e ela fez uma cara de furiosa, ri muito disso, acho que achei um jeito de importuna-la um pouquinho.
—“Calma criaturinha... aqui vai a primeira lição do papai, você tem que ir à veia, é lá que tem bastante sangue!” Quando disse isso, mordi meu pulso bem na veia e deixei sangrar, coloquei o meu pulso sobre seus lábios e ele bebeu com vontade, ela estava mesmo faminta!
Céus... como ela era mesmo pequena, suas mãozinhas comparadas ao meu dedo eram quase nada, sua cabeça facilmente caberia na minha mão inteira, seu corpo cabia perfeitamente no meu braço.
Ela bebeu até ficar satisfeita, o que não foi muito, mas assim que ela aplacou sua sede, ela passou a me encarar de modo inteligente, sério, eu nunca vi um bebê agindo assim! Ela não ficava agitando os membros e a cabeça descoordenadamente como um desse bebês retardados dos Condes que eu já vi! Ela também não ficava babando como se tivesse problemas mentais, atrevo-me a dizer que mesmo sendo recém-nascida, ela daria uma surra nos bebês vampiros de um ano dos Condes... Hahaha isso eu queria ver!
—“Hey criaturinha... já tá satisfeita? Solta a minha mão, vai!” Tentei afastar a minha mão dela, mas ele não soltou e voltou a rosnar.
—“Tá bom... fica por enquanto... mas eu vou precisar de volta depois!” Ri sarcasticamente pra ela e ela sorriu de volta... ora... recém-nascidos podem sorrir? Essa garota é cheia de surpresas.
Parece que no fim das contas nos vamos nos dar bem! Olhei para Ian, seu ferimento ainda não havia se curado completamente e ele ainda estava pálido de mais para o meu gosto. Inclinei-me sobre ele e lhe dei um beijo nos lábios.
—“Ian... recupere-se logo, você tem que conhecer ela também... ela parece ser legal, vou pensar se a deixo participar do nosso grupo de fuga do governo!” Sorri e fiquei observando ele respirar devagar.
...
Ian...
Ai meu corpo... estou tão dolorido... que estranho, tá faltando algo dentro de mim... algo pesado e agitado... CRIATURINHA!
Acordei-me assustado levando a mão à barriga, ela estava lisinha e curada... eu estou vivo? Me salvei? Ou será que isso é a vida após a morte?
Já era de manhã e a luz do sol invadia a caverna, mas não chegava aonde os colchões estavam.
Seph estava sentado na beirada do colchão ao meu lado de costas pra mim.
—“Seph...” Chamei preocupado, onde estava o meu bebê?
—“Ian, você acordou!” Seph se virou surpreso pra mim e sorriu contente, eu não esperava ver essa expressão feliz na cara dele, não depois da noite passada.
Meus olhos foram para os braços dele, um bebê branquinho como papel e de cabelos negros arrepiados sugava o pulso de Seph com vontade, tentei me sentar, queria ver ele de perto, queria tocar, queria segurar... ele era meu! Eu quero pega-lo e nunca mais solta-lo!
Infelizmente eu ainda estava muito fraco pra me sentar, tentei com todas as minhas forças, mas não consegui, bem... pelo menos eu estava vivo, então a ideia da placenta deu certo! Já que não conseguiu me sentar, fiquei deitado e observei Seph com um pedido mudo e tristonho.
—“Como ele está?” Perguntei nervoso.
—“Ela está ótima, está se alimentando pela terceira vez desde que nasceu!” Seph me explicou indicando com a cabeça o pulso na boca dela.
—“É uma menina?” Me surpreendi, estava mesmo esperando um menino, não que eu tivesse preferencia, mas sempre imaginei que teria um mini Seph me enchendo o saco, junto com o Seph de tamanho real!
—“Não é uma menina, é A menina!” Seph falou contente, será que estou imaginando coisas, ou eu ouvi um tom de orgulho em sua voz?
Ela parou de sugar o pulso de Seph, mas não o soltou.
—“Posso segurar?” Pedi esticando os braços.
Seph me passou ela imediatamente, tentando apoia-la sobre meu peito, mas achei melhor coloca-la no vão entre meu braço e peito, ela ali ficou quietinha, mas ela rosnou quando o Seph tentou tirar a mão dele das dela.
—“Qual o problema dela? Porque não te solta?” Perguntei achando intrigante o fato dela rosnar desse jeito, assim que ela ouviu a minha voz próximo a ela, ela me encarrou com seus olhos de cor violeta, ela era mesmo linda! Ela sorriu pra mim e se aconchegou mais, se encolhendo mais no vão entre meu braço e peito, quase ficando em posição fetal, acho que ela me reconheceu como a entidade que a protegia e ficava sempre ao seu redor a acolhendo confortavelmente.
—“Ela não me solta... porque sou a presa dela! Bem... na verdade isso é só uma teoria minha, mas acho que estou certo!” Disse Seph puxando de leve sua mão das dela.
—“Sendo tão pequena, ela não pode correr atrás da caça, então quando ela se agarra a uma presa, ela passa a se grudar nela pra impedir que fuja e ela acabe ficando sem jantar! Acho que isso é um tipo de extinto parasitário, sei lá!” Seph disse isso e puxou sua mão das da criaturinha, ela rosnou alto e abriu o berreiro quando ele conseguiu livrar sua mão.
Rapidamente dei minha mão pra ela, quando ela se agarrou parou instantaneamente de chorar.
—“Ela é tão linda... e está tão limpinha! Como você deu banho nela?” Imaginei que ela estaria toda suja de sangue e líquido amniótico.
—“Eu lambi!” Seph respondeu vindo sentar ao meu lado, ele me segurou e me ajudou a sentar e então me deixou apoiar minhas costas contra seu peito para ficar sentado. Mas Seph não tirou os olhos dela, nem por um minuto enquanto fazia isso... é minha impressão, ou ele está meio possessivo com ela?
—“Ai que nojo Seph... você me deu um bebê babado... que nojo!” Fiz caretas de brincadeira.
—“Qual o problema, os animais fazem isso, é natural!” Ele me respondeu isso enquanto me abraçava por trás e brincava com o pé dela.
Estava tão distraído com Seph que nem reparei que a criaturinha estava me farejando, esfregando o rostinho em meu moletom.
—“O que ela está fazendo?” Perguntei assustado.
—“Está se acostumando ao seu cheiro!” Seph sorriu orgulhoso, agora eu tenho certeza que ele está mesmo orgulhoso da cria.
—“Isso não é justo... eu a carreguei dentro de mim pra cima e pra baixo e quase morri no parto pra você se adonar dela e se tornar o maior entendedor dela!” Fiz beicinho realmente chateado.
—“Quem mandou dormir por tanto tempo, quatro horas na verdade!” Ele me deu um beijo no ombro e sorriu fraquinho.
A criaturinha colocou o meu dedo na boca dela e começou a tentar morder, mas eu só sentia a gengiva dela.
—“De novo criaturinha?” Seph riu ao meu lado.
—“Ela está com fome!” Essa eu pude deduzir.
—“Pelo visto ela será carnívora como você!” Seph falou.
—“Talvez não, quem saiba ela só está me mastigando assim tentando romper minha pele pra sugar o meu sague!” Sorri para Seph que suspirou ao meu lado.
Após Seph me ajudar a cortar um pouco o meu pulso enquanto a criaturinha tinha um ataque de raiva por não ter sua presa em suas mãos, eu a alimentei pela primeira vez... e finalmente senti aquele prazer de doar sangue que tanto sonhei, não tinha uma questão sexual no caso, mas tinha muito amor, me sentia me doando a outro ser que necessitava de mim, isso era magnifico, meu pulso nem doía.
Depois que ela se alimentou eu a ninei e calmamente ela dormiu.
—“Que nome vamos dar pra ela?” Perguntei feliz.
—“Hum? Nome? Pra que? Se você quer dar um nome pra ela OK, mas eu vou continuar a chamando de criaturinha!” Seph respondeu sorrindo sarcasticamente.
—“Céus Seph... tadinha!” Fiz uma careta pra ele.
—“Que tal... Vitória, pois...” Me animei com esse nome, mas Seph me interrompeu bufando.
—“Ah, não! Não me venha com essa coisa clichê de Vitória porque é uma vitória ela ter nascido! Não!” Seph vetou o nome.
—“Hmmmm... e que tal Sophia? É quase uma mistura de nossos nomes! Tem um Soph no início que é quase um Seph e tem um ia no fim que é quase Ian!” Me apaixonei pelo nome assim que pensei.
—“Clichê de novo!” Seph fez uma careta para o nome.
—“Se você não quer aceitar nenhum dos nomes que escolhi, então escolha um você!” Me zanguei com Seph, ele não queria escolher, mas também não queria me deixar escolher um.
—“... Izabel!” Disse ele confiante.
—“Ah... mas eu gosto mais de Sophia!” Eu já tinha me apegado a esse nome.
—“Mas Izabel tem cara de vampira poderosa!” Seph falou exasperado.
—“Bem... eu passei por tudo isso, eu mereço ter o direito de escolher o nome dela, então vai ser Sophia e ponto final!” Falei irritado.
—“Ótimo, fica com esse nome chato... eu vou continuar a chama-la de criaturinha e pronto! Está resolvido!” Seph também falou irritado.
—“Ótimo!” Rebati mais irritado ainda.
—“Ótimo!” Respondeu ele furioso.
De repente Sophia abriu o berreiro e tanto eu quando Seph olhamos pra ela assustados.
—“O que ela tem? O que ela quer?” Eu perguntei nervoso.
—“Não sei... ela tá segurando a sua mão, até agora ela só chorou por isso...” Seph se aproximou mais de mim.
—“Você acha que ela tá sentido alguma coisa?” Agora eu estava ficando aflito pelo choro sofrido dela.
—“Não sei... ela nasceu muito antes do tempo que devia... ela pode ter algum problema por dentro... eu não sei, eu não só médico, tudo que posso fazer é olhar pra ela e dizer que por fora ela é perfeita... mas e por dentro?” Seph me olhou nervoso.
Uma sensação ruim tomou conta de mim... e se ela tiver algum problema por minha culpa? Eu passei por maus bocados durante a gestação, eu jamais me perdoaria se ela sofresse por minha culpa.
—“Ela está tremendo... será que está com frio?” Seph me perguntou nervoso.
—“Pode ser... você nem se prestou pra vestir ela... e essa caverna é fria e húmida! Rápido, trás a bolsa com as roupas que James deu pra ela.
Seph me deitou com cuidado de volta no colchão e correu pra buscar a bolsa, tínhamos várias roupinhas pra escolher, mas nenhuma fralda, acabamos improvisando com uma camiseta branca e limpa de Seph e fizemos uma fralda pra ela. E então Seph tentou vesti-la com muita dificuldade porque ela não parava de se debater e berrar e ele realmente não tinha pratica alguma nisso, o vi se atrapalhar várias vezes, mas eu nada podia fazer, eu estava fraco demais!
Ele colocou nela um conjuntinho de lã branca com detalhes verdes, ela ficou uma gracinha com aquela roupinha... dava vontade de morder.
Ela se encolheu e continuou a chorar, então a peguei e aninhei-a novamente no vão entre meu braço e peito tentado passar um pouco de calor pra ela, logo ela se acalmou e suas bochechas ficaram rosadas.
—“Acho que era mesmo isso!” Disse Seph suspirando.
—“Sim!” Concordei me sentido um pouco mais aliviado.
Mas logo ela abriu o berreiro de novo e dessa vez descobrimos de cara o que ela queria... a sua presa.
—“Desse jeito nós nunca vamos ter paz, temos que achar um substituto pra ela ficar agarrada!” Seph se exasperou.
—“Segura ela... tive uma ideia!” Passei a pequena Sophia berradora pro Seph e procurei na bolsa no meio das roupas dela, eu me lembrava de ter guardado ele ali... ah, achei!
Peguei o pequeno ursinho que Kyou havia dado pro Seph e dei pra Sophia segurar, ela se acalmou assim que segurou, então começou a farejar o ursinho, ouve um minuto de tensão enquanto eu esperava pra ver se ela renegava ou aceitava o ursinho.
Ela por fim se acalmou e ficou agarrada ao ursinho, eu e Seph suspiramos.
—“Ian... descanse! Eu não quero que você se esforce mais até que James volte com um pouco de sangue pra você!” Seph me olhou sério e não protestei quando a isso, na verdade eu estava me sentido bem fraco ainda, então me acomodei melhor no colchão, mas logo ergui os braços pedindo por Sophia, Seph revirou os olhos e a colocou ao meu lado deitada sobre meu travesseiro e com rosto próximo ao meu, me virei de lado e passei um braço por cima dela, ela bocejou e eu ri de sua fofura, logo senti sono também e ambos dormimos.
...
Sephiron...
Assim que Ian dormiu eu segurei a criaturinha de novo, vai que Ian rolasse por cima dela, não que eu me importe com ela... mas se Ian a matasse sem querer, ele iria enlouquecer.
A criaturinha dormiu tranquilamente em meus braços... passei a estudar suas feições, eu via muito de mim nela... tá tenho que admitir que isso me deixa orgulhoso, me sinto viril ao pensar que ela é minha cria, eu que fiz ela... ela é minha e de Ian... e ninguém nunca, mas NUNCA, vai tocar nela! Ai de quem tentar namorá-la, eu vou arrancar o pinto do infeliz e enfiar goela a baixo dele!
Passos do lado de fora da caverna chamaram a minha atenção, fiquei em modo de alerta e combate afinal, estou defendendo minha prole aqui.
James surgiu exausto na entrada da caverna com uma mochila nas costas e um Pedro enrolado em vários cobertores em seus braços, o humano ainda parecia muito doente, mas acho que é normal, os humanos levam tempo pra se recuperar.
—“Ora... finalmente vocês voltaram... tudo bem com o seu humano?” Perguntei sem me virar pra ele, mantive a criaturinha escondida em meus braços, queria fazer uma surpresa.
—“Ele está mesmo muito doente!... Ele precisa tomar muitos remédios, ficar quentinho e bem alimentado com coisas leves... e então talvez com muita sorte ele sobreviva a isso!” James respondeu tristonho.
—“Sinto muito!” Respondi verdadeiramente me sentido mal por James, afinal eu passei pelo gostinho de quase perder meu parceiro... não queria que James provasse desse sentimento também!
—“E o Ian? Como ele está? Teve outro sangramento?” James se aproximou de mim devagar.
—“Digamos... que ele teve algo sim, mas não foi um sangramento qualquer!” Sorri me virando pra ele com a criaturinha nos braços.
—“............ Nasceu? Seph ele nasceu?” James se aproximou quase tropeçando e derrubando o Pedro.
—“Não, claro que não nasceu! Eu estou com esse bebê nos braços porque um maluco jogou ele aqui dentro e Ian está mais magro porque fez umas abdominais!” Usei meu melhor tom sarcástico.
—“Ah... Seph, ele é lindo... o Ian está bem? Ele está bem?” James largou com cuidado Pedro no colchão deles e correu pra perto de mim pra olhar a criaturinha de perto.
—“Infelizmente... não é ele, é ela, mas já estou... aceitando essa parte! Quanto ao Ian... ele já acordou e até segurou ela um pouquinho, mas só vou ficar tranquilo quando ele beber sangue humano e passar a andar novamente e quanto a ela... não sei... não tem como a gente saber se ela está cem por cento bem, mas ela esta comendo e dormindo muito bem!” Respondi calmo.
Vi os olhos de James brilhar pra ela, eu podia também ver suas mãos subir uns centímetros em direção a ela e voltar a se abaixar, ele obviamente queria pega-la, mas tinha medo de me pedir e eu negar isso a ele.
Suspirei e a estendi a ele, ele me olhou com um brilho mais intenso nos olhos e eu tive que me segurar pra não falar nada sarcástico pra ele.
A passei para ele com facilidade e passei a observa-lo segura-la, parecia que ele estava segurando algo feito de vidro! Eu não tinha tanto cuidado assim como ele, mas agora vendo-o segura-la, passei a me perguntar se eu estava fazendo isso direito, afinal ele deveria saber cuidar de um bebê não é? Ele me criou, então ele já tem experiência.
—“Seph... ela é tão perfeita... mas está tão magrinha! Sinto que isso é minha culpa!” Ele fez uma cara amuada.
—“Você acha que ela está magra?” Perguntei preocupado.
—“Sim... ela dever ter uns dois quilos e trezentas gramas... chutando por cima e isso é um peso baixo para um bebê... ela deveria nascer com pelo menos dois quilos e quinhentas gramas!” James a examinou melhor.
—“Ah, mas o peso dela é quase esse... acho que não tem problema né?” Dei de ombros, isso não parecia algo sério, acho que não deveria me preocupar com isso!
—“Não Seph, isso é sério! Ela pode vir a sofre de algum mau pro isso! Temos que cuidar direito dela!” James voltou a examina-la, o observei com atenção, ele parecia saber o que estava fazendo.
—“Como entende disso?” Ergui uma sobrancelha pra ele.
—“Quando descobri que Ian estava grávido eu li todos os livros que encontrei sobre gestação e bebês, foi assim que deduzi que a placenta de Ian estava descolando quando ele teve o primeiro sangramento!” James explicou.
—“Entendo...” Respondo sem saber o que dizer.
—“Mas eu não sou um especialista e nem um médico, então não posso dizer com certeza se ela está doente ou não!” James suspirou consternado.
—“Bem... no momento tudo que podemos fazer... é alimenta-la direito e torcer pela saúde desses três!” James olhou rapidamente para Ian e então seus olhos se voltaram para Pedro enquanto ele ninava tranquilamente a criaturinha em seus braços.
—“Sim!” Concordei com ele, eu sabia que no momento teríamos muito com que lidar, mas me deixei curtir essa boa sensação por finalmente ter conhecido a criaturinha! Com o resto nós lidaríamos conforme fosse necessário!
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