Sangue quente.
42 A batalha dos irmãos — Parte I
Notas iniciais

Sebastian...
Ah, droga... Porque esse cara não para de me chutar? Eu já estou no chão sem reagir há mais de dez minutos, será que ele tá querendo me matar? Ou isso é só o primeiro teste que ele pretende fazer em mim? Será que ele quer ver quanto tempo eu aguento uma surra desse nível?
—“Você voltou num péssimo momento Maninha, eu estou meio enrascado aqui... acho que não consigo mais me levantar.” Tentei me mover, mas meu corpo parecia ser feito de um material muito mole e sem resistência.
—“Clama, fique imóvel e guarde energia no momento.” Sophia me instruiu mentalmente, ela parecia bem calma nessa situação.
—"Mas... eu estou sendo massacrado aqui!” Como ela podia estar tão tranquila assim? Nosso corpo estava sofrendo danos extensos enquanto conversávamos aqui. Será que ela não percebeu ainda o nível do perigo? Ou será que ela não se importa, já que não está sentido a dor?
—“Relaxe Maninho... eu tenho um plano, mas primeiro você tem que fingir que perdeu a consciência, caso contrário ele vai continuar te batendo até isso realmente acontecer.” Ela falou isso calmamente. O tom de sua voz me inspirou confiança, então fiz o que ela mandou.
Parei de tentar me mover e relaxei meu corpo, fingi não sentir a dor dos chutes seguintes até que ele finalmente parou... Porque eu não pensei nisso antes? Bem, é difícil pensar racionalmente quando está em pânico e com dor.
—“Então o que nós fazemos agora?” Questionei interessado no plano dela, eu queria saber como ela planejava lutar com algo tão poderoso quanto esse cara. Até por que... por mais que ela tenha voltado forte, não tem como ela estar no mesmo nível que ele.
—“Precisamos de massa.” Ela falou isso com firmeza, como se isso fosse a coisa mais fácil de se conseguir.
—“Massa?” Francamente não estou conseguindo entender aonde ela quer chegar com isso, ela voltou dos mortos com fome, é isso?
—“Precisamos comer e muito.” Sophia parecia focada nisso.
—“Certo... mas comer o quê?” Questionei inquieto.
Tentei lembrar se o Seph ainda tinha alguma carne de animal guardado em algum lugar, mas acho que o Ian comeu tudo ainda essa tarde.
—“Ora... temos uma fonte inesgotável de carne na nossa frente Maninho.” Sophia sorriu na minha mente e isso foi meio... sinistro para ela. Demorei um minuto para entender onde ela queria chegar com isso.
—“Você quer comê-lo?” Olhei de canto para o tal Shadowy, ele agora se dirigia para onde Seph e Leonard estavam, acho que ele pretendia matá-los, tínhamos que agir e tinha que ser agora.
—“Porque não? Ele é uma fonte de carne que se regenera muito rápido, ou seja... carne à vontade!” Eu quase podia imaginar Sophia dando de ombros ao falar isso.
—“Bem... eu comi uns pedaços do loiro e isso não me fez muito bem, acho que eles são tóxicos.” Lembrei que ao devorar a mão do tal Uriel, eu me senti zonzo e enjoado, acho que eles realmente não são um bom aperitivo, talvez uma grande quantidade da carne deles seja fatal para nós.
—“E nós podemos nos adaptar por que motivo mesmo?” Sophia bufou pra mim, como se eu fosse idiota.
—“Você está querendo adaptar esse corpo para poder predar esse cara?” Me impressionei com o plano da Sophia, isso era perigoso e não tinha a cara dela, o que ela realmente estava planejando?
—“Isso mesmo... Vamos nos adaptar!” Sophia falou decidida.
—“Mas... isso é complicado, esse corpo está muito ferido e no limite... adaptá-lo para conseguir consumir essa coisa, pode acabar causando danos possivelmente irreversíveis e até fatais.” Tentei argumentar, mas acho que Sophia já estava determinada.
—“Eu sei... mas não temos muita escolha, não é?” Ela rebateu e eu sabia que ela estava certa, não tínhamos escolha.
—“Droga!” Me levantei finalmente e encarei Shadowy que se aproximava a passos calmos de Seph e Leo... Droga! Não posso enrolar muito ou esses dois vão morrer. Mas afinal, porque eles ainda não fugiram?
Olhei melhor na direção de Seph e Leo, aparentemente Leonard estava muito ferido e preso em pedaços de entulho e Seph estava tentando tira-lo de lá sem causar mais danos... Droga!
Tentei dar um passo à frente, mas parecia que meu corpo era feito de pedra.
—“Você está muito cansado Maninho... Vamos trocar de lugar.” Ela pediu com um tom de voz determinado.
—“Esse corpo está muito ferido... você não vai aguentar tamanha dor.” A alertei do que ela receberia se trocássemos de lugar agora.
—“Acredite, não existe pior dor do que ser esfaqueada nas costas pelo próprio irmão.” A voz dela saiu meio ácida.
—“... Desculpa” Baixei a cabeça me sentido realmente culpado... E pelo tom da voz dela, ela ainda guardava ressentimentos de mim.
—“Você está se desculpando? Caramba você deve ter levando muitos golpes na cabeça, Maninho... estou preocupada com você.” Ela riu de mim, desgraçada está zombando de mim.
—“Cala a boca!” Resmunguei de volta.
—“Cala você!” Ela rebateu.
—“Ha...hahaha...” Um riso espontâneo escapou dos meus lábios e isso chamou a atenção de Shadowy... aí que merda! Lá vem ele de novo.
—“Tá rindo do quê?” Sophia questionou na minha mente.
—“Do nosso papo... nós realmente parecemos irmãos de verdade agora, né?” Senti até uma sensação boa no peito ao pensar nisso.
—“É verdade...” Ela também pareceu surpresa e feliz com isso.
—“Em pensar que a gente só precisava de dois monstros tentando nos transformar em experimentos para nos darmos bem.” Ri com isso, eu não podia acreditar em uma coisa dessas.
—“Realmente era muito simples... porque a gente não fez isso antes? Ah, é... não é fácil encontrar malucos poderosos por aí... e você me arranjou dois de uma vez.” Ela bufou, mas sua voz brincalhona me deu uma nova esperança.
—“Eu tenho sorte!” Continuei brincando, isso era divertido.
—“Bota sorte nisso!” Ela reclamou quando o olhar assustador de Shadowy se fixou em nós.
—“Maninha...” Eu queria falar algo importante para ela... pois se perdêssemos eu queria ao menos ter o perdão dela.
—“O quê?” Ela quis saber.
—“Desculpa... eu... eu realmente me arrependi... eu...” Eu não sabia o que dizer... o que a gente fala para uma pessoa depois de tentar mata-la?
—“Deixa as desculpas pra depois...” Ela resmungou.
—“...” Eu queria seguir falando, mas as palavras não vinham.
—“Afinal eu não preciso te perdoar...” Disse Sophia com uma voz meio manhosa.
—“Hã?” Eu realmente não entendi o que ela quis dizer com isso.
—“Eu nunca deixei de te amar, Maninho... Eu já te perdoei há muito tempo!” Ela explicou melhor o que quis dizer e sua voz soou chorosa.
—“... Sophia...” Senti algo estranho no meu peito... o que é isso?
—“Deixa de sentimentalismo... essas paradas sentimentais não combinam com você.” Ela resmungou quando eu já ia dizer algo importante pra ela, mas graças a essa frase dela, eu acabei lembrando que eu não gostava dessas babaquices emocionais.
—“Boba... é você que está chorando.” Debochei dela ao ouvir o som de um fungar.
—“Eu chorando? Deixa de ser idiota, é você quem está todo arrependido e bonzinho.” Ela tentou jogar a bola de volta pra mim.
—“Vai te catar!” Bufei.
—“Hahahaha...” Ela sorriu radiante.
—“Vamos trocar.” Falei determinado, se ela queria tomar o controle, eu não ia impedi-la.
—“Sim.” O tom de voz dela mudou, ela se tornou mais séria.
Mudamos de lugar e senti um alívio, não havia mais dor, somente a calmaria do vácuo. Sophia por outro lado gemeu e estremeceu, mas não se deixou abalar, ela se preparou para atacar Shadowy.
Mas eu fiquei preocupado, por mais que ela estivesse descansada mentalmente, ela ainda estava usando um corpo ferido e cansado, isso poderia atrapalha-la e muito.
—“Maninho... enquanto mantenho a atenção dele em nós, para evitar que ele mate o papai e o Leo, você faz os reparos que precisamos para conseguir comer a carne dele sem problemas, ok?” Ela me passou uma tarefa, me senti feliz com isso, eu finalmente era parte disso, finalmente erámos uma dupla, trabalhando juntos... Acho que era assim que as coisas deveriam ter sido desde o início. Os trigêmeos já são assim e eu até os invejo por isso.
—“Certo... deixa comigo.” Aceitei a missão e passei a mandar uma ordem para o nosso corpo... A ordem de evoluir e mudar, graças a isso, eu retomei um pouco do controle do corpo, agora realmente estávamos dividindo um único corpo.
Senti as células vibrarem ao se transformar, elas arderam ao tentar encontrar uma forma de muda os tecidos e os vasos sanguíneos. Isso doía e doía muito mesmo, mas eu e a Sophia estávamos dividindo a dor, então era fácil suportar.
Sophia fez seu primeiro movimento pra cima de Shadowy, ela foi com tudo pra cima, mas quando percebeu que ele se moveu para atacar, ela refreou o movimento e desviou.
Incrível, ela maneirou na força do ataque para pode se esquivar do golpe... mas só isso não vai ser suficiente para nos manter intactos nessa nova batalha.
Foi a vez de Shadowy vir pra cima, Sophia recuou e acabou nos encurralando em uma parede, eu já ia chamá-la de burra, mas aí eu percebi que ela estava recuando para afastar Shadowy do Seph e do Leo.
Acabamos presos contra uma parede sólida, no entanto quando Shadowy se jogou contra nós, Sophia desviou e deixou Shadowy se chocar contra a parede... Uouu, ela é boa, mas quase fomos pegos nessa.
—“Ele é rápido...” Sophia falou com se isso fosse novidade pra mim.
—“Eu sei...” Respondi irritado, afinal de contas eu apanhei feio pra essa velocidade dele.
—“Ele tem alguma fraqueza?” Ela me perguntou séria, enquanto se desviava quase na última hora dos ataques de Shadowy.
—“Acho que não...” Eu pelo menos não consegui encontrar nenhuma.
—“Não é possível... ele é um ser de carne e osso, ele sangra, ele respira e come... ou seja... ele é um organismo vivo... tem que ter uma forma de matá-lo!” Sophia falou pensativa, eu sabia que ela estava analisando os movimentos de Shadowy agora, ela estava tentando perceber algum ponto em que ele estivesse mantendo a guarda muito alta.
—“Boa sorte pensando em uma forma de mandar o vovô pro céu, Maninha... Alias estou chocado em saber que você voltou dos mortos com pensamentos tão... assassinos.” Quase ri disso, eu me lembro de ter tentado trazê-la para o lado negro, mas ela se recusava a causar danos a outros seres vivos.
—“Agora é diferente... nossa família corre risco e outros tantos podem sofrer no futuro se eles continuarem andando sobre a terra.” Ela rebateu.
—“Está querendo bancar a justiceira? Acho que isso não combina com você, mas porque eu estou reclamando? Eu quero mais é que esses seres se explodam... então estou contigo, eles tem que morrer!” Falei decidido, não sei como, mais nós vamos apagar esses caras da história.
—“Você reparou se ele matinha a guarda alta em algum ponto do corpo?” Sophia estava mesmo focada nesse assunto. Tentei me lembrar de algo assim, enquanto continuava fazendo nosso corpo se adaptar para uma alimentação tóxica e Sophia seguia se esquivando dos ataques.
—“Hmmm... Acho que ele não possui nenhum ponto fraco que lhe cause preocupação, afinal eu tentei várias vezes atacar a cabeça e o tronco e ele não fez distinção das partes e nem deu prioridade a algum ponto específico.” Falei ainda tentando me lembrar de algum momento em que ele tenha ficado mais agitado durante o meu ataque, mas em nenhum momento ele sequer se importou com os meus golpes.
—“Talvez ele não tenha feito questão de proteger seu ponto vital, por ser confiante demais, seu poder de regeneração é incrível...” Sophia pensava nas suas possibilidades.
—“Eu sei... eu acho que ele nunca chegou a sentir dor de verdade, pois ele nunca ficou ferido tempo o suficiente para seus nervos captarem a dor.” Me lembrei do fato dele se curar tão rápido, que era como se ele nem estivesse sofrendo dano.
—“Meu plano está começando a ficar mais refinado.” Sophia sorriu enquanto seguia desviando os ataques.
—“O que você pretende?” Fiquei curioso, se ela estava rindo, então ela tinha fé de que íamos conseguir.
—“Bem... primeiro, vamos comer.” Ela respirou fundo ao dizer isso.
—“Não sei se as mudanças já estão prontas, mas acho que isso é o máximo que nosso corpo pode fazer nesse momento.” Dei carta branca pra ela começar a servir o jantar, mas me mantive preocupado com isso, afinal eu não tive tempo de adaptar o corpo inteiro, eu só reforcei os tecidos do sistema digestivo para evitar que se dissolvessem, criei um ácido estomacal capaz de liquefazer a carne dele e adaptei as veias para suportarem a acidez dos nutrientes retirados do sangue dele, mas não dava para ter certeza de que todas essas transformações seriam capazes de impedir um envenenamento ou coisa do tipo.
Sophia atacou, parando de se esquivar, ela foi com tudo pra cima dele, ela não se importou a obviedade do ataque. Shadowy revidou e nos acertou com um punho, mas Sophia se segurou no punho dele e deu uma grande mordida em seu braço, arrancando um bom pedaço de carne, depois disso ela se afastou dele.
Ele nos olhou com raiva, seu ferimento fechou instantaneamente, enquanto isso Sophia engoliu o pedaço de carne. Agora era hora da verdade... Poderíamos na pior das hipóteses morrer de vez ou ficarmos mais fracos com o alimento.... E na melhor das hipóteses... recuperaríamos um pouco de energia.
O alimento chegou ao nosso estômago, o ácido funcionou muito bem e conseguiu dissolver a carne dele... E apensar da pequena azia que sentimos, as paredes do estômago não foram afetadas. Nossos vasos sanguíneos também foram fortes o suficiente para aguentar os possíveis dados que a carne dele podia causar.
—“O gosto é terrível, mas acho que conseguimos...” Sophia suspirou aliviada ao perceber que nosso corpo não entrou em colapso graças a essa alimentação nada recomendada.
—“Sim... mas não sei se podemos comer muito disso, afinal não estamos cem por cento adaptados a esse alimento.” Falei nervoso, afinal eu ainda não estou confiante com isso... se comermos uma quantidade muito grande, podemos sofre uma intoxicação alimentar.
—“O que não nos mata, nos fortalece... não é assim o ditado?” Sophia sorriu ao voltar a atacar Shadowy.
—“Sim... nós vamos conseguir... só precisamos suportar um pouco de dor.” Tentei me manter positivo e focar em ajudar a Sophia a comer mais.
...
Sephiron...
Foi por pouco, eu pensei que ia morrer, Shadowy veio em nossa direção com sede de sangue. Eu soube naquele momento que eu não teria uma morte limpa e rápida, ela na verdade seria algo demorado, agoniante e humilhante. Mas Sebastian se levantou novamente, mesmo estando muito machucado, ele não se deu por vencido... Esse é o meu filho!
Uma nova batalha se desenrolou entre eles, dessa vez Sebastian foi menos agressivo e mais evasivo, eu pude perceber uma mudança de estilo... Será que ele percebeu que não venceria indo pra cima?
Leonard gemeu e se remexeu, ele estava voltando à consciência aos poucos e ao sentir seu corpo extremamente ferido, ele entrou em pânico e começou a se debater.
—“Calma... não se mova ou você vai se ferir mais ainda.” Tentei tranquiliza-lo e o segurei levemente para impedir que ele se machucasse mais.
—Hung... tá doendo...” Ele choramingou.
—“Eu sei... mas mantenha a calma, eu vou te tirar daí, você vai ficar bem, eu prometo.” Falei sério e pude ver uma mudança no olhar de Leonard para mim, ele ficou mais calmo e me encarou com firmeza... dava pra ver que ele confiava em mim, mesmo depois de tudo que eu fiz e pensei contra ele, eu sou realmente um merda como pai adotivo, mas não mais.
—“Isso pode doer... mas eu tenho que puxar essa estaca... aqui, morda isso!” Dei um pedaço de madeira para ele morder e manter silêncio, desse jeito não chamaria atenção de Shadowy para nós.
Puxei uma das estacas de uma vez, o garoto gemeu alto e apertou os dentes na fibra da madeira, mas não gritou. O sangue flui do ferimento, fiz pressão por um momento com a minha única mão, meu outro braço estava se refazendo aos poucos.
Dei uma rápida olhada em Sebastian, ele seguia se esquivando de Shadowy, ótimo, eu estava conseguindo mais tempo para tratar o Leonard assim.
—“Sinto muito não ter acreditado em você antes Leo... mas é que... é difícil acreditar que...” Eu tentei falar, mas Leo segurou minha mão com firmeza, uma breve olhada em seu rosto me provou que ele já havia deixado isso pra trás, ele estava me dizendo só com o olhar que entendia o meu ponto de vista.
—“Obrigado...” Segurei sua mão com mais força e ele tentou sorriu, mas com um pedaço de madeira entre os lábios era difícil.
—“Agora aguente firme que eu ainda tenho mais três estacas para retirar.” Falei firmemente e esperei ele confirmar com a cabeça antes de prosseguir.
Trabalhei aos poucos nos ferimentos dele, dando um jeito de arrancar uma estaca por vez e fazer pressão por uns minutos no machucado, para impedir muita perda de sangue. Leonard foi muito corajoso e se manteve acordado o tempo todo.
De tempos em tempos eu dava uma rápida olhada em Sebastian, agora ele não estava mais desviando dos golpes, ele estava indo pra cima, arrancando pedaços enormes de carne de Shadowy, mas isso não estava causando nenhum ferimento fatal no mesmo, por mais que ele perdesse grandes pedaços de seu corpo, em nenhum momento ele ficou ferido por mais de um segundo, ele agia como se isso nem causasse dor nele, ele apenas estava ficando muito irritado.
Finalmente consegui livrar Leonard dos entulhos e estacas, o peguei no colo com apenas um único braço e comecei a pensar em formas de mantê-lo a salvo enquanto eu ia lá ajudar o Sebastian.
Foi aí que percebi algo novo, Sebastian parou de atacar Shadowy e se afastou dele, ele caiu de joelhos no chão abraçando a si mesmo. Ele parecia estar sentido dor, até Shadowy parou para olha-lo.
Sebastian gritou e se debateu enquanto isso sua pele começou a se transformar e a se deformar, calombos estranhos surgiram quando ele começou a berrar de dor.
O que estava acontecendo? Ele parecia estar se desmanchando, era agoniante olhar.
De repente o corpo de Sebastian se transformou e começou a se dividir em milhares de pedaços. Pequenas criaturas brancas e negras se desprenderam de seu corpo. Eu demorei um tempo para perceber que eram pequenos morcegos.
Shadowy parecia tão aturdido quanto eu.
Não demorou muito e logo havia milhares de morcegos voando livremente no ar e mais surgiam do corpo de Sebastian que ia sumido aos poucos enquanto ele ia perdendo massa para criar os animais alados.
Finalmente o corpo de Sebastian sumiu completamente e uma nuvem de morcegos pretos e brancos cercou Shadowy que se debateu tentando agarrar alguns.
Era até bonito de ver a dança que os animais faziam ao redor de Shadowy, as cores se misturavam no ar... era incrível ver os animais conseguindo voar tão perto um do outro sem derrubar nenhum de seus companheiros.
Eu estava impressionado e ao mesmo tempo assustado. O que havia acontecido com Sebastian? Ele estava bem? O que tudo isso significava?
Shadowy seguia tentando afastar os morcegos de seu corpo, ele se debateu e estapeou o ar, mas causou poucas baixas entre os animais.
De repente os morcegos se separaram em dois grupos e começaram a se reagrupar em dois pontos. Os negros se acumularam em uma massa a uns metros de mim e os brancos se acumularam em outra massa do outro lado da sala.
Então do nada... Havia duas criaturinhas na minha frente. Os morcegos negros haviam se juntado e formado um menino de olhos negros. E os brancos em uma menina de olhos violeta.
...
Sebastian...
Eu tenho um corpo só meu? Finalmente eu tenho um corpo só meu? Eu nem posso acreditar... mas no fundo me sinto meio solitário.
—“Não fique assim Maninho... ainda podemos nos comunicar mentalmente, então é como se estivéssemos dentro da mente um do outro como sempre.” Sophia falou na minha cabeça, apesar dela não estar mais dentro da minha cabeça, ela estava agora na minha frente, em carne e osso.
Quando ela disse que podíamos nos separar após termos reunido massa o suficiente, eu nem acreditei, eu quase desisti quando senti a imensa dor que isso nos proporcionou, parecia que meu corpo estava sendo quebrado em nível molecular... e talvez tenha sido isso mesmo. Mas o lado bom é que mantivemos a nossa mente individual intacta, mas dividimos os poderes de forma igual.
—“Ah, Droga! Quer dizer que eu não vou me livrar da sua voz chata na minha cabeça? Que maravilha... parece que terei para sempre esse grilo falante na minha mente.” Rebati mentalmente para ela, era mais difícil falar assim, eu tinha que projetar ondas psíquicas pra ela e não apenas pensar no que eu queria falar como antes. Mas pelo menos agora eu acho que ela não vê mais tudo que esta na minha mente.
—“Cala a boca seu chato!” Ela bufou pra mim.
—“Cala você!” Rebati.
—“Tá... falando sério agora.” Ela ficou séria e tomou uma pose de ataque enquanto encarava Shadowy, que estava nos olhando sem entender.
—“...” Parei de brincar e também tomei uma pose de ataque.
Sophia encava Shadowy com muita atenção, eu sabia que na cabeça dela estavam se passando inúmeras possibilidades, enquanto ela refinava mais um plano.
Droga... eu fiquei tão feliz por ter um novo corpo, mas ainda não acabou. Nós ainda estamos no meio de uma luta e sem chances de ganhar... Nós apenas demos ao nosso inimigo mais um corpo para testes. Que maravilha!
E eu ainda estou exausto e esse corpo novo está recém se adaptando e se estabilizando. O certo a se fazer nesse momento era tirar um bom e demorado cochilo, mas parece que não temos opções, não é mesmo?
—“O que a gente faz Sophia?” Perguntei telepaticamente desesperado.
—“Você consegue fazer uma nova adaptação no seu corpo?” Ela me perguntou séria.
—“Não sei... eu estou muito debilitado e nosso corpo original foi divido em dois... acho que isso é estresse demais para aguentarmos.” Quase choraminguei de cansaço, pela primeira vez na vida quis bancar um bebê e chora de manha por um colo.
—“Eu sei maninho... eu estou sofrendo tanto quanto você... mas precisamos seguir em frente.” A voz da Sophia provava que ela também estava no limite de pedir arrego.
—“Tudo bem... pelo menos vamos lutar lado a lado pela primeira vez...” Tentei por um pouco de ânimo na situação.
—“E talvez seja a última vez...” Sophia suspirou tristemente.
—“Não... não podemos perder nessa, temos ainda que salvar os nossos irmãos mais novos e a nossa mamãe.” Rapidamente falei essa besteira para dar um novo gás na Sophia, pois a última frase dela me assustou um pouco, parecia que ela estava se entregando.
—“Ah é... esqueci que serei irmã mais velha agora...” A voz dela soou orgulhosa. Por mais que ela tenha dormido todo esse tempo, ela teve acesso a todas as minhas memórias quando acordou, então ela sabe tudo o que eu fiz e tudo o que aconteceu enquanto esteve fora.
—“Temos que ser fortes por eles.” Eu estufei o peito ao dizer isso, eu sabia que estava dando a esperança e o suporte emocional que a Sophia precisava no momento.
—“Por eles...” Ela se inspirou e instantemente seu corpo tomou uma pose mais confiante e decidida.
—“Vamos livrar esse mundo dessas pragas.” Ao dizer isso, estranhamente me senti mais revigorado e decidido também.
—“Sim!” Ela sorriu pra mim.
“Então... qual é o plano?” A olhei e devolvi o sorriso cumplice.
...
Ian...
Perdi a consciência durante a viagem, acho que perdi muito sangue e meu corpo assim como a minha mente não aguentou.
Quando acordei eu já estava em uma cama gigante e confortável, os lençóis de cetim branco acariciavam a minha pele, olhei ao redor assustado, eu não reconhecia este lugar... onde eu estou? Demorei um tempo para me lembrar de tudo o que aconteceu e o pânico tomou conta de mim.
Pulei da cama e fiquei surpreso ao perceber que meu braço esquerdo havia se regenerado, eu sempre pensei que mestiços não podiam recriar partes perdidas de seu corpo... mas eu não sou um mestiço comum, não é mesmo?
Eu sou filho de um monstro... como eu nunca percebi isso? Como eu me deixei enganar esse tempo todo?
Eu fui um completo idiota. Mas o que eu poderia ter feito contra ele? Nada! Afinal eu sou um fraco, ele mesmo disse isso.
Minha nova mão esquerda ainda me era estranha, parecia que ela era a mão de outra pessoa e não a minha, acho que eu ainda não estava acostumado com os novos tendões, nervos e ligamentos.
Mas agora não era o momento para me preocupar com uma mão com dificuldades de fazer movimentos, eu tinha que descobrir onde eu estava e então tentar fugir.
Olhei novamente em volta, eu estava em um quarto mal iluminado por velas. O quarto era bem decorado e grande, a mobília me lembrava algo que você só veria no palácio de um príncipe podre de rico.
Seria um lugar legal para se passar uma boa tarde lendo um livro, mas eu não podia ficar aqui, não quando meus filhos e o amor da minha vida estavam em perigo.
Foquei novamente em fugir e para a minha surpresa o quarto possuía janelas venezianas lindas que mais pareciam portas dublas que levavam para uma sacada, isso era raro para um quarto de vampiro... Mas Uriel não é um vampiro, não é?
Corri até lá e tentei abri a janela, novamente para a minha surpresa estava destrancado. Por um minuto senti a esperança de que conseguiria fugir quando o vento gelado da madrugada bagunçou meus cabelos, mas meu ânimo logo foi por ralo abaixo.
A sacada desse quarto era muito alta, mesmo eu sendo um mestiço diferente, se eu caísse daqui, eu morreria instantaneamente. Droga... eu tenho que pensar em outro jeito de fugir!
Entrei no quarto de novo e procurei uma porta, havia duas. Uma levava para um banheiro luxuoso com uma banheira de ouro maciço. Tentei a segunda porta, ela estava trancada, então era essa a minha única saída.
Forcei a porta com todas as minhas forças, mas acho que meu corpo ainda estava muito fraco pela grande perda de sangue e pelo esforço de ter que recriar um braço inteiro.
Mas não desisti de forçar a tranca, ela tinha que quebrar em algum momento. Usei toda a força que consegui reunir e então senti uma pontada logo abaixo do umbigo.
Parei instantaneamente de fazer força e entrei em pânico quando senti um pouco de sangue escorrer de dentro de mim, exatamente como daquela primeira vez que perdi um bebê.
—“Ah, não... por favor, isso de novo não...” Implorei no escuro e rezei para que alguma divindade se apiedasse de mim.
Voltei cambaleante para cama e me deixei relaxar lá, a pontada incomoda voltou e as lágrimas surgiram em meus olhos.
O medo era a minha única companhia nesse quarto.
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