Sangue por Sangue
2 Apenas mais um Natal
Julian revirou os olhos quando viu a caixa de decorações fora do porão, e revirou ainda mais quando viu os festões e bolinhas se espalhando pela casa. Diferente dele, a jovem de cabelo castanho parecia estar bem animada com a data que estava chegando, mesmo ainda faltando um mês. Ele riu enquanto observava a garota tentando desfazer os nós das luzes.
— O que está fazendo? — Ele disse sem disfarçar o riso.
— Plantando bananeira. — Ela rebateu, rindo.
— Tem andado muito com o Giovani. — Ele cruzou os braços. — Você não era desse jeito, mocinha.
Ela mostrou a língua em resposta, e ele reagiu rindo.
— Faz tempo que essas tralhas não saem do porão. — Ele disse pegando uma bolinha na mão e observando a falta de brilho.
— Percebi pela poeira. — Ela disse ainda brigando com as luzes. — Deveria comprar umas coisas novas para decorar a casa.
Ele respirou fundo, e ela não pode deixar de notar a cara de infelicidade dele.
— O que houve? — Ela o encarou.
— Quando se vive a tanto tempo quanto eu, algumas datas acabam perdendo sentido. — Ele disse jogando a bolinha em direção a ela. — Natal é uma delas.
Ela desviou da bolinha e observou quando ele deu as costas para ela.
Na cozinha estava Giovani, encostado no balcão com uma xícara na mão.
— Café? — Ele ofereceu.
— Você nunca bebe apenas café. — Julian respondeu.
— Eu coloquei vodka no seu café apenas uma vez. — Giovani respondeu tomando um gole.
— Prefiro não arriscar. — Julian disse com a voz arrastada, ganhando uma risada como resposta.
— E o que a sua adorável irmãzinha está fazendo? — Giovani perguntou.
— Decorando a casa para o Natal.
— Deve ter sido por isso que ela me pediu aquelas caixas do porão. — Ele tomou outro gole. — Fiquei cheio de poeira.
— Você pegou pra ela? — Julian disse em choque, porém com tom de sarcasmo.
— O engraçado é que ela não mora aqui. — Giovani disse. — E vai decorar a casa mesmo assim.
— Porque pegou as caixas para ela? — Julian perguntou.
— Você tem que falar para ela que a casa é nossa e que não pode fazer o que bem entende.
— Giovani, pare de desviar do assunto. — Julian cobrou. — Porque pegou as caixas de Natal para a Dalila?
Giovani respirou fundo e colocou a caneca sobre o balcão.
— Porque você é um pé no saco. — Ele respondeu. — Faz vinte anos que aquelas coisas estão no porão, e ela sempre quis passar o Natal com você.
— Eu tenho meus motivos para não querer comemorar o Natal. — Julian disse.
— Seu motivo é a idade, velho gagá. — Giovani provocou. — Você não comemora o seu aniversário e o Natal pelo mesmo motivo e sempre dá a mesma desculpa!
— Isso não é verdade. — Julian disse. — Olha, eu estou vivo a 193 anos, essas coisas perdem o sentido depois de tanto tempo.
— Não falei? Mesma desculpa! — Giovani riu. — Eu tenho 203 e sempre comemoro os dois.
— Comemorar? Você sempre enche a cara em algum bar aleatório até desmaiar. — Julian cruzou os braços.
— Esse é meu jeito de comemorar. — Giovani respondeu pegando a xícara novamente.
Julian revirou os olhos e se serviu do café suspeito de Giovani.
— Se você tem algum problema com o Natal, e não quer passar com a Dalila, tem que ser sincero com ela, dizer a verdade. — Giovani disse. — Ela sempre pede pra passar ao seu lado porque você é importante pra ela, e pelo mesmo motivo ela passa o ano inteiro perguntando a data do seu aniversário.
Julian tomou um gole do café. Sem vodca.
— Ela te ama da mesma maneira que você ama ela. — Giovani apontou a caneca em direção a Julian. — Você a adotou como sua irmã, seja sincero com ela antes que ela passe a ser indiferente com você.
Julian encostou no balcão ao lado de Giovani tomando o café, analisando cada palavra dita por ele.
A mente do — não tão — jovem começou a vagar em lembranças de Natais passados, e começou a se lembrar de como o tédio passou a aumentar no decorrer dos anos. Para ele, era sempre a mesma coisa, era apenas mais um dia em sua eterna existência, apenas mais um tormento para a coleção. Olhar as pessoas felizes com suas famílias apenas o fazia lembrar de que ele nunca teria uma, que ele nunca seria realmente feliz. O Natal era apenas mais uma data que o fazia lembrar que ele nunca amaria alguém ao ponto de chamar de família. A voz que o chamou da sala de estar o fez sair da imersão de pensamentos, e o fez caminhar em direção a ela. Dalila ainda tentava desfazer os nós das luzes.
— Me ajuda? — Ela disse, com um sorriso amarelo.
— Demorou para me pedir isso. — Ele riu, se aproximando e pagando um pedaço do bolo de fios.
Dalila não parava de falar, contava sobre tudo. Julian então passou a devanear novamente, se lembrando do dia que conheceu a menina. Ela tinha apenas dois anos, e o encarava com olhos desconfiados enquanto segurava a mão da mãe. Ironicamente era véspera de Natal, e ele, por algum motivo, comprou um gato de pelúcia para ela, entregando-lhe na noite da festa. Seria estranho se ele não conhecesse a família a anos, mas para a sorte, o avô da menina de olhar desconfiado era um grande amigo, e assim ele pode se aproximar da pequena, a chamando de irmã. Anos se passaram, e eles se tornaram irmãos de verdade. Ela era a única pessoa que ele confiava, e ele, o único em que ela confiava. Anjos da guarda, um para o outro.
Julian acordou dos pensamentos e olhou para aquela que ele considerava irmã, e percebeu que havia cometido um erro: ele amava sim alguém ao ponto de considerar família, e aquele alguém estava parado na frente dele xingando as luzes de Natal. Ele jogou as luzes no chão e observou Dalila arregalar os olhos.
— Estão velhos, vamos comprar novos. — Ele disse, sorrindo.
— Vai querer comprar novas luzes para o Natal? — Ela perguntou, em choque.
— Tudo, você merece coisas novas, irmãzinha. — Ele e pegou pelo braço.
— Tudo bem. — Ela quase sussurrou.
Giovani estava parado na porta da cozinha, e sorriu para o amigo quando o viu puxar a garota pela mão, mas entrou logo em seguida.
— Pensei que você não gostasse do Natal. — Dalila lhe deu um cutucão.
— Mudei de ideia. — Ele respondeu.
— Mudou de ideia sobre mais alguma coisa? — Ela perguntou.
— Sim. — Ele respondeu. — É em treze de julho.
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