Sangue nas Mãos, Zumbis na Terra
30 Salvando o dia
Correr geralmente pode ser definido como deslocar-se rápido, mas o que faziam era muito diferente. Corriam por suas vidas, e a velocidade que atingiam não poderia ser considerada rápida, era mais que isso. Tinham brutamontes de branco atrás de si, não podiam vacilar em nenhum instante de agora em diante.
Gabe estava um pouco atrás da equipe, carregando uma loira sangrando pelo buraco feito no crânio. Lágrimas involuntárias molhavam seu rosto, mesmo não fazendo expressões muito tristes.
Leon- Toshio, me explica essa merda! – gritou fechando o portão dobradiço do elevador, pronto para descerem ao andar debaixo. – Era pra você cuidar dela!!
Toshio– Que saco! – passou o braço da amiga para o ombro do médico loiro. – Ela foi arranhada e eu fiz meu máximo. – puxou a aljava de flechas mais perto. – Para com essa crise de ciúmes... – seu comentário fez Leon arder em vergonha.
Azami– Calem a boca, temos coisas mais importantes para tratar no momento. – resmungou com dificuldade, a ferida estava começando a fazer diferença não só no seu andar.
Maya- Nós estamos com os medicamentos, só precisamos nos livrar dos guardas! – ria sem graça, tentando animar os jovens. – Isso é fácil, não é?
Toshio– Sim, é fácil. – concordou olhando a morena. – Mas não temos só os guardas pra dar fim. – terminou a frase, assim que o elevador parou no andar desejado.
A porta maior se abriu automaticamente, sobrando apenas o portão dobradiço lhes separando de seus novos problemas.
Leon- Que porra é essa?! – sacou a metralhadora das costas, apontando para os zumbis a sua frente.
Azami– Surpresa. – ironizou se arrumando no ombro do amigo.
–X-
Um susto repentino invadiu os olhares do grupo, com exceção depsicoe o arqueiro, ambos já tiveram contato com eles antes.
Os zumbis eram semelhantes aos do mundo a fora, seus corpos tinham apenas uma cor clara de apodrecimento e não lhes faltavam nenhum membro, talvez fosse pelo fato de não se alimentarem e se sujarem com sangue indevido.
Notaram os mesmos cabeças moles estarem vestidos de branco, igual os pacientes do andar superior, mas não comentaram nada. Algo cheirava errado neles, e não eram suas fragrâncias de podridão.
Leon passou uma mão livre pela cintura de Azami, apertando-a contra seu peito e com a outra mão, seu dedo se permanecia no gatilho da arma, metralhando qualquer bicho a sua frente. Psico murmurou algo brava pelo toque do amigo, mas o mesmo apenas ignorou, não queria ela se ferisse mais.
Rin- Porque tem zumbis na ilha não infectada?! – mirava com a pistola na cabeça de um bicho.
Toshio– Longa história. – bufou irritado. – Mirem no peito, são do V8. – avisou soltando uma flecha.
O sangue rubro coloria o chão da sala de experimentos que mesmo estando escura, o líquido era visto com grande fartura pelo lugar. Repararam no som que o elevador fez ao ter sua energia reativada, provavelmente o ligaram lá de cima. O grupo se entreolhou assustado, não teriam chances contra guardas e zumbis ao mesmo tempo.
Azami ajudava o médico com as adagas, de vez em quando lançando uma ou outra, mas na maioria das vezes, cravava a lâmina com uma das mãos no tórax de um zumbi próximo. Maya não podia se soltar do saco de remédios, sendo quase impossível usar sua espingarda sem as duas mãos. No momento era um tanto quanto inútil. Seu irmão mais novo, a protegia, jogando-a para andar pelos cantos do local.
Atravessaram a sala chegando ao corredor branco dos gritos de desespero. A então ala médica agia exatamente igual a de cima, as sessões aconteciam livremente ali, fazendo sabe-se lá o quê com os pacientes. Os zumbis vinham de uma porta um pouco mais à frente dali, ainda teriam um grande corredor para ultrapassarem antes de verem o ambiente natural da ilha de novo.
Caminhavam alarmados, matando qualquer ser morto com vida que lhes aparecesse. A locomoção da sala de trás produziu um o som de chegada, dando a entender que os guardas ainda não tinham desistido deles. Reviraram os olhos nervosos, Leon fez sinal para que Rin e Gabe os afastassem.
Os dois, sendo um com uma mulher morta no colo, voltaram-se para os imensos homens de branco que os perseguiam, acertando-os certeiramente sempre que podiam. Era possível enxergar uma urgência nos olhos de Gabe, aquilo soava como vingança. Aquilo era prazeroso. Aquilo o trazia uma paz momentânea, matando todos seus piores pensamentos sobre aquele lugar ou sobre o que tinham feito com Beth. Esses guardas deviam a ter tocado e ter a forçado a fazer algo que não queria, isso era óbvio. Mas a incógnita de descobrir o principal homem por trás de todo esse pano, ainda se fixava em sua mente e na dos demais companheiros. Perdeu a noção por segundos, se preocupando somente com os guardas sem notar mortos vivos perto de si, fora salvo pela criança de tapa olho.
Rin– Olha o que faz, grandalhão! – advertiu-o gentilmente, seu sorriso era acolhedor.
Pelo enorme corredor alvo, os urros de dor e sofrimento não cessavam por nenhum minuto. Cada milésimo passado ali, fazia Maya se arrepiar, imaginando as coisas terríveis encobertas pelas paredes de cada sala particular.
Alguns zumbis eram somente atingidos na região torácica, não tinham seus crânios explodidos para morrerem realmente. Ficavam para trás, levantando-se calmamente como sempre faziam e voltando a correr atrás de seus alvos.
Azami notou um bicho se levantar sem ser morto completamente, sua direção se dirigia plenamente voltada aquele ser. O morto corpulento farejou algo com a cabeça erguida, e atacou um guarda passando despercebido ao seu lado. Sorriu cômica enquanto mancava apoiada.
Azami– Toshio, os guardas não são imunes! – avisou o rapaz que estava um pouco mais adiante.
Teve olhares confusos sobre si, ignorou-os passando ordens bem esclarecidas. Os jovens assentiram com a cabeça, passando a agir cada um por si no momento.
–X-
As instruções de psico haviam sido claras. Se os próprios guardas não estavam cadastrados no tal programa do micro–chip, muito menos os pacientes estariam. Nem todos entendiam os pensamentos psicóticos da garota, não tinham concordado com o esquema ao todo, mas sabiam que vindo dela, seria o melhor a ser feito.
As ordens foram para que arrebentassem cada porta das salas do corredor. Segundo o que ouvira mal explícito pelos amigos, ali ocorriam as sessões tendo em média um paciente e um responsável por ambiente. Com as salas abertas, os zumbis iriam se atrair pela carne fresca os deixando livres para escaparem desse inferno médico.
Assim faziam, Gabe arrombava as portas com os pés, pois suas mãos estavam ocupadas. A cada sessão interrompida, o sofrimento cessava dando lugar ao desespero de serem atacados por mortos famintos. Cada sala havia pelo menos um paciente ou no máximo quatro, eles eram presos a macas onde faixas grossas e de couro os apertavam.
Leon ainda apoiava Azami nos ombros, lastimando mentalmente por pedir que ela o ajudasse mesmo estando com uma lesão tão grave. A garota empunhava a katana com uma das mãos contra os fechos, simplesmente os destruía com o corte que desferia, mas era o amigo médico quem abria as portas, chutando-as sem pena. Um verdadeiro trabalho em equipe.
Os urros de desespero pareciam mais altos agora com as portas escancaradas. O sofrimento de antes, não se comparava a dor que os zumbis causavam a cada mordida e a cada carne dilacerada. Dispersavam os mortos vivos pelo corredor, enquanto guardas não treinados para lidar com eles, eram seus pratos favoritos
Leon- Que merda você fez na perna? — andava mais calmamente, os bichos e os guardas haviam se distanciado lá por trás.
Azami– Um zumbi puto me atacou. — pronunciou naturalmente, suas mãos apertavam o pescoço do amigo.
Leon- Você disse o quê?! — balançou a cabeça perplexo, não queria acreditar nas palavras de psico.
As mãos de Leon apanharam as coxas desnudas da amiga, a erguendo no ar e depois a apoiando deitada contra seu peito, em milésimos a carregava no colo, literalmente. Primeiramente a menina se debateu bruscamente,chegando a socar o peitoral do amigo, mas foi inútil. Ele não a deixaria caminhar por mais nada.
Azami– Seu imbecil! — desistiu depois de muito esforço. — Não vai conseguir se defender dos cabeças-moles, estou torcendo para que me perca e tenha uma morte lenta e dolorosa. — balbuciou antes de entrelaçar seus braços cansados no pescoço de Leon.
Leon- Não vou te perder por nada nesse mundo. — um sorriso vitorioso se desenhou em seus lábios.
Mais atrás vinham o restante do grupo, incluindo certo homem com uma mulher morta nos braços. O corredor se encontrava vazia, sendo preenchido apenas por gritos humilhantes de brutamontes, crianças, mulheres e homens. Uma coisa que sempre fez os mortos vivos se destacarem, é eles não terem preconceito. Afinal, suas vítimas podem ter todas as idades, todas as cores e ainda sim, não passam de vítimas a serem comidas pela fome natural dos zumbis.
Finalmente enxergaram a luz da sala de entrada, por onde passaram despercebidos graças a Azami e seus surtos psicóticos. Se juntaram novamente correndo agrupados, quase ultrapassando a porta dupla que dava acesso ao mesmo local de espera por onde entraram. Um som irritante e repetitivo soou por todo prédio médico, fazendo piscar luzes vermelhas que não haviam percebido sua existência antes. Era na verdade um alarme, avisando algo que não entendiam.
Rin– Incêndio?! — guardava a planta do lugar completamente amassada no bolso, ainda não alcançaram a porta de saída.
Maya- Não, estão nos fechando. — avisou apontando a espingarda para a porta dupla de antes.
Um portão metálico surgia das duas extremidades da porta, fechando-se no centro enquanto duas placas visivelmente resistentes saíam de cima e de baixo. Alguém ainda estava no comando daquele local,e esse alguém os queria mortos. Yale nunca fora o verdadeiro paraíso que era transmitida nos rádios, era apenas um lugar que buscava mais bonecos para testes. A qualquer momento até os refugiados saudáveis que não desconfiavam de nada, poderiam ser torturados.
O Governo nunca quisera realmente matar sua população, apenas se consistiam em trazer a ordem ao país, infelizmente depois de testes falhos e de esperanças perdidas, onde conseguir o progresso era mais difícil, foi lançado a vacina GNM sabendo absurdamente de todos seus riscos. Eles se responsabilizariam por isso mais tarde? É claro que não. Entretanto, deixar um grupo de jovens estragarem o resto de seus planos, estava fora de cogitação.
Maya levantou a espingarda no alcance de seus olhos, a deixando a par de suas bochechas para poder mirar melhor. Um tiro, apenas uma chance teria para conseguir acertar o alvo elétrico, uma caixa de eletricidade estava situada no chão. A garota não podia perder tempo contando sua ideia, era apenas ela e o alvo. Suas mãos suavam,estava em movimento acompanhando os amigos ainda, isso não a favorecia. Pensar nas possibilidades de errar também não a ajudaria, soltou um foda-se em uma altura que só ela poderia escutar antes de apertar o gatilho.
Quem estava mais afastado da morena, se assustou com o barulho forte que ecoou. Os que estavam correndo ao seu lado já esperavam seus movimentos. Poucos segundos levaram para a bala percorrer sua distância e travar no alvo. A garota e os que entenderam o ato desesperado dela esboçaram um sorriso ao ouvirem um som de ricocheteio metálico, teria ela acertado?
A velocidade das placas parou imediatamente após o tiro ser disparado. Correram ainda mais depressa podendo em fim alcançar a porta com apenas uma passagem central não muito grande. Leon, Azami e Rin foram os primeiros a passar atônitos pela abertura.
Toshio– Você acertou! Vamos... — segurou o braço da morena, puxando-a para passar. A mesma se encontrava com um olhar perdido se focando a pequena caixa branca de eletricidade da porta.
Maya- Eu errei. — olhou de relance para objeto enquanto atravessava as placas paradas.
A menina vislumbrava seu tiro quase certeiro, um buraco havia sido feito em um canto da caixa, o que explicava o barulho, mas realmente não passou de um raspão.
Gabe ficou por último, o corpo morto em seus braços não o deixaria passar acompanhado por ninguém. Era sua vez de atravessar as placas paradas, depois disso estariam livres, claro que seria muita sorte para um grupo de azarados. O homem passou primeiro as pernas, depois movimentou o tronco abaixado trazendo os braços com Beth por último. Enquanto pairava o corpo da cunhada no ar pronto para puxá-lo, as placas voltaram a se movimentar em uma velocidade maior, acabando com o atraso de antes e prensando um dos braços do homem. Antes que pudesse sentir dor ou se preocupar por uma parte do tronco de Beth ter ficado para seu lado, sentiu a força das placas diminuírem.
Toshio– Caralho Gabe! — o arqueiro, o médico e o garoto de tapa olho seguravam inutilmente a placa de cima, deixando um pequeno vão aberto para que pudesse retirar as mãos. — Solta ela logo! — grunhiu com o cenho franzido, se esforçava ao máximo segurando a placa pesada com os amigos.
Gabe- Não... Posso! — lágrimas escorreram pelo seu rosto, enquanto visualizava seu braço se arroxear devido a circulação sanguínea parar momentaneamente.
Rin– Por favor grandão!! — implorou também se esforçando.
Azami que antes estava no colo de Leon, fora largada no ombro de Maya para que o loiro pudesse ajudar também. Gabe ainda se via em decisão do que fazer, ao em vez de ficar parado pelo menos tirou o braço direito para ajudar a puxar a cunhada morta. Era tarde, sua decisão fora tomada incorretamente.
O que fazer quando se têm um braço cortado ao meio? A melhor opção consiste em não se desesperar. Gabe ainda tinha consciência quando viu seu antebraço ser partido ao meio e uma parte do corpo do que era sua cunhada. O sangue dos dois o banhou por inteiro, por sorte Leon percebeu que não aguentariam mais, avisando os amigos para soltarem a placa. O homem não berrou com a dor que sentia, em sua cabeça, perder a mulher a quem prometera cuidar era mais doloroso. Maya virou a cabeça, não se manteria sã vendo uma cena daquelas.
–X-
Azami domava Chucrute, o antigo cavalo do grupo, trazendo em sua cela um homem jorrando sangue pelo braço esquerdo. Era verdade que psico não estava muito boa, mas concordaram depois de buscarem o animal no celeiro que ela também precisava de um transporte que não a cansasse. O grupo corria de volta para o campo dos refugiados estavam soados e queriam apenas uma cama para se jogarem e dormirem até o dia amanhecer novamente, mas sabiam muito bem que sua recepção seria muito diferente.
Avistaram os portões de entrada imaginando como fariam para abri-lo. Conforme se aproximavam viram-no abrir lentamente, estariam do lado deles agora ou era apenas uma armadilha. Logo uma ruiva conhecida, trajando um vestido florido em tonalidade verde apareceu acenando. O que tinham perdido nesse tempo?
Riko– Ainda bem que voltaram... — atentou os olhos para o corpo sangrento junto de Azami no cavalo. — Tenho novidades. — mudou de assunto rapidamente.
Muitos refugiados os viram chegar aos cacos, e foram os ajudar a socorrer os feridos. Alguns ex-médicos se ofereceram para operar Gabe, o mesmo não estava mais cociente no momento, mas Leon o confiou nas mãos deles. Muita coisa realmente mudou em horas que estiveram fora, mas nada fazia sentido e depois de tanta informação quiseram apenas levar os medicamentos para Wally e descansar.
Azami adormeceu enquanto era levada para algum lugar, mas acordou em seu quarto. Abriu lentamente seus olhos, piscando algumas vezes para se acostumar com a iluminação do local. Sua perna estava dormente, mas dor de ter sido profundamente arranhada se esvaziou, apenas algumas bandagens envolviam sua panturrilha no momento. Arqueou seu tronco na cama para se sentar, levou um susto ao ver que não estava sozinha.
Leon- Faz exatamente 23 horas que estava dormindo, mocinha. – fingiu olhar um relógio invisível no pulso, sua voz saiu rouca e sugestiva.
To be continued.
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