Sangue de Arthur II
3 3- Capítulo, O sonhador e A coisa sob o capuz
Notas iniciais
Yoshitsune, John — mestre do Assassin
Quando levantou ele acabava de voltar. Escutou a porta ser arrastada pelo assoalho enquanto desabotoava o pijama. Eram quatro da manhã e o quarto estava escuro.
Um servo bem disposto.
— E então? Alguma novidade? — disse e bocejou.
— Não, nada diferente do habitual.
Como havia suspeitado que seria. Não conhecia o mestre da Saber, mas o vira através dos relatos. ´´Ele saiu novamente à procura dela``, ´´O idiota recusou-se de novo a evocá-la com um selo de comando, acho que não sabe usá-los.``, ´´ Outra vez está andando sozinho, tá pedindo para morrer o pirralho.``. Já o que acabara de encontrar… um turista inglês de meia idade, rico e portador de selos de comando na mão esquerda. A aparência e o sotaque denunciaram sua nacionalidade, assim como as marcas carmim o identificaram como um potencial inimigo.
Mas isso era tudo que tinha.
Pôde hackear para se pôr a par de Tatsuo Koji mais profundamente. Tirara tudo que podia dos documentos mantidos pelo governo japonês. No entanto, o sujeito inglês não possuia nenhum registro fosse ali ou em qualquer país na Europa.
Assim como aquela mulher.
— E você, algo? — ele perguntou quando o garoto atravessava a sala para ir ao banheiro.
— Não. É provável que esteja usando uma identidade falsa, vou avisar o mestre da saber para comparecer no encontro que teremos com ele. — escorregou numa pasta e viu-se despencando para o chão. Oh, eu vou cair, foi o que lhe veio à mente.
Mas sua mão encontrara a parede e o pé esquerdo voltou do seu breve passeio no ar. Seus olhos fitaram o piso por um segundo antes que erguesse novamente a coluna.
— Você devia arrumar esses papéis ou eles podem matá-lo antes que seu aliado tenha uma chance.
— Não serei traído. — é terrivelmente provável que isso ocorra, corrigiu-se mentalmente. Não era cego a hostilidade da cavaleira carmim e ao perigo de se confiar em alguém que não nutria nenhuma relação social. Ninguém fica sozinho apenas por ser triste.
— Hunf, as vezes não sei dizer se há um cérebro dentro dessa sua cabeça. Se quer morrer meu facão é mais rápido.
O garoto não conteve uma risada. Passara anos viajando ao redor do mundo, descobrindo a verdade. Ou ao menos vendo em primeira mão algo com o qual construir suas crenças.
Vilas empobrecidas até a raiz, cidades tão ricas que faziam o ouro soar como restos de um pedinte, pessoas boas que recuperariam a fé de qualquer um na humanidade e gente ruim o suficiente para que alguém desistisse da esperança.
E agora ele tinha certeza do que fazer e de como e porquê. E isso o fazia um ´´tolo cego``. Exatamente o que eu achava que era antes de chegar até aqui.
— Conheço o perigo. — respondeu virando-se para fitar o servo. — Mas se eu não puder estender a mão e confiar, como posso aspirar por um mundo onde todos o farão?
Os olhos do Assassin ergueram-se até ele. Negros, meio vazios, como os de um fantasma.
Pareciam as íris que sem querer vira no espelho anos atrás, quando a verdade sobre sua maravilhosa vida assentara-se o suficiente para doer. E como doera.
— Buscando um milagre num copo bonito preenchido pelo pior da humanidade. Deseja um mundo sem violência alguma enquanto participa do que há de mais violento. Não é nada diferente de outro homem qualquer na história. É só mais um desses bastardos que estão sempre nessa maldita contradição de paz e guerra. E ainda assim... Confiar num inimigo? Forjar uma aliança sem nenhuma boa garantia de lealdade? Não matar um oponente no momento que se têm chance? — o punho dele fechara-se e veias marcavam suas têmporas. — Irá perder, isso não é um conto de fadas no qual se possa contar com a sorte.
Aquilo deixou John tenso. O sangue pareceu começar a correr com violência dentro de si.
Sei tudo que há para saber sobre fadas e seus contos. Meu pai era uma, assim como minha mãe. Ambos mentiam muito bem, mas no fim as cortinas sempre descem e a realidade assume o posto da peça.
— Está sendo insolente, Assassin, não se esqueça quem é quem nessa relação mestre-servo. — falou deitando sobre o servo um olhar gélido.
E deixou a sala.
Mas sob a água fria as memórias puxaram-lhe as pernas.
Fora numa manhã como qualquer outra na residência dos Yoshitsune. Acordara às sete da manhã com um puxar de cobertores e um bom dia sorridente da senhora sua mãe. Comeu de uma mesa farta e brincou com os cães no terreno ao redor da casa.
Fazia parte de uma rica família e morava numa pequena mansão com os pais e uma meia dúzia de criados. A renda partia de importações de produtos primários e eles possuíam fazendas em diversas regiões do interior japonês.
Mas até isso era uma mentira. Meu pai era um louco obcecado pela ideia de um paraíso longe de sua verdadeira atividade laboral. E pelo visto me tornei algo parecido. A diferença mora no tamanho da utopia e na forma como agimos, creio.
Os criados sempre sorriam e perguntavam se estava bem, por vezes juntavam-se a ele em brincadeiras, como também faziam seus pais. Trocar gracejos e ter conversas divertidas não era menos que uma certeza diária.
A vida não podia ser mais parecida com um conto de fadas.
Até o senhor Yoshitsune morrer e as fadas e suas bobagens fecharem-se dentro de seus livros.
Do lado de fora uma mulher recebeu a notícia de um dos contrabandistas que trabalhavam para o homem morto. Ela manteve-se quieta enquanto Jonh tentava compreender o que ouvia.
O pai tinha morrido.
Lágrimas escorreram pela face do menino, mas ele ainda não conseguia aceitar o suficiente para berrar e chorar de desgosto e luto.
Quando o mensageiro se foi, a senhora Yoshitsune perdeu-se numa terrível gargalhada. E abraçando-se, como que para parar o tremor do corpo, fitou o garoto.
Despojou-se da camisa de manga larga que vestia. Contou tudo para o rapaz e mostrou cada marca em sua pele que provava sua história.
Ainda conseguia vê-la, meio chorando meio rindo, falar sobre os estupros, surras e reprimendas, sobre o tráfico de humanos que meu pai gerenciava que foi de onde a tirara. Revelou que os empregados dali também haviam vindo de lá e que neles encontraria ´´lições` gravadas na pele assim como as dela.
Depois daquele dia só a encontrou duas vezes, uma três anos depois do falecimento do pai do garoto quando ela tentou reivindicar parte da herança e outra quando tinha dezesseis. A última foi um acaso que acabou na prisão da mulher por tentativa de homicídio.
Me confundira com meu pai numa feira na América do sul. Tinha uma faca numa bancada. Ela não pensou duas vezes, penso. Na verdade não creio que algo como ponderar tenha sido possível durante seu ataque. Os olhos estavam tão abertos que a pele da testa dela se amontava como pequenas ondas, a boca congelara num rosnar com dentes a vista e veias saltavam no seu pescoço como finos e mirrados fios verdes.
Mas a aquela altura já havia encontrado muitas vidas, decidido encontrar um fim para o mundo como era. Determinado a inverter conto de fadas e vida real. Não teve qualquer intenção de dialogar ou vê-la sob as grades de uma cela.
Preferi esquecer ao arriscar a chance de desmoronar como uma criança e ser tentado a desistir.
Tudo era passado agora. Abriu os olhos e deixou que a água os tocasse antes de desligar o chuveiro. Iria salvar o mundo.
— Quando hoje acabar, irei vencer. — repetiu para o reflexo no espelho. — Por todos aqueles que conheci até este dia. Não fracassarei com eles, com certeza não o farei.
Pendragon, Mordred
Ele recusou-o.
Havia um filete de sangue erguendo-se da sua boca a ponta do queixo, seu rosto estava manchado por covas onde a carne murchara e, não fosse a cavaleira o apoiando no próprio corpo, estaria caindo naquele instante. Do outro lado um servo de aspecto saudável, com um sorriso no rosto e possuidor de uma arma que quase o matara apenas por ser desembainhada.
Sob seus pés ainda viam-se pontos onde o asfalto mantinha-se líquido e quente, a entrada do cemitério permanecia como escombros. Era noite e ajuda alguma vinha até ali.
Mordred sentiu as bochechas ficarem quentes, mas não por causa de algum arco apocalíptico.
— Por que? — sua voz soou desinteressada e mesmo o sorriso não manteve-se lá. — Só tem a ganhar, não? Talvez possa até me convencer a forjar uma aliança com vocês e, quem sabe, eu até permita que sobreviva à guerra pelo santo graal.
Os olhos da cavaleira viram-no erguer o braço que tivera uma parte decepada. Todo o antebraço abandonara o membro, assim como a mão. Mas a pele cobria o ponto no qual conheceu a lâmina como só deveria ocorrer dali a muitos anos.
—Você matou o idiota. — respondeu fracamente. — Em algum momento decidiu matá-lo e o fez.
A lua lançava uma tênue luz sobre a área próxima a entrada do cemitério. Tocava o Archer apenas de raspão no topo da cabeleira dourada.
— Ordens do meu mestre, o que posso fazer? Não tenho fama de ser a encarnação da obediência, mas ainda sou um deus de palavra. Você também pretendia matá-lo em algum momento. Eu sei. Alianças são coisinhas frágeis advindas da necessidade, logo que não fosse necessária seria jogada fora. — ele suspirou, sua cabeça voltou-se ao chão por um instante e então suas íris tornaram a fitá-los. — Serei bom e permitirei que voltem atrás nessa decisão. Vamos jantar num restaurante de comida americana e discutir uma possível parceria.
Tatsuo se desvencilhou da cavaleira, as pernas tremeram, mas ele manteve-se de pé.
— Não há razão para poupar nosso inimigo. Mo-san, elimine-o.
— Tem certeza que quer percorrer esse caminho? — o sujeito respondeu apertando as íris e franzido a testa. O tom da voz manchando-se de agressividade.
— Se você tem necessidade de propor uma pausa não preciso de motivo algum para duvidar do destino que encontrarei nele. — sua voz quase sumia antes do término de cada palavra.
Mordred encarou suas íris. Continuavam negras e profundas como piscinas de noite. Sua coluna estava inclinada para frente e apoiava as mãos nas coxas das pernas.
Parecia ainda mais fraco e medíocre do que um humano tinha direito a ser. Mas não viu nenhum motivo para questioná-lo. Ele encara a morte, mas não age como se o fizesse. Não pensa que iremos perder e isso só pode significar que não vamos.
— Bom, — Mordred voltou-se ao servo inimigo, caminhando enquanto sua espada e armadura materializavam-se. — você o ouviu, certo? Não sairá daqui vivo.
— Acha que um mísero cavaleiro de um conto qualquer pode contra um deus?! Irei tratar de expurgar até a origem do seu espírito da existência.
A cavaleira se impulsionou para frente e então para o ponto fraco.
— Não diga merda, bastardo! — Clarent subiu em direção às costelas sob o tecido.
O Archer girou, um cilindro brilhante na mão direita e então aço e mana condensada chocaram-se.
Como eu queria que fizesse.
A lâmina da cavaleira fez uma pequena pressão antes de deslizar pela superfície dourada. Mordred avançou se agachando o suficiente para passar incólume pela arma inimiga. E numa fração de segundo havia acabado.
Sangue dourado saltou sobre os ares e um grito de indignição jorrou seguido, uma fração de instante depois, pelo som do baque de carne sobre o asfalto.
— E agora... — disse a cavaleira voltando-se num giro para o corpo enquanto erguia a lâmina. — Desapareça!
Mas uma enorme figura encapuzada surgiu entre eles. O tecido era de um verde pálido e desgastado. Uma corrente de ar o seguiu e balançou quase eficientemente o equilíbrio da cavaleira.
Mordred sentiu o cheiro, sangue e cadáveres, fumaça e lagarto. A mana era densa perto dele e o ar podre. Sua espada caiu sobre o sujeito. Trespassou o pano, mas raspou a superfície sob ele sem penetrar na carne.
A criatura pulou para a muralha pequena que cercava o cemitério logo após a lámina deixar de tocá-lo. Do Archer apenas as pernas que Mordred decepera ficaram para trás. Ainda vertendo sangue divino.
Então o som de aplausos se aproximaram da direção das árvores. Mordred virou o olhar para as sombras além de onde os postes tocavam
e aos poucos duas formas surgiram.
Viu primeiro os símbolos mágicos flutuando a frente de seu corpo numa tênue luz negra.
— Estou impressionada, quem diria que uma noite podia me trazer tanta fortuna? — uma mulher de longos cabelos negros e uma criança albina. — Sou grata por cuidar dele, sério, sou mesmo. Mas, sabe… — ela agarrou as mechas negras que caíam sobre seu olho e jogou-as para trás. — estragou minha caçada.
Mordred sentiu-se despida de palavras. Não era a primeira vez que a via, embora na ocasião a mulher tivesse roupas sujas, um rosto puído e nenhum sinal de cuidado com o cabelo.
E uma quantidade de mana tão pequena que jamais seria capaz de usar magia.
— Então como punição… — uma corrente púrpura emergiu de um dos selos e moveu-se velozmente, varrendo o céu como um relâmpago. — Um braço.
Ela correu para direção contrária ao portão. Os olhos de Mordred seguiram seu movimento. Tudo aconteceu num milésimo de segundo e antes que notasse qual era o alvo, outra vez naquela noite, havia acabado.
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