Sangue da Lupa
1 Capítulo 1
Ela havia colocado em seu olhar um novo vilarejo. Pobre, mas não se importava, pois estava entediada e precisava fazer algo que poderia matar aquele sentimento, e saquear e destruir pequenas vilas fazia isso de modo incrível. Ela saltou do morro em que estava, transformou-se em lobo e dirigiu-se ao local sorrateiramente. Novamente humana, ela começou a passear, esperando a noite cair para finalmente fazer seu serviço. Ela foi a uma taberna charmosa, e foi atendida por um homem de cabeça raspada, que aparentemente havia assinado e finalizado algum documento em seu pequeno caderno.
-Olá moça. Desculpe lhe pedir, mas poderia retirar, pelo menos, seu capuz?
Ela sabia que não era lá muito educado entrar em locais fechados escondendo o rosto, mas ela não queria ser identificada antes de seu espetáculo. Rapidamente ela deu sua habitual desculpa:
-Tenho um rosto deformado, senhor. Por favor, não me faça mostra-lo.
O homem pareceu perturbado, mas não insistiu. Ela pediu um copo de chá e foi bebê-lo em outra mesa.
A noite caiu, e, quando foi pagar o homem, saltou sobre ele matou-o, roubando ainda seu pequeno caderno. Então saiu e começou a destruição.
Terminado seu serviço ela riu satisfeita. Com espanto ela se lembrou do pequeno caderno. Sentou-se em um tronco caído e começou a ler.
Mais uma vez, lá estava eu, sofrendo uma transformação monstruosa perante a luz da lua. Isolado, a dor sentida em todo meu ser tinha de ser bem contida, a fim de não assustar ou atrair humanos normais e puros em minha direção.
Eu era o lobisomem. Aquele que devorava criancinhas e rebanhos, além de perturbar outras existências a minha volta. A verdade? Jamais uivei alto o bastante para ser digno de ser chamado de uivo. Animais por mim devorados não eram pequenos humanos e ovelhas, pois de criaturas próximas aos homens eu mantinha distância. Eu comia da floresta, e sem dor a minha presa.
Eu, já esquecido de meu nome de nascença, denominei-me de Leo. Fadado a permanecer sozinho até o fim de meus dias, convenci-me de que jamais me envolveria com humanas. Afinal, que tipo de alma racional aproximar-se-ia por... Mim?
Maira foi uma surpresa. Lembro-me da primeira vez que a vi. Uma moreninha de aproximadamentenoveanos. Cabelos negros até seus ombros, com seu vestidinho branco e a capa vermelha sobre si, caminhando sozinha por uma trilha estreita no meio de uma floresta considerada perigosa por todos. Ela, porém, caminhava apenas com pressa, mas sem medo, eu sentia.
Não sei sobre meus motivos. Segui-a por todo seu caminho, uma pequena cabana. Jamais vi alguém saindo de tal local, mas a menina bateu a porta, que fora aberta. Curioso sempre fui, e esperei até que ela saísse, o que demorou algumas horas.
-Ora, Lobo. Tão tolo foi a ponto de imaginar que eu não notei tal presença que a sua é?
Ela encarava-me com profundos olhos verdes. Quem a visse julgá-la-ia louca por estar a encarar um simples arbusto, mas ali estava eu. Homem e lobo fundidos em algo imperfeito, levantando-se para uma mera criança sem medo.
-Obrigada por escoltar-me, senhor Lobo. Apesar de ter sido desnecessária tal ação, agradeço a intenção.
-Perdoa-me, pequena, mas não a escoltava. Jamais a vi por aqui. Gostaria de saber o que fazia uma menina tão pequena no meio da mais perigosa das florestas andando sozinha.
-Ora, fui visitar minha velha avó, somente. Pobre dela; faltava-lhe comida de mais doçura. Fui ajuda-la de minha melhor maneira.
O sorriso ininterrupto da menina estava perturbando-me. Qualquer que fosse a mente da criança, não era das mais sãs. Pulei quase em seu rosto encarando a tal figura, sem esta expressar qualquer medo ou emoção, a não ser um rosto divertido.
-Não é seguro por aqui.
-Sim, eu sei perfeitamente senhor. Mas vejo que você não. Do contrário, não estaria aqui, assim como eu não devia.
Sim, ela estava divertindo-se comigo. "É só uma criança", pensei comigo mesmo.
-Vou levar você atésua casa. Suba em minhas costas.
-Você não garante ser confiável. Como poso confiar em ti, lobo?
-Você também não parece confiável, e, por isso, lhe tirarei de meu ambiente.
Nossos olhos encararam um ao outro. Ela, divertida. Eu, espantado.
-Maira. Meu nome é Maira. — disse ela, estendendo a mão para cumprimentar-me. -E você?
-Pode chamar-me de Leo. É o que eu uso agora.
Ela era mais amigável do que aparentava.Subiu em minhas costas e guiou-me até seu vilarejo, não muito distante daquele do qual eu mesmo tinha saído. Agradeceu e deu boa noite, algo que não ouvia há anos.
-Ah, e amanhã nos vemos novamente, tá?
Com essa frase, ela entrou em sua casa, para fechar a porta e não sair novamente. Virei meia-volta e voltei de onde saí.
Não acreditei que, no dia seguinte, ela realmente veio procurar-me na floresta. Na mesma trilha, com a mesma cesta, que pude sentir o cheiro de doces dentro.
-Sinto seu cheiro, Leo. Onde está você?
Agora, eu estava mais apresentável. Não estava em minha forma bestial, e sim de homem. Totalmente ereto e vestido, pois era de manhã e, na noite anterior, havia sido o último dia de lua cheia.
-Aqui estou.
Ela cumprimentou-me e me levou a uma parte mais aberta da floresta. Depois de tanto tempo solitário, jogado a própria sorte em uma floresta, a companhia da humana fazia-me bem, renovando e convencendo-me de que eu, ainda em parte, era humano.
Ela havia estendido um pano sobre a grama, e organizou o lanche, com direito a um bolo e bebidas já prontas. Ela, por fim, colheu algumas poucas frutas a nossa volta, e nos colocamos a comer.
Ainda não sei a razão de eu ter-lhe perguntado, mas senti-me na obrigação de saber:
-Por que está fazendo isso?
Ela começou a me encarar.
-Sou um mero monstro – continuei — Garotinhas como você deviam se envolver com pessoas normais que não oferecem riscos. O que seus pais pensariam?
-Não diga assim. Ora, só o diz, pois não me conhece verdadeiramente. E mais: não se conhece.
Ela, antes distante de mim, aproximou-se e ajoelhou a minha frente, pegando meu rosto em suas macias mãos de criança.
-Monstro você não é. Ser um lobo a luz da lua é só um estado corporal. Não se pode dizer que se parece com um lobo sem a luz prateada. Você possui um belo rosto e cabelos louros, e olhos castanhos e profundos. Não é um monstro, somente um excluído.
Aquela pequena menina tinha um ar maduro que eujamais havia presenciado. Tinha corpo de menina, que ainda estava desenvolvendo-se, mas possuía olhos de uma mulher que já muito viu e com a sabedoria de um velho monge.
Quem era ela, afinal?
Os dias foram se passando. Todos os dias, sem falta, ela vinha conversar e comer comigo. Minha amiguinha de capa vermelha estava sempre sorrindo, e seu perfume de pêssego estava enlouquecendo-me de uma estranha maneira.
Houve uma noite que me marcou como nenhum outro em minha existência. Começou a temporada de chuvas e tempestades, que quase sempre estavam acompanhadas de fortes trovões, o que ela me revelou ser uma das poucas coisas que ela temia em sua vida.
-Durma comigo, por favor.
Ela era só uma menina. Tinha somente nove anos! Uma pequena e inocente menina de nove anos. Mas... E se alguém visse? Ou se entrasse na casa? Decidi, portanto, o que me pareceu mais correto: entrei.
Ela morava em uma casa estranhamente enfeitada, com estrelas e ídolos femininos vestidos de curiosa forma.Mandalas, velas coloridas e ervas... Mas, por qual motivo?
-Seus pais... — comecei.
-O que têm eles?
-Onde estão?
Ela pareceu triste.
-Morreram faz um tempo. Minha avó me ajuda, mas não quero morar com ela. Vivo aqui, sozinha.
-Sinto muito.
-Tudo bem — Sorriu ela. Ela pareceu animada de repente. — Já sei! Poderia morar comigo, não? Sou sozinha e você também!Poderíamosajudar-nos sempre! O que acha?
-Ah... Mas é claro. — Respondi. Eu não conseguiria dizer não para ela.
-Olhe só, eu já estava me esquecendo. Aqui. — Ela me entregou um pacote com estranhas balas pretas com um papel junto. -Até onde sei, essas balas podem evitar que você se transforme. Coma uma nas noites de transformação.
-Onde foi que você...?
-Em lugar nenhum. Não precisa agradecer.
Um trovão explodiu nos céus. Ela deu um grito de terror e agarrou-se a mim. Percebendo o ato, ela se afastou.
-Desculpe.
-Tudo bem. V... Vamos nos deitar.
Deitamo-nos em sua cama e ali dormimos, e todas as noites isso repetíamos, como forma de apaziguar o coração de minha pequena e nova amada. Começamos a trocar leves beijos e carícias, e ela com plena consciência disso tudo.
Começamostudo quando ela tinha somente nove anos. Tudo isso durou até seus doze, quando a menina começou a desenvolver a personalidade antes atenuada: segura e ambiciosa.
Ela mostrou-me tudo isso da pior maneira possível.
Em uma bela manhã, acordei sem ela aos meus braços, como era normal. Presumi que ela tinha ido cedo visitar a avó, e que, nesse caso, demoraria a chegar. Essa manhã eu comi sozinho.
Ela chegou quando o sol já estava se pondo, com uma expressão assustadoramente decidida (ou decididamente assustada?). Peguei-a em meus braços e senti que estava tremendo.
-O que houveMaira? Parece...
-Assustada?- ela completou. — Sim, estou, e bastante.
Deitamos-nos na cama novamente e ela começou.
-Minha avó... Minha querida avó... — ela estava com a voz embargada. — Descobri hoje que devo matá-la!
-Como disse?- Achei estranho. Maira sempre gostara muito de sua avó. Quando não estava comigo estava na casa de sua parenta, e geralmente tardava sair de lá.
-Descobri algo grave.
-O que? Diga!
Ela olhou a sua volta, quase aos prantos. — Ela é uma bruxa, do pior dos tipos!
-Mas como soube?
Ela não respondeu. Começou a chorar fortemente, e a tomei em meus braços tentando apaziguá-la.
-Não quero ter de fazer isso, mas... Mas eu devo... Eu sinto...
-Shiii... Acalme-se...
Ela estava ali, chorando de forma que jamais vi, e de repente notei que eu nunca a vira chorar.
-Leo...
-Diga.
Ela me olhou nos olhos.
-Me ajudaria?
Ela havia me pegado. Ajudar uma criança a matar? Parecia absurdo um ser que devia ser dos mais inocentes querer matar, mas ela tinha seus motivos. Eu devia dizer sim ou não? Eu refletiria.
-Sim, ajudo sim.
Mas meu amor por ela falou mais alto, e já era tarde demais.
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Ela tinha feito um plano, que, por pedido meu, evitaria que ela visse qualquercena. Eu iria até a cabana de sua avó e bateria a porta, com uma sequencia que somente elas duas usavam; depois de aberta, atacaria a velha com um golpe mortal e limpo ao máximo, evitando atingir algum órgão, como foi pedido, e em seguida, preparar um banquete com a carne e sangue da mulher. Foi a coisa mais macabra que eu já ouvira ou faria, mas eu já estava cego, e fiz tudo como planejado.
Eu realmente fiz tudo, e esperei por Maira já de noite. Ela chegou e pulou em meus braços.
-Obrigada, Leo.
Ela se sentou e eu a acompanhei, mesmo eu me recusando a comer ou beber algo daquela mesa.
-Ahh..., Maira.
-Sim...
-Isso tudo... Para quê, exatamente?
Ela olhou para mim de uma maneira iluminada.
-Veja. Conta a lendaque, ao comer a carne de uma bruxa, você consumirá todo o poder de outrora. Uma outra diz que, ao comer da carne de alguémmais velho, vai tambémenvelhecer.
-Você vai ser idosa?
-Ora, claro que não. Eu não seria louca. Para ser realmente uma feiticeira, eu devo já ser adulta, mas serei uma jovem, não se preocupe. Assim, poderei tirar-lhe o fardo de ser um lobisomem, e poderemos fazer uma nova vida juntos e longe daqui.
Era isso! Ela realmente me amava!
Ela começou a comer. Por toda noite eu a observei. Ela comia lentamente, e lentamente eu via seu corpo crescendo e desenvolvendo-se. Seu vestido apertara bastante, mas ela parecia não se importar. O Sol estava quase nascendo quando ela terminou sua refeição. Ela parecia ter um pouco menos que minha idade, 25 anos.
-Prontinho!- ela anunciou, de pé, abrindo os braços — Venha, dê-me um abraço, pois você merece.
Aproximei-me dela lentamente, não acreditando a grandiosidade de meu ato. Ela beijou-me e foi guiando-me para trás, até que tropecei e cai na cama da falecida mulher.
-Obrigada, meu querido Leo.
Ela continuou com os beijos, agarrando meu rosto com suas mãos.
-Desculpe-me.
Eu iria reagir e perguntar o motivo, mas ela foi mais rápida.
Gritei como eu nunca pensaria em gritar.
Ela pulou com a agilidade de um felino no chão, segurando meu olho direito triunfante, enquanto eu agonizava a dor de ter um órgão retirado com tanta violência.
-Como!?... Como pôde?!
-Desculpe Leo, mas foi preciso.
Ela lentamente engoliu meu olho, sem mastiga-lo, aparentemente. Seus olhos brilharam em um estranho tom de vermelho e ela vomitou um rubi.
-Me explique...Argh!... Por quê?
-Ora — ela olhou-me com desprezoe pegou seu rubi para limpá-lo no vestido- Minha avó era a atual Lupa. Eu queria esse título, mas antes ela devia morrer e eu, amadurecer. Mas eu não tinha tempo para isso, meu amor. — Ela se aproximou de mim, e me enfeitiçou de modo que eu não podia me mexer. — Lobas não podem matar umas as outras, e elas só podem ser mortas por lobisomens. O ritual inclui também engolir o olho direito de uma dessas criaturas. Eu só tenho a lhe agradecer, meu amor, mas nossa história acaba por aqui.
-O que...
-Quer perguntar alguma coisa?
-Por favor... Você, em algum momento, foi sincera comigo?
Silencio e espanto dela. Ela continuou a me encarar.
-A floresta sempre me foi segura, e você é realmente belo.
-Algo mais?
-... Ora, está tentando tramar algo? — ela esquivou-se. — Desculpe, mas aqui, hoje, sua existênciatermina.
Ela apontou para uma bancada de madeira, que logo começou a pegar fogo, e eu ali, paralisado, a vi indo embora, com seus pés descalços, roupa rasgada e cabelos crescidos até a coxa. E sabia que ela não voltaria.
Quando eu já estava perdendo as esperanças, vendo grande parte da casa já incendiada, eu finalmente consegui me mover. Levantei-me no mesmo instante e sai o mais rápido que pude da casa já destruída, chorando a traição de minha amada.
Eu realmente decidi esquecer Maira, mas até hoje, dez anos depois, lembro-me de cada detalhe de seu rosto e de cada momento daqueles anos em que eu descobri (ou pensava ter descoberto) o que era o amor e o quanto ele podia doer. Escrevi isso, pois eu já estava me sufocando em lágrimas por estar prendendo tudo isso.
Mas, o pior de tudo, eu sabia que eu ainda a amava incondicionalmente, apesar de tudo, e queria que alguémsoubesse disso.
Leo.
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O diário tinha terminado. A bruxa que devastara a pequena vila leu cada palavra com atenção. Agora se encontrava em um pranto silencioso enquanto abraçava o pequeno diáriodo último homem que matara.
Ela se deitou com o corpo do homem morto e chorou.
-Leo, por favor... Desculpe-me...
Notas finais
Pretendo fazer mais, mas por enquanto é só isso.
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