Sangue Sobre Tela
6 Capítulo 6
Notas iniciais
O relógio mostrava exatas 18:30. Victor saiu de seu apartamento ainda terminando de vestir uma jaqueta de couro preto, entrou no elevador, chegou ao térreo. Caminhou com passos rápidos em direção a um pequeno estabelecimento no fim da rua. O sininho da porta, o único método de segurança ali, anunciou a entrada. Um açougue, simples, mas de aparência limpa. Estava com a plaquinha de aberto, porém vazio:
–Olha só!- Uma cabeça repleta de fios loiros desgrenhados, presos em um elástico rosa, surgiu de trás do balcão- Um ultimo cliente para fechar o dia- a jovem sorriu, recolocando as luvas brancas de plástico- diga, em que posso te ajudar?
–Eu quero um quilo de filé mignon, por favor- sorriu de volta.
–Poxa, o filé acabou, vou pegar uma peça no estoque e fatio pra você. — virou-se para passar por uma pequena porta.
–Eu poderia ir junto?- perguntou inesperadamente o jovem- sempre tive curiosidade de saber como é um frigorifico, como é feito o resfriamento, se é realmente limpo... E alias, é um direito do consumidor, não? – Sorriu levemente corado.
–Ah! Claro, pode vir sim- Riu a garota de olhos castanhos, abrindo a lateral do balcão para que ele passasse- Qual seu nome?
Victor- sorriu estendendo a mão para cumprimenta-la. — E você?
Jeniffer- apertou a mão do pintor- Prazer em conhecer, Victor.
Caminharam por um corredor cercado de salas cheias de plásticos, caixas, maquinas e outras ferramentas. Chegaram a uma grande porta branca com uma janelinha quadrada de vidro:
–É aqui, melhor vestir isso. — Indicou com a mão um cabide cheio de casacos de tecido prata laminado. Vestiram-se e entraram na sala.
–Como é frio aqui!- Victor passou os braços em volta do corpo tentando se aquecer.
–É a temperatura ideal para manter a carne, -15° Celsius. Aqui nos guardamos os produtos, os filés nesses ganchos menores, as peças inteiras nesses ganchos maiores. Todos são etiquetados para não vendermos nada errado para o cliente.
–Interessante – Victor caminhou na direção da moça que estava virada de frente a um grande pedaço de carne, lendo sua etiqueta. Em um puxão forte o artista arrancou-lhe o casaco e a lançou-a na direção da peça que observava, o gancho de metal atingiu sua testa abrindo um corte.
–O que você pensa que esta fazendo, seu louco?!- Jeniffer tentava estancar o sangramento com a mão.
–Você pode ser uma linda obra de arte...- se aproximou.
–Saia de perto de mim, seu maníaco!- gritou.
Victor desferiu seu sorriso mais angelical, a cada passo do pintor a açougueira recuava dois, até tropeçar e cair sobre uma estante cheia de ferramentas. Ainda sorrindo segurou os ombros da moça que o golpeou com a primeira coisa que conseguiu pegar, uma pata de vaca, que estava em um saquinho transparente, nada genial. O jovem cambaleou e riu ao ver a arma da loira:
–Isso não foi muito esperto da sua parte, querida- riu, mas antes que pudesse reagir, a pata voou na direção de sua cabeça atingindo seu nariz — O que é isso? Meu Deus!- Surpreso, pois as mãos no nariz que agora sangrava.
–Seu babaca, mexeu com a garota errada!- A primeira frase de efeitos, daqueles filmes de super-heróis, que se lembrou.
Jeniffer se jogou sobre ele, agarrando seus cabelos negros e o lançando na direção da estante, o corpo doía por causa do frio, mas não se deixava abater.
Victor bateu as costas no mesmo móvel que ela havia tropeçado e escorregou até o chão, varias ferramentas caíram sobre sua cabeça, a jovem sentou-se sobre as pernas do rapaz impedindo que ele as movimentasse, socos, tapas e unhadas eram desferidos sobre seu rosto alvo, as mãos dele varriam o chão em busca de algo que parasse sua ex – vitima que agora se levantava de cima dele.
Jeniffer chutou-o diversas vezes. Estava passando de roxa a azul por causa do frio, seus movimentos estavam mais difíceis, o corpo dolorido. Quando já estava dando a briga por terminada, Victor puxou um de seus pés, tombando-a de costas e golpeando sua cabeça com um martelo de carne que havia caído perto de suas mãos. Desesperada, desferiu um chute no queixo do moço e assim que tentou se levantar sentiu algo pontiagudo dilacerar sua barriga, um espeto de metal para afiar facas:
–Já chega de lutar querida. – Victor se arrastou até ela e tocou seu rosto, a mão da jovem foi na direção de seu agressor, mas ele a segurou e prendeu-a ao chão com uma faca que estava ao seu lado– Parece com frio, machucada, descanse um pouco – o artista, pegou um grande gancho de carne caído no chão e bateu com ele na cabeça da garota, vezes o suficiente para que seus cabelos loiros ficassem com mechas vermelhas. Jeniffer ainda estava consciente, mas o frio e a perda de sangue lhe impediam de reagir. – Já chega não? Eu preciso ir para casa, fazer uns curativos. – O rosto de Victor escorria sangre, repleto de cortes pela face, pescoço e ombros, seu lábio inferior estava roxo e inchado, seu nariz talvez estivesse quebrado e havia feito um corte feio na perna ao cair sobre algumas ferramentas, a roupa suja e com alguns rasgos, seu couro cabeludo tinha alguns cortes ocasionados pelas unhas pintadas em cor de rosa.
–Santo Deus, nunca mais comerei carne! – a esposa de um dos críticos dizia, suas mãos com gigantescas unhas pretas pareciam coladas sobre os lábios vermelho-sangue- Santo Deus! Santo Deus!
–Acalme-se querida, apesar de que realmente, esta é uma tela mais forte que as tradicionais. – O homem de meia idade abraçou sua esposa, que era no mínimo uns quinze centímetros mais alta que ele. A tela, que causava tanto pânico na mulher de longos cabelos negros, mostrava uma garota vestindo regata e calças brancas, dependurada por ganchos que atravessavam suas mãos, a pele estava azulada provavelmente por causa do frio que sentia, seu abdômen havia sido aberto e as vísceras escorriam até o chão, o coração, o estomago e o fígado estavam presos em ganchos menores ao lado da vítima, os cabelos loiros na altura dos ombros se misturavam ao sangue, alguns de seus dedos haviam sido arrancados e estava no chão, perdidos em uma enorme poça de sangue, o cenário se resumia a um frigorifico, pedaços e mais pedaços de carne presos por ganchos do mesmo jeito que a garota. – Alguém já descobriu quem é esse pintor psicótico?
–Não. — uma jovem, vestida em um longo vestido azul, que admirava outro quadro do artista respondeu ao senhor de baixa estatura- Mas os críticos já estão fazendo apostas, o criador dessas obras é um homem ou uma mulher?
– Se é homem ou mulher eu não faço ideia, mas é um desequilibrado! – A mulher, enjoada, correu para fora da galeria em direção à vasta noite lá fora.
Rolava na cama sem conseguir dormir. O barulho vindo da avenida em frente do prédio, as luzes dos postes de iluminação, o vizinho do lado que dava uma festa. Há quanto tempo não dormia?
Levantou e caminhou rumo ao banheiro, a imagem no espelho não era nenhum pouco agradável. Cabelos desalinhados, olheiras profundas, o corpo mais pálido e magro que de costume.
Correu até o quarto, pegou uma mala e encheu-a com roupas, desceu pelo elevador, entrou no carro. Sabia exatamente aonde ir. O painel por trás do volante mostrava 3:45 mas, como em Los Angeles o turismo é intenso, os aeroportos estariam funcionando naturalmente. Pegou o celular:
–Alô, eu gostaria de comprar uma passagem aérea com destino à Monroe na Geórgia, para hoje,
–O próximo voo é para as 6 horas da manhã. Pode ser este? -disse voz feminina levemente sonolenta.
–Ótimo!- terminou a compra e pisou no acelerado rumo a sua noite de sono.
Como sempre o aeroporto estava movimentado e barulhento, mas o voo foi tranquilo. Ah! Sua cidade natal. Lembrava-se de cada centímetro daquele local. Hospedou-se em um pequeno hotel. Dormiu como há anos não dormia. Um sono profundo e sem sonhos. Quando acordou o dia já havia anoitecido, amanhecido e já entardecia. Resolveu caminhar, havia um lugar onde precisava ir. Uma pequena torre de astronomia.
Caminhou pelas ruas, os movimentos no automático seguindo apenas as lembranças nostálgicas. A pequena torre não havia mudado nada, feita de tijolos de pedra, uns 10 metros de altura, a grande porta de madeira com duas folhas. Entrou. A gigantesca escada caracol ainda estava lá, estreita e incrivelmente alta. Cair ali com certeza era uma passagem para outro plano. Subiu. Antes de chegar à ampla varanda de observação começou a ouvir vozes, decidiu esperar:
–Você não sabe o que esta falando, Ethan! – gritou uma voz feminina.
–Chega! Eu vou embora Michelle! Estou cansado de você, dos seus chiliques! Eu vou embora! – dessa vez uma voz masculina gritou de volta.
Antes que Victor pudesse reagir, um jovem alto e loiro saiu pela porta. Os ombros largos o davam uma aparência de jogador de futebol americano. O de cabelos pretos encolheu-se perto da parede para que o outro rapaz passasse, mas a escada era realmente estreita e os dois se trombaram, fazendo o copo de café com chantily que Ethan segurava caísse e se espatifasse. O loiro, que parecia cada segundo mais furioso, desceu as escadas sem se importar com a bebida. O barulho do motor de uma moto surgiu e em seguida se afastou até se tornar inaudível, Victor desviou da mancha escorregadia e acessou a varanda:
–Ethan! Volta aqui! – a dona da voz feminina apareceu, cabelos castanhos claros em cachos grandes na altura dos ombros, olhos verdes. A calça jeans justa delineava o corpo magro.
–Moça, cuidado! – Victor segurou delicadamente a manga da blusa verde musgo da jovem– O rapaz acabou de derrubar...
–Saia da minha frente! – livrou-se violentamente da mão do jovem– Ethan! Ethan!
Michelle marchou pela pequena porta fazendo o lenço marrom em seu pescoço flutuar. Victor a seguiu até ver a cena que já esperava. Os saltos das botas marrons escuras escorregaram sobre o chantilly, a garota caiu de costas e rolou a gigante escada caracol, iniciando um loop infinito de cambalhotas, seus membros esguios se dobravam em formas anormais, o som de ossos se quebrando se instalou no local. No fim dos degraus, o corpo provavelmente já sem vida caiu sobre o chão agora plano.
Victor desceu as escadas o mais rápido possível:
–Sinto muito Michelle, eu tente te avisar, querida – o jovem de cabelos negros se abaixou para olhar melhor o corpo– mas agora, que já esta morta, seria um desperdício não te transformar em uma bela obra de arte– jogou para trás o cachecol vermelho que usava sobre a jaqueta preta .
–Esse quadro não parece ser feito pelo artista que conhecemos– um homem alto e ruivo aproximou-se da obra quase a ponto de seu nariz comprido tocar na tela– Ele está mesmo no lugar certo?
–Parece tão mais leve, mais sutil... – uma jovem asiática sorriu diante do quadro.
O quadro que causava tanto alvoroço mostrava uma jovem de cabelos castanhos claros cacheados, caída de costas aos pés de uma gigantesca escada caracol, seus braços estavam virados em ângulos anormais, as pernas visivelmente quebradas, a cabeça apoiada sobre o ultimo degrau, o corpo magro e esguio da jovem parecia uma marionete sem cordas, enormes hematomas se formavam. O rosto parecia intacto, exceto um roxo que descia da testa até um dos olhos. Uma fina lagrima escorria pelo canto do olho não atingido, mas ainda sim, a garota trazia um semblante tranquilo, sereno, quase feliz. Em uma pequena janela na torre era possível ver, em tons de rosa, laranja e azul, o dia nascendo.
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