Sangue Quente - O Contágio
23 Capítulo Vinte e Três
Entramos na casa maior, e meu avô está na sala de estar sentado em uma cadeira de balanço. Ele se levanta e dá um abraço apertado em Jenna, depois em mim e em minha mãe. Ele evita abraçar meu pai, pois vê que seu braço está machucado.
– O que aconteceu com você, Charles? Pelo amor de Deus, não me diga que foi mordido por um daqueles filhos do demônio! — Fala meu avô, muito apreensivo.
– Não, ele caiu e quebrou o braço. — Responde minha mãe. — Ele precisa descansar, e tomar um bom banho pra ver se a febre baixa.
– Claro, vocês sabem onde fica o banheiro e os quartos, podem se dirigir pra lá. Mas e vocês... — O olhar dele vai de Adrian a Misty. — Quem são?
– São uns amigos. A garota estava perdida em um pequeno vilarejo e o rapaz vem nos ajudando a nos manter vivos desde que nos encontramos. — Diz meu pai, com uma voz fraca. Ele ainda deve estar sentindo dor. — Ela é Misty, e ele Adrian.
– Muito prazer. — Meu avô faz um leve aceno com a cabeça e volta a se sentar na cadeira.
A casa é muito grande e muito bem arejada, tem janelas grandes por toda a porta, porém todas são gradeadas. Tem Quatro quartos no andar de cima, aqui em baixo tem uma suite, duas salas e uma cozinha que faria inveja a muitos chefes por aí no andar térreo. Meus pais e minha irmã se dirigem a um dos quartos, enquanto o restante de nós fica na sala com meu avô.
– Filhos do demônio, então é assim que o senhor chama eles? — Pergunta Misty.
– Exatamente. Mas acho que cada um de nós deve ter seu modo peculiar de nomear essas criaturas. — Responde ele, encarando Misty e Adrian com um olhar indiferente, um olhar de desconfiança.
– Então... — Tento melhorar o clima da conversa mudando de assunto. — A gente puxa a água do poço aqui não é vovô?
– Sim Rich, e pegamos a água da chuva também, mas precisamos economizar, porque acho que a água daquele poço está secando.
Somos interrompidos por reclamações vindas do corredor mais a frente que conduz as escadas que levam para o segundo andar da casa. Ele parece estar amaldiçoando o momento que quebrou o braço, e também porque a água do chuveiro está extremamente gelada.
– Ah é, esqueci de avisá-los sobre esse detalhe. A fazenda está sem energia, já faz uma semana que tudo parou de funcionar. Aquelas cercas elétricas sobre um muro se transformaram em só mais um enfeite. — Ele suspira e continua. — Desde que acabou a energia eu quero ir em alguma cidade próxima para procurar algum gerador. Mas estou velho demais pra sair correndo por aí atrás de algum tesouro perdido. E não posso mandar o Ben sozinho numa missão dessas.
Penso um pouco e lembro do homem que abriu o portão para nós, ele deve ser o Ben.
– Bom, agora que estamos aqui, nós podemos ir. — É Adrian quem está se oferecendo. — Só precisamos de uma noite para descansar da jornada na estrada e já podemos ir.
– Tem certeza que isso é uma boa ideia? A cidade mais próxima está a quilômetros de distância daqui. — Misty vai continuar seu protesto, mas resolve parar ao receber um olhar de desaprovação total de Adrian.
– Se vocês pudessem fazer isso, eu agradeceria muito. — Meu avô olha para mim. — Cresceu bastante heim rapaz? Acha que dá conta de fazer isso pro velho aqui?
– Claro que sim vovô!
– Então agora você não pede mais permissão pra sua mãe para fazer as coisas? — Mamãe está vindo até nós, com dificuldade em locomover a cadeira de rodas por ela estar bem cansada. — Não é porque o mundo está desse jeito que você pode agir por conta própria como se não tivesse uma mãe que se preocupa com você!
– Mas mãe... Precisamos ir atrás desse gerador! Se eu e o Adrian não fomos, quem mais vai? O papai precisa se recuperar e não podemos esperar por isso. — Protesto e meu avô balança a cabeça, concordando comigo.
– Sim Clarice, ele está certo. Você precisa ter fé nele, precisamos que alguém vá. Ele, e esse rapaz... Adrian não é? Eles podem ir acompanhados pelo Ben, ele conhece uma cidade não tão longe, onde comprávamos as coisas para manter a fazenda. Lá deve haver geradores. Precisamos que alguém faça isso.
– Ah, se for assim eu vou também. — Fala Misty sobre Adrian. — Será mais divertido do que ficar aqui.
– Não acho necessário levarem uma garota com vocês.
Misty fuzila meu avô com o olhar ao ouvir ele dizer isso. E antes dela poder dar uma resposta, escuto o som de latidos vindo do fundo da fazenda e um sorriso enorme se forma em meu rosto.
– Você ainda tem eles vovô? Pensem que tivessem morrido.
– Estão velhinhos, mas ainda são ótimos guardas pra minha fazenda.
Corro para fora da casa, com Misty vindo atrás de mim. Vou em direção a parte norte da fazenda, e enquanto avanço, chamo pelos nomes:
– Melky! Apollo! Melky!
Vejo aquelas duas silhuetas correndo até mim, fico parado, e sinto Apollo saltar sobre mim. Enquanto Mel lambe meus pés. Caio no chão, com os dois cachorros sobre mim, fazendo a maior festa. Estou contente por se lembrarem de mim. Eles são da raçaborder collie, pretos com manchas brancas. São os cachorros mais lindos e inteligentes que eu conheço. Mel, a fêmea é mais recatada, já o Apollo o macho, é bem mais bagunceiro. Mas os dois sempre foram guardas excepcionais dessa fazenda.
– Como vocês estão lindos ! — Falo, enquanto brinco com os cães, voltando a ser crianças.
– Que coisinha mais fofa, Misty se abaixa e no mesmo instante Mel rosna para ela.
– Tudo bem garota, ela é nossa amiga! — Falo, acariciando a cabeça da cachorra que pare de rosnar no mesmo instante.
Me levanto, e vejo Ben passando por nós. Os cachorros seguem ele, fielmente. Faço o mesmo junto com Misty.
– Preciso conferir o motivo pelo qual eles estavam latindo.
Chegamos ao fundo da fazenda. Ali tem uma plantação com várias hortaliças e legumes, tudo está muito bem cuidado. Não me lembro disso das últimas vezes que vim aqui. Depois de uma pequena análise, percebemos porque os cachorros estavam latindo. É só um pequeno camundongo correndo pelo meio das plantas. Ben, depois de algum sacrifício consegue agarrar o bicho pelo rabo e o leva para joga-lo do lado de fora da fazenda.
– Ele deve ter conseguido escalar o muro. — Digo, enquanto Misty e eu vamos caminhando de volta para casa, com os cachorros correndo a nossa frente.
– Pois é, que cara otário, devia matar logo aquele bicho. — Misty está se referindo a Ben. — Ele vai voltar se simplesmente coloca-lo lá fora.
– Vai ver ele não gosta de matar se não há realmente necessidade para isso.
Ela fica em silêncio. Entramos na casa e minha mãe está conversando com meu avô e Adrian.
– Sua irmã e seu pai estão no quarto, dormindo. Você devia fazer o mesmo, já que vai sair em uma aventura. — Percebo que ela ainda não concordou com essa ideia.
Assinto com a cabeça e subo, passo pelo quarto onde está meu pai, ele está na parte debaixo de uma beliche e Jenna dorme na parte de cima. Há outra cama vazia nesse quarto, mas quero ficar sozinho, então me dirijo para o outro cômodo onde tem uma cama de casal bem espaçosa.
Me deito ali, fecho os olhos e tento dormir, mas não consigo. Fico me lembrando da minha vó. Tenho cochilos rápidos que sempre são acompanhados por pesadelos que me despertam. Pesadelos nos quais vejo todos de minha família sendo mortos, assim como Adrian e o caseiro Ben, mas eu não consigo ver quem está matando eles. Não parece ser um zumbi, mas o rosto da pessoa está distorcido para mim. Quando finalmente vejo o rosto do assassino, eu desperto. Assustado. Quem matava todos ao meu redor, era Misty.
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