Disparamos o carro em direção a estrada de terra que conduz a cabana. Ouvimos a explosão do coquetel que Adrian jogou logo atrás de nós e vemos um clarão no que antes era a concessionária. A combinação de fogo com vários carros com o tanque cheio de gasolina vai ser catastrófica. Meu pai acelera o carro o mais rápido possível, mas a rua está escura e é difícil até mesmo enxergar os zumbis, que aparecem como fantasmas na frente do carro. Podemos sentir eles sendo esmagados pelas rodas. Ouvimos outra explosão, o fogo deve ter atingido um dos tanques de gasolina, não vai sobrar nada daquele lugar.

Atingimos a estrada de terra, olho pra trás, resta apenas alguns zumbis perdidos indo em direção a concessionária, uns poucos andam na direção do carro. Mas conforme avançamos perco eles de vista. Levamos um pouco mais de tempo para chegar a cabana por causa da chuva que não cessa. E ao chegarmos vemos minha mãe na entrada, em meio ao barulho de trovões ao longe ouço ela gritar:

- Graças a Deus! Por que vocês demoraram tanto? Eu estava tão preocupada.

- Aconteceu alguns imprevistos, mas estamos todos bem. — Responde Adrian, encarando Don, como se o culpasse por tudo que aconteceu.

- O que é isso na sua cabeça Richard?

- É só um machucado mamãe, estou bem.

Meu pai caminha até onde está minha mãe e a abraça para acalma-la. Entramos na casa, e Adrian vai direto para o corredor onde a tragédia toda aconteceu.

- Charles, vou precisar da sua ajuda aqui. — Chama ele.

- Já estou indo. — Responde meu pai, enquanto acaricia o rosto da minhã mãe, que já está mais calma.

Don foi direto para o quarto onde deixou Hanna e se tranca lá.

Adrian está ajoelhado no chão, ao lado dos corpos inertes da pequena Tina e de Grace. Elas estão cobertas por um lençol branco.

- Precisamos enterra-las. Podemos fazer isso lá nos fundos do quintal, perto das árvores. Temos que pelo menos dar um enterro digno a elas. — Fala Adrian, olhando para meu pai que acabou de chegar no corredor.

- Sim, mas como essa chuva vai ser um pouco difícil fazermos as covas, você não acha melhor esperarmos ela diminuir? — Digo, olhando para os pés da pobre garotinha que não estão totalmente cobertos.

- Não podemos deixa-las aqui. Olha, eu posso cavar sozinho então.

- De maneira alguma. — Responde meu pai, caminhando até Adrian e colocando a mão em seu ombro. — Vamos ajuda-lo sim.

- Ótimo. Tem uma pá lá nos fundos da casa, podemos usá-la.

***

A terra está úmida por causa da chuva o que facilita o trabalho. Em menos de uma hora as duas covas já estão prontas. Não ajudei muito, afinal só tinha duas pás na casa, e uma delas estava com um pedaço quebrado o que atrapalhou um pouco. Adrian volta para a cabana e me pede para ir com ele ajudar a trazer os corpos. Don ainda está trancado no quarto, todos sabemos o que vai acontecer a Hanna agora que ela foi mordida, mas ninguém faz nenhum comentário sobre o assunto.

Ajudo Adrian a posicionar o corpo de Grace na cova maior e o de Tina na menor. Logo em seguida meu pai começa a enterra-las. Fico ali observando até que o trabalho esteja completo.

Ao terminar, voltamos todos para a cabana. Adrian é o primeiro a ir para o banho, enquanto eu e meu pai ficamos esperando nossa vez. Ouço a porta do quarto onde está Hanna se abrir, e Don sai de lá com lágrimas nos olhos e faz um pedido horrorizante para meu pai:

- Charles, você poderia me emprestar uma arma com aquele silenciador que você disse que tinha?

- Pra que você quer isso Donovan?

Ele não aguenta e desmorona em lágrimas, é a primeira vez que vejo um homem chorar daquele jeito. Sinto pena dele.

- Cara a Hanna, o rosto dela está horrível. E ela me pediu para... Não, no que eu me tornei? Jamais poderia atender ao pedido dela... Jamais.

- Calma, fica tranquilo e me explica o que ela te pediu.

Ele chora muito e está aparentemente descontrolado. Mais do que estava quando saiu para a cidade.

- Ela me pediu para matar ela! Eu não posso fazer isso, deve haver outro jeito...

- Não amor, não há outro jeito. – Me viro e vejo Hanna caminhando até nós, o rosto dela está inchado, está irreconhecível e ela tem dificuldade para falar. – Você não precisa fazer isso, eu mesma posso fazer.

- Não! Eu não vou deixar que você tire a sua vida, jamais! Eu te amo, eu não posso perder você!

- É perigoso pra todos aqui que eu continue viva. Eu também te amo querido, e acredite, isso é o melhor a fazermos.

Estou chocado com toda essa situação. Eu entendo Donovan, jamais mataria a mulher que eu amo. Meu pai também parece chocado.

- Charles, me dê a arma, por favor. – Pede Hanna, estendendo a mão. A coragem dela é algo incrível. Se sacrificar pelo bem dos outros, ela realmente é uma grande mulher, deve ser por isso que Don a ama tanto.

- Acho que cada um de nós tem o direito a escolher o que acha melhor. Se ela quer isso, não podemos impedi-la. – Fala meu pai, com um ar de tristeza por toda aquela situação. – Vou pegar a arma e te entregar, mas pense bem antes de fazer qualquer coisa.

Don continua chorando sem parar, agora sentado no chão. Hanna se abaixa ao lado dele. Aproximadamente 2 minutos depois, meu pai retorna segurando em sua mão uma arma já com o silenciador embutido.

- Por favor, pense bem no que vai fazer. – Diz ele, enquanto entrega a arma para ela.

Hanna segura a arma, analisando-a. Se levanta e dá um beijo na testa do marido.

- Vou lá fora, não quero que você veja isso. – Fala ela, olhando carinhosamente para Don. — Eu te amo querido, nunca se esqueça disso. E seja forte.

Don faz mais uma tentativa de impedi-la, tenta segura-la, mas ele percebe que não há outros jeitos. É a vontade dela e ele precisa aceitar. Hanna caminha até os fundos do quintal, onde acabamos de enterrar Grace e Tina. Ela olha para trás e nos lança um olhar triste de despedida.

- Boa sorte para vocês. – É tudo que ela diz e caminha em direção a sua morte.

Ainda estamos no corredor, Don ainda chora. Vejo Adrian sair do banheiro e vir até nós para ver o que está acontecendo, no mesmo instante em que ouvimos um barulho abafado de tiro. Está feito. Don corre na direção em que Hanna foi. Eu e meu pai vamos atrás deles, e Adrian, ainda sem entender, nos segue.

Em meio a chuva, que está começando a diminuir, vejo Hanna caída no chão, a arma ainda na mãe dela e Don abraçado ao seu corpo, chorando desesperadamente.

- Não, eu não vou conseguir sem você! – Grita ele, para a esposa morta, como se ela pudesse ouvi-lo.

Arregalo os olhos, quando o vejo retirando a arma da mão da esposa e colocando o cano dela dentro da boca. Meu pai arregala os olhos e corre para tomar a arma dele. Mas antes que ele posso impedi-lo, Don dispara a arma e cai imóvel no chão.

Meu pai para, e fica apenas observando a cena. Vejo lágrimas escorrerem pelo rosto de Adrian, a pose de cara animado parece ter sumido por alguns minutos. Ele vai até o corpo do primo, pega a arma e entrega para meu pai e apenas diz:

-Vamos lá, precisamos cavar mais dois túmulos.

Dessa vez, sou eu quem ajuda Adrian, lágrimas continuam escorrendo pelo seu rosto. É um sofrimento silencioso, ele não grita, não pragueja. Apenas tenta se conformar. Depois de colocar os corpos nos túmulos e enterra-los, Adrian se ajoelha e faz uma oração. Pede pra Deus ter piedade daquelas almas e nos proteger. Sinto um aperto no peito, e sem que eu consiga controlar, lágrimas escorrem pelo meu rosto também.

Voltamos para a cabana e vamos direto para a cozinha. Onde meu pai já contou para minha mãe o que aconteceu. Ela está triste também. Jenna e Misty estão sentadas na mesa e ouvem a tudo caladas.

***

O jantar está servido. Macarrão com sardinha novamente. Adrian não quer comer, apenas fica parado ao lado da pia da cozinha, vendo pela janela uma fina garoa que insiste em cair. Comemos todos em silêncio. Não sei como vai ser daqui pra frente. Mas não quero continuar nessa cabana, mesmo sendo um lugar bom, afastado dos zumbis, com comida e água, não quero permanecer aqui depois de todas essas mortes. Não quero conviver com os fantasmas que iram assombrar esse local. Olho para meu pai, ele esta com um olhar indecifrável, mas quando ele fala, percebo que está com o mesmo pensamento que eu:

- Talvez esteja na hora de irmos embora.

- É, está mesmo. – Fala Adrian olhando para meu pai. – E eu vou com vocês.