Sangue Quente - O Contágio
8 Capítulo Oito
Donovan engata a marcha ré e acelera o carro.
– O que você está fazendo? O carro com minha família está lá na frente! — Grita meu pai, suas palavras abafadas pelo barulho forte do motor.
– Não tem como passar por lá colega. — Donovan diz, enquanto faz uma curva sinuosa e entra em uma rua comprida, com várias casinhas simples. Penso nas famílias que deveriam viver aqui, os pais que saíam cedo pra trabalhar, as mães que arrumavam os filhos para ir à escola. Será que não tem mais ninguém vivo por aqui? Mas me livro logo desse pensamento e volto a me concentrar na rua. No final dela, posso ver uma pequena estradinha de terra.
– Tem vários carros no meio do caminho. Você veio de lá, deveria ter prestado atenção nisso. — Volta a dizer Donovan, com um tom de sarcasmo na voz.
Meu pai assente, como que recordando a cena dos carros ocupando toda a estrada. Mas continua nervoso.
– É, mas precisamos pegar minha família!!
– Nós vamos chegar até eles, estou só pegando um caminho que não tenha tantos "obstáculos".
Entramos na estrada de terra e depois de uns 300 metros, Donovan freia o carro e manda todos descerem.
– Estão vendo essa pequena trilha? — Pergunta Donovan apontando para a direita. — É um atalho para a estrada pouco antes de entrar na cidade, provavelmente vai dar onde sua família está.
Sem esperar por mais nada, meu pai dispara na direção que Donovan apontou. Fazemos o mesmo e vamos correndo atrás dele. Uns 500 metros a frente já podemos avistar o acostamento da estrada, e a silhueta de alguém. É misty. Ao ouvir o barulho de nós nos aproximando, ela se assusta e atira em nossa direção. Mas o tiro acerta uma árvore, não chega sequer a passar perto de algum de nós. Nesse momento agradeço pelo fato dela não saber atirar muito bem.
– Mandem a garota da arma e as outras que estão no carro correrem pra cá, aquela "distraçãozinha" que criei não vai segurar os zumbis por muito tempo. E esse tiro vai atraí-los mais rápido ainda. — Adrian não diminui o passo enquanto fala.
Meu pai nem responde, está desesperado para chegar no carro. Mamãe. É por isso que meu pai não pode simplismente gritar para elas correrem pra cá. Ele precisa tirar a cadeira de rodas do carro. Jenna e Misty iriam demorar demais pra fazer isso. E também Jenna não está em seu juízo perfeito. Ela ainda precisa de um tempo pra melhorar e aceitar os acontecimentos.
Papai chega no carro antes de todos nós, e Misty está com a arma abaixada, falando sem parar. Ela está falando muito rápido, as poucas palavras que consigo entender são "Me desculpe senhor, pensei que eram aquelas criaturas". Meu pai ignora os pedidos de desculpa dela. Ele vai até a carroceria da S10 e começa a retirar a cadeira de rodas.
– Poxa cara... — Adrian parece surpreso com a cena. — Ela não pode andar?
– Não. — Respondo.
– Em meio a um apocalipse deve ser difícil não poder correr.
Fico em silêncio. Ele está certo. Mamãe jamais conseguiria fugir de um zumbi se ele a atacasse. Queria que um milagre acontecesse, como aqueles que costumam passar naqueles canais com programação religiosa. Queria que ela voltasse a andar.
– Richard, pegue tudo que está na caçamba da S10. — Grita meu pai, enquanto termina de colocar a cadeira de rodas no chão. — Ajude ele Misty!
Obedecemos a ordem, pegamos tudo quanto podemos carregar, ou melhor, o mais importante. Garrafas de água e as armas.
– E os galões de gasolina pai?
– Deixei aí, acho que zumbis não podem roubar um carro não é mesmo?
Adrian me ajuda com as armas. Meu pai fecha a porta do carro e começamos a voltar para a trilha.
– Estamos numa cabana a alguns quilômetros mais pra frente naquela estrada de terra. Ela fica bem isolada, é seguro. Vamos todos pra lá. — Diz Hanna.
– Está bem. Muito obrigado mais uma vez. — Fico sem reação, meu pai me deu o maior sermão sobre não confiar em qualquer pessoa e agora ele está seguindo para o meio de uma floresta com um bando de estranhos? Fico ao lado dele e digo baixinho:
– E nosso carro? Vamos largar ele pra trás?
– Vamos ficar só alguns dias com essas pessoas. Depois voltamos, pegamos nosso carro, damos meia volta na estrada e iremos atrás de outro lugar.
– Não precisam se preocupar. Podem ficar quantos dias quiserem por lá. Desde que nos ajudem com a vigia e com a arrumação da casa, é claro. — Diz Adrian, com um pequeno sorriso. Parece que minha tentativa de falar baixo para que só meu pai ouvisse não obteve muito sucesso.
Meu pai assente. Jenna caminha ao lado de Misty, que já deu boas olhadas para o corpo de Adrian. Me sinto enciumado. Sei que não faz sentido, ela não é minha namorada, nem nada do tipo. Mas sinto ciumes mesmo assim.
Demoramos um pouco mais de tempo para chegar no final da trilha onde deixamos o carro. Meu pai pega a mamãe no colo e a senta no banco da frente. Enquanto coloca sua cadeira de rodas na caçamba. E o resto de nós sobe nela também. Donovan liga o carro e dá partida. Olho pra trás, não vejo nenhum morto nos seguindo. Estou ansioso pra ficar a sós com meu pai, quero conversar com ele. Entender porque ele aceitou ir pro meio do nada com desconhecidos. Pra onde foi todo aquele papo sobre não confiar em estranhos afinal?
Olho para minha mãe, e percebo que está de cabeça abaixada desde que buscamos ela no carro, e também não falou nada ainda. Chego perto dela e percebo que seus olhos estão vermelhos.
– O que está acontecendo, mãe?
– Nada filho. — Responde ela, sua voz está falhando. Ao escutar a conversa papai vem até nós.
– Clarice, tinha percebido que você estava com os olhos inchado mas não falei nada por falta de tempo. — Deixo os dois conversando, mas atento ao que estão falando. — Pode me contar, é algo que fiz?
– Não Charles. — Dizendo isso ela começa a chorar. — Sou eu o problema, tudo isso acontecendo e eu sendo um peso pra vocês. Não posso ajudar nem na proteção da família.
– Tenha fé meu amor. — Ele abraça ela com lágrimas em seu olhos. Mas ele chamar ela de meu amor, quanto tempo faz que não ouço essas palavras? Meus olhos se enchem de lágrimas. Me viro e olho para a estrada. Vejo que não paramos de subir e descer morros, na estrada tem muitas árvores ao redor, já passamos por algumas fontes de água. Pelo que conheço de lugares assim imagino que por perto tenha cachoeiras e lagos.
Quando estamos chegando vejo que a cabana não é nada que imaginei — Pensei que seria uma cabana simples, de madeira e desgastada pela chuva, com musgo no telhado. — mas não, tem um jardim lindo na frente com flores, a garagem que tem portões automáticos. Na entrada as portas são de vidro.
Ao chegarmos uma garotinha de no máximo doze anos de idade, vem correndo e com uma expressão de terror no rosto.
– Don, Don. — Chegando até o carro continua desesperada. — A vovó piorou.
Após pronunciar essas palavras, Donovan e Hanna saem rapidamente do carro e Adrian pula da carroceria da montana.
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