Sangue Obediente
1 Prólogo
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Moro num apartamento que herdei dos meus pais, no segundo andar de um condomínio razoável em Nova Cruz do sol, no interior de São Paulo . Estou há uns 21 anos vivendo nesse condomínio e minha vida é um saco .
Desculpe a expressão desagradável, mas essa palavra resume bem a minha situação. Tenho quase trinta anos. Trabalho como editor numa gráfica pequena aqui da cidade, trabalhamos basicamente com revistas de fofocas, horóscopos e livrinhos meia-boca, desses que vendem em lanchonetes e lojinhas de um e noventa e nove.
Na verdade, são edições bem baratas e, sendo baratas, a maioria delas tem uma edição bem porca. Na editora, trabalho na revisão de textos publicados nessas revistas, corrijo erros de construções de frases, vocabulário e por aí vai.
Como eu havia dito antes, minha vida é... Desculpa, mas não estou a fim de repetir novamente, já faço isso demais no meu dia a dia; bem, eu não me considero um sujeito bonitão, desses que entram no ônibus no horário de pico e chamam a atenção de todo mundo.
Na verdade, sou um sujeito razoável, quase esquecível. Não sou casado. Namorei umas quatro vezes ao longo da minha vida e todas terminaram comigo por terem achado rapazes mais interessantes por aí.
HAHAHAHA, estou rindo aqui diante de todas essas situações, mas, enfim, pelo menos sobrevivi a tudo isso...
Não peguei o meu notebook em horário de trabalho para ficar chorando por cadáver morto. Na verdade, estou escrevendo porque sei que ninguém vai acreditar em mim se eu disser que o meu vizinho, o 17, é um vampiro.
Mas vampiros não existem! Você é doido, chamem os homens para ele — vocês diriam. Merda! Ele é um droga de vampiro, sei disso, pois o vi num beco perto de casa sugando o pescoço de uma mina.
Certo! Certas pessoas gostam de sugar o pescoço umas das outras numa espécie de fetiche, mas, nesse caso, eu vi os dentes dele e os olhos dele. Sua íris não era como as de um humano normal, eram vermelhas como sangue, e para quem acha que o sujeito era um drogado...
- Ei, Takahashi, o que você está fazendo?
Esqueci de mencionar que minha mãe era japonesa; meu pai, por sua vez, era paulista e morava na zona norte de São Paulo.
Bem, o fato é que eu detesto que me chamem de Takahashi. E minha supervisora, uma loira padrão de cabelos lisos, com seus 52 anos de idade, adorava me provocar dessa forma. E não, ela não fazia isso com segundas intenções, mas sim porque me detestava mesmo.
Virei subitamente para a pessoa que havia feito a pergunta. Aqueles óculos de aro vermelho deixavam ela com uma cara de bruxa.
- Eu perguntei o que diabos está fazendo? Por que não começou a corrigir os textos que o chefe pediu?
- Eu estou fazendo isso agora. — Abri uma nova página para ela e mostrei os documentos. — Estão todos aqui. Não há muitos erros em nenhum deles.
Helena, esse era o nome dela, ajeitou os óculos no rosto e, num murmúrio baixinho, falou:
- Não banque o espertinho comigo. O chefe pode dar muita colher de chá para você, mas comigo sua esperteza não funciona. É melhor andar na linha, escutou? Tenho tanta autoridade aqui quanto o chefe.
Fiquei olhando para ela com cara de paisagem, imaginando se a supervisora tinha algum problema pessoal comigo. Depois de alguns segundos olhando azeda para mim, ela me deu as costas e foi embora.
Virei a cadeira para a frente do computador e, um tanto puto, tentei arrumar as coisas na minha baia.
- Erick, essa mulher só pode estar caidinha por você. Ela não larga do teu pé, cara!
Olhei para o meu colega da baia ao lado. Carlos só poderia estar zoando com a minha cara.
- Cala a boca — falei na brincadeira. — Se ela estivesse caidinha por mim, tenho certeza de que seria bem pior.
- Não quer tomar uma cerveja depois do trabalho? — ele perguntou.
Carlos era um homem praticamente calvo no centro da cabeça, estava um pouco acima do peso. Com seus quarenta anos, era casado há quase vinte anos e tinha duas filhas pré-adolescentes.
- Você é um homem casado, não devia ficar dando em cima de outros caras. — Brinquei.
- Pare de baboseira, seu cretino!
E ganhei de graça um tapa no pé da orelha.
Nossos colegas das baias ao lado olharam de cara fechada para nós dois. Eu só consegui rir da situação.
- Fique sabendo que amo a minha esposa. — Carlos falou em voz baixa, constrangido por ter chamado a atenção dos outros.
- Eu sei, cara. Relaxa. — E, num tom mais sério: — Eu dispenso a cerveja. Vou direto para casa hoje.
- Ixiii, está com febre, por acaso?
- Não, cara. Se estivesse doente, pelo menos conseguiria um atestado. Só quero ir pra casa, tomar um banho e descansar.
- Tudo bem, então fica pra próxima. — Ele me deu um tapa de leve no ombro e voltou para o seu trabalho.
E eu fiz o mesmo.
Na verdade, eu não ia necessariamente voltar para casa, tomar um banho e descansar. Na realidade, eu iria fazer uma coisa um tanto clandestina: dar uma espiada no apartamento 17...
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