Sangue Obediente
9 Capítulo 8
Cheguei uns dez minutos atrasado. Eu havia me esquecido de colocar o celular para despertar, e o ônibus havia partido uns cinco minutos antes de eu chegar ao ponto.
Isso era um péssimo sinal!
Logo que coloquei as minhas coisas na baia, fui chamado pelo chefe.
Não posso dizer que não saí envergonhado da sala dele, nem que o sermão havia me deixado bem deprimido. Qualquer um ficaria nesse estado se tivesse um chefe do tipo que vive repetindo: "Trabalhe enquanto eles dormem!".
Cheguei à minha mesa com os olhares dos meus colegas me julgando como se eu estivesse nu diante deles. Com certeza ouviram a bronca. Quem não ouviria, se, quando o chefe estava bravo, era como se tivesse um alto-falante dentro da garganta?
Puxei a cadeira, sentei e deixei a mochila no colo para que meus movimentos não atraíssem mais olhares de julgamento.
— Hei, cara, o que aconteceu? — Carlos perguntou num cochicho. — A noite de ontem foi ?
E, com essa piadinha, me deu um soco de leve no braço.
Ah, sim... A minha noite havia sido maravilhosa, pensei com ironia...
Olhei para ele com cara de poucos amigos.
— Vai se ferrar. — Falei num tom neutro.
Não conseguia sentir raiva desse cara. Ele era muito gente boa e o único amigo que eu tinha no trabalho.
— Pelo jeito acordou de mau humor. — Comentou na brincadeira. — Que bicho te mordeu, hein?
Ele não ia querer saber...
— Não dormi bem, cara. Tive uma noite péssima e, além de tudo, esqueci de colocar a droga do celular para despertar. Aí deu no que deu.
— Vixi... Foi tão ruim assim que você até esqueceu de trocar de roupa?
Olhei para as minhas roupas e quase tive um treco. Diante da minha reação, Carlos deu uma gargalhada alta, fazendo nossos colegas olharem diretamente para ele. Carlos não se importou. Dificilmente ligava em ser o centro das atenções.
— Melhor deixar o papo furado para depois, cara. Não quero levar esporro de novo, não. Já tive minha cota por hoje. — Falei com desânimo.
— Relaxa. Depois eu te pago uma cerveja.
Dito isso, apertou de leve meu ombro e voltou ao trabalho.
Realmente, eu cobraria essa cerveja mais tarde, pensei comigo. Talvez precisasse de mais de uma, mas aí seria por minha conta.
Desanimado e com uma leve dor de cabeça, liguei o computador. Em seguida, posicionei a cadeira em frente à tela e fiquei olhando para a paisagem da Grande Muralha.
Eu estava irritado, e não era necessariamente com o trabalho, mas sim com as circunstâncias. Se tivesse passado por outra rua naquela noite, teria evitado toda essa dor de cabeça. Enquanto matutava sobre isso, coloquei a senha na caixa de login e esperei.
O pior de tudo era que eu estava curioso, e não era uma curiosidade boa, mas do tipo que tira o seu sono e te priva de tudo o que não esteja relacionado a ela.
Eu não ia parar. Sentia isso.
Após terminar o meu trabalho, abri a página de pesquisa da internet e comecei a procurar algumas notícias relacionadas a ataques misteriosos na capital. Encontrei algumas manchetes que não tinham muito a ver com o que eu procurava. Estavam relacionadas a ataques criminosos em pontos de ônibus, estabelecimentos comerciais e por aí vai...
Cocei a cabeça num gesto que flertava mais com a irritação do que com a frustração. Então parei, olhei para o teclado e me dei conta de que estava fazendo tudo do jeito mais difícil, e isso era irritante.
No mesmo instante, levantei da minha mesa de trabalho. Meu corpo estava dolorido, principalmente as costas . Eu estava completamente travado.
Estiquei um pouco as pernas. O que eu precisava era de um café para esfriar a cabeça.
Fui até a cozinha no final do corredor. O café na chaleira estava bem forte, frio e sem gosto. Com certeza estavam economizando no açúcar e esbanjando no pó.
Encostei na pia, segurando o copinho plástico na mão esquerda.
Enquanto estive ali com o meu café ruim , rememorei os acontecimentos das noites anteriores: a espiada dentro do guarda-roupa... O encontro no Café La Petit ... E o acidente com a moto, embora este último não tivesse conexão alguma com os outros dois.
Pensei também nos documentos guardados no envelope de papel pardo...
Toda a concepção que eu tinha sobre esses seres vinha de lendas, filmes e livros que vi na infância e na adolescência. Nesse sentido, era inacreditável que um vampiro, um ser imortal, tivesse um trabalho. Isso não fazia sentido algum.
Vampiros também precisam de salário para sobreviver à própria imortalidade? Questionei.
Depois disso, voltei para a baia, corrigi mais alguns documentos e, em seguida, fiz uma pesquisa sobre a Faculdade São Camilo.
O site tinha um design bem simples. Havia informações sobre os cursos e a grade curricular de cada um deles.
Dei uma olhada no corpo docente da instituição.
O que diabos eu estava procurando?
Abaixei a cabeça, enfiei os dedos entre os cabelos e fiquei olhando para o teclado.
— Tá tudo bem aí, cara? — Escutei Carlos perguntar da baia ao lado.
— Não é nada, não. — Respondi à meia-voz. — Estou de boa. Pode ficar tranquilo.
Olhei para a tela novamente, dei uma olhada nos cursos e no respectivo corpo docente.
Não havia nenhum professor com o nome de Dante.
Merda!
— Hei, Erick, já estamos indo embora.
Olhei para o relógio no canto esquerdo da tela.
Quase duas da tarde.
O chefe ficava até umas duas e quarenta por ali.
— Vou ficar mais um pouco, Carlos. — Falei sem olhar para o meu amigo. — Depois a gente se fala.
Nem percebi quando todos deixaram suas baias. De repente, eu estava ali sozinho.
E isso era bom, de certa forma.
Quando olhei os cursos livres, finalmente encontrei o que estava procurando.
CURSO LIVRE (LITERATURA PORTUGUESA E BRASILEIRA)
DOCENTE: DANTE BELLEROSE
HORÁRIO: DAS 19:00 ÀS 22:20, TODAS AS SEXTAS-FEIRAS, NA FACULDADE SÃO CAMILO.
Dei uma olhada na grade curricular. Era, no mínimo, interessante, e o preço bastante acessível. Além disso, havia vagas para novos ingressantes.
Daria uma passada por lá na segunda-feira durante o horário de almoço.
Guardei minhas coisas, desliguei o computador, dei uma passada rápida na sala do chefe, que parecia um pouco mais manso, e fui embora pensando em como a ideia de voltar para a faculdade era boa, embora fosse pelos motivos errados...
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Aproveitei o horário de almoço para ir à faculdade realizar minha inscrição.
Passei o fim de semana inteiro pensando em como a minha ideia tinha um ar um tanto cansativo e idiota.
Bem, o apartamento do cara era praticamente colado ao meu. O mais simples seria bater à porta dele e...
Qual a probabilidade de isso terminar muito mal?
Não estou lidando com um cara normal, e sim com uma aberração sobrenatural. Agir como alguém invasivo era, no mínimo, perigoso.
Se você quer investigar alguém, investigue todos os pormenores da vida dessa pessoa e seja o mais discreto possível. Evite abordagens muito diretas. Aja pelos cantos como um gato observando um camundongo.
Mesmo agindo dessa forma, ainda assim a ideia era bem idiota.
Enfim...
Tive de pegar o ônibus que passava no ponto a uma quadra de onde trabalho para chegar à faculdade. O trajeto era longe pra caramba para fazer a pé, então esse foi o único jeito menos cansativo que encontrei.
Depois de uns trinta minutos, mais ou menos, desci no ponto que ficava ao lado da instituição.
Menos mal, pensei, um pouco mal-humorado.
Demorei cerca de vinte minutos na secretaria realizando as burocracias da minha inscrição.
Quando deixei o local, parei um pouco do lado de fora e fiquei olhando para o jardim que havia ali.
Havia bancos de pedra como aqueles que existem em praças públicas e uma réplica da escultura da Pietà de Michelangelo numa área cimentada no centro do jardim.
O lugar era bem bonito. Havia borboletas e beija-flores batendo suas asas no topo de margaridas e rosas vermelhas.
Como eu disse, era um lugar bonito... religioso...
E com um vampiro bem debaixo do nariz de toda a equipe gestora.
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