Estaquei no lugar. Sem reação.

A moto deslizou para um lado e o motociclista para o outro, rolando umas três vezes até terminar de costas no chão. Várias coisas que ele carregava consigo se espalharam pelo asfalto.

O trânsito parou num caos de pessoas se aproximando para ver o que estava acontecendo. Demorei alguns segundos para me desfazer do choque inicial e verificar se o motociclista estava bem.

Uma roda de curiosos o cercou. Pela fresta formada por pernas e braços, vi o homem se sentar no chão, meio desorientado, e retirar o capacete em seguida.

— Estou bem — falou aos que estavam por perto. — Não precisa chamar o resgate.

Fui até ele.

O cara me identificou no mesmo instante.

Massageando a cabeça, comentou:

— Ah, então é você que ficou parado no meio da pista?!Estava querendo morrer, por acaso?

Fiquei sem saber o que responder.

— Levanta a minha moto. Me deve isso, pelo menos.

Cumpri o que ele pediu. Desliguei a moto e a levantei, acionando o descanso lateral em seguida.

Depois fui recolher as coisas espalhadas pelo asfalto.


Peguei duas câmeras fotográficas.


Um bloco de anotações.


Um smartphone.


Conferi a tela. Ela havia trincado.


Droga!


Um estojo preto.


Uma carteira de couro.


E uma espada.


Uma espada?


Cocei a cabeça.


Por que raios o cara carregava um negócio desses dentro da mochila?

Com cuidado, a levantei do chão. Era um pouco pesada sob a proteção da bainha preta, de superfície lisa e aparência de couro.

Contemplei-a de relance.

Ela tinha detalhes metálicos na entrada e na ponta da bainha. Era muito bonita, na verdade, com acabamentos decorativos no encaixe e no pomo arredondado do cabo. Presa à bainha havia uma correia de couro marrom-escuro, fixada por duas presilhas douradas.

Coloquei tudo dentro da mochila, menos a espada. Não havia espaço suficiente para ela, então tive de levá-la na mão.

Tirei a moto do descanso e a conduzi até o dono.

Quando cheguei, o sujeito já estava de pé. A multidão havia se dispersado; pelo jeito, tinham se convencido de que ele estava bem.

Olhou para mim. Era engraçado, mas ele parecia muito com o David Kushner...

— Deixa no canto da calçada — pediu, sem parecer mandão.

Depois que estacionei a moto ali, olhei novamente para ele. Vinha na minha direção, mancando um pouco.

Já não havia ninguém o chateando com perguntas. O trânsito voltou ao normal e as pessoas seguiam pela calçada.

— Você me deve uma vida — resmungou.

Meio sem graça, falei completamente sem jeito :

— Obrigado. Você se arriscou...

Ele ergueu a mão.

Fiquei com a palavra na ponta da língua.

— Não precisa agradecer. Só não faça a besteira de ficar parado no meio da rua.

— Obrigado mesmo assim — insisti.

Ele não disse nada.

Olhei para a perna dele.

— Não é melhor ver como está essa perna?

O cara fez um "tsc" com os lábios e, em seguida, declarou:

— Isso não foi por causa do tombo que levei.

— Então se machucou com essa espada?

Ele franziu o cenho, sem entender. Por causa disso, seus olhos parecem um pouco menores por trás dos óculos quadrados.

Ofereci a espada para ele.

Aí a ficha caiu.

— Por que você carrega uma arma dessas na mochila? Se a polícia estivesse aqui, teria de se explicar.

Ele pegou a espada pelo cabo.

— Não sou um criminoso — disse em voz baixa. — É que eu...

De repente, pareceu constrangido.

Fiquei na expectativa.

— Bem... é que sou cosplayer. É isso.

Não questionei.

— É para um personagem. Por isso a espada.

Parecia justificável.

Quem era eu para investigar o cara?

— Quer que eu te leve para casa? Você não vai conseguir dirigir essa moto direito por causa da perna.

Ele pensou um pouco.

— Não precisa. Eu me viro.

Insisti.

— Olha, não é nada sério. Fica tranquilo, mas...

Ele olhou diretamente para mim.

— Quero o número do seu celular.

— Hã?

— Olha, não estou dando em cima de você. É só para o caso de eu ter quebrado alguma coisa e você precisar pagar.

Não me senti ofendido.

Tirei a carteira de dentro da mochila e ofereci algumas notas para ele.

O cara recusou.

Não fazia sentido.

— É para a tela do celular. Ela trincou.

Ele tirou o aparelho da mochila e conferiu os dois lados. Não pareceu chateado.

— Qual é o seu número?

— ...

Eu quase tinha matado o cara, e ele queria o número do meu celular?

Bem, ele não parecia um stalker.

Falei meu número.

— Qualquer coisa, te ligo — disse com muita naturalidade.

Ele deu uma olhada na moto para verificar se alguma coisa havia sido danificada na queda.

— Qual é o seu nome? — perguntou de repente, enquanto vistoriava as rodas.

Hesitei.

Ele parou o que estava fazendo e levantou os olhos para mim.

— É para colocar na minha lista de contatos. Acabei deixando como número desconhecido.

Se era para isso...

— É Erick — respondi.

— Parece que está tudo certo com ela. Agora é ver se vai ligar.

Nem parecia ter ouvido o que eu disse.

Subiu na moto com dificuldade, colocou o capacete e, em seguida, passou a alça da espada e a mochila pelas costas.

— Vou colocar seu nome nos meus contatos — disse enquanto girava a chave na ignição.

E foi embora como se nada tivesse acontecido.


Eu nem sabia o nome do cara.


Agora ele sabia o meu.


Que furada!


Notas finais
Livro de hoje : O Hobbit , Tolkien Boa leitura !