Sangue Obediente
2 Capítulo 1
Eu conhecia a dona Lurdes, síndica do prédio, desde os meus dez anos de idade. Meus pais haviam se mudado para o condomínio em 2015.
Ela era como uma espécie de madrinha para mim: ia às minhas festas de aniversário, participou da minha primeira comunhão e me apoiou quando meus pais morreram.
Ela sempre esteve ao meu lado e também já me deu broncas memoráveis — do tipo que não se esquece mesmo depois de noventa anos.
Cheguei ao prédio e a encontrei atrás do balcão, folheando uma revista enquanto ouvia Total Eclipse of the Heart, canção de Bonnie Tyler, em um rádio pequeno esquecido em algum lugar da sua mesa.
Estava tão entretida que nem se deu conta da minha chegada.
Pensei em entrar de fininho e resolver a questão das chaves depois, mas bastou eu dar um passo para a senhora levantar os olhos e flagrar a minha presença.
— Que isso, Erick? Virou um gato agora pra entrar assim?
Parei subitamente, sem graça.
— Desculpa, não queria incomodar...
Ela fechou a revista com calma, depois me deu uma encarada demorada, como se espiasse minha alma:
— Que história é essa, Erick? Olha, garoto, você não me incomoda. Agora desembucha: essa cara é a mesma que você faz quando quer dinheiro emprestado!
Suspirei, um pouco desanimado por ela pensar que eu queria dinheiro emprestado.
Eu não estava tão falido assim!
Aproximei-me do balcão.
— Infelizmente, perdi a minha chave indo pro trabalho. Será que a senhora não emprestaria a da reserva pra mim? Eu devolvo amanhã.
— Ah, então era isso? — Dona Lurdes relaxou um pouco. — Eu vou lá pegar pra você.
Ela fez menção de se levantar do lugar, mas eu fui mais rápido.
— Não precisa se preocupar — falei, enquanto abria a portinhola do balcão. — Eu que perdi, então eu pego a chave reserva.
Dona Lurdes deu de ombros.
— Só não faz bagunça com as minhas coisas — pediu.
******************
As chaves estavam em um armarinho preso à parede, acima de um daqueles arquivos de ferro típicos de escritórios.
Elas estavam em nichos separados, com a numeração dos apartamentos.
Peguei a minha por precaução e a do apartamento 17 também.
Guardei as duas no bolso. Em seguida, fechei o armário com cuidado, pois às vezes o negócio fazia um rangido desgraçado...
...e só então olhei em volta...
De repente, minha atenção se deteve no monitor das câmeras de segurança no fundo da salinha.
Uma ideia esperta me passou ligeira pela cabeça.
As câmeras de segurança piscavam na tela do computador, divididas em quatro quadros distintos. O meu andar aparecia no segundo, na parte de cima. Eu sabia disso porque, às vezes, Dona Lurdes pedia para eu ficar de olho nas imagens — principalmente quando acontecia algum imprevisto com o responsável pelas câmeras.
O fato é que o carinha que cuidava dessa parte estava com uma gripe danada.
Muito conveniente, não é mesmo?
E não havia ninguém que pudesse cuidar do serviço dele.
Dona Lurdes não sabia muita coisa de tecnologia e, sendo o condomínio um lugar tranquilo, ela simplesmente trancava tudo depois das dez, ficava um pouquinho na salinha cuidando da parte administrativa e, de vez em quando, dava uma olhada nas imagens para ver se estava tudo certo.
Respirei fundo...
...matutando um pouco...
Eu podia dar o fora dali.
...mas não saí...
Era o certo a se fazer.
Mas nada que eu estava fazendo era certo, por assim dizer.
Deixei a ética um pouco de lado e fui até o computador.
Não puxei a cadeira; fiquei de pé mesmo, debruçado sobre o monitor.
A música ao fundo chegava ao finalzinho, ecoando seus últimos acordes na sala ao lado. Se eu estivesse de bom humor, teria cantado junto com a Bonnie Tyler!
No entanto, não era uma boa ideia me distrair logo agora.
Segurei o mouse... Meus dedos vacilaram um pouco.
E abri o sistema das câmeras.
— Erick, tá tudo bem aí? Já pegou as chaves?
Droga.
Por um momento, eu havia esquecido dela.
— Já sim! — falei, fingindo casualidade. — Só estou fechando o armarinho aqui, Dona Lurdes!
Abri rapidamente o arquivo de gravações antigas.
Deixei as imagens rodando.
Saí da sala pouco depois, tentando fingir normalidade — mas sentindo minhas costas suadas como se, em vez de pegar uma bendita chave, eu tivesse acabado de carregar um armário de ferro nas costas... sob um sol de trinta e cinco graus!
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