Sangue Mestiço

14 O Começo de Uma História que Envolve Muitos Toques...


A aula foi, não havia outra forma de dizer, entediante.

Klein passara horas tagarelando sobre os grandes bruxos da história, e em um determinado momento deve ter mencionado o nome de Lorde Voldemort antes de eu cair no sono e despertar bruscamente assim que a minha testa bateu com força na mesa.

Hermione anotava tudo o que ele dizia, a pena não parando de girar em sua mão. Fiquei impressionado com duas coisas: a rapidez com que ela escrevia, e a grande quantidade de fôlego que o professor tinha, pois não parava de falar.

Uma pilha de livros com a biografia dos tais bruxos ditados fora posta na mesa para lermos, acompanhando Klein, e anotando as informações que ele nos passava. Granger estava no última, e eu, ao olhar para baixo, ainda no começo do segundo exemplar. Nenhuma anotação no pergaminho cuja pena estava em cima.

Suspirei. Gemi. Revirei os olhos.

Dera meio-dia, e a aula terminou. Guardei minhas coisas na bolsa de couro e a deixei ali mesmo enquanto Granger arrumava seus pertences. Me dirigi para a sala de jantar, e não fiquei impressionado por não ter visto meu pai na cadeira da ponta.

Narcisa se acomodava na mesa, e Olívia e Klein encontravam-se ao seu lado.

— Draco, querido — disse minha mãe. — Junte-se a nós.

Sentei-me ao seu lado, olhando para Granger, que hesitava, segurando os livros contra o peito. Ela pediu licença e saiu, subindo a escada.

— E então? — começou minha mãe. — Como meu filho está se saindo?

— Ele... — notava-se claramente a falta de palavras em Klein.

— Está melhorando. Podemos dizer isso. — Completou Olívia.

— Hum. — Murmurou minha mãe.

Em nenhum momento ela se atreveu a mencionar o nome de Hermione.

Era apenas eu. Tudo, absolutamente tudo.

Mais tarde, fui para o meu quarto. Os livros descansavam em cima da cômoda, e sob eles estava o que ela havia me dado. Sua capa vibrava e uma voz raivosa soava, projetando-se até os meus ouvidos:

— Ei, tire-me daqui! Tira-me já daqui, sua mulherzinha. Coloque-me numa estante espaçosa, aqui está abafado e apertado.

— Cale a boca. — Retruquei, deitando na cama e observando o teto; como se de alguma forna pudesse ver Granger através das tábuas de madeira que revestiam os tijolos.

" O que será que ela está fazendo? ", perguntei a mim mesmo em pensamento. " Ora, é óbvio que está estudando Adormeci. Mas eu estava com a visão meio turva quando bateram à minha porta.

Bocejei, erguendo o corpo sonolento até a maçaneta. Girei-a, e tufos macios do cabelo de Granger acariciaram minhas ventas rápida e suavemente, quando ela passou ao meu lado, deixando seu delicioso aroma perfumar o ar.

— O que você quer aqui? — indaguei.

— Desculpa, mas será que eu posso dar uma olhada nos seus livros?

— Pra quê?

— Não trouxe o meu Animais Fantásticos e onde Habitam. Como pude esquecer?

— Nossa, como você é apressadinha...

Ela olhou para mim, seus olhos castanhos cintilantes.

— Preciso estudar, sabe? Para ser alguém na vida. — O sarcasmo praticamente pingava de seus lábios. — Você pelo menos deu bom dia ao nosso professor quando ele entrou?

— Até parece. Eu não gosto dele. Nem daquela mulher, Olívia.

— Sim... — Hermione cruzou os braços e pôs uma mecha atrás da orelha. — Está na cara que Umbridge está nos espionando. Maldito Cornelio Fudge! Maldita Inquisidora.

— Malditas provas... Pode fazer um favor? Leve esse livro que você me deu para bem longe daqui!

Ela entortou a cara e obedeceu.

Quando a segunda aula começou, uma carga de energia fluiu em mim. Hermione ficou espantada com a velocidade com que eu escrevia, a tinta traçando na folha o que cortava como um raio a minha mente.
Olívia fixou o olhar na minha redação, e minutos depois falou:

— Por hoje terminamos. Amanhã, um novo conteúdo. Falaremos sobre as criaturas de nosso mundo.

Depois que entreguei minha redação ( Os Maiores Bruxos da História ), fui até a janela e a deslizei para cima; o ar fresco batendo em meu rosto e afastando os chumaços loiros para trás. Fiquei assim por alguns segundos antes de ouvir um barulho às minhas costas.

Virei-me e vi Granger de joelhos, apanhando os diversos livros que deixara cair no chão. Olívia meneava a cabeça em negação, desdenhosa, como se a estivesse desqualificando.

Não sei o que me fez pensar: " Pare com isso, sua megera ". Talvez tenha sido apenas um pequeno efeito da raiva que eu acumulara dela em tão pouco tempo.

Quis ajudar Granger, mas minhas pernas não obedeceram aos meus comandos. As mãos seguravam com firmeza o parapeito, transpirantes e trêmulas. Mas meus olhos não ousaram em desviar a atenção dela; vidrados na total incompreensão do embaralhar de razões e emoções...

Por alguma razão, que ainda desconheço, meu coração pulsou com mais avidez.

Ela apanhou os livros e ergueu-se, jogando o volumoso cabelo para trás. Me olhou, e em seguida saiu pela porta em direção a seu quarto. Olívia se aproximou de mim e falou:

— Sr. Malfoy, espero que esteja estudando. Sendo que seria uma vergonha para o monitor da Sonserina não ter passado na prova da N.O.U.M.s.

Vi o que seria o reflexo de um sorriso no canto de sua boca, e Olívia foi-se também. Assim que deu as costas, estirei a língua e fiz uma careta. Depois murmurei um palavrão, xingando-a.

Uma figura passou pelo corredor. Era um dos cães de meu pai.

Mais tarde, meus pais sairam. Olívia e Klein retiraram-se da sala de estar, e ficamos apenas Granger e eu. Ela me veio com uma ideia ridícula e, naquelas circunstâncias, surpreendente:

— Ei, Malfoy. Vamos ao Beco Diagonal.

Engasguei com o vinho que estava tomando, tossindo um pouco para limpar a garganta, pois achei aquilo algo absurdo.

— O quê?! — falei. — Está mais louca que antes? Não podemos ir.

Hermione pegou um pequeno caderno que trazia debteo do bolso interno do casaco, e o abriu; folheando as folhas e mostrando-me a parte onde parara. Li a sua caligrafia curvilínea, e disse:

— " Aparata... Apaparata..."

— Aparatação, meu Deus!

— E o que diabos é isso?

— Bem, aprenderíamos apenas no sexto ano letivo. É tipo um meio de se tele transportar.

Fiz uma careta, não confiante.

— E é seguro?

— Claro!

Eu a encarei. Hermione revirou os olhos, batendo o pé no chão... os sinais mais comuns de alguém que mente.

— Ok. Tudo bem, não é cem por cento seguro. Pode ocorrer alguns defeitos durante o processo.

— Tipo o quê? — cruzei os braços.

— O estrunchamento...

— E o que é isso?

Hermione sorriu.

Depois que ela me disse os maléficos e benefícios da Aparatação, conseguiu ainda por cima me convencer a acompanhá-la.

Sendo assim, esperamos até que o sol se escondesse atrás das colinas e, indo para a porta de entrada, ficamos; tomando fôlego. Ela trouxe consigo o livro irritante que não calava o bico.

— Pronto? — perguntou.

— Sim. — Afirmei.

— Ah, finalmente. Ar puro! — exclamou o livro. — Esse eunuco me deixou lá naquele quarto, mofando.

— Cale a boca, ou eu juro que quando voltarmos, vou te jogar na lareira e irei me esquentar com as suas páginas pegando fogo.

— Palavras doces de meninas não me assustam. — Falou. — Se bem que a relação entre duas pessoas fica mais interessante quando uma fagulha se acende.

— Por que você trouxe ele? — perguntei à Granger.

— Ele vai me dizer onde posso comprar os livros que necessito. Quer dizer, que necessitamos...

Granger estendeu a mão, e eu a peguei depois de hesitar.
Senti meu estômago ir contra as costelas, e meus pés despregaram-se do chão. Minha cabeça girou e doeu... O ambiente ao meu redor mudando... A única certeza naquele momento era a aprazível sensação de estar segurando a mão de Granger.