Sangue Maldito
6 Contra a Parede
Notas iniciais
O chão estalou ao ser atingido, levantando poeira e destruindo o gramado quando o projétil se chocou contra ele. Um estalido alto que deixou os ouvidos de todos zunindo.
Sasuke tragou em seco. Ainda tinha os olhos abertos em surpresa e fitava assustado olhar azul se fechar de maneira lenta, observando o amigo que esfregava os cabelos com força em um claro sinal de que estava frustrado. O corpo ainda tremia em expectativa pois tinha certeza de que ele ia acertá-lo. Era isso que o olhar dele transmitia.
Porém ele desviara no último segundo, inclinando a arma levemente para o lado direito.
—Porra, Sasuke! Porra! Mil vezes, porra!- urrava nervoso e agitado. – Porque deixou isso acontecer! Por que não se precaveu?!
Sasuke ainda estava atônito. O olhar de Naruto, segundos atrás não continha hesitação e o deixara sem ação, roubando-lhe as palavras que travaram na garganta.
Naruto pela primeira vez amaldiçoou verdadeiramente a sua obrigação. Era um descendente de Tobia, um caçador de vampiros por natureza, tinha que aniquilar os malditos sugadores de sangue e até então o fazia sem hesitar, sem prazer ou lamurias desnecessárias, no entanto daquela vez não conseguiria.
Simplesmente era impossível atirar em Sasuke. Ele era seu amigo mais querido, quase um irmão. Não podia simplesmente atirar nele, arrancar sua cabeça e lançar ao mar como fazia com os outros. Nunca conseguiria!
DEMÔNIOS!
—Porque deixou isso acontecer, Sasuke! Diga-me!- questionou irado travando a arma inconscientemente, incapaz de conter os impulsos que surgiam em seu breve surto de ansiedade e fúria.
Tinha que atirar, caramba! Ele era um deles, não tinha como escapar daquela sina. Não tardaria para que ele estivesse em cima de pobres inocentes, sugando-lhe o sangue, observando friamente enquanto a vida abandonava seus corpos.
NÃO!
Suava em bicas à espera da resposta que o amigo parecia incapaz de pronunciar.
— DIGA!- bradou mais uma vez sentindo o corpo retesar.
—Eu não sei. – ele respondeu perturbado, finalmente acordando do transe. Entretanto não era capaz de se mover, paralisado ante a visão do amigo sempre tão abobado sério e armado. – Eu não tive escolha. Eu estava morrendo, Miguel me salvou...
Naruto que estava de costas volveu o olhar para ele, intrigado.
—Miguel? Esse é o nome do maldito que te amaldiçoou?!
—Sim. Ele salvou a Sakura do homem que me feriu e me transformou. Eu mal podia ver o que estava acontecendo.
Os olhos azuis rodavam acelerados de um lado para o outro, ele estava pensativo.
—Quem atacou vocês?
—Sei lá, um homem alto e um baixinho esquisito. Pareciam loucos, não falavam coisa com coisa. Atirei com a Magnum, mas ele me segurou, pegou a arma e atirou em mim.
Naruto franziu as sobrancelhas, pensativo. Não era normal de um vampiro fazer isso.
—Ele atirou em você, com a sua arma?!- questionou descrente-Está mentindo. — concluiu sério. — Vampiros não matam de outra forma que não seja para se alimentar.
Sasuke não conseguia compreender, mas a simples imagem do amigo, naquele momento, naquela circunstância, impunha respeito e medo. Uma sensação que nascia do fundo, algo como um aviso. Um sexto sentido que alertava quanto aos riscos de irritá-lo, precavendo-o para a realidade inquestionável de que ele atiraria sem hesitar se preciso fosse.
—Não, Naruto. Juro que estou falando a verdade. Ele atirou em mim, com a minha arma. Tem que acreditar em mim!
O loiro olhava impaciente para todos os lados, incerto do que deveria fazer, perturbado com a certeza de que teria que matar seu melhor amigo para manter o mundo a salvo daquela praga. Por mais que os olhos negros dele lhe transmitissem medo e sinceridade, não havia como ter certeza de que de fato estava sendo sincero, afinal, vampiros mentem, e essa é uma verdade inexorável.
—Desculpe Sasuke, mas dessa vez não vai dar. Você se deixou atrair pela noite escura, pela sina maldita. Certamente está mentindo como todos os outros.
—É verdade, Naruto. – Sakura interveio. – Eu estava lá junto com ele quando aconteceu. O vampiro atirou mesmo no Sasuke.
—Como vou saber que não está mentindo para protegê-lo, Sakura? Tenho certeza de que faria isso por ele.
Sakura aquiesceu. Era verdade que faria isso para protegê-lo. Estava atônita, perdida. Queria descobrir uma maneira de fazer Naruto acreditar nela. Ele não parecia a mesma pessoa que conhecia, estava sério, decidido. Fez menção de se aproximar de Sasuke. Queria estar perto dele, mas foi impedida pelo Uzumaki.
—Não se aproxime!-Naruto empunhou a arma de novo apontando-a para o amigo. – Fique longe dele. Não é seguro, Sakura!
—Naruto! Ele está ferido!- tentou argumentar.
—Ele é um vampiro!-Disse alterado. – Não é seguro ficar perto dele. Foi atingido, deve estar sendo perturbado pela sede. Estar perto dele agora vai ser perigoso.
—Ele não me machucaria!- disse irritada.
—Ele sugaria até o último gole de sangue da própria mãe para matar a sede. Ficam loucos. Não se deve confiar, é muito arriscado.
—Mas,...
—Sakura. – foi Sasuke quem disse. – Ele tem razão, não é seguro ficar perto de mim.
—Sasuke...
—Lembre-se do que Miguel nos disse. Temos que ter cuidado. — olhou para o loiro. –O que preciso fazer para acreditar em mim?
—Apenas responda as minhas perguntas. Eu vou julgar se devo ou não acreditar no que diz. – apontou a arma, olhando o ferimento. – Seu machucado deve estar cicatrizando, o que me lembra...
Naruto caminhou de volta para o vampiro que tinha sido alvejado antes. O corpo continuava no chão. Observou as marcas. Quase todas estavam fechadas, em breve ele levantaria. Foi até a mochila, pegou outro armamento. Retornou para junto do corpo do vampiro. Abaixou-se, o coração acelerado, sabia se tratar de um embuste do maldito que com certeza estava apenas fingindo imobilidade para pegá-lo desprevenido. O homem levantou o tórax de um salto, agarrando Naruto em um abraço mortal, mas foi surpreendido por outra dor aguda que despontou no peito. Os olhos vermelhos apagaram-se e os caninos retraíram quando o corpo voltou a bater de baque no chão, paralisado com uma estaca de madeira no peito.
Naruto foi até a bolsa novamente e pegou um par de algemas de prata. Caminhou soturno até Sasuke.
—Vire-se. – exigiu. Iria conter os movimentos dele enquanto pensava no que deveria fazer.
O amigo obedeceu sem questionar. Naruto juntou as mãos dele e prendeu-as com as algemas e causavam um certo desconforto, como se queimassem em contato com a pele.
—É melhor nem tentar lutar contra elas. São de prata. O único metal realmente eficaz contra vampiros. Não conseguiriam quebrar nem se tivessem acabado de tomar mil litros de sangue.
A Haruno ficou indignada com o tratamento dispensado ao namorado. Ele estava ferido.
—Naruto! Não precisa de tanto, para quê...
—Sakura, deixe-o. Ele tem razão em não confiar em mim. Eu mesmo não consigo confiar às vezes. — os olhos negros do Uchiha a fitaram cansados e honestos. Era de fato muito perigoso, não conseguiria se conter uma próxima vez.
—Quando foi que foram atacados?- Naruto voltava a posição original, longe de Sasuke e com a arma apontada.
—Quando estávamos voltando do baile.
—Uma semana. – Naruto resmungou para si. — Quem os atacou?
—Eu não lembro o nome do infeliz. Sei apenas que era alto, muito alto.
—O nome, Sasuke! Eu quero o nome do desgraçado, porque se eu tiver que matar você, meu melhor amigo, porque esse filho da puta te acertou, eu vou caçá-lo até o inferno. DÊ-ME O NOME!- pediu alterado.
Sakura olhou assustada para o loiro. Era visível que ele estava se controlando, segurando as lágrimas que não queria deixar escapar. Rugindo furioso contra a vontade, escondendo assim, a voz que ficava trêmula de emoção.
—Guilherme. – Sakura respondeu. – Quando Miguel conversou comigo chamou-o assim, e depois de Inverno.
O rosto de Naruto empalideceu, a arma abaixou. Conhecia aquela alcunha, tinha crescido ouvindo histórias sobre os sete malditos do rio D’ouro. Criaturas nefastas, detestáveis e extremamente poderosas, capazes de ceifar tantas vidas em uma noite quando o anjo da morte. Além de serem vampiros antigos, quase milenares, ainda contavam com os dons sobrenaturais que tinha recebido do próprio demônio. Em troca, tiveram que escolher um, dentre os sete, para servir de escravo do cão por cento e cinquenta anos, e esse infeliz tinha sido Sétimo, o irmão traído, o mais lunático e psicopata dos vampiros que já caminharam sobre a Terra. Era difícil imaginá-los tão próximos dos amigos.
—Inverno! O vampiro inverno?!Um dos sete malditos? Eles não deveriam estar aqui naquele dia. Não mesmo cara. – passou a mão pelos cabelos nervosamente. -Então é isso... Miguel, o Gentil... foi ele que o transformou. Como eu pude demorar tanto para perceber?!
Naruto fechou os olhos tentando assumir novamente o autocontrole. O acidente tinha acontecido há uma semana, com certeza eles já teriam partido.
—Tinha mais alguém com os dois?
—Sim, um baixinho que não me lembro o nome.
—Baixo... ao lado de Guilherme... Acordador. Não acredito que em uma noite vocês toparam com três dos vampiros mais sinistros que já caminharam por essa Terra.
Sakura e Sasuke se olharam espantados. Eram novatos nessa história de vampiros, na verdade, se não tivessem vivido momentos de terror e pânico ao lado deles, duvidariam da sanidade mental de qualquer sujeito que se dispusesse a querer dar vida a personagens fictícios.
—Miguel me protegeu. –disse Sakura. –O vampiro grande, o tal de Inverno, acertou Sasuke, o jogou no chão e veio para cima de mim. Foi nessa hora que Miguel apareceu, me segurou pelas costas, me abraçando, e discutiu com ele. Depois que os dois foram embora ele foi até Sasuke e o salvou.
Naruto ficou quieto por alguns segundos absorvendo a informação. Estava analisando a situação. Aproximou-se de Sasuke, agachando-se a sua frente e levantando-lhe a camisa para analisar seu tronco. Diferente do que imaginou o ferimento feito pelo tiro ainda estava lá, minando um pouco de sangue. Isso não era normal, de jeito nenhum. Já deveria ter fechado ou estar em um avançado processo de cicatrização pelo tempo que passou. Olhou para cima e viu os olhos do amigo brilharem vermelhos pela proximidade, um pouco desfocados, bem como as presas que despontaram por instinto ao perceber a possibilidade de tomar de seu sangue e se curar.
—Não se atreva. – avisou sério. – Sou um caçador, se beber do meu sangue vai vomitar até as tripas e não será nada agradável
Sasuke balançou a cabeça, desperto pelo aviso dele que lhe ajudou a recobrar a consciência. Estava ficando louco. Perdendo o controle sobre os próprios atos, sentindo o autocontrole cada vez mais escasso.
—Desculpe usuratonkachi. Eu não queria.
—Eu sei. –disse calmo pela primeira vez em dez minutos de tensão. – Última pergunta: desde aquele dia, tomou sangue de alguém?
—Não.
—Como eu imaginei. – Sasuke o olhou abobado. – O único vampiro que pode andar de dia é Sétimo, e ele ainda está lacrado, morto. Se já faz uma semana que aconteceu isso e você ainda pode andar no sol, isso significa que ainda não completou a metamorfose, o que me deixa aliviado. Não queria ser obrigado a cortar a cabeça do meu melhor amigo. – Sakura ficou branca com a maneira quase insensível com a qual Naruto disse aquilo, como se estivesse falando de algo casual e corriqueiro.- De qualquer forma, isso não muda o fato de que você ainda é um meio-vampiro, e vendo esses ferimentos, posso dizer que gastou toda a pouca energia que tinha e agora a sede está te matando. Estou certo?- Sasuke maneou a cabeça confirmando sua teoria. — Isso sim vai ser um problema. Como caçador a minha obrigação e exterminar qualquer vestígio vampírico que encontre pela frente, sem pestanejar, mas você é meu amigo e ainda tem chance de voltar a ser humano.
Naruto franziu as sobrancelhas por alguns segundos, concentrado, pesando os prós e os contras da ideia absurda que estava se formando em sua mente. Sasuke e Sakura apenas o observavam em silêncio, em expectativa. Temiam a personalidade austera que ele tinha apresentado naquele início de noite. Não estavam acostumados àquele Naruto.
Dois minutos depois ele se levantou ainda em silêncio e com o olhar severo. Guardou a arma no coldre que trazia presa a cintura, tomando o cuidado de tapá-lo com a camisa longa. Tinha tomado a decisão.
—Só tem um jeito de resolver isso. Você vai ficar na minha casa, escondido, sob a minha tutela, assim vou poder cuidar de você, retirar essa bala de prata antes que te mate, e garantir que não tome uma gota de sangue sequer.
—Mas, a minha família? Não posso simplesmente sumir assim de uma hora para outra, ficarão preocupados.
—Sasuke. – Naruto chamou mais uma vez sério. Aquele olhar estava dando arrepios. –Isso não é um pedido ou escolha, é uma imposição. Estou quebrando todos os protocolos ao dar guarita á um vampiro, mesmo que ainda seja meio-vampiro e meu melhor amigo. Estarei arriscando muito para protegê-lo. Ainda mais, não pode ficar zanzando por ai como antes, foi machucado, seu corpo está pedindo sangue. A sede virá mais voraz do que nunca, vai fazer você perder o controle, atacar qualquer um. Eu tenho o conhecimento, sei lidar com vampiros. Garanto que não vou deixá-lo cair na maldita vida escura.
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