Sangue Maldito
4 Aposta arriscada
Notas iniciais
Um barulho estridente, monótono e compassado encheu o quarto iluminado pela luz do sol que adentrava pelas janelas abertas. Era o despertador. Naruto resmungou e desativou desajeitadamente o aparelho, voltando a se cobrir por completo com a coberta. Queria ficar na cama mais alguns minutos, talvez nem ir para a escola, as últimas caçadas haviam sido estafantes e ele se sentia física e mentalmente exausto. Os malditos vampiros pareciam não saber fazer nada além de procriar, cada noite recrutando mais e mais soldados para seu exército maldito.
Estava quase dormindo novamente quando outro som o despertou, tão estridente e alarmante quanto o primeiro, porém decididamente mais assustador. A voz da mãe o fez se levantar a contragosto. Kushina não era uma mulher muito paciente e ele não desejava atiçar sua fúria.
Devidamente arrumado, foi a cozinha. A mãe se preocupava em tomar chá e o pai divertia-se ouvindo suas reclamações enquanto lia o jornal, ou ao menos tentava. Sentou ao lado dele com os olhos ainda entreabertos pelo cansaço.
—Ohayo, otou-san, oka-san.- disse entre os bocejos, coçando a nuca como se isso fosse capaz de afastar o sono.
—Ohayo!- a mãe disse entre uma golada e outra. Seus olhos perscrutavam o rosto do filho de maneira inquisitiva.- Teve uma boa noite, filho?
—Não tenho muito o que reclamar. Dormi poucas horas, mas como uma pedra.
Minato abaixou a folha para ver melhor o rosto do filho. O cenho estava franzido, em dúvida.
—Trabalhando muito ultimamente?
—Não faz idéia. Ontem foram dois.- suspirou cansado mordendo a primeira torrada.
Kushina olhou de soslaio. Sabia do que se tratava o assunto, e não concordava com a ideia de ter o filho combatendo criaturas tão sinistras.
—Quantos já exterminou?— perguntou entusiasmado, esquecendo-se do jornal.
Naruto passou a mão pelos cabelos tentando contar.
—Acho que...dezenove, não, vinte. Não sei ao certo.— respondeu tranquilo, aparentemente desinteressado.
—Vinte!— Minato deixou um sorriso infantil escapar. – Tudo isso em duas semanas?
O entusiasmo que brilhava nos olhos do pai começou a perturbá-lo e pela primeira vez ele se sentiu estranhamente orgulhoso do que fazia.
—Acho que sim.
—Isso...isso é muito legal, filho! Diga, eles são realmente difíceis ou os textos exageravam.
—Bom, alguns são novatos, ainda muito fracos. Enfrentei somente uma que tinha séculos de vida, desde a captura de sétimo.
Minato assobiou assombrado.
—Essa deve ter dado trabalho. Quanto mais velho um vampiro, mais perigoso.
—Nem tanto. Era abobalhada, nem sabia sobre o metal mais venenoso para um vampiro, a prata. Descarreguei metade do cartucho nela, deixei-a fraca e arranquei-lhe a cabeça. Tenho que jogar no mar.
—Aprende rápido, guri. Queria ter tido essa sua sorte.
—De que merda está falando, Minato? — Kushina perguntou irritada com a conversa. –Estão achando que isso é algum tipo de joguinho? Um parque de diversões para adultos? Estamos falando de Vampiros! Criaturas poderosas, criadas pelo próprio satã! Como podem achar graça com histórias de mortes e decapitações?
—Calma, oka-san. Não precisa se preocupar, eu tenho tudo sobre controle.
—Até quando?- disse ainda nervosa. – Até quando acha que vai ter tudo sobre controle? E se acabar machucado, ou pior, em uma dessas batalhas estúpidas? Como posso não me preocupar e trabalhar em paz sabendo que o meu único filho pode estar correndo perigo de vida? Não faz ideia de como eu odeio isso; saber que você está lá fora combatendo essas criaturas desgraçadas.
—Kushina, tente entender. – Minato tentou acalmar a esposa que parecia a beira de um colapso nervoso. — Naruto é um descendente de caçadores, é dever dele. Recebeu instrução, sabe lutar, conhece os pontos fracos. Além do mais, os vampiros mais poderosos estão longe, deixaram apenas as crias, fracas e novas, para trás. Como caçadores, não podemos deixar essas pestes fazerem o que quiser, matar gente inocente.
—Mas e se eles voltarem? Como pode me garantir que o nosso filho vai estar seguro se isso acontecer? Kami, porque justo o meu filho, ele é tão jovem...
—Oka-san. Eles não vão voltar. Os outros caçadores já estão na cola deles, todos mais velhos e experientes que eu. O meu trabalho é eliminar apenas estes que sobraram.
—Mas eles também são perigosos. Mesmos jovens, continuam sendo vampiros. Matam um monte de gente. Tenho medo de que façam o mesmo com você, meu filho.
—Eu sei, Oka-san. Sei que tem medo, por isso saio prevenido e nunca enfrento mais de um de cada vez. Não posso deixar pessoas inocentes morrendo enquanto eu fico tranquilo. É meu dever como descendente de Tobia; sou caçador de nascença.
—Dá para parar com isso por um instante? Eu não suporto essa obsessão que você e o seu pai tem com esse maldito Tobia! Só porque ele foi um caçador, na época dele, não significa que vocês tem que ser.
—Pelo contrário, Kushina. – Minato deixou o jornal de lado. Tinha o olhar obstinado, sério. – O nome Tobia, sua força e coragem atravessaram séculos. Ele exterminou muitos deles com determinação, para que o mundo se tornasse livre dessas criaturas, para que a matança acabasse. Nós seus descendentes, estamos espalhados pelo mundo para garantir que o mal continue lacrado.
—E porque vocês? Não existem outros que poderiam fazer o mesmo?
—Existem, mas isso não faria diferença alguma.
—E porque não? Por acaso só vocês sabem como matar essas coisas?
—Matar é o de menos, Kushina. Qualquer um que tenha conhecimento e coragem é capaz de matar um vampiro. O negócio é que a nossa herança cria medo entre eles. Todo vampiro que se preza teme a simples pronúncia do nome Tobia.
—E o que isso tem a ver? Não é algo bom?!Se eles tem medo vão ficar longe, estou certa?
—Não. Vampiros não pensam como nós. Eles não correm de algo que temem, pelo contrário, vão buscar eliminar o que os atrapalha. Por isso mandei Naruto exterminá-los, para obter experiência, caso contrário, viriam até nós, cedo ou tarde. Mandariam suas crias nos matar. Antes que elas venham, nós as matamos.
—Ainda não concordo com isso.
—Eu sei, oka-san. Prometo que em breve irá acabar. Agora melhor ir para a escola antes que chegue atrasado.
—Naruto. – Minato chamou fazendo-o parar na porta.
—Hi.
—Não esqueça o municiador.
—Claro que não, otou-san. Acha que sou bobo?!Tudo o que preciso está aqui.- apontou a mochila.
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Sasuke despertou com o barulho do despertador. Desativou-o com um movimento rápido e deixou o corpo relaxar na cama. Há uma semana não ia para a escola com medo do que poderia acontecer, de perder o controle, a sanidade e ferir alguém, ou pior, acabar se servindo de seu sangue. No entanto, mesmo após uma semana a sede permanecia sob controle, o que, de certa maneira, era um alívio. Se o que Gentil disse era de fato verdade, em pouco tempo voltaria a ser um humano normal. Apesar de não se sentir estranho, sabia também que já não era o mesmo.
Em verdade, não fosse o fato de conseguir enxergar tudo ao seu redor no escuro como se fosse dia e o estômago arder em protesto mesmo que de vez em nunca, acreditaria que tudo tivesse sido um sonho, ou melhor, pesadelo.
Levantou-se e após se arrumar rapidamente desceu as escadas. Como de costume, a casa estava vazia, os pais e o irmão saíam cedo, cada qual com suas rotinas e obrigações. Era assim que passava a maior parte do tempo, sozinho.
Após uma breve avaliação da própria imagem em frente ao espelho ele se decidiu. Jogou a mochila nas costas, arrumou os cabelos com as pontas dos dedos e saiu. Iria para a escola.
—----
Naruto chegou na sala e deixou a bolsa, um pouco mais pesada que o habitual, apoiada na cadeira. Sentou deixando o corpo relaxar por alguns segundos, permitindo-se até mesmo respirar de olhos fechados por algum tempo.
A vida como caçador era tensa e exaustiva, os vampiros adoravam o cheiro do seu sangue, vinham como loucos, sedentos. Estavam sempre a espreita, aguardando o momento em que ele ocasionalmente vacilaria em sua vigilância para então o pegar desprevenido. Era uma rotina estressante. As vezes tinha a impressão de que quem estava sendo caçado era ele.
Sentia-se cansado de tanto comer alho e carregar a bolsa pesada. Eram tantos, Kami! Pareciam se multiplicar como lebres, tamanha velocidade.
Olhou de relance para o braço repleto de marcas de cortes, alguns novos, outros antigos. Os mais profundos deixavam tênues cicatrizes que levariam um tempo considerável para desaparecer. Contou mais de dez.
Parecia loucura, mas era uma ótima armadilha, a estratégia perfeita.
Quando sentia a presença de um vampiro, talhava o braço e deixava o sangue escorrer. Não podia negar. Algo dentro dele explodia quando se via cara a cara com um deles, como um sexto sentido, uma habilidade nata.
A sensação que lhe acometia era de euforia pura. Seus instintos se tornavam mais apurados assim como sua concentração que se tornava afiada. Se tornava verdadeiramente um caçador, jurando inclusive poder perceber o cheiro deles. Era emocionante. O coração disparava, o sangue esquentava. O calor da batalha, a ideia do confronto o fortalecia.
Em meio a peleja ele agia mais por instinto, era como se todas as estratégias estivessem gravadas em seu código genético.
Assim como aqueles malditos vampiros tinham a sua alegria em caçar, ele também tinha. Era afinal, um Tobia. Um caçador. Os malditos tremiam ante sua presença e isso o regozijava.
Estava perdido em pensamentos quando viu Sasuke cruzar a porta e sentar-se ao seu lado. Tinha o mesmo olhar mau humorado de sempre, mas algo estava diferente. A pele tinha um aspecto pálido, quase doentio. Sentiu uma pontada estranha no peito que não pôde compreender.
—Há quanto tempo, Teme. Pensei que estivesse morto.- brincou.
—Quase isso.
—Estava doente?
—Sim.
—Pensei em te visitar, mas estive ocupado. A minha agenda anda muito cheia ultimamente.
—Nem consigo imaginar uma coisa absurda dessas. E a Sakura? Está vindo para a escola.
—Até ontem, sim. Diz aí, Teme, vocês brigaram? Terminaram?
— Porque a pergunta?
—Você faltando a escola, coisa que raramente te vi fazer, e a Sakura-chan numa onda de tristeza e marasmo que nem eu consigo anima-la. Não consigo entender.
—Claro que não. É muito para a sua pequena cabecinha de abacaxi compreender.
—Não foge do assunto, não! Então, o que aconteceu entre vocês?
—Nada. Apenas demos um tempo para a nossa relação, nada demais.
—Quer dizer que você deu um pé na bunda dela?! Olha, teme, mesmo sendo meu amigo, eu te quebro a cara se isso for verdade.
—Não é isso, dobe. Eu não larguei a Sakura.
—É pedir tempo é o que, hein?!
—E só dar um tempo, ora. Não significa que acabou, eu só preciso de um pouco de espaço para eu mesmo.
—No meu dicionário, dar um tempo, significa cair fora. Comigo não tem dessa frescuragem de ficar dando tempo.
—No seu dicionário, dobe, não no meu. No meu, dar um tempo significa dar um tempo, nem mais, nem menos.
—Espero mesmo, Teme, senão vai ver um sujeito muito mal humorado. A Sakura-chan é minha amiga, não vou permitir que ninguém a faça sofrer, nem você.
—Eu sei, Dobe. Eu sei.
As aulas correram tranquilamente, embora Naruto ainda olhasse para o amigo com o olhar desconfiado, sentindo o corpo reagir de maneira estranha.
Na hora do almoço, Sakura, que tinha chegado um pouco antes do professor, tentou conversar com Sasuke, mas ele insistiu em manter distância. Ainda não era seguro deixar que ela ou qualquer outra pessoa permanecesse perto dele por muito tempo. Mesmo que não estivesse sentindo a sede e que estivesse conseguindo controlá-la, não era bom arriscar. Miguel tinha sido muito enfático, era mais experiente, haveria de estar certo quanto a força daquela sensação. Tinha ido para a escola tentar pôr a prova se era capaz de suportar ao desejo e estava se saindo bem, todavia não desejava arriscar estar próximo demais da namorada e acabar sendo vítima de algum descontrole momentâneo. Por mais que estivesse no controle da sede era sensato não se aproximar muito enquanto passava por aquela fase de transição.
Na hora da educação física sentiu uma pontada estranha no peito enquanto corria. Pediu para ficar sentado e foi liberado pelo professor. Sem muito o que fazer, Sasuke passou a observar o treino de futebol do time feminino da escola, quando a pontada veio de novo, dessa vez mais insistente e dolorosa que a primeira.
O estômago queimou, a mente se afiou.
De repente os pescoços das garotas que corriam pareceram estranhamente convidativos. Belos e suculentos. A audição melhorada permitia ouvir o coração delas batendo acelerado pela corrida, bombeando sangue com força dobrada.
Adrenalina.
Desejo.
Sangue.
Era disso que precisava.
Estava perdendo o foco e o autocontrole sem sequer se dar conta. A mente entorpecendo, incapaz de resistir aquele chamado insistente provocado pelo instinto quase primitivo.
Uma menina caiu e ralou um dos joelhos que verteu sangue. Era Tenten, a atacante destaque do time.
O jogo parou ao soar do apito que despertou momentaneamente Sasuke de seus devaneios, e ela saiu rumando sozinha para o vestiário a fim de lavar e tratar devidamente o machucado para poder voltar ao jogo.
Sasuke mal pode segurar o próprio corpo quando ela passou perto dele, alisando a perna e espalhando o sangue pelo joelho em movimentos ondulantes que ele acompanhou com os olhos vidrados, engolindo em seco sem notar que a fitava sem nenhum pudor num gesto que felizmente passou despercebido a jovem que concentrava sua atenção no machucado que ardia.
O cheiro chegou forte, era delicioso, necessário. Sentiu os olhos arderem ao adquirir o tom vermelho. O estômago ardeu dolorosamente lembrando-lhe da fome que precisava ser saciada. As presas alongaram por instinto, prontas para serem usadas, afiadas para perfurarem e rasgarem a tenra e alva pele, permitindo que o sangue fluísse quente, delicioso. Sasuke tremeu com o pensamento, apreciando o desejo de sentir o líquido escarlate descer quente pela garganta, saciando aquela horrenda e enlouquecedora fome que fazia suas entranhas arderem impiedosamente.
Fechou os olhos buscando se controlar ao se dar conta das insanidades que estava cogitando. Contudo estava mais difícil retomar o domínio sobre seus pensamentos e ações. O desejo de se banquetear no sangue de Tenten urrava furioso, possuindo-o.
O cheiro voltou ainda mais convidativo, como uma resposta debochada a sua pífia tentativa de autocontrole. A maldita sede era mais difícil de controlar do que cogitara, realmente deveria ter dado ouvidos a Miguel e se trancafiado antes que aquilo acontecesse.
A necessidade gritou mais alto quando o estômago se contorceu dolorosamente.
Antes que percebesse, levantou-se de um salto. O corpo tremia como se sacudido por uma força invisível. A passos curtos, porém ansiosos ele a seguiu. Passou pelo gramado onde as outras conversavam e tomavam água sem se importar com a amiga rumo ao lavabo onde ela se encontrava.
Com a perna apoiada sobre a pia, Tenten resmungava a falta de sorte. Tanto lugar para ralar, tinha que ser justo o joelho?! Afetaria sua agilidade e qualidade durante o treino.
Sasuke se aproximou. Ela estava de costas, sem sequer conseguir imaginar o perigo. Uma presa fácil, a dominaria antes que ela percebesse e... no que diabos estava pensando?! Desde quando pensava assim, como um animal buscando alimento? Estava se deixando controlar. Balançou a cabeça retomando o controle aos poucos. Os Talvez fosse melhor ficar longe como Miguel dissera. Deu meia volta. Ia voltar para a sala, para junto de Naruto quando sentiu uma mão tocar-lhe o ombro.
—Sasuke, que bom que voltou. Estávamos preocupados com esse seu sumiço repentino. – Tentem disse sorrindo.
Tentou se controlar. O cheiro de sangue ainda subia da mão dela, mesmo depois de lavada. Ele conseguia sentir por causa daquele maldito olfato apurado. Os olhos arderam novamente e eles os fechou, conseguindo controlar a transformação a tempo.
—Estava doente. Nada com o que se preocupar.
—Que bom. Fico feliz que esteja se recuperando, mas acho melhor pegar um sol, está ficando cada vez mais branco.
—Sim, vou fazer. – respondeu sem graça.
—Bom, até mais. Preciso voltar a treinar, senão o treinador me arremessa pelos muros. Ja ne.
De alto da arquibancada, Naruto observava silencioso. Tinha visto o nervosismo do amigo, mas o que mais incomodava não eram exatamente os seus hábitos estranhos, e sim o que eles representavam para a sua carreira. Não podia conceber a ideia, mas já suponha, com os poucos indícios que havia coletado naquelas poucas horas em que o reencontrou, que a doença do amigo não era algo comum. Afinal, ele era caçador, conhecia bem aqueles sintomas e, em seu âmago, rezava para estar errado, caso contrário teria que confrontar e exterminar o próprio melhor amigo, e isso era algo que o destruiria de muitas maneiras.
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