Sangue Frio
1 Capítulo 1
— Tu viu que coisa mais tenebrosa, Sagi? — indagou Aquário, vidrada na televisão.
— Ahh não… — Sagitário já conhecia bem aquele papo — Não começa com as tuas histórias doidas de terror… Eu sei que o halloween está chegando e você fica animada com qualquer porcarias que tu ouve, mas controla esse fogo! — A mesma terminava de arrumas as malas. Ambas iriam acampar naquele fim de semana, e já sabia que ouviria diversar coisas aleatórias ao redor da fogueira a noite.
— desenterraram o corpo de uma mulher!
— Aqua…
— Aposto que era para propósitos malígnos! Essa pessoa deve ter algum trauma de infância — Aquário ficou em pé no sofá — então essa pessoa resolveu se vingar — olhou para os dois lados e concluiu cochichando — fazendo experimentos com zumbies
Sagitário caiu na gargalhada, aquilo era tão típico da melhor amiga, mas era divertido tentar pará-la e falhar miseravelmente.
— Qual é, Aqua! Quem em sã conciencia faria um treco desses?
— Devemos montar uma base secreta para nos proteger em breve… O apocalípse está próximo!
— Você está quase tão energética com essa história como quando inventou a da vampira vegana.
— Ora mas porque outro motivo alguém roubaria um banco de sangue?
— Mercado negro, minha cara — pegou uma das mochilas e pôs nas costas — o engraçado é que logo você acha outra história pra se distrair e esquece essa.
— Mas um apocalípse zumbie é coisa séria! Devemos nos preocupar...
— Que tipo de outras teorias você tem? — Sagi joga a outra mochila a ela.
— Vem comigo que eu te conto!
* * *
Demorou uma bela tarde para chegarem ao destino, embora isso de forma alguma lhes fosse empecilho, afinal, ambas amavam uma trilha. Chegaram a cachoeira, onde iriam acampar, ao por do sol. Tanto Aquário quanto Sagitário largaram as mochilas as pressas no chão e foram escalar o grande amontoado de pedras afim de ter uma vista privilegiada do céu alaranjado. E que vista!
— Poderia ficar aqui o dia todo! — comentou Sagi.
— Eu não — Respondeu Aqua — Eu sei que o por do sol é irado, mas é chato ficar um tempão só olhando.
Sagitário riu. Não era nenhuma novidade para si a inquietude da amiga, mas queria aproveitar cada momento da forma que pudesse.
— Vamos dar um jeito de acender uma fogueira antes que escureça mais — afirmou a equina, indo para a beira da cachoeira e pulando em seguida. Aquário foi logo atrás.
— Temos que caçar lenha para isso — Aquário foi para a sua mochila e pegou dois apitos, entregando um a amiga — o meu é um apito de pica pau — contou, tocando-o em seguida — o seu é de canário. Se você se perder, toca o apito. Assim é só eu seguir o som que eu te acho.
— Beleza. Acho bom que você tenha trazido, seu senso de direção é péssimo!
— Ora você! — Aquário fechou o punho e Sagitário tornou a rir. Logo cada uma foi para um lado caçar gravetos caídos pelo chão.
Sagitário aproveitava para observar cada detalhe na floresta, afinal, era bastante curiosa e adorava a natureza. Ao se afastar um pouco, encontrou um caminho no meio da floresta, aparentemente vindo ou indo a lugar nenhum. Olhou ao redor para ver se tinha algo por perto, pois aquele caminho não poderia estar lá a toa, mas pareceu não encontrar nada. Decidiu seguir aquela trilha para ver aonde dava, logo percebendo que já estava bem escuro.
Ao longe pode perceber uma estrutura em meio as ávores, logo vendo que se tratava de um casebre de madeira caindo aos pedaços. Curiosa, aproximou-se, notando que uma luz fraca iluminava o interior da casa pelas brechas na parede, largou os gravetos que havia recolhido perto da entrada e bateu na porta, que acabou abrindo com os toques, fazendo aquele típico som de porta em meio o silêncio que estava instalado dentro da casa.
— Olá? — Sagi chamou, mas não obteve resposta.
Espichou a cabeça para dentro, podendo ver o quão acolhedor era o local por dentro. Tinha as paredes pintadas em tons pastéis de rosa e amarelo, um pequeno sofá cor vinho com almofadas vermelhas com estampa de coração, a mesa de centro parecisa ter sido feita a mão com fibras de bambu trançadas, semelhantes a um cesto, tinha um vaso transparente com água e uma rosa vermelha murcha.
— Tudo ficou tão fofo de repente…
Decidiu entrar para ver mais do lugar. Tinha receio por provavelmente estar invadindo, mas a curiosidade era maior. A sala era pequena, tendo uma porta a direita, uma a frente e uma escada estreita ao lado. Entrou em uma das portas, vendo agora um cômodo com paredes em branco e azul claro, a mesa era feita de madeira, tal qual os armários que tinhas as portas semelhantes a mesa da sala, provavelmente feita da mesma forma.
Poderia facilmente dizer que se tratava de uma cozinha, mas não tinha fogão e nem geladeira no local, provavelmente por não ter energia eléctrica. Mas o que chamou mais a atenção não foi a ambientação extremamente agradável, e sim as duas bolsas de sangue que estavam estiradas sobre a mesa.
— Que porra é essa? — Sagitário balbuciou nervodamente, atenta a qualquer barulho. Seu corpo estava em estado de alerta — Vai me dizer que o mercado negro é aqui?
Logo que completou a frase, o som de um salto alto caminhando pelo assoalho de madeira fez seu corpo hiperventilar. Sagitário ficou sem saber para onde correr, tentou andar com mais cautela até a janela que tinha na cozinha, já que o som dos passos vinha da escada, acabando por dar uma joelhada no pé da mesa, fazendo-a se arrastar um pouco e Sagitário dar uns pulinhos segurando a região dolorida.
Aquilo chamou a atenção de quem quer que fosse que se apressou, sem dar tempo da equina reagir, lamentando eternamente por ser atrapalhada. Quando apareceu na porta da cozinha, Sagi pode ver que se tratava de uma mulher bastante atraente, seu corpo era curvilineo, o rosto fino e os lábios vermelhos marcados pelos caninos afiados, seu cabelo era de um tom vinho, curto e pontudo, lembrando um ferrão. A mesma sorriu, antes que Sagi pudesse dizer qualquer coisa.
— Olá! Por favor sente-se — Ela deu a volta na mesa para puxar a cadeira, Sagi deu uns passos para trás assustada — Faz tempo que não recebo visitas!
— Ohh… Claro! — Sagi sorriu amarelo e sentou na cadeira, achando que aquilo era algum tipo de ameaça.
— Eu tenho uns quitutes para ocasiões assim! — A mulher então foi a um dos armários e pegou um pote cilindrico transparente cheio de doces e pôs em cima da mesa — Pode se servir a vontade!
— É muita gentileza sua… — Sagitário se movia pensando que qualquer movimento errado e sua vida já era. Quem mandou entrar na casa alheia? Agora estava presa com uma possivel traficante.
Pegou um dos doces do pote e pôs na boca, chegando a rápida conclusão que aquilo deveria estar vencido a muito tempo
— Ahnn… E como uma moça bonita como você se chama? — Falou tentando puxar qualquer assunto, afinal, o silêncio era mais assustador do que qualquer papo que pudesse sair dalí. A mulher parou, estava a pegar uma taça em outra porta do ármário. Analisou o próprio reflexo na taça e sorriu.
— Escorpião — respondeu — eu me chamo Escorpião.
— Ahh — a equina surpirou de alívio e riu um pouco — Por um momento achei que tivesse dito algo de errado…
Foi quando ela viu a mesma abrir uma gaveta e pegar uma faca pequena, porém visivelmente afiada. Podia sentir o suor escorrendo pela sua testa.
— É que — Escorpião tornou a sentar do outro lado da mesa — normalmente as pessoas não costumam me elogiar… Tampouco sorrir perto de mim. A menos que queiram alguma coisa.
Sagi quase soltou um "Mas eu quero alguma coisa! Quero viver!" mas se conteve, tendo como reflexo um sorriso espontâneo que o fez ao pensar isso.
— E como você sabe que eu não quero nada?
— Eu estou vendo que você está com medo — Escorpião repousou a taça sobre a mesa, logo pegando uma das bolsas de sangue, abrindo com auxilio da faca e servindo na taça — Pessoas com medo não costumam querer algo além de viver. Mas fique tranquila, eu não farei nada com você.
Sagitário soltou um surpiro de alivio, rindo sem jeito. Estava tão feliz com aquelas palavras que quase esqueceu a cena que estava acontecendo a sua frente.
— Então você não vai me matar e vender meus orgãos? — Brincou, puxando um assunto qualquer.
— Ohh não! — Ela riu, e que risada adorável — Eu sou vegana. Procuro viver de forma que não prejudique nenhuma pessoa ou animal.
— Que maneiro, cara! Mas e esses docês? — apontou o pote ao qual havia sido oferecido a si momentos antes — não vai leite ou algo assim neles?
— Eu não tenho certeza, estão aqui a muito tempo…
— Ô! — Sagi tentou esconder o seu humor, aquilo estava tão obvio para si — Nem deu pra perceber, sabe? — Retrucou sarcasticamente.
— Fico feliz que gostou! Eu mesma cozinhei a muito tempo — bebericou um pouco do liquido na taça.
— Que gracinha. E essas presas são feitas do quê? Unha postiça?
— O quê? — Escorpião a olhou confusa.
— E essas bolsinhas de sangue são maneiras! Parecem de verdade. O que é isso que você está bebendo? Parece sangue de verdade! — Sagi estava animada novamente, mas a alegria se esvaiu quando ela viu a feição séria da escorpiana — ahn… Eu disse algo de errado?
— Ouça bem: essas presas são de verdade. E isso na taça é sangue de verdade. Você não estava com medo antes por eu ser uma vampira?
— COMO É QUE É? — a equina a encarava incrédula — Você é uma vampira mesmo? — Escorpião balançou a cabeça positivamente — Então… O sangue que está bebendo… E aquele papo sobre veganismo?
— Esse sangue foi oferecido de livre e espontânea vontade para quem precisasse, e eu de fato preciso. Não é a mesma coisa que eu te morder a força e te transformar em um ser dependente como eu…
Sagitário abriu a boca e fechou em seguida, era muito impacto em um curto período de tempo. Podia ver pelo semblante da escorpiana que ela não era feliz com aquilo.
— Então foi você que roubou o banco de sangue? — perguntou com cautela.
— Sim. Faço isso periodicamente — ela repousou a taça vazia sobre a mesa e levantou-se — se eu chegasse de forma amigável dizendo que sou uma vampira e preciso de sangue, provavelmente iriam me matar. O mesmo aconteceria se eu tentasse fazer amigos… Só posso sair a noite, então é quando pratico meus furtos. Não espero que entenda, apenas peço que não conte a ninguém…
A equina ouvia tudo em silêncio, logo obtendo um semblante tristonho. Escorpião então pegou a taça, a levando de volta ao armário, mal percendo quando Sagitário se aproximou, estremecendo quando recebeu um abraço repentino pelas costas. Sagi pode notar que a pele de Escorpião era gélida, digna de uma pessoa morta, porém não viu o sorriso singelo que se formou no rosto da ruiva.
— Me desculpe. Eu não queria deixar o clima tenso, nem te diminuir. Demorou pra cair a ficha, mas eu te respeito independente da sua forma de vida!
Escorpião suspirou fundo. Se seu organismo ainda fosse capaz de produzir lágrimas certamente teria chorado… Passou as mãos nas da equina que lhe enlaçavam, eram quentes. Lembravam-na dos bons tempos quando ainda era humana. Fazia tanto tempo… A ruiva balbuciou algo quando ouviu o canto agudo de um pica-pau, tão agudo que nem diria que era um pássaro.
— Que estranho — Comentou — Esse pássaro é tão desafinado que parece um apito desenfreado sendo tocado por alguém sem paciência…
— Você disse "apito"? — ambas se soltaram e se entreolharam — Aquário! Esqueci dela…
Sagitário saiu apressada para o lado de fora, pegando seu apito do bolso com tanta pressa que quase o derrubou no chão. Escorpião a seguiu para ver o que ela faria, logo a vendo emitir um som também agudo com o apito de canário.
— Sagi, o que está acontecendo?
— A minha amiga! Ela está perdida, preciso encontrar ela!
— Ohh... Você veio com companhia?
— Ahh sim, a gente veio acampar. Hey, já está de noite! Você pode vir junto! Aposto que ela vai adorar te conhecer!
— Você acha? — Escorpião sorriu singelamente, com o indicador próximo aos lábios. Sagi podia sentir suas bochechas esquentarem — Irei junto, mas voltarei para casa quando forem dormir. Não quero ter problemas ao amanhecer.
— Olha, se você quiser…
O som ensurdecedor do apito voltou a assombrá-las. Aquário parecia assustada.
— Melhor irmos. Sua amiga parece querer vê-la logo.
Sagi riu, pegou o seu apito e foi tocando também para sinalizar que estava chegando, ambas foram seguindo o som...
* * *
Não demorou muito para Sagitário e Escorpião encontrarem Aquário perto da cachoeira onde iriam acampar, a fogueira já acesa com um tronco em frente e uma pedra atrás com a doida do polvo em cima tocando o apito.
— Hey, Aqua!
— SAGI! — Aquário tacou o seu apito no chão e foi correndo até a amiga, lhe abraçando — ESTAVA PREOCUPADA! PORQUE DEMOROU TANTO?
— Longa história… Quer ouvir? Espera, você não estava perdida? Porque estava tocando o apito?
— VOCÊ DEMOROU SUA FILHA DA PUTA, ACHEI QUE UMA LOBA TIVESSE TE COMIDO, DISGRAÇA! — Aquário chacoalhava a amiga que tentava assimilar os xingamentos. Em seguida olhou para Escorpião que observava atentamente as reações de ambas, interessada — E quem é tu? — Perguntou Aquário.
— Me chamo Escorpião, muito prazer! — ela lhe ofereceu a mão, que foi cumprimentada pela aquariana.
— Você é gelada… — comentou pouco antes de focar nas suas presas — Oh meu deus! VOCÊ É UMA VAMPIRA! — Aqua pôs as mãos na bochecha maravilhada. Se o seu rosto não estivesse parcialmente coberto pela polva, seus olhos iluminados ofuscariam as vistas das outras duas.
— Hum, ela é rápida — Escorpião sorriu. Pela primeira vez alguém ficava feliz logo que lhe conheceu. De canto de olho podia ver a indignação de Sagitário por ter demorado tanto para perceber — E esse animal marinho em sua cabeça?
— É de estimação, tenho ela desde pequena.
— Ela é tão fofa!
— Eu disse que ela ia gostar de você! — comentou Sagi para Escorpião, piscando o olho para ela — Hey Aqua, sabia que ela é vegana?
— VIU SÓ? E você não botou fé!
Sagitário e Escorpião riram, vendo uma aquariana fazer bico indignada. Em seguida se sentaram em volta da lareira para ouvir histórias contadas por Aquário.
A vampira estava tranquila, se sentindo acolhida pelas novas amigas. Deixou claro que queria que lhe visitassem de tempos em tempos. Era bom não estar mais tão só…
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