Sangue, Fogo e Estrelas
3 Valdocaso
Notas iniciais
Aelora ocupou um lugar em sua janela, com vista para o oeste, durante a maior parte da manhã, do nascer do sol até o meio-dia. Primeiro, ela contou nos dedos das mãos os corvos que saíram da Fortaleza Vermelha. Depois, fez riscos nas paredes. Quando já passavam de vinte, desistiu de contar e voltou-se para dentro de seu quarto. A porta estava aberta, e Aelora podia entrever sor Barristan Selmy do lado de fora, com um lenço negro amarrado à sua roupa branca da Guarda Real, pela morte de seu irmão juramentado, sor Gwaine Gaunt, tentando defender o rei em Valdocaso.
A princesa já cansara de murmurar para o cavaleiro o quanto ela lamentava a morte de sor Gwaine, que pertencia à Guarda Real desde antes dela nascer, e ela ainda não se sentia melhor; principalmente porque a Fortaleza Vermelha jamais fora tão acolhedora como era agora que seu pai estava sequestrado.
Rhaegar passara a tocar sua harpa com mais frequência, entretendo criadas e guardas pelos corredores. As moças se debulhavam em lágrimas com o modo como ele cantava Jenny de Pedrasvelhas, e os guardas olhavam de lado e murmuravam condolências, pensando que a melancolia do seu irmão se devia à falta do pai. Poucos sabiam que a melancolia de Rhaegar havia simplesmente nascido com ele, como se o peso do mundo houvesse sido depositado em suas costas ao nascimento.
Havia uma única canção que Rhaegar não compartilhava com ninguém além de Aelora. Essa era a sua Canção de Gelo e Fogo, mas Aelora evitava pensar nela. O nascimento de Viserys apenas fizera Rhaegar mais certo da antiga profecia sobre O Príncipe Que Foi Prometido. Os irmãos, segundo ele, eram as três cabeças do dragão. Aelora dissera a ele que não via gelo entre eles, mas Rhaegar jamais a ouvira. Havia sido por causa da canção que saíra de trás de seus livros para o pátio de treinamento, segurar armas. Ela não insistia mais no assunto, embora gostasse de ouvir a canção.
Ela ainda estava olhando para o lado de fora quando um murmúrio de vozes indicou que alguém se aproximava; seu quarto ficava numa ala distante do castelo, dentro da Fortaleza de Maegor, e não era comum ouvir-se ruídos em seu corredor. A princesa virou-se, pensando que, talvez, fosse sua mãe, com sua recém-descoberta liberdade; sem o rei Aerys por perto, Rhaella e seu bebê, o Príncipe Viserys, podiam vagar por onde bem entendessem no castelo, e vinham se aproveitando bastante do Bosque Sagrado para fazer caminhadas matinais.
Foi Rhaegar, porém, que acenou para sor Barristan na porta e entrou em seu quarto sem ser convidado. Atrás dele, vinham sor Arthur e Jon Connington, e ambos pararam nos umbrais, hesitantes em adentrar o quarto da princesa.
Aelora imediatamente abandonou seu lugar à janela, e correu na direção do irmão. Ele a segurou bem perto, pelos braços, e sua expressão era atormentada.
—Diga-me, irmão. –Ela pediu.
—Lorde Denys enviou uma mensagem dizendo que, se fosse feita alguma tentativa de derrubar suas muralhas, Sua Graça, nosso pai, seria morta. Alguns membros do pequeno conselho questionaram isso, declarando que nenhum filho de Westeros jamais cometeria crime tão hediondo, mas Lorde Tywin não arriscaria. Em vez disso, com um exército considerável, cercou Valdocaso, bloqueando-a por terra e pelo mar. –Rhaegar disse tudo como se houvesse decorado as informações de um livro-texto. –Lorde Redwyne já está levando sua frota pelo mar em direção à baía de Valdocaso, e esperaremos que a fome e a escassez devolvam nosso pai.
Aelora piscou, surpresa.
—Por que Lorde Tywin simplesmente não dá aos Darklyn o que eles desejam? –Ela não compreendia. –Dê o alvará de comércio. Dorne não o tem?
Rhaegar virou-se para trás e, vendo que seus dois amigos estavam ainda parados na porta, fez um gesto para que ambos entrassem no quarto. Jon Connington entrou, fazendo uma leve reverência para a princesa, mas sor Arthur esperou que ela mesma acenasse em concordância antes de pôr os pés para dentro. Aelora estivera conscientemente evitando focalizar seu olhar no cavaleiro, mas, agora que tinha feito isso, não achava que pudesse olhar para o outro lado. A Espada da Manhã, com seus olhos cor de lilás, não desviou o olhar dela tampouco, não até que Rhaegar a tocasse no ombro para chamar sua atenção.
O irmão se virou para ela mais uma vez.
—Lorde Tywin diz que isso faria a coroa parecer fraca.
Havia algo na voz melódica de seu irmão.
—Ter o rei cativo nos faz parecer fracos. –Aelora sabia que lorde Tywin devia ter razão, mas também ela o tinha. Se o seu pai fosse prisioneiro por muito tempo, nada impediria que, quando ela e Rhaegar fossem rei e rainha, os seus vassalos se erguessem para fazer o mesmo com eles. Pior ainda; se o seu pai fosse morto por Lorde Denys Darklyn, então seus senhores corriam o risco de descobrir que os Targaryen eram apenas humanos, e eles não tinham mais seus dragões para provar o contrário. Mesmo Lorde Tywin tinha de saber disso, a não ser que o rei morresse e os Darklyn fossem severamente punidos, como acontecera aos Reyne de Castamere. O pensamento a fez estremecer, e ela se virou para o irmão novamente. –O que quer dizer com “Lorde Tywin diz”? Se é isso que ele diz, o que ele pensa?
Ao invés de responder, Rhaegar atravessou seu quarto até as pesadas portas de abeto, entalhadas com desenhos de dragões e pintadas à mão por artistas de Myr, onde os dragões adquiriam compleições realistas com suas brilhantes escamas azuis, cinza e brancas, e suas chamas vermelhas.
Sem encarar sor Barristan do lado de fora, Rhaegar fechou as portas, e se virou para os três lá dentro. Jon, ela sabia, daria um braço por Rhaegar se o príncipe pedisse, e seus segredos estavam a salvo com ele. Arthur um dia seria membro de sua guarda real, e Aelora sua rainha.
—Lorde Tywin... –Ele disse com uma lentidão dolorosa para Aelora, que queria informações. –Parece pensar que seria melhor se o rei fosse retirado, e de maneira discreta.
Aelora digeriu a informação lentamente. A corte era mais feliz sem o pai por perto, e também era verdade que Rhaegar era um homem-feito. Não havia afeto exacerbado entre o rei Aerys e seus filhos; o rei não se agradava muito de Rhaegar, que era focado e carismático, diferente dele. Aelora amava Rhaegar, e aí as linhas foram traçadas na infância. Por outro lado, o rei havia garantido a vida e a segurança deles; e todas as leis dos deuses e dos homens os obrigavam a corresponder.
Não havia um homem mais odiado pelos deuses que um assassino de parentes.
—Lorde Tywin é um tolo se pensa que não haverão aqueles que apontarão o dedo para ele. –Aelora avisou ao irmão, a voz severa. –E apontarão corretamente. Não pode fazer parte disso, Rhaegar.
Ela analisou o rosto de Rhaegar. Sempre houvera uma fina linha entre a melancolia e o desespero nele; e o segundo estava ganhando. A tensão no canto de sua boca, as meias-luas escuras embaixo dos olhos, o modo como seu cabelo caia sem brilho em seus ombros. Ele parecia um homem atormentado, e ela receava que sabia quem era a tormenta.
—Ele não disse com todas as palavras. –Rhaegar a avisou. –É uma conjectura minha.
—Ele não diria, não na frente do Touro Branco. –Ela concordou. Gerold Hightower, Comandante da Guarda Real, era um dos membros do Pequeno Conselho, e certamente não admitiria uma coisa daquelas sendo dita em sua presença.
Para a surpresa da princesa, um aliado se adiantou na fala:
—Lorde Tywin deseja casá-lo com a filha, Cersei, Príncipe Rhaegar. –Lembrou a ele Sor Arthur. Aelora não sabia como a Espada da Manhã tinha aquela informação, mas ficou agradecida que tivesse. –Pretende que seu filho, o garoto Jaime, despose sua irmã.
Essa última parte, Arthur disse encarando apenas Rhaegar, mas Aelora sentiu como se o cavaleiro falasse com ela.
O príncipe olhou para cada um dos três por um tempo que pareceu infinito. Então foi até a mesinha de escrita da irmã, passou o braço por cima, varrendo-a de papéis e tinteiro, e indicou que os outros tomassem lugar. Aelora não reclamou do tratamento com seus pertences; havia um fogo nos olhos do irmão, como se houvesse sido possuído por nova determinação.
Quando os quatro se sentaram na pequena mesa, com Rhaegar na cabeceira, ele fez um gesto amplo de braços.
—Bem, sejam meu Pequeno Conselho. –Ele disse, finalmente, incitando-os. –Aconselhem-me.
Os três se entreolharam por um momento. Aelora havia se sentado ao lado de Rhaegar, de frente para Jon, e sentiu mais que ouviu a risada do cavaleiro ao seu lado. Ela mesma abriu um sorriso involuntário ao ouvi-lo. Arthur viu seu sorriso por cima da mesa, e por baixo dela, ele acariciou os nós de seus dedos, que ela tinha no colo.
O sorriso morreu no rosto de Aelora quando ela virou o rosto para encarar Rhaegar, tentando notar se ele podia ver. Ela não se atrevia a olhar para baixo, onde Arthur ainda tocava sua mão. Mas Rhaegar ouvia um conselho de Jon e não olhava para eles.
—...são leais ao senhor seu pai. –Dizia Jon Connington. –Se parecer que meu príncipe se voltou contra seu real pai, perderá a lealdade deles. Uma morte natural, na velhice, transferirá a lealdade deles a você, meu príncipe, com mais certeza.
Ao falar, Arthur soltou a mão da sua. O lugar onde ele segurava ficou subitamente frio.
—O rei ainda tem muitos aliados, é verdade. –Ele concordou com Connington, mas Aelora ouvia apenas o sangue batendo em seus ouvidos. –Mas em quantos deles podemos de fato confiar contra Lorde Tywin.
Isso gerou um incômodo silêncio no quarto. Lorde Tywin podia até não ser amado, mas era extensamente temido e invejado na corte. Alguns, mesmo os leais, ficariam ao seu lado apenas por um favor ou por sua amizade, por mais fria que esta fosse.
—A Guarda Real. –Aelora disse em voz alta, enquanto pensava em títulos, terras e no que mais podia ser vendido.
Juramos a não possuir terras, títulos ou mesmo mulheres, a Guarda Real era o aliado perfeito desta empreitada; sua fé na realeza era firme e inabalável.
Rhaegar sorriu para ela como se houvesse acertado uma questão corretamente em suas aulas de geografia com Meistre Pycelle. Aelora quis sorrir de volta, mas não foi capaz.
—Reúnam a Guarda Real. –Declarou Rhaegar, levantando-se. –Nosso Pequeno Conselho está prestes a ficar um pouco maior. –Ele já estava se dirigindo à porta, mas então deu uma pequena pausa. –Aelora, terei de declarar esta a sala de reuniões oficial. Nem mesmo Lorde Tywin se atreveria a pôs o nariz no que há no quarto de uma princesa.
Aelora não se importava, principalmente porque, daquela forma, ela estaria no centro de tudo. Sem mais, seu irmão escancarou a porta e saiu por ela, com Jon em seu encalço. Ele murmurou algo para Sor Barristan, e o membro da Guarda Real passou a segui-lo.
Mesmo a Espada da Manhã já partia, quando Aelora o chamou de volta:
—Sor Arthur. –Ele virou-se em seus pés, Alvorada brilhando em seu cinto de armas, tão pálida quanto a própria Aelora. –Ouviu falar em Sor Gwaine Gaunt?
Ele estreitou os olhos, sem seguir sua linha de raciocínio.
—Lamentei sua morte, era um grande cavaleiro, entre os melhores. –Foram suas palavras.
Claro que ele teria lamentado, ela um verdadeiro cavaleiro, não apenas com um coração valente, mas também bom. Ainda assim, Aelora insistiu.
—Há uma vaga, então, na Guarda Real. –Anunciou. –Percebe isso, não? Deve ter esperanças por ela, pois o senhor meu pai real ficou impressionado com você no Torneio....
—Minha princesa! –Ele a interrompeu, o cenho franzido. –Parece cedo para falar nisso, uma vez que seu real pai não está aqui, e a morte é tão recente.
—Mas deve ter pensado nisso. –Ela insistiu. –Não pensou?
—Pensei. –Ele disse, subitamente, olhando para o outro lado como se não suportasse a visão dela. –Me ocorreu, minha princesa, sim, que havia vaga.
Aelora não soube dizer porque seus olhos se encheram com lágrimas quentes.
—Fará, então, parte da Guarda Real se a oportunidade for oferecida a você?
Arthur ainda não olhava para ela, de forma que não via as lágrimas descendo seu rosto dos olhos ao queixo.
—Casará com o Príncipe Rhaegar quando chegar a hora, minha princesa?
Ela desejava que ele não a chamasse daquela forma. Aelora desejava muitas coisas; poder estender a mão e tocar o cabelo escuro, perceber se era tão macio quanto parecia. Queria que ele olhasse para ela, e visse algo em seu rosto que o fizesse desistir. Mas, então, ele iria para longe. Não teria motivos para ficar por perto enquanto ela casava com Rhaegar, e tinha seus filhos.
Ela passou as costas da mão no rosto, limpando as lágrimas para longe, e fungou, se recompondo.
—Sor Arthur. –Algo em sua voz devia ter chamado a atenção do cavaleiro, porque ele finalmente olhou para ela. Seus olhos eram vidro quebrado, mas Aelora os encarou mesmo assim. –Não poderá acariciar minha mão por debaixo da mesa quando eu for oficialmente noiva do Príncipe Rhaegar. –Ele aceitou a represália com o rosto orgulhoso e erguido, mas as próximas palavras dela o quebraram por inteiro. –Mas enquanto eu não sou noiva, e você não é um Irmão Juramentado da Guarda Real, por favor, venha e me beije.
Por um segundo pareceu como se ele não acreditasse em suas palavras, mas então, se recuperando, Arthur deu um passo para frente, para ela, e foi quase um tropeço; o cavaleiro que estava sempre tão firme sobre seus próprios pés. Ele a segurou com cuidado, e acariciou seu rosto, os olhos no dela, lilás e púrpura, e se aproximou mais.
Ela sentiu o toque dos lábios dele, gentis no início, e os dela se abriram automaticamente sob a pressão. Quase contra a vontade, ela se sentiu ficar fluida e flexível, esticando-se para cima para envolver os braços no pescoço dele como um girassol roda em direção à luz. Os braços dele deslizaram em volta dela, passando pelos cabelos, e o beijo deixou de ser suave e se tornou feroz, tudo em um instante como uma chama se acendendo.
Aelora ouviu um ruído percorrer o quarto ao redor deles, uma onda de barulho, mas não significou nada, se perdeu no ímpeto do sangue que corria pelas veias, a sensação entorpecente de leveza no corpo. As mãos de Arthur saíram do cabelo e deslizaram pelas costas, ela sentiu a pressão pesada das palmas dele nas omoplatas, e em seguida ele se afastou, soltando-se gentilmente, afastando as mãos dela do pescoço e dando um passo para trás. Por um instante, Aelora pensou que fosse desabar; sentiu como se algo essencial tivesse sido arrancado dela, um braço ou uma perna, e encarou Arthur com um espanto confuso — o que ele tinha sentido será que não tinha sentido nada? Ela não achava que poderia suportar se ele não tivesse sentido nada.
Arthur olhou para ela, e quando ela viu o olhar em seu rosto, viu os olhos escurecerem. Ele sustentou o olhar de Aelora por uma fração de segundo, em seguida desviou o olhar, os músculos da garganta se mexendo. Ele cerrou as mãos em punhos nas laterais do corpo.
O cavaleiro ainda estava olhando para ela quando disse em voz alta:
—Sim, sor Barristan?
Aelora virou-se num redemoinho de saias e encontrou o outro cavaleiro de pé nos umbrais de sua porta. Ela não havia pensando em fechá-las, mas também não pensara que alguém se aproximaria. O beijo a deixara tonta demais para notar, mas Arthur era um cavaleiro ungido, e seus sentidos eram mais aguçados.
A expressão de sor Barristan, cujos cabelos louros começaram a mostrar sinais de brancos, era inteiramente ilegível. Aelora gostaria de saber o que ele pensava; de ambos. Consideraria traição? Ele havia sido aquele que levara Aelora de sua mãe ao seu pai no dia que nascera, para que o rei avaliasse seus novos filhos. Gerold Hightower havia levado Rhaegar, mas ela havia sido entregue a sor Barristan.
—O Príncipe chama-o, sor Arthur Dayne. –Foi tudo que ele disse.
Se Aelora pensou que Arthur sairia sem olhar para ela, talvez consciente de sua traição, não foi o que aconteceu. O cavaleiro se ajoelhou diante dela, e plantou um beijo em sua mão ainda trêmula. Murmurou “minha princesa” e seguiu Sor Barristan para fora da sala.
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