O garoto não estava na sala. Entrei desapontado, sentei-me à mesa, pus meus braços cruzados sobre ela e deitei a cabeça sobre os braços, já que não ia prestar atenção à aula de história, mesmo.
A professora, que já havia chegado, começou a apresentar um aluno novo. Ergui a cabeça bruscamente na esperança de ver ali na frente o garoto que vira ainda há pouco. E lá estava ele, todo reluzente, com seu cabelo loiro escorrido na testa, seus olhos azuis reconfortantes, corpo forte e um sorriso magnífico estampado em seu rosto com linda covinhas. A professora dizia:
— ...ele é do intercâmbio, de Madri, e nós estamos fazendo uma experiência com ele para sabermos em qual sala ele permanecerá durante esse ano letivo.
Logo me senti esperançoso, com o coração à mil, torcendo para que a aquela fosse a turma na qual ele estudaria o ano inteiro, assim, eu poderia admira-lo por mais tempo.
Quando a professora terminou de falar, pediu a ele que se sentasse à única mesa disponível em toda a sala- a última da segunda fileira- e aí vem a parte interessante: é justamente a mesa que está perfeitamente posicionada ao lado da minha.
Dirigindo-se à sua mesa, o garoto toca-me de leve no braço, o que foi suficiente para eu dar um pulo e chamar a atenção de toda a sala para mim; eu havia levado um choque doloroso que eu não pude evitar o susto. O garoto se abaixou e sussurrou ao meu ouvido suavemente- desculpe-me- e sentou-se à mesa. A professora começou a sua aula-que-ninguém-merece de história.
Eu estava muito afim de puxar assunto com ele, mas a timidez me vencera, como sempre. Quando eu ia me levantar para ir passear um pouco fora da sala, ele me cutucou e me virei mais depressa do que gostaria de fazê-lo, deixando escancarado que aquilo era o que eu mais queria. Fiquei envergonhado com aquilo mas tentei fingir que estava tudo okay, torcendo para que ele não tenha percebido. Ele estendeu sua mão e disse:
— Muito prazer, meu nome é Loycam Martínez. E você, como se chama?
Fiquei de boca aberta, impressionado com seu português. Seu sotaque espanhol, apesar de perceptível, era bem sutil, como se estivesse vivido anos no Brasil.
— Levy Price- respondi tentando não demonstrar muito interesse na conversa.
— Diz aí. Levy é teu nome mesmo ou é só um apelido para facilitar a pronúncia?- disse ele- Porque raramente me chamam de Loycam, geralmente me chamam de Luke, somente Luke.
— Pode me chamar de Levy- respondi não querendo revelar meu nome inteiro, já que eu não tinha muita simpatia por ele. Acho que praticamente ninguém sabia meu primeiro nome inteiro.
— Tá okay, Levy. Será que eu poderia ficar com você e sua turma no intervalo?
— Se preferir ficar comigo, ficará comigo, apenas. Não tenho turma. Não tenho amigo nenhum! Não me encaixo nesses grupinhos.
Eu poderia ter sido mais simpático, já que estava louco por passar o intervalo inteiro com ele, mas não podia deixar isso transparecer. Então continuei o diálogo:
— Hey! O que houve aquela hora que você me tocou que me deu aquele choque? Estava querendo gozar com a minha cara?
Ele puxou um sorriso para o lado direito e disse:
— Nunca ouviu falar que quando um bruxo toca a pessoa que amará eternamente, ambos sentem um choque?
Fiquei perplexo! Não pude acreditar no que acabara de ouvir. Ele estava querendo se divertir com a minha cara. Ele logo irrompeu dizendo:
— Brincadeira! Eu ia te perguntar a mesma coisa. Mas, então, você não me respondeu. Podemos ficar juntos no intervalo?
— Por que não?- respondi.
•••~•••

Finalmente batera o sinal para o intervalo. Eu ficara a terceira aula sem o Luke, já que cada aula ele estava em uma sala diferente. Passei a aula inteira esperando as nove e meia- horário do intervalo-, mal podia esperar para ficar aqueles minutos com o Luke.
Levantei-me e fui até o páteo. Eu ficava no canto mais isolado da escola: um andar acima do local onde guardavam-se as bicicletas, atrás do banheiro feminino. Apesar de querer muito ficar o intervalo com o Luke, eu não podia sair à sua procura. Havia um motivo para eu estar isolado de todos: quanto menos eu aparecesse, melhor, quanto menos pessoas soubessem da minha existência, mais confortável eu ficava.
Fiquei extasiado e ao mesmo tempo surpreso ao ver Luke vindo em minha direção. Como ele conseguiu me encontrar naquele lugar? Meu coração começou a disparar e minhas mãos a suar. Caramba, estava me sentindo um tolo, ficava todo desconcertado só pela presença de um garoto!
Ele chegou, estendeu a mão para me cumprimentar. Aquele toque fora o suficiente para fixar em minha mente, pelo resto do dia, a sensação de toca-lo. Aquele sorriso. Mas que sorriso! Seu olhar me transmitia a sensação de estar num manso oceano cristalino.
— Oi, de novo!- ele disse.
— E aí?
— Vamos andar pela escola, assim você eu me familiarizo com ela para eu não me perder caso precise andar por ela sozinha- Sorriu.
— Ah, me desculpe, mas não. Não mesmo. Cara, não sou muito dessas pessoas que querem que o mundo saiba da sua existência.
— Por mim, tudo bem- ele deu outro sorriso que me fez relaxar, pois até então, eu estava super nervoso com a presença dele- Mas vc literalmente se esconde aqui hein?
— Deu para perceber é?
— Você é sarcástico- sorriu de novo.
— Você me encontrou rápido demais para quem não conhece a escola. Como conseguiu, já que, certamente, essa é a tua primeira vez aqui?
— Quem tem boca vai a Roma, meu caro.
— Não acredito que você saiu por aí perguntando sobre mim! Cara, você tem noção do trabalho que dá fingir que não existe?- Sorri nervosamente.
— Nossa! Mas por que um cara como você se esconde tanto da sociedade?
— Não me escondo!- Desviei o olhar e esfreguei o braço timidamente- Tá, eu me escondo. Mas, sei lá. Todas as vezes que me misturo com outras pessoas, sinto-me desconfortável, como se eu não fizesse parte daquele meio social, sabe?
— Entendo.
— Um cara como eu como?
— Ah, sei lá. Você é um cara legal mesmo não querendo que os outros saibam; é bonito, mesmo tentando esconder tua beleza, eu posso vê-la- ele tirou minha franja dos meus olhos- é impossível não notar teus olhos castanhos que mais se parecem com o dourado da areia de uma praia absorvendo a luz do sol se pondo; e a segurança que eles transmitem e refletem firmeza, fazendo-me lembrar a terra que nos sustenta embaixo dos nossos pés.
Ainda bem que eu não tenho problemas cardíacos, senão eu teria, literalmente, caído aos seus pés. Suas palavras me causaram enorme impacto.
— Ninguém jamais me disse algo assim. Foi tão...- procurava uma palavra cabível- tão...- ele interrompeu.
— Não precisa. Eu já entendi.- sorriu novamente, eu senti que ele realmente havia entendido- Posso te contar uma história?
— Espero não me arrepender de tê-la ouvido, hein- Sorri para não dar a entender que eu estivesse sendo grosso.
— Não vai- deu de ombros, sorrindo. Eu poderia vê-lo sorrindo o dia inteiro que não me cansaria daqueles dentes brancos, perfeitos.

Notas finais
Me desculpem, mas eu estou com uma certa dificuldade em pôr os parágrafos :/