San Peter: A Escola dos Mimimis Amorosos (Vol.2)
46 122. Amigos Crescidos
Notas iniciais
— Que festa é essa sem mim? — Nos separamos ao ouvir a voz de Júlio e o olhamos.
Claro que ele também tinha mudado um pouco, mas não crescera tanto quanto James. Antes os dois tinham a mesma altura, e agora que cresceram, Júlio estava um pouco menor.
— Pera aí, quem é essa? — Júlio perguntando apontando para mim com cara de dúvida.
— Eu sabia que você ia dar uma dessa. — Lili revirou os olhos.
Ele sorriu. — Tá diferente, mas não tanto assim, né! — Veio me abraçar. — Não foi só o cabelo que mudou, foi?
— Claro que não, ela emagreceu. — Lili disse por mim. — Só isso já mudou tudo.
— Isso que foram alguns quilos só — falei, rindo.
— Uau, parabéns.
— Ai, tão delicado, como sempre. — Lili negou com a cabeça.
— Ué.
James ficou ao meu lado. — Nada muda, né?
— Não, mas eu gosto que continue assim... — E percebi ele me encarando. — Que foi?
— Eu estou abismado em como um corte de cabelo muda tanto uma pessoa.
Sorri. — Realmente... Mas eu não fui a única que mudei, vocês todos mudaram.
— Sério?
— Claro. Você está mais alto, com a voz mais grave, a Lili está toda feliz porque os peitos dela cresceram, mas ela também cresceu e mudou, e o Júlio também... E foram só dois meses!
Ele riu. — Nós não percebemos muito essas mudanças, já que nos víamos às vezes.
— Sim... Olha isso. — Arrumei a postura, comparando minha altura com a dele. — Eu batia no seu nariz, agora mal chego no queixo.
— Ficou mais baixinha. — Deu tapinhas no topo da minha cabeça.
— Fiquei nada! Eu cresci um pouquinho... Uns dois centímetros, talvez.
Deu risada. — Uau.
Observei, feliz, meus amigos interagindo, tentando matar a saudade, mas era como se eu estivesse sonhando. Eu sabia que logo acordaria para a realidade.
Olhei pelo refeitório, notando diversos amigos se abraçando, chegando das férias... Era um clima muito bom.
Era uma pena que... Yan não estaria aqui para esse momento. Ele não estaria aqui para eu abraçá-lo e matar as minhas saudades...
Mas, bom, eu precisava esquecer isso e aproveitar. Era o que eu mais queria, estar aqui, com meus amigos.
De repente, notei que estava tocando música nos alto falantes do refeitório. Baixo, mas estava tocando.
— Nossa, agora que percebi que mudaram tudo aqui. — Júlio falou, olhando ao redor.
— Claro, você sempre demora para perceber as coisas — retrucou Lili.
— Lorota, eu reparei muitas coisas. — A encarou de cenho franzido.
— Tipo o quê? — Cruzou os braços.
Seus olhos se viraram para vários lugares em poucos segundos, e depois olhou para outro lugar, segurando o riso. — Melhor eu não falar.
Lili ficou levemente corada e descruzou os braços. — Vocês não vão levar suas coisas para o quarto não?
— Depois do impacto que a Bru causou, sim, vamos. — James puxou Júlio pelo braço. — Já voltamos.
Os dois foram para fora e Lili os acompanhou com o olhar. Assim que saíram, olhou para baixo e deu uma puxadinha no decote da camiseta.
Eu ri. — Não tinha nada aparecendo.
— Eu sei, só estava me certificando... Ah, Bru! Você viu? Teremos mais aulas extracurriculares esse ano! — comentou animadamente.
— Obrigatórias?
— Não para os outros, e sim para mim! Vamos ter francês, espanhol, inglês, fotografia, ilustração...
— Como você já sabe de tudo isso?
— Ué, tem cartazes espalhados por aí dizendo. Eu vi no salão do dormitório. São duas aulas por semana de cada matéria.
— E você já sabe quais vai fazer?
— Todas as que eu puder.
— Mas por que tudo isso? — Fiquei surpresa.
— Porque eu quero descobrir logo minha vocação, quanto mais coisas eu fizer, mais certeza terei do que eu não quero seguir para a vida... Só não vou fazer as aulas de esporte, de resto... Quero fazer tudo. E ah! Agora a escola está oferecendo cursinho pré-vestibular de tarde, tanto para os ex-alunos quanto outros que queiram fazer.
Ainda estava surpresa em como ela conseguia saber de tanta coisa sendo que acabou de chegar...
— Mas para nós não tem sentido fazer cursinho...
— Eu sei, só estou dizendo. Mas é muito legal, a escola está pensando nos alunos que saem perdidos daqui. Será uma opção para mim se eu ainda não souber o que fazer de faculdade depois do terceiro. Terei um ano para pensar e não vou parar de estudar, para não perder o ritmo.
— Acho que você é maluca, só isso. — Ri.
Ela sorriu. — Isso eu já sei. Esse é o meu ano, Bru. Serei fluente em quatro línguas.
— Quatro?
— Sim, inglês, francês, espanhol e português, ué.
— Mas você já é fluente em português.
— Quero dizer que serei especialista em português, mais fluente do que já sou. Quero conseguir lembrar de todas as regras. Quem sabe eu não viro professora de português para gringos, já pensou?
— Haja paciência... Boa sorte na sua jornada. Acho que eu já terei o suficiente para estudar além das matérias normais.
— Credo, cadê sua ânsia em aprender? — Me cutucou com o cotovelo, brincando.
— Deve ter ficado em casa — brinquei rindo e ela revirou os olhos.
Saímos para o jardim, pois ainda estava cedo para o jantar e esperamos os meninos na nossa mesa habitual. Assim que eles chegaram, Lili começou a bombardeá-los com as novidades.
— ... E aí, vão fazer alguma?! — Ela questionou, com um sorrisão.
— É... não sei. — James respondeu. — Preciso dar uma olhada nessas aulas extras, mas algumas parecem legais.
— Talvez eu faça as aulas de inglês. — Júlio deu de ombros. — Eu realmente sou péssimo em inglês.
— Nós sabemos. — Lili encheu o saco dele.
— Ui, espertona.
— Mas também precisamos ver se não terá alguma aula no mesmo horário do teatro — comentou James.
— Não vai ser na mesma hora que antes? — perguntei.
— Não sei, pode ser que sim, pode ser que não. Assim que ver a professora vou perguntar. Mas independente disso, você vai fazer, né Bru?
— Vou sim. Quero ver o que vão arranjar para nós esse ano.
— Ano passado eu ouvi a professora conversando com alguém sobre estar escolhendo a peça desse ano... Pelo que entendi ela estava na dúvida entre uma já famosa e uma história escrita por uma aluna.
— Ah, é? Uau... Seria legal.
— Seria algo bem diferente, e se ela disse que estava na dúvida, deve ser porque a história é boa.
— Será que vocês serão os principais? — Lili perguntou com um sorrisinho, apoiando o rosto nas mãos.
— Quem sabe? Mas acho que seria injusto com os outros que queiram participar. — James disse. — Temos que dar chance para os outros também.
— É, mas vocês são os melhores atores dessa escola, isso deve contar na hora.
— Lili, vai ter uma audição, como sempre. Vai que um prodígio surja.
— Não, me recuso a assistir uma peça onde vocês não sejam os principais.
— Ué, é só não assistir. — Júlio falou.
— Não te perguntei nada. — Virou a cara para ele, que riu.
Sorri, vendo os dois se alfinetando, como sempre. Felizmente eles estavam bem, sendo grosseiros um com o outro e rindo depois.
Era engraçado como parecia que o tempo tinha parado, mas olhando para nós, era óbvio que o tempo tinha andado. Estávamos diferentes, porém, iguais. Era um sentimento muito doido, mas muito reconfortante.
Vi James pegando seu celular e o olhando. Começou a digitar alguma coisa, fazendo o bico que ele fazia quando parecia contrariado. Puxou o ar e o segurou uns segundos nos pulmões, encarando a tela, como se pensasse, e ao respirar, voltou a digitar. Logo desligou e voltou a guardar o aparelho, e me olhou.
— O que foi? — perguntei baixo, enquanto os outros dois ao lado conversavam.
— A Erica quer jantar comigo — respondeu, incerto.
— E você não quer?
— A questão é que eu quero ficar com meus amigos, já que faz tempo que não nos reunimos... Nós nos vimos essa semana. Às vezes não entendo esse desespero dela de ficar comigo.
— Ué, ela está com saudades. — Dei um risinho, tirando sarro dele.
— Ah, Bru, por favor. — Deu risada. — Nos vimos na quinta, como que já está com saudade?
— Pergunta para ela, ué. — Dei de ombros.
— Ter namorada é muito complicado. — Esfregou o rosto com as mãos.
Os dois pararam de falar no mesmo segundo que James disse sua frase, e Lili colocou a mão no ombro dele.
— Tá nessa fase, já?
— Que fase?
— Que “namoro é complicado”, “não estou pronto para isso”, “acho que cansei”.
— Mas eu não disse isso.
— Não disse, mas com certeza deve ter pensado.
James negou, rindo. — Você tá doida.
Lili jogou os cachos para o outro lado. — Por favor, migo, eu entendo dessas paradas.
— Nossa, desculpa aí, ô entendida do assunto. — Riu.
— Consultoria de namoro, meu bem. Só marcar uma consulta. — Fez sinal de telefone com os dedos, como se fizesse propaganda.
— Tá, vou anotar teu telefone, caso eu precise.
— Beleza. Cobro por hora.
— Caramba... A cada ano que passa vejo que você está cada vez mais salafrária.
— Nossa, credo.
Todos deram risada e o assunto mudou. Um tempo depois fomos jantar junto de Bernardo e tivemos um jantar incrível, regado a muitas risadas e comida sendo cuspidas sem querer.
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