Na iminência de um anoitecer, uma fogueira foi acesa, um pacote de salgadinho aberto. Aslan adormecido nos braços de Alhaitham, o agasalho extra que o grisalho trouxera era um cobertor improvisado.
— É melhor a gente voltar amanhã cedinho. — comentou Cyno.
— Sim.
O menor olhou o colega.
— Estava pensando… e se nem todas as leis antigas foram derrubadas…?
— Como assim?
— E se por um acaso… um samsara ainda continuar? E estarmos as portas de uma nova guerra? As vezes tenho essa impressão.
O sangue do antigo escriba congelou. Outra guerra, mas dessa vez com "Kaveh" sem ter meios de se defender… não, ele não poderia aceitar tudo se repetindo!
Ele cogitou responder, mas o loiro se mexeu. Quieto estava, quieto ficou, Aslan se levantou e passou pelos amigos e foi até a sacada olhar as primeiras estrelas.
— Aslan?
Alhaitham se aproximou, ressabiado. Seu namorado continuava quieto olhando o anoitecer, de costas para ele.
— Realmente… existe um pouco de dor…
— Não é exatamente seguro sa…
— Porém… — Aslan cortou o grisalho. — Estou em paz. É porque as coisas foram diferentes?
O papo estranho estava deixando o outro confuso.
— Ninguém se lembra de quem fez essa ruína. Mas está firme e está nos abrigando. Não é incrível? — ele se virou num sorriso meio vacilante. — Realmente, valeu a pena o sacrifício, não é…? Alhaitham…
Cyno estava a distância e não ouvia por completo. Parecia papo de casal, mas a reação do seu colega de treino parecia que era sério demais para ser uma mera interação romântica.
Alhaitham estava paralisado e perdeu uns tons de cor na pele.
— Meu eu antigo apareceu em sonho pra mim e explicou tudo. É… muita coisa pra assimilar, mas ainda sim me sinto calmo. É o que você sentiu? Ei…! — ele deu dois passos e segurou o rosto do namorado. — A história não vai se repetir, eu não vou deixar, eu vou ficar com você até o fim e vamos envelhecer juntos dessa vez.
As mãos que seguravam o rosto foram cobertas por Alhaitham, e ali demonstrou fraqueza: tremia diante do misto de emoções, emoções de "Alhaitham" e emoções de "Zahid" formavam uma espiral confusa e descendente.
— Vê? Não estamos brigando, estamos namorando. Esse era o desejo antigo que tínhamos e nunca conseguimos colocar em prática, né? Já mudamos um pouquinho a história!
Trêmulo e angustiado, o loiro foi engolido num abraço forte, que ele retribuiu. Sim, o destino não era o mesmo, sim, as lembranças fortes dirigiam muito de suas vidas, mas eles também eram outras pessoas.
Dessa vez, ele não iria chorar um corpo morto. Se era pra chorar nesse amor intenso, que fosse de alegria.
— Eu te amo… seja você como Alhaitham, seja você como Zahid. Mil vidas eu viva, mil vidas eu te buscarei. Você é minha benção, e nenhum palácio seria capaz de comprar esse amor. — murmurou só pra ele.
As lágrimas que em nenhuma vida ele se permitiu chorar eram derramadas agora, num choro baixo, mas que fazia tremer seu corpo. Kaveh permaneceu calmo, abraçando da forma mais protetora que pôde o outro, o deixando soltar toda dor e desesperança.
— Eu também te amo… em todas as vidas…
Quando o grisalho se acalmou, os três se juntaram ao redor da fogueira. Kaveh contou o que havia acontecido momentos antes, pois o mais baixo estava preocupado com a reação de Alhaitham.
— Acho que teremos de ir levar Kaveh até Lorde Kusanali amanhã.
— Sim… mas estou com a visão e Mehrak, não sei como vamos levar a arma…
— Espera! Mehrak está com você?
O loiro ficou chocado olhando o namorado. Alhaitham tirou da mochila o notebook e abriu um aplicativo. Pela tela, ele viu o quarto do namorado onde a maleta estava posicionada, do lado da área da câmera havia um retângulo preto.
— Ali, veja… e na caixa perto está sua visão para alimentar ela.
— Eu tinha certeza… Mehrak foi atingida naquela hora também…
Cyno tocou o ombro de seus amigos.
— Lembro que o led dela funcionou umas horas após… tudo… a reserva dentro da bateria se esgotou e não sabíamos o que foi feito dela durante seu funeral até visitarmos a arconte. — ele explicou.
— Estive fazendo melhorias para integrar ela, não sou um kshahrewar, obviamente, mas programação está dentro de linguagens então… Mehrak! — ele disse pelo microfone embutido.
A máquina então flutuou uns poucos centímetros, atenta. Na tela preta, em letras verdes:
| Alhaitham! |
Kaveh ofegou, segurando o choro. Meses antes de tudo vir abaixo na vida anterior, ele tentou algum meio de comunicação verbal com sua criação, mas não conseguiu.
Foi preciso séculos e seu namorado conseguiu. Não era perfeito como imaginara, mas ele podia saber agora o que estava nos circuitos de sua preciosa criação.
— Mehrak… — a voz embargou, segurando as lágrimas de felicidade.
| Criador me reconhece? Criador sabe quem sou? Criador voltou? |
— Sim, em algumas horas vamos voltar para casa então vocês poderão interagir. — disse Alhaitham.
| Criador! Criador! Eu protegi os projetos! Eu protegi as filmagens! Tudo precioso para meu criador! |
— Obrigado, obrigado, Mehrak… — ele olhou seu companheiro. — Você não conseguiu mexer no módulo de movimentação?
— Não, por isso Mehrak não flutua mais que isso e nem se move mais. Desculpe.
O loiro o abraçou e respirou fundo o cheiro que tanto o acalmava.
— Você fez muito. Eu queria ter conseguido essa comunicação na vida passada… obrigado.
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Havia um grande cômodo na mansão, Musa estava distraído com o jardim interno que ficava no caminho. Ele só parecia distraído, vendo seu pai e os demais caminhando e conversando. Até de algumas reuniões daqueles ele participou sem querer, mas claro que um jovem com atraso não era um problema, ainda mais um que só sabia falar de plantas.
Eles tinham um aliado que queria destruir a ordem das coisas, que os heróis portadores de visão sacrificaram suas vidas para alcançar…
Mas ouvir sobre como tratavam os antigos portadores de visão, como "aquela menina" foi tratada, mexeu em algo.
Musa não podia mais fingir quem era.
Os homens se trancaram em reunião. De um arbusto, ele recuperou uma corda trançadas com ervas diversas e muito resistentes e passou pelas alças das portas. Ele sabia muito bem que empregados eram proibidos de virem aqui durante as reuniões, então o plano funcionaria.
Cada reunião durava no mínimo três horas. Uma hora antes já estaria abertas as cápsulas que tinha desenvolvido e plantado no sistema de refrigeração de madrugada. Inodoro, o pólen venenoso se misturaria no ar e eliminaria ao menos aqueles líderes malignos.
Restava então a única aliada que sempre demorava para entrar: sua mãe.
Fingindo ser um bom menino como sempre ele foi do quarto dos pais, como costumava fazer, a desculpa de gostar de ver sua mãe se arrumar e ficar bonita.
— Musa, meu querido. Mamãe está escolhendo um conjunto para ir com o papai. Quer ajudar a escolher?
O rapaz sorriu feliz e inocente.
— Claro, mamãe.
Ele chegou por trás, como se fosse olhar por trás do ombro, mas tão rápido quanto pôde, o cano da arma que ele roubara dias antes do quarto dos seguranças estava na nuca de sua mãe e o disparo foi feito antes da mesma reagir ao toque frio do metal.
Suas orelhas, agora humanas, não sentiam o quanto era ardido o som mesmo com o silenciador. Mas o corpo da mulher que o pariu naquela vida ficou mole e sem vida, caindo debruçado na caixa de joias.
Ocultando arma, ele fez seu ato final de inocência simulada, dizendo que ia cuidar das plantas da loja, agora no sistema de refrigeração geral da casa, que era separado do cômodo de reuniões, já estaria correndo o sonífero. Os funcionários não precisavam ser feridos, eles sequer sabiam da maldade de seus senhores, mas também não deveriam ser responsabilizados.
Ele tinha visto no ano anterior Cyno em um ônibus de Amun, e discretamente o seguiu algumas vezes, até ver ele, Alhaitham e o misterioso Cara do Chapéu entrarem num lugar. E ao saírem apenas os dois reencarnados, ele viu suas visões em mãos.
Ele não sabia bem o que encontrar, mas algo relacionado aos portadores tinha. Ele se dirigiu para lá.
As vantagens de ser o filho "defeituoso" de alguém poderoso é a discrição, afinal, ninguém quer problemas. Ele lentamente se tornou invisível.
Sim, desde bebê ele sabia quem era, Tighnari sempre soube. Assim como sempre soube quem era seus inimigos e que tinha nascido no seio deles. Mas saber que eles pegaram "Collei" foi a gota d'água, e ele não conseguiria sustentar a farsa que criou pra si como alguém com atraso e então ele mesmo estaria em perigo.
Quando entrou na parte inicial do complexo, ele esbarrou na marionete que saia.
O olhar era de espanto.
— Diga, Cara do Chapéu, onde está minha visão?
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