01

O trio se encarava. Os dois reencarnados surpresos, a marionete com uma expressão neutra. Este último, quebrou os segundos de silêncio pelo choque:

— Desculpe a intromissão, mas uma pessoa pediu que os acompanhasse. Ela deseja vê-los. — apesar do "desculpe", o andarilho não parecia estar realmente se sentindo culpado para isso.

— "Ela"? — indagou Cyno.

— Sim. Buer até onde sei é a única dos sete que está viva e mantendo a Irminsul ativa e protegida. Assim como protege alguns artefatos e tesouros. — a marionete começou a explicar. — sempre que um "retornado" está com memórias ativas e apto tomar decisões, eu os busco e levo até ela.

— "Retornado"? — dessa vez, Alhaitam quem indagou.

— Isso. São os reencarnados com memórias. Todo portador de visão em algum momento se torna um retornado quando reencarna, salvo algumas raras exceções. Como por exemplo, o 11° mensageiro dos fatui. Ele nunca se tornou um retornado e foi para o próprio bem dele e do mundo.

Alhaitam continuava ressabiado, mas absorvendo as informações. Isso significava que havia chances de Kaveh se lembrar, como também não. Ele notou no cinto daquele sua frente um molho de chaves e uma visão real e ativa como chaveiro. O Andarilho notou o olhar do grisalho.

— É o que está pensando. Minha visão.

— Mas… não surge mais visões há… — engasgou Cyno.

— Séculos? Lendas? Só restam relatos e nunca nem uma carcaça restou? — o sorriso presunçoso e habitual do mais baixo surgiu. — É por coisas assim que Buer convida os retornados.

Alhaitam se levantou, dando leves tapinhas nas calças para limpar a sujeira do chão.

— O quão longe está a Lorde Menor Kusanali? — ele indagou, diante de um Cyno confuso e surpreso.

— Ei, Alhaitam!

— Não é como se o Cara do Chapéu fosse nos atacar, se ele quisesse, já teria feito. Isso também… pode nos fornecer respostas que buscamos.

Cyno suspirou, ainda desconfiado. Juntou o lixo produzido no piquenique improvisado, tomando o último gole restante da sua lata e se levantou também.

— Certo, que seja. Onde é esse lugar, Cara do Chapéu?

A marionete deu um riso curto.

— A entrada é aqui perto. Me sigam.

Os dois mais novos seguiram o Andarilho, subiam em direção ao Santuário de Surastana, se desviando numa parte onde o tronco da árvore estava oco, mas disfarçado por energia Elemental. A dupla observou atentamente como o mais velho usara sua visão para abrir a passagem secreta, dando para uma escada que ia sentido para baixo.

Ele começou a descer, guiando os outros dois, não era possível ver nada do lado de fora e lentamente os sons da noite também iam sumindo até restar apenas os passos dos três. Por fim, um pequeno corredor de pedras, uma ruína bem cuidada ao estilo arquitetônico antigo de Sumeru, que forçava um transeunte a virar para direita, mais alguns passos e dando numa parede.

Novamente o Andarilho usou sua visão, tocando os tijolos, que se abriram, criando uma passagem e a continuação do corredor, mas dessa vez, o corredor soava como uma ponte. Era possível ver o céu escuro brilhante do "mundo debaixo" e ao final do corredor o que parecia uma mansão. Por detrás, um brilho intenso ramificado.

Ao passarem pelo portal, os tijolos se uniram de novo, fechando a passagem e o trio continuou o caminho. O Andarilho abriu a pesada porta da mansão, deixando os mais novos entrarem.

Para a surpresa deles, apesar de enorme, a decoração era quase inexistente, minimalista. O Andarilho os levou para um corredor dentro da residência que dava para um pátio coberto, aos fundos. Então eles viram o que era o brilho: a Irminsul. Mas de pé, ao final do pátio, viram uma adolescente de cabelos brancos com as pontas verdes, as orelhas de envio e o sorriso gentil, com olhos afiados.

— L…Lorde Menor Kusanali…

Cyno estava surpreso. Claro, foram séculos entre a grande guerra e essa encarnação, seria óbvio que a aparência da deusa poderia mudar, mas ainda era um choque rever a divindade. Andarilho então caminhou um pouco até parar ao lado dela, como um fiel cão de guarda.

— Faz muito tempo, Cyno… Alhaitam… É bom rever vocês.

Os dois fizeram menção de se ajoelhar em respeito, mas prontamente Nahida os parou.

— Não sou mais a deusa de Sumeru, por favor, não precisam de formalidades! Nem meus títulos! Apenas me chamem de Nahida como nos momentos informais de antes.

— Nahida… porque queria falar conosco? — indagou o mais alto.

— Vocês… devem ter dúvidas… não só sobre os séculos entre a morte e seus renascimentos como o porquê de estarem aqui.

— Na verdade… sabendo que é você e pelo tempo que passou, como você está?

Nahida primeiro ficou surpresa, mas logo dei um sorriso tímido e carinhoso. Alhaitam não era o primor de relações humanas, seu jeito frio e distante escondia um coração gentil e mais carinhoso do que o que ele demonstrava. E isso continuava, o que a deixou feliz.

— Estou bem. Apesar de me auto exilar, não estou sozinha já que ele está comigo. — disse olhando o Andarilho. — Sinto falta de todos, daquele tempo, inclusive de vocês. Mas não é como se eu não soubesse que independente de como, algum dia os perderia. De algum modo, vocês serem retornados, é como uma bênção egoísta minha.

— Não é você que controla isso, né? — indagou Cyno.

Nahida negou com a cabeça.

— Só posso sentir quando o registro de vocês ressurge na Irminsul, porém nunca sei onde, como. É por isso que o Cara do Chapéu se torna meus olhos fora daqui. Mas não posso controlar se vocês terão suas memórias ou não.

— Ao longo desses séculos muitos voltaram?

— Sim. Alguns até mais de uma vez.

— As raças não humanas… como os Valuka Shuuna, ou youkai ou os adepti… como sumiram?

— De forma natural, pela ação do tempo, diminuição e cruzamento com os humanos. Até o gene dos humanos dominarem por completo.

— Então o Tighnari… — indagou esperançoso o antigo general.

— Sim, ele sobreviveu e teve descendentes, que atualmente são humanos. O vice prefeito da capital é um deles.

Alhaitam, como morador da capital, ficou surpreso ao saber disso. De algum modo "convivia" com descendente de seu amigo.

Nahida olhou os dois, sabia que estavam processando informações.

— Suas visões e suas armas… estão aqui nessa mansão.

Cyno olhou para a deusa, surpreso.

— As visões retornam brilhar quando vocês voltam. Geralmente um retornado volta e realiza alguns feitos para melhorar o mundo, mas…

— Mas…?

— O padrão atual é… estranho.

Os visitantes ficaram confusos. É quando o Andarilho volta a falar.

— Muitas visões estão ativas. Não uma ou duas por década como era o usual, são centenas. Alguns já até vieram buscar.

Alhaitam olhou para antiga arconte. Ela claramente tinha uma expressão preocupada, ao mesmo tempo que estava tão perdida como eles. "Retornados voltam para realizar feitos" junto de "centenas de visões ativas" parecia um mau agouro.

Ele não se sentia emocionalmente ligado alguém nessa existência de fato. Claro, não desejava nenhum mal a sua família de agora e se estivesse em suas mãos faria o que pudesse por eles, mas essa combinação lhe ascendia uma luz de alerta.

E, bom, seu corpo também precisaria de treino. Não que não se cuidasse, tanto que após o estirão, seu físico estava próximo ao de quando pereceu na guerra, mas nunca mais de fato treinara com armas. Ele olhou para Cyno e sabia que o mais baixo chegara uma conclusão igual.

— Eu não sei se há alguma ameaça de fato, eu também não queria que passassem por mais pra dor e momentos difíceis…

— Kaveh não "retornou". — disse Alhaitam. — nessa vida, meus pais continuam vivos. São as pessoas que eu desejo proteger, como "Alhaitam", como "Zahid". Todo conhecimento e toda ferramenta que eu tiver será útil.

— Eu também. A justiça precisa ser efetuada.

Nahida os olhou com ternura, mas também como se sentisse culpa. Era um peso sobre seus ombros.

— Venham comigo. — ela se virou indo em direção a uma porta num dos lados do pátio.

A porta dava um salão digno de um museu: artefatos, livros, armamentos e toda sorte de itens da época da grande guerra estava ali. Ao fundo uma prateleira com diversas visões a brilhar, de todas as molduras e elementos. Outras, sem brilho ou vida, permaneciam com a joia branco leitosa.

Os dois visitantes se aproximaram, reconhecendo o padrão de suas visões, as tomando em suas mãos, sentindo o calor gracioso que os acompanharam antes. Alhaitam olhou ao lado da sua e reconheceu o padrão energético da visão de Kaveh, sentindo um amargo na boca.

— Pode levar e entregar a ele se ele se lembrar. — disse Nahida, quebrando o pensamento do mais alto.

— Mas…

— Está tudo bem. — ela sorriu e então apontou. — Aquela criança está sozinha há 17 anos sem um rosto conhecido.

Alhaitam se virou para uma prateleira de artefatos diversos e reconheceu o que Nahida apontou.

— Mehrak…

Os bips da maleta ressoaram timidamente, como se em séculos, alguém finalmente o reconheceu. Mas estava fraco e alguns danos sutis na carcaça não o permitiam mais que flutuar uns poucos centímetros.

O antigo escriba foi até a maleta e a pegou.

— Eu sinto muito, seu antigo mestre ainda não se lembra de nós.

Mehrak deu um bip longo e desanimado.

— Tudo bem se vier comigo por um tempo?

Um novo bip, que ele reconheceu como uma afirmação.

Em seguida Nahida os guiou até onde estavam as armas. Eles logo reconheceram suas armas e por sorte estavam bem cuidadas e preservadas.

Ficaram um tempo ainda conversando, mas já era muito tarde para dois menores de idade estarem nas ruas.

— Vocês sabem onde eu estou, podem vir quando quiserem.

— Claro. Obrigado por nos responder algumas dúvidas. — disse Cyno.

— Só tomem cuidado. Aqui é um local para guardar o passado e preservar o futuro. — resmungou a marionete.

O Andarilho os guiou até escada, os deixando por conta própria e sem nenhuma despedida calorosa. A propriedade das armas "sumirem" era um bônus ótimo para o disfarce de uma vida moderna comum.

— Amanhã aqui de novo? — indagou Cyno.

— Sim.

Se despediram e Alhaitam retornou a casa bem sorrateiro, passando desapercebido. Ao chegar no quarto trocou para o pijama e se deitou, com Mehrak ao seu lado e sua visão e a de Kaveh juntas.

Adormeceu pensando naquela madrugada e em Kaveh.

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Aslan despertou dentro de seu sonho. Era uma paisagem desoladora. Era como se tudo ao redor tivesse explodido. Pessoas, com roupas estranhas, corriam socorrendo outras, algumas lamentando, haviam também as em pleno desespero.

Mas nenhuma delas parecia vê-lo e ele não escutava nenhum som. Na verdade, apenas a visão e um pouco do tato pareciam funcionar nesse sonho.

"Onde estou?" — ele se perguntou.

Ele continuou a andar pelas ruínas, as areias, poeiras voando. Ele parou e olhou a sua esquerda e viu a silhueta de um homem alto de roupas pretas. Ele não conseguia ver o rosto, e diante da sujeira da confusão que o local estava, ele não podia ter certeza se os cabelos grisalhos eram a cor mesmo ou pela poeira.

Aquele homem parecia em choque, imóvel diante de outra pessoa deitada nos escombros. Até enfim ele parecer sair do choque e segurar a outra pessoa sem seus braços. A pessoa não reagia, tal qual fosse um grande boneco.

A cena que Aslan via era de um homem lamentando a perda de outro homem importante para si. Ele não conseguia ver o rosto, mas os solavancos do corpo mostravam choro e voz elevada.

Ele se aproximou, talvez ele escutasse, mas mais uma figura se aproximou, de pele escura e cabelos brancos e pouco depois mais um, tinha orelhas longas de feneco e uma cauda que parecia macia. Eles pareciam tentar acalmar o homem de preto, mas também parecia estar sendo em vão.

"Por que meu coração dói?" — pensou consigo. Devia ser apenas empatia? Porque estava sonhando com aquilo?

Deu mais alguns passos, ficando bem próximo do grupo. Ele continuava sem conseguir enxergar o rosto dos vivos, mas então o homem de preto soltou um pouco o cadáver e ele pode olhar o rosto do mesmo.

Longos cabelos dourados, o rosto machucado e olhos carmesim semi abertos e sem brilhos, sem alma. Aslan sentiu o estômago revirar e suas pernas perderem forças.

Aquele morto era ele.

E assim, ele acordou ofegante com um grito abafado. Estava no quarto de hotel e aquele já era o terceiro dia da viagem.

Aslan abriu a janela para receber o ar noturno e colocar a cabeça em ordem. Nunca tivera um pesadelo tão vívido como esse.

— Mas que caralho foi isso…? Acho… que ando lendo demais as lendas da grande guerra…

Ele achava a capital que iria morar em breve a mais linda. Uma combinação harmônica de natureza e modernidade.

Assim como achou seu novo amigo, Zahid, também uma combinação harmônica de beleza e inteligência. Pensar nele o fazia se acalmar das lembranças do pesadelo.

Quando o olhou, sentado e lendo sozinho, era como se o conhecesse. Sentiu uma conexão intensa e vívida. Ele precisava estar ali, estar com aquele rapaz.

Talvez se apaixonara a primeira vista? Ele tivera alguns rolos em Espoir, mas nada sério e sempre com alguns rapazes bonitinhos, mas nenhum ele sentiu como se um imã o puxasse para alguém.

Quando pensou em fechar viu justamente a figura em quem pensava, passando levando a bicicleta ao andar com a mesma. Havia uma mochila nas costas e usando moletom. Olhou rapidamente o celular, estranhando ver Zahid, mas era perto do amanhecer.

Bem, Zahid parecia ter um corpo bem bonito para um adolescente, talvez ele fizesse algum exercício. Ele deu um sorriso divertido e resolveu ligar, ouvindo o aparelho do grisalho tocar. O viu atender.

— Acordado tão cedo?

— Sim. E se olhar ao lado, para cima me verá, sabia?

O mais alto fez conforme a instrução, olhando para o loiro, surpreso.

— Você é do tipo que acorda cedo para se exercitar? — perguntou o loiro.

— As vezes.

— Eu só vou por um agasalho e ir aí. — e desligou.

Em poucos minutos um loiro de pijamas e um agasalho de tricô oversized, com alpargatas estava de frente ao grisalho. Aslan enfim pôde ver que na mochila do garoto haviam dois bastões.

— Treina alguma arte marcial?

— Ah… sim… empunhadura dupla, mas sem técnica.

— Hmm…?

— É bom pra evitar bullying quando se é… nerd demais. — ele desviou os olhos do loiro.

Ele não entendia porque seu amigo desviara o olhar. Não podia imaginar que era por ser, de certa forma mentira. Mas Aslan interpretara que Zahid era apenas um sobrevivente de duros anos escolares e até pensou que seu corpo esbelto era dele treinando para se proteger de colegas malvados.

— Eu ficaria encantado de ver.

Zahid olhou de novo para o loiro, as orelhas corando enquanto tentava manter o rosto neutro. Sentimentos mistos lhe congelarm.

Haviam momentos na outra vida que os dois treinaram em segredo só eles, então era como reviver aquilo, uma forte nostalgia. Mas havia também o medo disso despertar memórias e trazer dor a Aslan.

— Ah, posso pegar um caderno, eu gostaria de desenhar você. Acho que vai render bons estudos. — ele se virou pro hotel. — Rapidinho!

Alhaitam nada pôde fazer. Sua hesitação será espaço para o loiro tomar uma decisão por ele. Cobriu sua boca, um tanto nervoso, ansioso.

Seu lado racional queria dizer não ou mentir que já estava voltando para casa. Seu lado egoísta, cheio de remorsos do que não viveu queria tê-lo agarrado e abraçado forte, dizendo toda verdade e todo seu sentimento.

— Kaveh… não deve "retornar"... Não deve…

Enquanto isso no quarto, Aslan pegava um pequeno estojo e seu caderno, o rosto vermelho. Ele sentira um impulso forte de se jogar no pescoço do grisalho e o beijar, que não soube nem de onde vinha. Antes de sair, as lembranças do pesadelo vieram e por algum motivo, sentiu que o homem de preto era Zahid.

"Que ideia…!"

Decidiu enterrar aqueles pensamentos infundados. Não fazia sentido algum sonhar que um Zahid com roupas estranhas e gastas chorava sobre um si mesmo falecido.

Ao chegar ali de novo, o mais alto ofereceu guardar o material do loiro em sua mochila, sentando na bicicleta e deixando um espaço para Aslan se sentar na plataforma de carga atrás de si. Pedalando poucos minutos até um parque bastante arbóreo e escolhendo um local discreto e levemente frio.

Aslan se sentou no chão, encostado numa árvore, assistindo o mais alto tirar seu moletom e pegar os bastões. Seu material de arte foi entregue antes de Zahid iniciar seu treino. Apesar de rabiscar traços rápidos de estudo de movimento, o loiro passava mais tempo admirando os movimentos elegantes do seu amigo.

Por algum motivo foi tomado por um sentimento nostálgico, como se já vivenciara aquilo. Olhos de rapina, focados, sérios e firmes, um corpo bem desenhado com movimentos precisos e calculados, o ambiente de floresta, o cheiro da umidade. E sentimentos presos na garganta nunca ditos.

E então o viu parar e olhar para si, parecendo preocupado, largar os bastões e vir até ele, se ajoelhando.

— Aslan…? Você está bem?

— Hã?

Foi só então que ele percebeu que do seu olho esquerdo vertera um rastro de lágrima. Por que estava chorando?

— Eu não… entendo… — ele limpou o filete de lágrima com o blusão. — Mas eu senti… como se eu… precisasse te abraçar. — ele deu um riso envergonhado e irônico — não é estúpido? Somos amigos há três dias, isso é…

Ele não completou, pois sentiu o calor do outro ao lhe abraçar, de forma protetora e carinhosa. Nos primeiros segundos o susto o dominando, mas então uma sensação de paz e de "estar em casa". Respirou fundo, fechando os olhos e relaxando nos braços do outro, retribuindo o gesto.

E claro, Alhaitam egoísta vencera ali sobre o Alhaitam racional. Ainda que de forma incompleta, estava abraçando Kaveh, um Kaveh vivo, respirando, retribuindo seu gesto. Não era o corpo inanimado que ele encontrara após a primeira batalha, sobre o qual chorou e lamentou, guardando remorsos.

— Está tudo bem se quiser um abraço. Você pode me abraçar sempre que quiser… — disse calmamente para sua surpresa. — não precisa se sentir um incômodo nem ter vergonha.

Aslan concordou com a cabeça, se aninhando.

Alhaitam concluiu que ainda que Aslan não se lembrasse, seu inconsciente se lembrava de algum modo, mas incapaz de alcançar a luz, a saudade se manifestava em lágrimas silenciosas e a vontade de abraçar e se sentir seguro.

— Eu juro… eu não sou assim… eu só… é como se assim me sentisse… completo ou em paz.

— Está tudo bem. E eu já lhe dei minha permissão.

— Acho que… foi o pesadelo que eu tive que mexeu comigo. Me desculpe.

Pesadelo? Aquilo deixou Alhaitam curioso, mas se o próprio não queria falar, ele não iria perguntar. Continuou ali abraçado ao loiro, sem saber que outra pessoa os observavam.

Entre as árvores, uma pessoa menor que eles e olhos bicolores pacientemente olhava o casal. Vestia uma camisa branca básica e calça de moletom, tênis. Do olhar paciente e gentil, o mesmo mudou para um sério e preocupado, dando as costas e se afastando até uma clareira.

Ergueu a cabeça olhando o céu que enfim iniciara o amanhecer.

— Acho que… logo meu teatro vai acabar…

Cerrando os punhos, trêmulos de alguma raiva contida.

— Só mais um pouco… só mais um pouco…