Notas iniciais
Espero que gostem! Nem demorei pra postar de novo, né?

Certamente a maioria das pessoas preferiria passar uma madrugada congelante dentro de seus lares, enrolada em cobertores, perto de alguma saída do aquecedor. Talvez até dormindo, embalada pelo som do trânsito noturno da cidade.

Por outro lado, também era certo que a maioria das pessoas não tivera o mesmo verão passado que eu. Com certeza não. Eles podiam até achar que tinham um irmão mais velho perverso, porém não conheciam o meu. Não de verdade. Tampouco tinham eles que lidar com uma silenciosa guerra que acarretaria ou não numa nova ordem mundial.

Às quatro da manhã, o Central Park tinha a visita de uma adolescente com pouco sono e muita coisa em que pensar.

Era uma noite de tremer os dentes. Eu nem sabia direito porque estava ali, só senti a necessidade de dar uma volta. As rajadas de vento, tão cortantes como uma lâmina afiada, me faziam repensar sobre a necessidade desta escapada audaciosa. Resistindo à ideia de dar meia-volta e retornar para casa, enfiei as mãos enluvadas dentro do bolso de meu casaco e segui pelo caminho coberto de neve.

Sob um céu sem luar, eu me sentia sufocada. Sua inalterada cor negra dava a impressão de ser o tampo de uma gigantesca caixa, que cercava a cidade. Não importava para onde ou quanto eu andasse, ainda assim não haveria saída. A semelhança com minha realidade chegava a ser traiçoeira.

Qualquer decisão que eu tomasse me levaria a Sócrates.

E a ele.

Muita havia acontecido desde o pior dia de minha vida.

Após a invasão que o acampamento sofrera no último verão, tivemos que refazer uma tremenda reestruturação. Reconstruir o que foi quebrado, tomar medidas preventivas, redobrar o treinamento.

Perdemos muitos campistas e, entre eles, Zack. A ideia de ele estar no lado inimigo como infiltrado ainda me deixava apreensiva. Se qualquer coisa desse errado, jamais poderia me perdoar. No entanto, eu tinha que confiar em que ele conseguiria executar sua tarefa. Nossa vitória dependia disso.

O evento que mais mexera comigo, apesar de tudo que tive que fazer enquanto estava em Long Island, foi depois voltar para casa.

Eu mal pude conter um arquejo espantado quando cheguei ao meu apartamento com Jenny e me deparei com nada mais nada menos que nossos pais se pegando no sofá. Era a recepção mais improvável que eu poderia imaginar.

Eles logo tentaram explicar aquela cena. Quando a notícia de que nosso avião sofrera um acidente caiu na mídia, ambos ficaram arrasados. A incerteza sobre Jenny e eu estarmos vivas acabou unindo os dois. Os desabafos e conversas de reconforto tornaram-se frequentes e, antes mesmo de se darem conta, a presença de um tornara-se necessária para outro.

Passei a ter que chamar a Srta. McGuire de Alison, o que foi a coisa mais difícil que tive que fazer na vida. Também parecia ser difícil para ela. Ser a mãe legal da minha melhor amiga era a coisa mais natural para Srta. McGui... Para Alison. Agora ser a namorada do meu pai algo totalmente diferente.

Ela tentava se fazer mais presente em minha vida. Levava-me para fazer compras, me dava caronas se precisasse e promovia noitadas em sua casa. Alison conseguiu fazer com que eu sentisse à vontade em sua presença como se ela fosse alguém da família. Era bom conversar com ela e obter conselhos que eu jamais conseguiria arrancar de meu pai.

Mas é claro que ela levou esse lance de ser da família longe demais.

Depois de meses de namoro, os dois chamaram Jenny e eu para ter uma conversa. Pensei que já tinha passado por tudo, mas eles me vieram com essa ideia de se casar.

— Não somos tão jovens quanto pensamos ser. — disse-me papai naquele dia. — Não temos tempo a perder.

Ao mal sabia como reagir àquilo, mas Jenny ficou bem animada.

— Sam! Vamos ser irmãs! — ela quase gritou de alegria, me agarrando num abraço. — Isso não é o máximo?

Eu não tinha achado a ideia exatamente o máximo, mas quem seria eu para interferir na vida amorosa do meu pai? Ao menos eu moraria com Jenny. Também eu não poderia ignorar que meu pai estava muito mais feliz agora.

Eu apenas não conseguia usufruir do mesmo luxo.

Uma fileira de árvores desnudas delimitava o caminho que eu cursava, uma de cada lado. Elas prostravam-se de pé, carrancudas, ignorando o forte inverno de final de janeiro. Entre uma longa cerca e a linha das árvores, vários postes de iluminação em série me livravam da perigosa escuridão do parque.

Em contraste com o cenário branco e cinza em que me encontrava, as luzes de Nova York ganhavam vida ao longe. Elas brilhavam em cores brancas, amarelas e até mesmo em tons de roxo. Deixavam claro que a cidade ainda estava ali, acordada.

Atormentada pelo sonho que eu tivera há pouco, caminhei até achar um banco onde me sentar. O frio impiedoso fazia minhas juntas doerem. Eu não tinha certeza se ainda conseguia sentir a pobre ponta de meu nariz, quase congelada. Olhando para o céu, vi que flocos de neve começaram a cair novamente. Suspirei, decepcionada, e minha respiração imediatamente condensou-se em uma nuvem perto de minha boca.

Ajeitei meu cachecol e do bolso da calça tirei meu velho mp3 player, para passar para a próxima música. Os fones do ouvido me agraciaram com o som de Sonata ao Luar.

A música acrescentava melancolia ao momento solitário. A repetição de notas no começo do primeiro movimento, o chamado ostinato, me dava a sensação de andar e, mesmo assim, continuar parada. Fazia com que eu involuntariamente ficasse quieta, sem me mover, olhando para meus pés.

— Passa tudo! — alguém gritou subitamente ao lado.

Saltei no banco, com o coração disparado. Joguei-me para o outro lado do assento, na direção oposta de onde havia vindo a voz. Tive que que fazer um esforço especial para não transformar meu colar em espada. Logo depois eu vi, no entanto, que isto não seria necessário.

Em pé a alguns passos de mim estava ninguém além de Queen, dando risada e fazendo uma arma com seu dedão e indicador. Ela estava preparada contra a noite fria — usava várias camadas de roupa, com um sobretudo creme por cima. Suas bochechas estavam roseadas devido à temperatura. Alguns flocos de neve estavam presos aos fios castanhos de sua franja, parcialmente coberta pelo gorro de lã que ela usava.

Levei a mão ao peito, tremendo, tentando desesperadamente reaver algum ar. Voltei-me para ela, desacreditada, e soltei um palavrão.

— Se chapeuzinho tem tanto medo de lobos assim — ela disse. —, não deveria estar a essa hora andando na floresta.

Queen sentou-se ao meu lado e cruzou uma perna sobre a outra.

— O que faz no Central Park em plena madrugada?

Recuperei-me o suficiente para falar.

— Eu? O que você faz no Central Park em plena madrugada!? O que você faz em Nova York!?

— Também estou muito feliz em te ver, Sam.

Queen e eu não nos víamos há quase três meses, quando ela acompanhou sua mãe em uma semana de apresentações no Carnegie Hall. Queen até mesmo me arranjou uma entrada para ver sua mãe cantar na quarta noite de apresentação.

No entanto, Sarah Boulevard não iria se apresentar em Nova York tão cedo. Acredite, como uma das maiores fãs da cantora lírica, eu sabia disso.

— Vim resolver uns negócios particulares. Nem pergunte. — ela apontou para meu fone. — É uma ária?

Neguei com a cabeça.

— Beethoven. — e dei um de meus fones para que ela escutasse comigo.

Ficamos em silêncio, apenas escutando a música. Aproveitei-me desse tempo para me recompor direito. Tinha tomado um verdadeiro susto. Fiquei curiosa com a repentina aparição de Queen e com a tamanha coincidência de ela ter me encontrado dentro daquele parque imenso, que, por sua vez, ficava dentro de uma cidade gigantesca. Mas eu sabia que não conseguiria arrancar muita coisa de Queen. Não quando ela preferia permanecer quieta sobre o assunto.

— Deixe-me adivinhar. — ela disse, depois de um tempo. — Não conseguiu dormir e veio dar uma volta.

Pareceu mais dramático quando ela falou isso em voz alta.

Minha falta de resposta confirmou o que ela já sabia.

— Francamente, Sam. Eu sei que há muito motivo para se preocupar, mas não é saudável ficar remoendo essas coisas. Há quanto tempo você não dorme por causa dessa guerra estúpida? Não vale a pena se arriscar vindo aqui por causa disso.

— Não é bem por causa da guerra, Queen.

A compreensão imediata ficou estampada em seu rosto.

— Ah.

No último semestre, eu tive incontáveis pesadelos. Muitos deles me fizeram acordar no meio da noite gritando; outros me fizeram chorar contra o travesseiro até os primeiros raios de sol entrarem por minha janela. Mas nada tinha me arrancado de casa até então.

O que me tirou de casa foi um sonho. Um sonho lindíssimo.

Um sonho com Nicholas.

Nele, estávamos dividindo um simples final de tarde no acampamento. Sentados sobre uma toalha, estávamos assistindo juntos ao pôr-do-sol na praia. Ele estava me contanto uma história engraçada que acontecera em uma de suas missões. Eu estava me sentindo bem — leve, despreocupada. Era um momento perfeito.

Acordei com a sensação de seus lábios nos meus. E com o intenso e mal vindo desejo que o sonho fosse realidade.

Não conseguindo mais me livrar da imagem desse sonho, fiquei desesperada. Tentei ler e assistir TV, porém não consegui parar de pensar em Nick. Uma confusão de saudades e mágoa profunda enchia meu peito a um nível enlouquecedor. Eu precisava dar uma volta. Urgentemente.

Eu ainda não conseguia aceitar o que Nick fizera comigo. Dentre todas as pessoas que conhecia, era dele de quem eu menos esperava uma traição dessa proporção. E no pior momento possível: enquanto minha irmã morria bem na minha frente, sem que eu pudesse fazer algo para evitar essa tragédia.

Enquanto me enchia de juras de amor, Nick sabia que sua irmã estava viva. Enquanto fazia planos comigo, ele servia como aliado de Sócrates, tendo em vista o dia em que fugiria com ele.

O que Nick fez comigo foi pura crueldade.

E, mesmo assim, ele ainda conseguia mexer comigo. Por mais que ele merecesse, eu não conseguia ter a decência de me desligar de Nick. Nem sabia até onde eu tinha culpa nisso.

— Bom — Queen interrompeu o silêncio. — Vou te dar outras coisas em que pensar agora. Podemos acordar Jenny?

Um meio sorriso encurvou meus lábios.

— A essa hora? Claro, ela vai amar.


Foi um passeio gostoso para fora do parque. No caminho, Queen me contou como sua relação com a mãe havia melhorado. A cantora agora se esforçava para arranjar tempo com a filha e, depois de anos, finalmente tentava conhece-la de verdade.

Enquanto subíamos a rua de Jenny, eu atualizava Queen do que havia acontecido nesses últimos três meses. Falei sobre o casamento, a escola e a preparação para a faculdade — caso eu tivesse a sorte de viver até me formar no ensino médio.

Ao parar em frente ao prédio, saquei meu chaveiro do bolso.

— Tem as chaves da casa dela?

Assenti, não evitando pensar no quanto aquilo era realmente estranho.

— Ideia da Alison. — expliquei. — Para criarmos mais liberdade entre as famílias, coisa assim... Sei lá, não pergunte.

Assim que abri o portão principal, adentramos no prédio. Silenciosamente, subimos até o terceiro andar, apartamento trezentos e cinco. Tentei usar de todas minhas habilidades ninjas para não emitir um ruído sequer, pois sabia que Alison iria acordar cedo para trabalhar.

Esgueiramo-nos até o redemoinho que Jenny chamava de quarto. Ela estava lá, encolhida dentro de seu edredom, abraçada com seu travesseiro como se ele fosse Victor. Pessoas teriam pena de acordá-la enquanto ela parecia estar dormindo tão profunda e confortavelmente.

Eu não era uma dessas pessoas.

Com tapinhas pouco delicados, tentei fazer a primeira tentativa. Jenny soltou um gemido e virou-se para o outro lado.

— Jenny, sou eu. — disse o mais baixo que podia. — Acorda.

Como alternativa, puxei seu edredom para fora da cama.

— O próximo passo é a água na cara. — avisei.

Jenny abriu seus olhos lentamente, resmungando algo que não entendi. Olhou ao redor, confusa, então notou a presença de Queen e ficou mais confusa ainda. Ela sentou-se na cama com um bocejo.

— Que horas são?

— Umas quatro e meia da manhã. — respondi.

Ela voltou-se para a janela do quarto, como que para confirmar o fato. Lá fora, a escuridão da noite permanecia imperturbada. Jenny soltou um muxoxo.

— O que está acontecendo?

Queen mordeu os lábios, apreensiva.

— Que tal fazermos um chocolate quente?

Quinze minutos depois, eu estava sentada de pernas cruzadas sobre a cama de Jenny, dividindo um edredom com a mesma. Segurava uma caneca cheia de chocolate quente, que aquecia minhas mãos. À minha frente, no chão, Queen se sentava sobre uma porção de almofadas, enquanto tentava se esquentar com um cobertor e sua bebida.

— O que queria nos contar? — Jenny indagou depois de bebericar seu chocolate.

Queen olhou para a porta do quarto, que, por precaução, estava fechada.

— Vim para Nova York resolver algumas pendências. Mas também para dizer algo importante. Estou aqui em nome do acampamento. — ela deu uma pausa. — Recebemos sinais de vida do outro acampamento.

Prendi a respiração.

— Isso quer dizer que...

— Que Zack está tentando fazer contato. Sim. É hora de voltar pro acampamento. Temos que nos preparar.



Notas finais
Estamos de volta, yaaaay! Comentem!