Samantha Roberts - Guerra Fria

3 Minha irmã tentou me matar, eu acho


E a semana se passou.

Foi um período intenso de treinamento. A esgrima, escalada, resistência ao frio e conhecimento geral de criaturas foram muito exigidos. Tomei a liberdade de pedir ao Quíron uma aula especial para que eu pudesse melhorar meus poderes e ajudar meus irmãos nos deles. Eles estavam melhorando muito, conseguimos ter conversas de horas apenas no pensamento, alguns deles tinham a perfeita visão no escuro que nem eu. Mas também era só isso.

Às vezes eu me perguntava por que só eu conseguia desfrutar do telefragorium ou manipular as pessoas, entrando em suas funções motoras. Eu me sentia tão diferente. Ser diferente até certo ponto é legal, te faz especial. Mas eu não queria ser a anormal do meu chalé.

Eu havia acabado de sair do banho depois de um longo treinamento de luta greco-romana. Até que eu não estava tão acabada quanto meus irmãos. Todos nós somos filhos de Atena e temos a mesmas habilidades, mas cada um se saia melhor em um ofício de nossa mãe. Briana foi e sempre será a melhor estrategista de nosso chalé, Heitor é a pessoa mais inteligente que eu já vi e é muito sábio em dar conselhos, Clarck é o mais audacioso e corajoso. Eu sou a guerreira. As lutas não me cansavam tanto, eu me empenhava tanto nos treinamentos que eu tinha que me lembrar que ainda não era para valer.

Ainda.

Esfreguei a toalha na minha cabeça e fiz com que meu cabelo ficasse todo bagunçado com isso. Dei uma olhada na prateleira de livros que nós tínhamos, eram tantos. Acabei escolhendo um livro de antigos relatos de guerras.

Deitei em meu beliche a afoguei meus olhos no livro. Eu estava totalmente absorta na leitura. Eram tantas informações que eu podia arrancar daquele livro, tantos erros já cometidos que eu poderia evitar. A frustação começou a tomar conta de meu corpo quando as letras começaram a se embaralhar. As palavras saltavam do livro e dançavam em minha frente, como se estivessem zombando de mim.

Antes que eu pudesse jogar meu livro no chão, uma voz doce e alegre quebrou o silêncio.

– Sam, Sam! – Mia veio correndo em minha direção.

Ela trazia uma pequena adaga consigo. Em seu rostinho angelical havia um sorriso enorme. Ela me entregou a adaga, com um olhar pedindo que eu avaliasse a arma. Girei o objeto entre meus dedos, com cuidado pera não me cortar. A lâmina era de bronze celestial, eu podia ver meu reflexo de tão brilhante e bem polida que ela era. No cabo, em baixo-relevo, estava escrito: athó̱os.

– Inocente. – traduzi.

Mia se sentou ao meu lado na cama.

– Fui incrível lá no Arsenal. Quíron disse que iria arranjar uma adaga para mim, que nem a sua! Quando estávamos mexendo nas coisas, o sol entrou no Arsenal e a adaga refletiu os raios solares e começou a brilhar. Quíron diz que isso acontece muito. É para a gente saber qual é a arma certa pra gente.

Assenti sorrindo. Era legal ver o jeito como ela se animava com tudo no acampamento. Com o tempo, iria se acostumar com essas coisas anormais que sempre aconteciam com a gente.

– Como você conseguiu sua adaga? – Mia me perguntou. – Ela também brilhou? Qual é o nome dela? Você matou quanto monstros já?

Abaixei a cabeça. A saudade sempre batia quando eu lembrava do assunto, principalmente nesse momento.

Hesitei um pouco, as palavras fugiam de minha boca.

– Eu não peguei no Arsenal, Mia. – disse, por fim. – Minha irmã me deu.

– Quem?

– Briana. Você não a conhece.

– Ela já saiu do acampamento?

– Não. – respondi tentando mante a calma. – Ela morreu.

– Como?

Eu odeio interrogatório. Eu estava um pouco irritada por não conseguir ler já, as perguntas não estavam ajudando em nada. Mas, coitada, a Mia não tinha culpa de nada.

– Prefiro não falar sobre isso, tá?

Fui guardar o livro de novo na prateleira. Só que Mia é tão chatinha como eu. Quando está curiosa, não descansa até descobrir o que quer. Ah, genética.

– Foi na batalha? Mary me contou que você perdeu pessoas especiais na batalha contra Sócrates.

Pronto. Ela mencionou o nome do aquele-que-não-deve-ser-nomeado-quando-estou-nervosa-ou-com-TPM. Enfiei o livro em seu devido lugar na prateleira e suspirei.

– Foi.

– E estava lá quando ela morreu?

– Sim.

– E por que não fez nada? Eu queria conhece-la também.

Eu estava tentando me segurar, mas a raiva subiu o meu corpo. Não era só isso, eu estava me sentindo estranha. Um choque elétrico percorreu minha espinha.

– Eu já disse que não quero falar sobre isso, Amélia! – gritei.

Algo me levou a desviar a cabeça para a esquerda. Um assobio passou pelos meus ouvidos, senti um leve vento. Quando me dei conta, a adaga de Mia estava cravada na parede, logo abaixo da prateleira. Me virei para ela contudo, procurando uma explicação. Mas seus olhos, já com lágrimas e assustados, falavam que não havia sido ela.

– N-não fui eu. E-ela voou da minha mão, Sam. Juro. Ela voou sozinha.

Estranhamente, eu acreditava nela. As engrenagens de meu cérebro se encaixaram e funcionaram numa velocidade de um piscar de olhos, assimilando tudo o que tinha acontecido naqueles segundos. Seria possível?

Arranquei a adaga da parede e a analisei.

– Sam, não fui eu. – Mia ficava repetindo.

– Silêncio, por favor.

Ela ficou calada, com o corpo reto, tentando não arranjar mais encrenca. Levantei minhas mãos, de modo que a adaga ficasse na altura de meus olhos. Franzi o cenho e me concentrei na adaga. Era como eu pudesse senti-la não somente com a mão.

Ela começou a tremer em minha mão. Com certo esforço meu, a adaga flutuou, trêmula, dez centímetros no ar. Minha cabeça começou a doer demais, a adaga caiu de novo em minha mão.

– Não foi você, Mia. – expliquei. – Fui eu.

– O que foi isso?

– Telecinese.

Eu fiquei a tarde inteira tentando treinar esse novo poder. Era muito desgastante, exigia muito de minha concentração. Quando minhas forças se esgotaram, optei por um passeio pela praia.

O sol era forte, parecia que estávamos no verão. Tirei meus tênis e os segurei para molhar meus pés a beira d’água. As ondas iam e voltavam, o cheiro de sal emanava da água. Algumas gaivotas voavam mais ao horizonte.

Não foi uma escolha muito sábia de minha parte. Porque, toda vez que eu olhava o mar, me lembrava dele. Mas o mar, a praia, me fazia tão bem. Era um lugar onde eu podia fugir de meus problemas, de esquecer de tudo o que eu viva. Tudo o que eu ouvia era o som das ondas quebrando, o resto eu deixava para o lado.

– Eaí, Sam. – alguém havia quebrado meu momento de meditação.

Ned estava correndo em minha direção. Ele tinha dado um mergulho, seus cabelos castanhos claros estavam molhados. O calção estava grudado nas coxas e a camisa encharcada pendurada no ombro, deixando sua — deuses do Olimpo — bariga tanquinho amostra.

– Oi, Ned. – respondi meio tímida, me perguntando se ficou muito na cara que eu estava... apreciando o corpo dele.

Ele começou a andar pela praia junto a mim.

–Jenny me contou que o tirano do meu irmão apareceu para você, entrou em seus sonhos. – comentei.

– É verdade. Como se eu fosse me aliar a ele a essa altura. Por que ele faz isso? Por que eu?

– Por minha causa. Ele só quer as pessoas que eu amo de perto de mim, não importa o jeito, mas ele tem que fazer isso.

– Quer dizer que eu sou uma pessoa querida, então? – ele disse, com um sorriso malicioso.

– Cale a boca.

– Ok, mas só se você sentar comigo na fogueira.

– Fechado,

Enfiei uma das mãos no bolso. Fiquei um pouco relutante ao perguntar, mas a curiosidade me venceu.

– Onde vocês estavam em seu sonho? Onde ele está agora?

– Não sei bem onde era. – ele disse mantendo o olhar distante. – Meu sonho começou quando levantei minha cabeça. Estavam me obrigando a me ajoelhar perante dele. Olhei para o lado e vi que Susana que me segurava. O lugar era grande, era um tipo de sala principal. As paredes eram de madeira, e havia... um tipo de bandeira com o símbolo deles. A bandeira era preta, no meio o desenho era o contorno de uma coruja prateada com duas espadas cruzadas.

"Aí ele começou aquele discurso todo de que o lado dele era o vencedor e que ele só estava esperando o momento certo para dar o golpe para enfraquecer aos deuses e que iria derrotar o Acampamento Meio-Sangue se tentarmos impedir. Aliar-se a causa é o único meio de sobreviver, segundo a ele."

– Queria que Zack entrasse em contato logo. – admiti. – Queria acabar logo com isso tudo.

– Também. Não aguento mais esperar.

Fomos juntos para a fogueira, que era a coisa que eu mais precisava para terminar meu dia e ficar tranquila.

Infiltrei-me no meio dos filho de Apolo, que me receberam com sorrisos. Fiquei sentada numa tora entre Ned e Jenny. Ela se demonstrava um pouco nervosa, ficava batendo o pé no chão e balançando os dedos. Jenny sempre ficava assim quando previa alguma coisa e estava ansiosa para que ela acontecesse. Mas não tive tempo de perguntar o que era, começaram a tocar violão e todos foram no embalo das canções.

Chegou a vez de Jenny. Ela pegou o violão a começou a pensar em uma música para cantar.

– Essa é pra Sam. – ela anunciou para minha surpresa. Só que surpresa não foi a cantora de autoria da música. – Vamos cantar Darling, da Avril?

Minhas bochechas coraram quando os olhares de todos se desviaram para mim. E também não era todo dia que isso acontecia. Quando Jenny dedicava uma música, era sempre alguma música tema dela com o Victor.

Começamos todos a cantar uma das músicas favoritas de Jenny. Foi uma fogueira gostosa. As labaredas de fogo da fogueira dançavam alegres num tom laranja vivo. Olhei atenta para o fogo e juro que vi uma menina lá dentro, sorrindo para mim. Fiquei um pouco espantada por um momento, só então eu a reconheci como Héstia.

Sorri de volta para a senhora da lareira. Era como se ela trouxesse uma mensagem para mim: os deuses estavam com a gente.

Mas creio que para essa situação em que vivemos, eles não possam fazer nada.

Assim que a fogueira acabou, Quíron nos dispensou e pediu para que fossemos para nossos chalés. E era claro que eu não iria fazer isso. Eu tinha meu próprio ciclo de sono, eu nunca conseguiria dormir naquele momento, principalmente inquieta como eu estava naquele dia.

Olhei para a lua. Mil ideias e planos passaram por minha cabeça. Eram bons jeitos de nos favorecer no que estava por vir, mas optei por colocar essas ideias na mesa no Conselho de Guerra.

Fui andando para o píer, fazia tempo que eu não ia para lá, estava até com saudades. Jenny, que estava terminando de fechar a capa de seu violão, pediu para eu esperar. Pelo jeito, não seria uma escapada do horário de recolher sozinha.

Ela pendurou o violão nas costas e correu para me alcançar. Continuamos andando em direção ao píer.

– Estava passeando com a Ned? – Jenny começou a puxar o assunto.

– Sim. – dei ombros. — O encontrei na praia e ficamos conversando.

– Você sabe que ele está querendo te dar uns amassos, não sabe?

– Larga de idiotice, Jenny.

– Eu sou idiota. Largar a minha idiotice seria perder a essência de meu ser. – ela riu.

Eram nesses momentos que eu percebia que aquela era a qualidade que eu mais apreciava em Jenny: ela nunca perdia o humor. Por mais que isso, às vezes, fosse irritante, era bom ter uma pessoa por perto com essa qualidade.

Nos sentamos na balaustrada do píer.

– Eu não estou mais aguentando esse treinamento. – Jenny desabafou. – Querem que eu lidere a tropas dos arqueiros. Autoridade é legal, mas os treinos são cha-tos. Como se eu já não fosse demais com o arco e flecha.

– Sua humildade me comove.

– Sam, se eu fosse humilde, eu seria perfeita.

Começamos a rir. Ouvimos barulhos de passos distantes. Fiquei um pouco mais alerta com isso, poderias ser as harpias a solta.

– Bem que você poderia compartilhar essa sua habilidade do arco comigo, senhora arqueira.

– Claro, adoraria ter uma aprendiz. Mandar na Sra. Eu Mando Aqui seria legal.

– Até parece que eu fico mandando em todo mundo.

– Ah, não. Imagina.

Antes que eu pudesse protestar, algo chamou nossa atenção. Em nossa frente, um círculo cor de rosa, que às vezes mudava para algumas cores do arco-íris, começou a rodas. Olhei bem para ele e vi um rapaz com a aparência cansada e alguns hematomas no rosto. Seu rosto triste se iluminou ao nos ver, como se precisasse daquela visão.

Arregalei os olhos. Aquele garoto todo acabado era Zack.