Notas iniciais
Até que esse não demorou, certo? (Leiam as notas finais depois)

Não sei o que era mais insuportável: o contínuo silêncio do chalé seis ou quando alguém vinha me ver e quebrava-o.

Quíron suspendeu as atividades do acampamento por tempo indeterminado. E eu não pude fazer muito além de aproveitar esse tempo enfurnada no covil. A maioria do tempo eu sentia cansaço e indisposição e, quando ficava levemente melhor para dar uma volta, esse ânimo era usado somente para me locomover até o refeitório e fingir que conseguia comer algo.

Eu estava odiando o fato de meus amigos e irmãos estarem querendo bancar meus enfermeiros particulares. Odiava mais ainda eles terem tão descaradamente implantado um revezamento para ficar de olho em mim.

Clarck ficava comigo algum tempo entre o café da manhã e o almoço. Mary vinha me trazer uma fruta perto das dez da manhã. De tarde, Jenny tentava me fazer conversar e trocava meus curativos — por essa visita específica eu ficava contente, pois eu não me sentiria confortável tirando a roupa na frente de qualquer outra pessoa de plantão na enfermaria. Até Matt aparecia na porta do chalé de vez em quando para checar se estava tudo bem. Apenas Queen não havia adotado uma rotina de visitas, vinha quando achasse melhor.

Mas era justamente esse excesso de atenção que me dava vontade de gritar. Eu não queria que sentissem pena de mim, que se comovessem por tudo que eu estava passando. Que romantizassem minha dor.

Em contrapartida, ficar sozinha no chalé vazio não era tão melhor que isso. Abria-me muito tempo para pensar.

Repassar a batalha em minha cabeça havia se tornado um hábito. Eu procurava incansavelmente por erros e por coisas que poderiam ter sido diferentes. Uma vez encontradas, eu as remoía até ficar à beira da loucura.

E eu pensava muito em Mia. E em Ned e Briana.

No quinto dia, Jenny tentou me dar um basta.

Ela desceu as escadas para o covil batendo os pés, irritada com alguma coisa. Em uma das mãos ela carregava uma caixinha de primeiros-socorros. Forçou um sorriso que não me convenceu muito bem quando nossos olhares de encontraram.

Ela também trazia marcas da batalha. Sua maçã do rosto estava com um hematoma roxo que não deixava a desejar, e o ferimento em seu braço estava envolto com uma faixa de gaze bem apertada.

— Está atrasada para seu turno. — resmunguei.

Jenny jogou o kit de primeiros-socorros em cima da mesa de bilhar, onde ela se sentou.

— Estava conversando.

Ajeitei-me no sofá onde estava sentada e puxei o edredom que me cobria para cima de meu queixo. Não importava se a temperatura interna do acampamento estava sendo mantida a vinte e quatro graus, eu ainda sentia frio.

— Com quem?

Ela não respondeu, coisa que a denunciou.

— É revoltante você achar que eu não sei que estava com a gêmea do mal.

Jenny fuzilou-me com os olhos.

— Você não está autorizada a usar seus poderes!

— Eu não preciso com você.

Ela me encarou por algum tempo sem dizer nada, depois emitiu um suspiro cansado e balançou a cabeça.

— Susana é minha amiga há anos. Eu acredito nela. Não vou abandona-la agora que precisa de mim.

Jenny estava se esforçando para permanecer em território neutro, eu podia enxergar isso. Ela falava que precisar estar ali por Susana, mas o mesmo vinha cuidar de mim e não saía de meu lado até me arrancar uma risada.

Mas, querendo ela ou não, Susana ajudou Sócrates dar corpo à rebelião. E eu nunca perdoaria aquilo. E soava inconcebível para mim Jenny conseguir perdoar na primeira vez que a gêmea pedira um abraço.

— Eu preciso de você. — apelei. — E preciso dela longe de mim.

— Não, você não precisa. — Jenny disse firmemente. — Sabe do que você precisa? Tomar sol, comer direito, e sair desse sofá. Precisa parar de querer colocar a culpa em alguém, inclusive em você mesma, e superar isso tudo. Tipo, que saco! Você tem medo de seguir em frente e desconta isso em todo mundo!

Mandei-lhe um olhar ressentido.

Como ela poderia achar que era fácil? Minha irmã de sete anos havia morrido na minha frente e eu não pude fazer nada para salvá-la. Ned também falecera e eu não pude estar com ele em seus últimos momentos. Havíamos acabado de voltar de uma batalha sangrenta com um notável e triste número de baixas. Eu descobri que era capaz de fazer coisas, até então inatingíveis para mim, e eu estava com medo disso. Estava com medo de mim e do que eu poderia me tornar. E me odiava por ter descoberto esse potencial tarde demais.

E ainda tinha Nick que procurava me ver a qualquer custo. Como eu podia encará-lo depois de tudo que tinha acontecido?

Esse amontoado de emoções rapidamente converteu-se em lágrimas, que saíram por meus olhos inchados.

— Estou aos cacos. — eu admiti com a voz já tomada pelo choro.

Eu estava me sentindo doente, cansada, confusa e amargurada. Eu não conseguia nem pensar direito. Era como se uma nuvem negra tivesse dominado minha cabeça, dizendo que eu nunca seria capaz de me livrar dela. E eu acreditava nisso. Doía menos acreditar.

Afundei minha cabeça nas mãos e joguei tudo para o ar. Deixei sair tudo o que meu corpo e mente demandavam sair. Permiti-me chorar feito uma criança desesperada, porque era realmente como eu me sentia.

Senti a mão de Jenny tocar meu ombro delicadamente. Olhei para ela pedindo socorro, qualquer coisa que me tirasse daquele buraco.

— Eu sei que é horrível. — ela disse devagar, olhando dentro de meus olhos. — Foi muita coisa ao mesmo tempo. Mas se você passou por tudo isso é porque você é forte. Você sabe disso, não sabe?

Funguei entre os soluços.

— E-eu não... Eu não consigo mais.

Jenny agachou-se em frente o sofá, ficando de cócoras.

— Você consegue qualquer coisa, Sam. Só precisa tomar iniciativa.

— Concordo.

Queen foi tão sutil em sua entrada que pareceu mesmo ter surgido das sombras. Meu coração parou ao vê-la atrás do sofá, olhando-me com ternura. Ela me deu um sorriso fraco e pôs uma mão em cada ombro meu.

— Não precisa fingir que isso tudo não aconteceu. — ela disse. — Mas eu sei muito bem que carregar a sensação da morte consigo não é bom. Não é saudável. Pegue essa dor e transforme-a em algo melhor.

— Pegue os cacos e forme um mosaico. — Jenny seguiu a linha de raciocínio. — E você não vai precisar fazer isso sozinha.

— Só precisa decidir isso sozinha. — Queen completou. — Vamos, Sam, é péssimo te ver assim.

Eu sabia que as duas estavam certas. Por outro lado, parecia ser tão errado deixar o que passou para trás. Era como se eu estivesse abandonando as pessoas que ficaram no Alasca. Era como se eu perdoasse todos os erros.

— Sam — Queen disse quase num sussurro. —, ele está na porta do chalé. Quer falar com você.

Era o que faltava para minha avalanche emocional.

Tudo o que consegui fazer foi balançar a cabeça, fazendo as lágrimas penduradas em meu queixo respigarem, emitindo um grunhido que era para ter saído de minha garganta como um não.

— Então você não precisa vê-lo. — Jenny me assegurou. — Não vou deixar ele descer.

Eu podia imagina-lo na soleira da porta, inquieto e preocupado. Até esperançoso que ele poderia vir até aqui e consertar tudo. Me consertar. Mas, atrás de seu irmão angustiado, eu também podia imaginar Susana, indagando a ele se isso era mesmo uma boa ideia.

— Quero ir embora. — miei. — Quero ir para casa.

Jenny recuou para trás, surpresa.

— Tem certeza?

Não. Eu não tinha certeza de nada. Minha cabeça doía e eu não conseguia parar de chorar. Estava com frio e totalmente desestabilizada, e sabia que aquela era de longe a condição ideal para tomar uma decisão.

— Por uns dias. — eu disse, tentando espantar a nuvem negra de minha cabeça e me fazer pensar direito. — Preciso sair daqui. Preciso ver meu pai.

Queen e Jenny trocaram um olhar significativo.

— Vou com você. — Jenny disse. — Só preciso conversar com Victor e pedir a autorização para Quíron.

— Também vou. — Queen se manifestou.

Jenny sorriu.

— Isso! Vai ser bom para você, Sam. Dar um tempo disso tudo. Vamos ver aqueles filmes com a Rachel McAdams, lembra? Eu, você e Queen. O que me diz?

Assenti, os olhos fitando o chão.

Queen deu a volta no sofá e sentou-se ao meu lado. Deitei minha cabeça em seu ombro.

— Na verdade, — ela disse depois de três segundos calada. Seus olhos tinham aquele brilho que era sempre perigoso. — eu vou. Mas vou para fazer outra coisa.

— O que? — perguntou Jenny.

— Preciso falar com meu pai também.


Jenny teve que se empenhar mais em convencer a Victor que precisava ir embora do que o próprio Quíron. Para o velho centauro, apenas bastou que ele verificasse meu estado para autorizar minha saída. Recebi votos de melhoras e ainda o convite para voltar ao acampamento quando eu bem quisesse.

Demoraram três horas e meia para eu me ver no saguão de entrada de meu prédio. Era começo de noite e o local estava vazio, exceto por nós três e o simpático porteiro do turno da noite, que pareceu ficar feliz ao ver que eu voltara de viagem.

Sorri amarelo para o porteiro e entrei no elevador com minhas amigas, já começando a me sentir cansada. Jenny apertou o botão de meu andar — o quinto — e respirou fundo, em um gesto ansioso.

— Já pararam para pensar que essa é a primeira vez que iremos dormir juntas fora do acampamento? — ela disparou.

Eu pensara em várias coisas durante o trajeto inteiro até Nova York, mas nada tão inútil quanto aquilo.

Queen encostou-se na parede metálica do elevador, entediada.

— E daí?

Jenny olhou-a como se o motivo fosse óbvio.

— E daí que isso é sensacional!

Queen pendurou sua mochila, que continha uma muda de roupa para passar a noite conosco e depois seguir viagem até o Submundo, no ombro esquerdo.

— É a mesma droga que no acampamento, só que com pipoca e maior probabilidade de sermos atacadas por monstros antes mesmo de cairmos no sono.

Apontei para Queen, tomando suas palavras como minhas. Eu só queria ver meu pai e ficar um pouco com ele. Estava completamente desinteressada pelo todo resto que acompanhava essa visita.

— Vocês duas têm uma carga tão negativa. — Jenny reclamou. — Mereço aplausos por equilibrar essa energia que vocês emanam.

Pisquei lentamente, encontrando forças para continuar de pé.

— Negativo com negativo dá positivo. — argumentei. — Por isso nos damos bem.

Queen assentiu.

— E negativo com positivo dá negativo. Ou seja, sua energia ainda deixa tudo negativo. Agradeça a moi por equilibrar as energias, porque o nosso positivo com seu positivo fica algo duplamente positivo.

Jenny ficou com um ponto de interrogação no rosto, sem entender a matemática que fizemos. O elevador parou e abriu as portas. Saímos sem falar mais nada e a deixamos para trás.

Saquei as chaves de casa enquanto Jenny corria atrás de nós.

— E quem garante que eu não sou duplamente positiva!? Aí meu duplo positivo equilibra com o duplo negativo de vocês!

Consegui ouvir as vozes de papai e Alison, ainda abafadas pela porta de casa. Isso me causou uma pequena explosão de ânimo, o que subitamente mudou meu humor. Ao meu lado, Queen balançou a cabeça, como se não acreditasse que estava tendo aquela conversa.

— Positivo com negativo ainda vai dar negativo. Desista.

— Mas argh! Não!

Reprimi um sorriso e respirei fundo. Enfiei a chave na tranca e girei vagarosamente para o lado. Ouvi o clique e então empurrei a porta para trás.

Deparei-me com a versão de meu pai que nenhum de seus alunos imaginaria um dia conhecer: o estilo casual. A visão dele em largas calças jeans e moletom não era novidade para mim, no entanto. Na realidade, era tão familiar que eu quase comecei a chorar ali mesmo.

Alison estava parada em frente a ele, em uma proximidade tão íntima que me deixou ligeiramente incomodada, a princípio. Mas então vê-la novamente também encheu-me de uma sensação boa, como se as coisas começassem a girar na órbita certa mais uma vez.

Os dois pareceram congelar em sua cena por um segundo. Eles sabiam que estávamos de volta ao estado de Nova York, mas não tinham conhecimento de quando seríamos liberadas para voltar para casa. Não esperavam nosso retorno naquele momento.

Meu pai foi o primeiro a tomar realidade do fato. Ele cerrou os olhos, como se quisesse confirmar se estava vendo certo, e deu um passo a frente.

— Ah, meu Deus! Filha!

Andei o mais rápido que conseguia para ir de encontro ao seu abraço. Quando seus braços finalmente me envolveram, fui preenchida por uma sensação maravilhosa de conforto. Enterrei meu rosto em seu ombro e apertei-o com força, numa tentativa de mostrar o tamanho da saudade que eu vinha sentindo.

Ele começou a afagar meus cabelos.

— Fiquei com tanto medo de te perder. — ele admitiu com a voz embargada pela emoção, antes de beijar o topo de minha cabeça.

Ouvi as palavras de afeto que Jenny e sua mãe também trocaram ao se reencontrar. Alison não aguentou e começou a chorar e a se engasgar com as palavras que tentava dizer. Imaginei Jenny a apertando-a com força também.

Inspirei profundamente e tentei memorizar o aroma da colônia que meu pai estava usando. Agarrei com força o tecido grosso do moletom e deixei que poucas lágrimas silenciosas saíssem de meus olhos.

Poucas vezes na minha vida eu me sentira tão vulnerável como eu estava me sentindo. O pouco que havia sobrado de minhas defesas estava prestes a sucumbir, mas, controversamente, estava tudo bem. Meu pai estava ali. Ele iria me proteger e tudo iria ficar bem.

— Papai está aqui. — ele disse, exatamente como costumava a dizer quando eu era menor e procurava seu colo quando estava com medo.

Encolhi-me contra ele, refletindo a criança pequena que parecia estar voltando à tona dentro de mim. Ajeitei-me em seu abraço e respirei fundo, absorvendo a calma que ele estava me passando.

Meu pai soltou um pequeno suspiro aliviado.

— Papai está aqui agora.

Notas finais
Então, vou explicar o nome do cap pq eu realmente acho que esse mereça. Para escrever essa parte final, comecei a ouvir algumas músicas que costumo a ouvir junto com meu pai desde pequena. Uma delas é uma música do Bruce Dickinson, chamada Tears of the Dragon. Tenho ótimas memórias com ela à trilha sonora. Aí eu comecei a prestar atenção na letra e me toquei que, se analisarmos, ela tem muito a ver com a Sam e todo seu emocional durante GF. Então fica aqui uma singela homenagem a (segundo meu velho) um dos melhores vocalistas do mundo e ao meu querido papai, que no momento está muito longe de mim