Notas iniciais
E aqui está o resto : )

Andamos em uma linha imaginária inclinada para a esquerda. A abertura do desfiladeiro ficava mais a direita da montanha, não queríamos correr o risco de sermos vistos passando por lá. Se tivéssemos que andar mais alguns metros por segurança, iríamos.

Alguns cervos nos recepcionaram ao pé da montanha. Um deles olhou para mim como que entediado e voltou a comer os rebentos de um pinheiro mais baixo.

Senti esperança de que Ártemis estivesse olhando por nós através deles. Isso era bobagem. Por mais que quisesse, a Senhora das Caçadoras não tinha poder algum naquelas terras selvagens.

A montanha tinha uma pequena elevação com aproximadamente um metro de largura. Ela subia a montanha em uma espiral meio torta, e poderia servir de caminho para nós.

Pisei na mistura de grama, neve e terra e segui adiante. O solo estava muito escorregadio — eu sentia a sola de meu sapato patinar sobre o chão molhado. Olhei para baixo com reprovação. Em caso de uma fuga rápida, aquilo seria sinônimo de perigo.

O vento frio fustigava as maçãs de meu rosto. As montanhas enfileiravam-se de tal maneira que formavam um corredor, canalizando as correntes de ar. Bem na nossa direção. Sorte típica de semideus.

Estávamos a uns quatro metros de altura quando ouvi o som de galopes abaixo de nós. Primeiramente, pensei que fossem os cervos que vimos perto dos pinheiros à beira da montanha. Olhei para baixo e vi que estava errada. Quatro cavalos cavalgavam em bando, lado a lado.

Os cavalos pararam por um instante e saíram da formação. Eles andaram em círculos e relincharam alguma coisa. Eles pareciam estar conversando. Peguei-me pensando que Nicholas poderia saber o que tanto eles falavam. Belisquei-me como castigo.

Saber que depois de tanto tempo eu estava a, praticamente, um quilômetro de Nicholas não me ajudava em nada a tirá-lo da cabeça. A ideia de invadir o acampamento naquele mesmo instante só para saber qual seria a reação dele era muito tentadora.

Olhei para baixo novamente e vi que os cavalos haviam sumido. Procurei por eles por mais alguns segundos e desisti, embora o evento me parecesse meio estranho. Mas, afinal, estávamos no Alasca. Por que não poderia existir cavalos ninjas que desapareciam do nada à la Mestre dos Magos?

Após uma curva acentuada, tivemos um melhor visual no que estava a nossa frente.

Prendi o ar.

Era ali.

O desfiladeiro formava um caminho sinuoso entre as duas gigantescas montanhas. Rochas e vegetação morta enfeitavam o caminho afunilado de quatrocentos metros que se abria e nos levava a uma muralha. No meio do muro, havia uma grande porta.

A muralha era altíssima — devia ter uns seis metros de altura. Se meus olhos não me enganavam, ela parecia ser feita de concreto. Eu conseguia ver uma torre de vigia, uma em cada canto da muralha, com duas pequenas silhuetas em seu interior.

Escondi-me atrás de uma protuberância rochosa da encosta da montanha. Tirei o casaco que usava por cima e joguei em Matt. Por baixo, eu estava usando o casaco branco que Atena me dera. Seria melhor passar despercebida com ele.

— Duas torres para cobrir só um lado. — Matt disse, dobrando de qualquer jeito meu casaco e depois jogando-o no chão. — Vai tentar chegar mais perto?

Pus o capuz sobre a cabeça e escondi meu cabelo dentro dele.

— Só mais um pouco.

Andei na ponta dos pés mais alguns metros. Um arrepiou percorreu-me o corpo inteiro. O lugar irradiava más vibrações. Matt seguia meu encalço, sempre escorado à parede.

Vi que os semideuses da torre da esquerda, a mais próxima de nós, estavam cobertos de armadura completa e fortemente armados. Supus que os da outra torre estariam preparados da mesma maneira.

Os guardas pareciam mais atentos ao movimento de dentro do acampamento do que o de fora. Estavam entediados. Provavelmente, estava no final do turno e já não aguentavam mais ficar em estado de alerta. Se fôssemos um pouquinho sagazes...

Minha cabeça começou a funcionar.

— Ok, bonzão. É o seguinte: quero ver lá dentro. Não vai ser tão difícil. Só precisamos ser silenciosos e rápidos. Você vai pelo flanco direi...

Matt cutucou meu ombro com força. Tirei seus dedões de lá e continuei a olhar fixamente para os guardas.

— Você sabe que eu odeio quando interrompem minha linha de raciocínio! — sussurrei o mais alto possível. — Você vai pela...

Ele me cutucou novamente.

Virei, irritada, e tive que engolir o Eita, preula! que quase gritei.

Os quatro cavalos que vi trotando pelo desfiladeiro estava cara a cara com a gente. Eles respiravam pesado e fumaça saía violentamente por suas enormes narinas. Os quatro tinham olhos vermelhos hipnotizantes e cativantes. Mas isso era sinal de problema.

O que estava a frente era tinha a pelugem negra, o que ressaltava e deixava os olhos vermelhos assustadores. O outro, da cor de caramelo, tinha os cacos dourados e, realmente, pareciam ser feitos de ouro. O terceiro era da cor mostarda e me encarava fixamente. O quarto, totalmente branco, parecia ser o mais inquieto de todos.

Adiantei-me um passo.

— Ei, ei. Cavalos bonitinhos.

O cavalo negro relinchou e ergueu as patas dianteiras, avançando em mim. Apertei-me contra a parede antes que ele me acertasse. O cavalo olhou para mim, ferozmente. Ele abriu a boca e tomou fôlego. Matt puxou-me para o chão segundos antes do cavalo expelir fogo.

Cavalos demoníacos cuspidores de fogo. Tudo o que eu precisava naquele momento.

Os outros cavalos também começaram a se agitar. Olhei para trás, para os guardas. Eles não podiam perceber nossa movimentação. Abri caminho entre os cavalos e saí correndo na direção oposta à murada.

Eles arrancaram atrás de mim. Esperei um pouco e parei de correr subitamente, quase escorregando. Os cavalos passaram trombando por mim, deslizando no chão escorregadio. Um deles, o de cascos de ouro, tombou aos pés do cavalo branco.

Quatro cavalos. Cavalos cuspidores do fogo.

Dei uma googlada em minha mente procurando as informações que eu tinha sobre o assunto. Havia um mito... Era sobre os quatro cavalos indomáveis. Dominá-los era um dos trabalho de Héracles.

Ah, que clichê.

— Ei! — alguém da muralha berrou.

Matt correu até meu lado.

— Sabe dominar a névoa? — perguntei.

Ele assentiu. O cavalo que levantava atrapalhava os outros, esbarrando neles enquanto patinava no chão.

— Ótimo. Transforme a gente em cavalo.

— O que?

— Já!

Matt fez cara de desespero.

— Preciso de tempo!

— Não temos tempo!

O cavalos começaram a se re-organizar. Eles roçavam os cascos no chão, preparando-se para dar o bote.

Ok, Sam. O que você sabe sobre eles? Os Indomáveis. Cavalos do rei Diódemes, o rei da Trácia. Eram cuspidores de fumo e fogo, devoradores de carne humana. Aterrorizavam a cidade inteira, por isso eram geralmente presos por grossas correntes. Foram domados por Héracles.

Um dos cavalos passou furioso por nós. Encostei-me novamente na parede. Matt não teve a mesma sorte. Deu um passo para trás e ficou desequilibrado na montanha. Rochas e quatro metros de queda o esperavam lá embaixo. Ele abriu os braços e começou a rodá-los, na esperança de conseguir retomar o controle. Puxei-o pelo moletom antes que ele caísse.

Felizmente, o corredor em que andávamos era estreito demais para os quatro cavalos agirem de uma vez. Eles andavam, desengonçados, e disputavam por espaço para nos atacar.

Pulei na frente dos demais cavalos. Eu precisava ganhar tempo para Matt.

— Ei, seus nojentos! Calma aí!

O cavalo negro começou a avançar em mim. Fiz com que meu colar virasse espada. Esperei que ele chegasse o mais perto possível, então dei um passo para o lado e segurei minha espada com as duas mãos e com a parte plana da lâmina na direção dele. O tornozelo do cavalo atingiu a espada com tanta força que ela quase voou de minhas mãos.

O Negro deu passos trôpegos a frente. O Casco de Ouro foi em minha direção e tentou me acertar com suas patas dianteiras. Deitei no chão por instinto e fechei os olhos quando os cascos desceram ao lado de minha cabeça.

— Pronto! — Matt anunciou.

Dei graças aos deuses.

Rolei debaixo do cavalo e transformei minha espada em colar novamente.

— Preciso que distrai-os. — disse a Matt.

— Quê?

Subi novamente o corredor. Passei por um dos cavalos e esbarrei propositalmente nele com meu ombro. Ele não pareceu gostar disso e começou a me seguir. Era menos um com quem Matt deveria lidar.

Eu procurava sempre manter uma distância razoável entre nós, correndo em zigue-zague para que o cavalo não acertasse fogo em mim.

Senti o calor das chamas ardendo em minhas costas. A vantagem aos poucos se diminuía. Porém eu precisava voltar ao acampamento com informações mais precisas. Precisava conseguir ver o que tinha lá dentro do acampamento.

Eu esperava que a manipulação de Matt fosse eficiente, pois estava indo direto para o campo visual dos guardas da torre. Caso contrário, isso iria denunciar nossa chegada e botar nosso progresso em perigo.

— O que vocês estão fazendo aqui, hein? — falei por cima do ombro.

O Negro, cavalo que me seguia, não pareceu gostar da pergunta e me respondeu com mais uma baforada de fogo.

Apertei o passo e fui a todo gás para frente. O ar era seco e meus pulmões ardiam com as respirações pesadas e descompassadas. Mas eu não podia me dar ao luxo de regularizar meus passos e, por conseguinte, minha respiração. Eu tinha que ir mais rápido cada vez que meus pés alcançavam o chão.

Os guardas notaram o movimento, no entanto não fizeram nada além de observar. Aquilo era sinal de que o plano improvisado havia dado certo e de que eu era um cavalo... Quer dizer, uma égua aos olhos deles.

Diminuí o passo quando tive um panorama geral do acampamento inimigo. Deuses, como eles conseguiram?

A muralha quadrangular cercava e protegia o local. Ela seguia o padrão que Matt deduzira — duas torres de vigia para cada lado. Por mais que todos os cantos fossem monitorados, só havia portões na face em que estava o desfiladeiro.

Ao lado esquerdo, várias edificações se enfileiravam. Elas lembravam o estilo dos chalés do Acampamento Meio-Sangue, porém eram desprovidas de qualquer singularidade e características dos deuses. Eram todas iguais, com uma pequena varanda na frente.

Semideuses entravam e saíam dessas edificações. Deduzi que o local fosse o alojamento. O número do alojamentos era bem maior que o nosso número de chalés. Torci para que aquilo não representasse uma desvantagem na Hora H.

Do outro lado do acampamento havia uma série de construções que eu não consegui distinguir muito bem o que era o que. Poderia ser a cozinha ou refeitório, um arsenal fechado, um salão para eles se reunirem e fazerem comunicados. Qualquer coisa.

Mais o centro havia aquela espécie de clareira em que vi Nicholas lutar com Michel em meu sonho. O local era cercado por alguns instrumentos de treino, alvos e sacos de pancada. As mesas de pedra onde eles tomaram chocolate quente eram distribuídas um pouco mais a frente.

O que estava atrás da clareira era o motivo de minha revolta.

Era, com certeza, o maior patrimônio do acampamento inimigo. Um casarão de dois andares localizado bem no meio da face da muralha oposta de onde eu me encontrava.

Infelizmente, não tive tempo de absorver todos os detalhes do local onde o desprezível do meu meio-irmão se escondia. Antes mesmo que eu pudesse ver da onde veio, recebi uma porrada nas costelas que me lançou brutalmente contra o chão.

Bati a cabeça em alguma coisa. Meu mundo começou a girar, desorientando-me. Vi um borrão preto à minha frente. Se ele estava parado, só podia significar alguma coisa: estava pronto para disparar.

Não havia como eu escapar, nem mesmo se eu não estivesse completamente tonta. Minha salvação foi lembrar no último segundo que o casaco que eu estava vestindo era feito de pele do Leão de Nemeia. Virei-me de costas para o cavalo e encolhi as pernas contra minha barriga.

Senti o fogo me atingir, um baque violento. O barulho era como se tivessem colocado um maçarico ao lado de meu ouvido. O calor era incômodo, mas não chegava a me queimar. A neve da montanha ia aos poucos se derretendo e caindo em meu rosto.

Procurei ficar de pé assim que o fogo se cessou. Encarei o cavalo e cerrei os punhos. Algo quente e grudento escorria em minha testa. Sangue.

O Negro ficou novamente apoiado só em suas patas traseiras. Quando ele desceu, fiz a coisa mais estúpida que poderia fazer: me joguei em cima dele.

Uma vez papai me levara a um bar de tema country quando eu tinha treze anos. Em um dos cantos do local, marmanjos com chapéus de cowboy montavam em um touro mecânico, que sacudia-os de um lado para o outro tentando fazê-los cair.

Se os homens podem fazer, eu também posso, pensei. Antes que meu pai percebesse, eu já estava subindo no touro — para o entretenimento dos demais — e me preparando para dar um show.

Não saiu como eu esperava.

A sensação era de que eu estava no olho de um furacão. Meus órgãos pareciam se reposicionar dentro de meu corpo a cada tranco que o touro dava. Ele se inclinava para frente e meu estômago parecia querer sair da minha boca.

Fiquei nove segundos e meio cronometrados em cima do touro mecânico. Caí que nem uma mala depois disso.

Montar em um dos cavalos indomáveis me fez relembrar esse evento. O bicho se chacoalhava todo e distribuía coices no ar, fazia de tudo para eu cair. Agarrei-me em sua crina e sufoquei um grito agudo.

— Ialá, Trevor! — um dos guardas gritou. — Eles estão cruzando!

A curiosidade sobre o que os guardas estariam enxergando sob o efeito da névoa passou depois desse comentário.

Jurei que Jenny nunca saberia daquele episódio. Do contrário, ela espalharia pelo acampamento inteiro que minha primeira vez tinha sido com um cavalo. E eu ainda gostava da pouca dignidade que me restava.

— Calma! — eu disse próximo a orelha do cavalo. Minha voz saiu como um guinchado — Calma aí, amiguinho!

O cavalo bufou e começou a se debater mais ainda.

Definitivamente, aquilo era pior do que estar montada em no touro mecânico. Pelo menos o touro não queria me cozinhar e depois devorar minhas entranhas no jantar.

Eu estava decidida a não me soltar daquele cavalo. Héracles conseguiu dominá-lo uma vez. Era possível. Não havia necessidade de matá-lo. Talvez ele até nos fosse útil futuramente.

Passei meus braços por seu grosso pescoço e me agarrei firme a ele. Eu não largaria. Meu orgulho estava em aposta.

O cavalo voltou-se para trás e me encarou entediado como se dissesse "Quer me montar? Certo. Então você vai me montar". Ele começou a cavalgar velozmente em direção a seus amigos, relinchando ao passar por eles.

— Sam? — Matt peguntou enquanto escapava de um sopro de fogo.

— Socorro! — miei.

Não sei o que raios o cavalo em que eu estava montada relinchou para os outros, mas eles começaram a segui-lo. Matt gritou alguma coisa em revolta e correu atrás da gente.

Os trancos que o cavalo dava reviravam-me o estômago. Fiz o máximo de esforço para segurar o que comi no café da manhã. Pensei que, talvez, vomitar não fosse uma das táticas recomendadas na domesticação equina.

Chegamos ao pé da montanha e o cavalo parou. Os outros pararam ao nos encontrar. O Negro começou a se chacoalhar inteiro novamente. Minhas mãos estavam escorregando, apesar de meu esforço de permanecer em cima dele. Não aguentei quando o cavalo empinou novamente e tombei para o lado.

Não tive certeza se isso foi algo bom ou ruim, mas Matt conseguiu me pegar no colo antes que eu caísse no chão. Ele desviou o olhar e assoviou.

— Estraaaaaanho. — ele disse e me largou de um jeito nada delicado.

Os cavalos nos cercaram e nos empurraram contra um pinheiro. Matt fez menção de desembainhar a espada, mas segurei firmemente seu pulso. Não. Tinha que ter outro jeito.

— Esperem! — eu disse, antes que eles fizessem alguma coisa. — Vocês são os cavalos do Rei Diódemes, não é?

Os cavalos pareciam agitados, mas, pelo menos, não atacaram. Minha mente vasculhava qualquer informação que eu pudesse usar para conversar com eles. Eu não tinha a força de Héracles, mas eu sabia fazer uma pessoa mudar de ideia. Eu tinha que tentar.

— Diódemes da Trácia. — entoei o nome de seu rei. Tentei invadir o cérebro de O Negro. Ele parecia ser o líder. — Um povo guerreiro. Descendentes de Biston, filho de Ares.

Eu nunca havia entrado num cérebro de um animal antes. Era algo completamente diferente. Menos racional, menos regras de convivência, cognições menos profundas. Era algo essencialmente emocional — cheio de sentimentos, instintos e impressões do ambiente. Era muito mais difícil lidar com isso.

Peguei essas emoções de ódio e de defesa e tentei transforma-las em algo mais amistoso.

— Diódemes também era filho de Ares, não era? — continuei. — Ei, sabia que esse garotão aqui também é filho dele? — empurrei Matt para frente. — É família.

Comecei a fazer a mesma coisa com os demais cavalos.

Matt pigarreou.

— É! Sou filho de Ares, soberano de Esparta! — ele levantou o punho.

Perguntei-me se ele queria dobrar os cavalos ou queria fazer um discurso de ditador vitorioso.

— E eu também tenho a guerra em meu sangue. — pronunciei. Achei melhor deixar de mencionar minha descendência divina. Não queria despertar mais sentimentos negativos por causa dessa rixa idiota entre os deuses da guerra. — Somos guerreiros. Assim como seu povo. Assim como vocês.

Consegui acalmar os ânimos dos quatro cavalos.

— Eu li sobre vocês. — contei. — Os Indomáveis! Que marco na história vocês fizeram, hein?

Matt arqueou as sobrancelhas quase num "Aaaah, agora lembrei.".

— Espalhadores do terror e do medo! — ele entrou no jogo. — Mas vocês são demais mesmo!

— Nós, guerreiros, consideramos uma honra conhecê-los. Pedimos desculpas pelos golpes. Só queríamos nos defender.

Os cavalos abaixaram a cabeça numa reverência. Quase suspirei de alívio. Eles não iriam mais fazer picadinho da gente.

Caminhei até o Cascos de Ouro.

— Você deve ser o Podargo, Pés Brilhantes. — disse eu ao lembrar do nome dos quatro e pelo que eles eram conhecidos. — E este alazão branco aqui deve ser Lâmpon, estou certa? Resplendor.

Os cavalos relincharam, contentes. Fui até o de cor de mostarda.

—Xanto, o Amarelo. — sorri. Respirei fundo e passei a mão calmamente pelo focinho do cavalo ao lado, O Negro. Apesar de não querer mais me matar, seus olhos vermelho-rubi ainda era horripilantes. — Deino, o Terrível.

Olhei para Matt, que parecia um pouco impressionado. Minha cabeça latejava e o local onde Deino batera no meu corpo estava muito dolorido. Forcei um sorriso para ele. Eu só queria sair dali antes que os guardas tivessem alguma curiosidade de saber sobre os cavalos amantes.

— Estamos voltando para o nosso acampamento. Adoraríamos que viessem conosco.

Outra bufada como resposta positiva.

Virei-me para Matt.

— Pode fazer escadinha?

Ele me mandou um olhar irritado, mas se ajoelhou ao lado de Deino e pôs as mãos entrelaçadas em cima de sua coxa. Pisei na palma de sua mão e ele me impulsionou para cima. Passei a perna pelo tronco do cavalo e me ajeitei nele.

Acariciei a lombo de Deino enquanto novamente entrava em cérebro para acalmar seus ânimos.

— Você é um bom garoto.

Matt montou com facilidade em Podargo. Meio hesitante, ele começou a acariciar seu novo mascote.

Ocorreu-me, então, algo:

— Matt! O casaco que joguei para você!

Ele arregalou os olhos.

— Ficou na montanha.

— Eles não podem ver aquilo.

Matt olhou para trás com um ar preguiçoso.

— Vou lá. Você leve os três para o acampamento.

Assenti e me inclinei sobre Deino.

— Vamos lá, garotão. — eu disse ao lado de sua cabeça. — Vamos descer esse lago aqui.

Ele começou a galopar entre os pinheiros, com os Xanto e Lâmpon seguindo seu ritmo.

Os cavalos pareciam estar a vontade naquela floresta. Perguntei-me há quanto tempo eles viviam ali e como eles vieram da Grécia. Pelo que eu sabia, os quatro estavam mortos. Mas eu estava me preparando parar lidar com dois engraçadinhos que também tapearam a morte, então aquilo não importava.

— Sentem o cheiro de semideuses? É pra lá!

Deino relinchou e aumentou a velocidade, quase me derrubando para trás. Agarrei seu pescoço com os dois braços e me prendi a ele.

Chegamos ao acampamento em meia hora. Encontrei apenas Ned sentado perto da fogueira, montando guarda. Ela segurava o punho de sua espada com os dedos e brincava de roda-la sem deixar cair no chão. Quando nos viu chegando, ficou alerta.

— Sam! — ele olhou para os cavalos, confuso. — O que é isso? Onde está Matt?

Desci de Deino e andei até ele.

— Já está vindo. Encontramos esses bonitões aqui no caminho.

Aja como se eles fossem o próprio Ares e eles ficam bonzinhos, eu disse na mente de Ned.

Morro de medo e saio de perto?, Ned pensou.

Ele olhou para mim e fechou a cara.

— Está ferida.

Levei a mão até o ferimento na cabeça e arquejei. O corte ardia feito o inferno. Passei a mão pelo rosto e notei que o sangue se espalhara pela minha face direita inteira.

— Eu cuido disso. — falei enquanto ia para a mala onde estava nosso kit de primeiros socorros.

— Nem pensar.

Ned adiantou-se e pegou a mala antes de mim. Ele me fez sentar em cima de duas mochilas e começou a tirar tudo o que iria precisar dentro do kit. Ned abria os pacotes das gazes com extrema facilidade e rapidez. Seus dedos agiam feito pequenas engrenagens de uma máquina eficiente.

— Sou o curandeiro da missão. — Ned disse sem tirar os olhos da gaze que estava molhando com água de um cantil. — Se você não me deixar fazer isso, vou ser demitido por inutilidade.

Ele começou a limpar o sangue do corte. Recuei em reflexo a dor. Ele tentou novamente, desta vez, mais receoso em me machucar. Fiz um esforço para deixar que ele limpasse o local direito.

— Você não seria inútil. — me opus. — Ainda é bom lutador.

Ele pressionou a gaze contra o ferimento e me deu um olhar agradecido.

— Não tanto quanto você e Matt. E não puxei tanto os outros atributos de Apolo que nem a Jenny, que é eloquente, naturalmente artística, e que é sempre certeira em suas visões.

Vacilei um pouquinho. Eu realmente não gostaria que as visões de Jenny fossem tão certeiras.

— Sem falar do arco e flecha. E também temos Thais na missão, que deixa qualquer um no chão. Sou um curandeiro. E é isso.

— Mas é o melhor.

Ele trocou a gaze e voltou a fazer pressão contra o machucado.

— Eu me sinto bem com o cargo. Sinto como se eu tivesse nascido para isso. Viver pra cuidar da vida.

O sangue pareceu estancar. Ele jogou a gaze fora e molhou outra com água. Pegou delicadamente meu queixo e virou meu rosto para o lado. Sua mão estava quente. Então ele começou a limpar o sangue que havia escorrido.

— Além disso — ele disse baixinho. — Gosto de cuidar de você.

— E eu gosto quando você cuida.

Ned abriu um sorriso acalorado.

O que mais eu poderia dizer? Era verdade. Havia algo na companhia de Ned que me passava uma sensação boa de segurança. Eu me sentia lisonjeada com o tempo que ele gastava me dando atenção. Era legal saber que alguém queria cuidar de você.

Talvez eu precisasse ser cuidada.

Matt chegou logo em seguida com Podargo e o casaco. Ele cumprimentou Ned com um gesto de cabeça e levou o cavalo junto aos outros. Ned continuou seu trabalho.

Ele mal terminara de passar o anti-séptico no ferimento quando Jenny e Queen chegaram com um balde cheio de água cada uma. Jenny olhou para mim, preocupara, e largou o balde.

— O que aconteceu? — ela perguntou.

— Caí de cara numa pedra. Só isso.

Ela colocou meu cabelo para trás e olhou com atenção o corte quase totalmente tratado.

— Como está se sentindo?

Revirei os olhos.

— Pelo amor dos deuses, Jenny! Eu caí e me cortei. Foi só isso. Não vou ter nenhuma concussão nem nada.

Ela me lançou um olhar severo.

Clarck estava em sua visão, eu disse a Jenny. Só irá acontecer em uma semana. Fica tranquila.

Não me peça isso.

Deixe o futuro para o futuro, lembra? Não desafie as Parcas.

Jenny cruzou os braços, não gostando em nada de ser contrariada.

— Descobriram alguma coisa, pelo menos?

Assenti.

— Vamos nos reunir para falar sobre isso.

— Espera! — disse Ned. Ele vasculhou o kit de primeiros socorros e de lá tirou duas caixas de band-aid. — Você prefere o da Hello Kitty e o das Meninas Super-Poderosas?