Samael e Lianne
15 Capítulo 15
– Por que tas me evitando?
Eu estava sentada embaixo de uma árvore observando o nada e sentindo pena de mim mesma, um exercício saudável que eu fazia às vezes, quando Lianne chegou de repente. Uma alamanda amarela se destacava entre seus cachos escuros. Eu não respondi, ainda estava concentrada em pensar mal de mim mesma. Eu não queria estragar minha amizade com Lianne, sabia que era um medo irracional, e como eu conseguia mentir tão fácil pra uma amiga? Preferia nunca mais vê-la e sumir como Amanda.
– Desculpa, Cíntia, sobre o que quer que tenha te deixado chateada. Eu sou uma tagarela que age sem pensar, mas sei que isso pode assustar ou magoar as pessoas. Vou pegar leve contigo, ta bom?
Isso fez eu me sentir ainda pior, se era possível. Normalmente as mulheres têm raiva das outras com facilidade e guardam mágoas eternas. Lianne era uma pessoa tão simples e ainda tinha um emocional mais forte que o meu. Pensei que se ela estivesse no meu lugar com certeza iria reagir de um jeito bem melhor. Talvez ela tivesse fugido com Amanda e tentasse “viver na raça”; ou ela enfrentaria os pais... Quando a encarei me lembrei de uma mulher alegre que conheci no ônibus quando tinha quinze anos – seria ela? Nunca pude confirmar, mas tive quase certeza que sim. Uma pessoa assim não é comum.
– Você não fez nada... É só que... Você não entenderia.
– Posso tentar entender se tu me explicar.
Eu não sabia se tinha coragem de abrir meu coração naquele momento, mas nem precisei porque Don abriu a porta da casa dele e caminhou até nós duas.
– Eu quero que vocês não se aproximem mais de Samael. – a voz dele era tão grossa que quase assustava. Ele estava sério, sem expressão. – Ele está fazendo bobagens de novo por causa de vocês.
– Bobagem? – Lianne riu – Como assim?
– Se vocês não se afastarem vou ter que tomar medidas drásticas. – Don olhou para Lianne – Eu não estou brincando, mesmo que vocês não entendam o que está acontecendo.
– Pare, Don. – Samael também saiu da casa – Tudo está diferente. Agora eu posso viver!
Eles não eram muito parecidos. Don tinha um longo cabelo preto, olhos escuros e pele pálida, além de que os traços do rosto eram diferentes. Eu não conhecia muito a personalidade deles. A única semelhança que eu percebia era que eu não conseguia tirar os olhos de Don assim como Samael parecia me hipnotizar.
Sem dizer nada, Don se afastou.
– A função dele é me vigiar para garantir que a minha punição não seja atrapalhada. Ele não vai fazer nada de ruim... eu... acho... – pensativo, Samael olhou para a porta da casa.
– Ta, cês são bizarros e nós vamos conversar sobre isso depois. Agora, Cíntia, você pode falar comigo se estiver confortável.
Sendo o transe de Samael e Don juntos ou a culpa que martelava o meu coração, eu criei coragem para falar de Amanda. Talvez Lianne se afastasse de mim quando descobrisse que sou uma mentirosa, talvez ela ficasse com raiva. Revelar meus sentimentos fez eu me sentir tão idiota que tive que me sentar.
– Escute, meu bem, a culpa não é tua; teus pais e colegas não te aceitaram. Isso nem tem lógica! Tu só tava namorando alguém; não forçasse ninguém a ficar contigo e muito menos obrigasse ninguém a nada.
– Eu sou covarde e fraca, deveria ter sido mais forte...
– Tu é um ser humano, porra, se liga! Ninguém com sentimentos aguenta tanta pancada assim e cada pessoa tem um limite. Eu me sentiria péssima se meus pais me tratassem mal por uma besteira.
– Nesses últimos anos eu tenho escutado bastante sobre “amor”. – Samael falou – As pessoas falam o tempo todo, cada um tem um conceito diferente sobre isso, mas as pessoas preferem a teoria que a prática. No hospital eu escuto com frequência alguém falando mal de um casal diferente, mas se o casal certo aparecer há elogios sem fim. O amor é para todos teoricamente, mas na verdade só pessoas específicas podem demonstrar amor.
– E não é só amor. – Lianne disse – Pegação também só tem a ver com quem ta se pegando. Por que o povo se mete tanto? Vê só, Cíntia, a sexualidade e identidade de gênero de ninguém é um erro. As pessoas não entendem porque realmente é difícil entender. – ela olhou para ele, seguraram as mãos – Ninguém precisa entender, mas o povo tem que respeitar. Não se culpe por ser você e não se culpe por não ser “forte”. Força não é ser um robô e ignorar tudo o que falam e fazem com você. Ser forte é admitir fraquezas. Tu sabia que não podia viver na rua com Amanda, quem sabe o que as pessoas podiam fazer com duas meninas? Eu só achei errado vocês terem cortado contato.
– Amanda ficou muito mal e não quis falar comigo. Eu não tive coragem de encará-la. Ela era bem mais corajosa que eu, talvez tenha pensado que meu amor era frágil.
– Como eu disse, cada pessoa tem um limite. Não se compare aos outros. É por isso que as pessoas são únicas. Tu é uma pessoa muito esforçada e está sempre ajudando os outros; não se prenda por questões do passado porque tu é incrível. Agora tua família tóxica não pode te limitar a nada! Descubra seus novos limites e não tenha medo de errar. Todo mundo faz merda, o segredo é aprender com elas. E não me evite, flor! Eu também posso fazer besteiras; acha que eu nunca perdi amigos sendo como eu sou?
Eu ri e fiquei emocionada. Meu coração é frágil e uma erva daninha invadia seu espaço. Não é difícil arrancar erva daninha, pelo menos não essa. Eu só precisei ouvir algumas palavras para o sufoco ir embora. Samael olhava as casas, pensativo, e Lianne quase me sufocou com um abraço.
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