– Cíntia, me socorre! – naquele dia eu acordei com batidas na porta. – Tu precisa me ajudar a escolher uma roupa agora! – e mesmo desarrumada, com o rosto inchado e com mal hálito eu não consegui resistir a um pedido de ajuda.

Havia várias roupas coloridas em cima do sofá. Roupas lindas e Lianne continuava bonita mesmo com roupas de mendigo.

– Coloca esse vestido, acho que vai ficar bom. – apontei para a roupa mais próxima. Ela tirou as roupas de mendigo. – Você não se importa de trocar de roupa na frente de uma mulher homossexual?

– Não, eu só me importo com homens héteros. É aí que ta o perigo!

– A sua naturalidade me surpreende. Seus pais devem ser ótimos. – senti uma inveja melancólica.

– Nem. Meu pai era bem machista e minha mãe é um tanto homofóbica. Eu só conheci pessoas demais pra perceber que posso adorar ou odiar qualquer um. E assisti muitos filmes incríveis. – ela ajustou o vestido. Era solto, com mangas e sua altura era na metade das coxas. O amarelo fazia contraste com sua pele. – Ficou bom? Tem certeza? Não quero exagerar no primeiro encontro.

– Não ta exagerado, ta bonito! Eu te ajudo com a maquiagem.

– Ai, a maquiagem! Eu não uso muito, mas quando uso é oito ou oitenta: exagerado ou mínimo. Ainda bem que tenho você... espera, eu nunca te vi com uma roupa bonita. – parou por alguns segundos – Mas confesso que tu se maquia bem.

– Certo... – eu devia me sentir ofendida, mas só consegui rir. Por alguma razão achei engraçado. – Sua pele é bem brilhante, nem é preciso usar base. Vamos só realçar seus olhos e colocar um gloss labial.

Mais tarde os cachos de Lianne estavam soltos, apenas controlados com uma faixa para cabelo; sua maquiagem era mínima e realçava sua beleza; usava uma sapatilha que combinava com o vestido. O contraste era uma bolsa enorme que ela prendia no ombro. Quase perfeita.

– É meio sinistra aquela floresta, né? Me diz teu número pra eu ligar em caso de emergência. Eu vou levar um spray de pimenta na bolsa.

– Toma cuidado.

Eles se encontraram no portão de entrada/saída do condomínio. Samael estava usando um short e cropped roxos. Caminharam até as árvores que pareciam assustadoras de longe, mas dentro de todo aquele verde era acolhedor. Ela olhava ao redor com admiração, ele olhava com melancolia. Ficaram em silêncio até quando Lianne escolheu um lugar perto de um pequeno lago para fazer o piquenique.

– Por que tu quis vir pra essa floresta sinistra?

– Eu não tenho interesse em me aproximar das pessoas, prefiro ficar sozinha; e essa floresta é confortável pra mim. Eu amo a Natureza e me sinto bem melhor próximo a plantas.

Ela sorriu, compartilhava do mesmo pensamento. – Eu trouxe umas frutas para entrarmos nesse clima natureba. Desculpa perguntar, mas você gosta de usar roupas femininas?

– Às vezes me sinto mais feminina, às vezes mais masculina.

Lianne não sabia o que sentir, então apenas compartilhou as frutas. Os dois comeram em silêncio. As aves faziam barulho e as folhas das árvores dançavam. Samael olhava ao redor com um olhar sofrido que apertava o coração. Lianne nunca havia ficado deprimida, mas conseguia entender que o olhar dele era de sofrimento.

– Tu... trabalha com o quê? Nunca te vejo, tas sempre ocupado.

– Eu e meu irmão somos médicos. Don não gosta muito das pessoas, eu só não gosto de socializar.

Ela pensou que eles eram arrogantes. Dois médicos brancos que conversavam com ninguém; talvez eles se achassem melhor que as outras pessoas. “Às vezes a capa é mais bonita que o filme”, concluiu. Planejava acabar logo com aquele encontro quando receberam uma visita inesperada.

Um sagui caiu de uma árvore próxima e correu para pegar as uvas que Lianne comia.

– Minhas uvas não! – gritou e tentou correr atrás do macaco. Ela até pulou no galho da árvore onde ele subiu, mas este se partiu e ela caiu no chão. – Cara, que sacanagem.

Pela primeira vez ela viu o sorriso de Samael – até ouviu uma risada. Percebeu que seus dentes inferiores eram tortos.

– Você é bem energética. – a voz dele também estava diferente – Nunca vi uma adulta agir assim.

– Eram as minhas uvas. Tinha deixado por último porque é minha fruta preferida. Espero que o sagui goste tanto quanto eu.

– É isso que você quer dizer com viver sem pensar demais? – agora ele estava com um pequeno sorriso – Eu estou com inveja, quero viver como você.

– Se eu pensasse demais ia viver deprimida. Faço tanta besteira que é melhor pensar em nenhuma.

Eles guardaram a toalha e caminharam por alguns minutos. Samael estava falando mais, perguntava a ela sobre várias plantas e animais que viram no caminho. Ele era curioso de um jeito infantil – até perguntou o que significavam algumas gírias dela. Esse curto momento foi mais interessante que o encontro inteiro, na opinião de Lianne. Ela gostou de como ele a admirava quando respondia suas perguntas. Terminaram com um aperto de mãos desajeitado na despedida.