Salém

8 O Colecionador de Inocentes


SALÉM, 1995

Um carro entrou na propriedade/escola de Montgomery na tarde de um sábado frio. A bruxa suprema Desirée saiu do veículo com um menino loiro nos braços, usou a sua telecinésia para mover a sua bagagem pelo ar. Quem recepcionou de volta foi Liùseidh Winchester, que estava morando com a bruxa há muito tempo.

— Que rapazinho mais lindo. Qual o nome dele?

— A mulher da adoção disse John, mas acho esse nome muito genérico. Vou colocar Luuk, em homenagem ao meu ancenstral tataravô.

As demais bruxas como Donzel e Crisântemo foram ver o novo morador da casa Montgomery. O jovem Luuk, filho adotivo da mais poderosa bruxa do planeta.

Na sua viagem para a ilha dos antropomórficos, Desirée ficou muito tempo sem ver o filho. No final dos anos 2000 o rapaz foi levado para a ilha e lá conheceu o bebê Younnan de pouco mais de um ano de idade. No retorno, em 2004, já estava com seus onze anos.

O belo rapaz era tietado pelas bruxas estudantes da escola, mas a diretora, bruxa suprema e mãe superprotetora vetava quaisquer relacionamentos do seu filho adolescente com suas alunas.

— Olha ele, amiga — disse uma bruxa aprendiz. — Diz se não é um pedaço de mau caminho.

— Para com isso. Se a diretora te pega falando isso... e outra coisa, ele envelhece como humano. Não dá certo um relacionamento nosso com um humano.

As duas ficavam na mesa de uma sala juntamente com mais umas nove alunas. Luuk com dezessete anos já era um rapaz muito responsável e maduro para a sua idade. Desirée vivia na gandaia quando o assunto era a sua vida pessoal, mas quando o assunto era o filho ela se transformava numa coruja e rígida mãe.

JANEIRO DE 2016

Pela televisão, Desirée reconheceu o rosto do candidato das primárias à presidência da república. Depois de doze anos desaparecido, William se revelou como esposo da famigerada Condessa.

Durante toda a campanha presidencial, a bruxa acompanhou as notícias sobre ele. Após a vitória, Abigail praticamente invadiu o lugar com o Serviço Secreto para ameaçar todas que atrapalharem seus planos.

Em 2017, Luuk havia acabado de trancar a faculdade de medicina para realizar o seu sonho antigo de virar policial. Conseguiu o emprego, desagradando a mãe.

— Ah, deixa o garoto. Ele quer ser tira, deixa ele ser tira.

— Cala a boca, Donzel. Você é uma má influência para ele.

O rapaz apareceu em casa com o uniforme de Massachusetts Police e uma pistola na cintura. As bruxas mais velhas ficaram em choque, as alunas quase pulavam em cima dele. Desirée, claro, ficou emocionada ao ver o filho tão bem vestido num uniforme.

— E pensar que pouco tempo atrás ela havia ficado indignada — ironizou Donzel.

Durante boa parte de 2017, Desirée Montgomery viajou a fim de espairecer sobre o próximo passo para enfrentar a Condessa. Foi para o Brasil, Europa, África e Japão. Numa dessas andanças conheceu Mike Torrance, um empresário californiano que era omisso com a família, transformou-o em adolescente e o fez ser uma pessoa melhor. Depois foi para Londres se encontrar com Afrodine, amiga sua de muito tempo. Ela conheceu Pedro Schiarelli e sua conexão com a Cruz, uma organização secreta ramificada da Hunter. Foi com Absalom, dono da Cruz, que teve contato com as três peças mágicas pela segunda vez.

Retornando para casa, decidiu um plano eficaz, mas que precisava da ajuda do filho.

— Se quiser desistir, melhor fazer isso agora.

— Eu aceito.

Com o codinome de Thanatos, deus da morte da mitologia grega, Luuk se apresentou a Rutherford e ingressou na Hunter.

Um dos membros, chamado Skywalker, ficava sempre desconfiado com o membro novo.

— Está cada vez mais difícil continuar sem matar pessoas inocentes. Um cara fica o tempo todo no meu pé — disse à sua mãe.

— Vou te ajudar sobre isso.

— Ei, mãe, não posso matar pessoas. Não sou assassino!

— Como eu disse, deixa que cuido disso. Vou te dar dinheiro pra comprar uma arma.

Dias depois levou a espada para a bruxa. O objeto era uma autêntica espada medieval. Desirée colocou o objeto no meio de um pentagrama invertido, cortou a palma da mão de Luuk e derramou seu sangue. Fez um ritual de magia negra para amaldiçoar o próprio filho.

— Você pode cortar qualquer pessoa, mas o sangue que sairá do corte será seu. Estou me sentindo mal por fazer meu filho se arriscar tanto...

— Não fica lamentando. Vou tomar cuidado. — abraçou ela.

Dias antes de salvar Joanna, Luuk se reuniu com Scar para traçarem um plano convincente. Teria que enganar a própria filha da rainha, fazendo-se passar por um "agente duplo".

— Filho, como vai ser? — perguntou Desirée no celular do moço.

— Já estou na frente da escola. A filha do presidente está aqui.

— Tome cuidado. Soube que Lilith mandou suas filhas para matá-la. Mas sabe que vai magoar a garota quando chegar o momento de entregá-la para a Condessa, não é?

— Isso que me preocupa.

— Portanto nada de querer algo a mais com a moça antes do nosso plano ser concluído.

— Peraí, acha que eu teria coragem de seduzir ela? Desligou...

Luuk entrou na escola.

— Err... tome sua cesta básica. — Luuk saiu da fila sem a cesta, não antes de entregar um papelzinho com "preciso de ajuda".

Ela saiu do trabalho e foi falar com o homem.

— Prazer em conhecê-la, senhorita.

— Prazer. Você me chamou aqui pra quê?

— Pedir um favor.

— Posso falar com a minha acessora para te ajudar em alguma...

— Por favor, só você pode me ajudar. Antes de tudo, quero te pedir desculpas.

— Por quê?

O carro em que Luuk pegou para fugir das bruxas estava na rodovia.

— Já peguei ela. Pra onde eu vou agora?

— Uma bruxa amiga está numa fábrica abandonada perto daí. Ela vai te entregar um rosário com o poder para atravessar o portal comuma segunda pessoa.

Ele se encontrou com a bruxa, pegou o rosário e mergulhou na poça com Joanna.

— Você é uma bruxa que nem a gente? — indagou Anjula.

— Com licença, senhoritas — Linda Locklear desapareceu numa coluna de fogo.

À medida que a noite passava, Luuk continuava deitado na cama da enfermaria com Desirée deitada e abraçada a ele. Joanna entrou no quarto e viu a cena.

— O que houve?

— Estou transmitindo minha força para ele.

— Na verdade ela só está me abraçando mesmo.

A moça saiu do quarto e deixou mãe e filho sozinhos.

O sol nasceu naquele ponto de Gaia. Forthree acordou bem cedinho com seus habitantes iniciando suas vidas cotidianas na floresta.

— A senhora passou a noite toda aqui. Pode me dar um pouco de privacidade?

— Como se eu nunca tivesse visto você nu. Ficarei de costas.

A roupa vermelha de infante foi tirada e no lugar uma calça jeans, tênis e camisa de gola pólo. Quando estava de cueca samba-canção para pôr a calça, Joanna apareceu de uma vez. O homem teve que vestir imediatamente a calça, deixando a morena muito envergonhada.

— Desculpa, desculpa!

— Escuta, garota, você não sabe bater na porta? — repreendeu Desirée.

— Desculpa mesmo, senhora. Eu não queria vê-lo só de cueca.

— Gostou?

— Perdão?

— Mãe! Caramba, que vergonha.

— Ué? Ela deve ter gostado de você no tempo que ficaram juntos. Percebi que quando olhou pra ele ficou excitada.

— Não...

— Brincadeira. Vem cá, senta naquela cadeira. Quero deixar bem claro algumas coisas.

Desirée quis que o filho ficasse para a conversa com Joanna.

— Sabe por que eu amo tanto esse menino? Quando eu era criança, minha prima e eu fomos as únicas bruxas de Salém vivas. Graças a um bom padre chamado Donald Scofield que estou viva. Ele era como um segundo pai para mim. Infelizmente ele morreu e depois de quase trezentos anos eu estou aqui. Mas no seu leito de morte, ele me pediu para cuidar da sua família. Então, mesmo distante, descobri que o padre Don tinha uma irmã que morava na Escócia. Acompanhei todos os seus descendentes até descobrir sobre uma criança orfã que morava no Canadá. Luuk é descendente da irmã do padre Don, por isso que sou enlouquecida por esse rapaz.

— Ah, por favor, isso me envergonha.

Joanna riu baixinho.

— Outra coisa é sobre o meu plano secreto. Meu filho se infiltrou na Hunter para descobrir os planos da Condessa. Ele já me disse sobre os planos deles. Nesse ínterim, aproveitamos o plano da Condessa de te pegar para fazer um plano duplo que era fazer com que Luuk parecesse ter te enganado para te deixar cara a cara com Abigail. Ele tinha que parecer malvado, sabe? Conseguimos duas coisas: os planos da Hunter e fazer você enxergar a verdade sobre a sua mãe biológica. Desculpa o sofrimento que meu plano te fez passar. Agora estamos um passo à frente, porque Condessa pensa que você está morta.

A garota se levantou de uma vez, assustada com o que havia acabado de lembrar. A vida do seu pai estava em risco.

— Preciso conversar com ele. Tenho que alertá-lo!

...

O Marine One pousou no teto do hospital e dele saiu a primeira-dama. Acompanhada do serviço secreto, ela visitou Rutherford depois que soube que uma mulher havia jogado ácido no rosto dele.

A enfermeira foi hostilizada por ele quando estava trocando a atadura ao redor do seu rosto.

— Posso entrar?

— Pode. Como vê, perdi meus olhos azuis. A vadia da secretária derramou ácido e me cegou completamente... ai... SAI DAQUI!

— Senhor, ainda não termi...

— SAIA!

Abigail sentiu uma grande dor ao ver o filho mais novo ficar naquele estado lamentável. Tentou alisar o seu rosto, mas Baron recuou.

— Não faça isso. Podem nos pegar — e ele estava certo, porque Baron tinha seus 48 anos e Constance, por mais que tivesse séculos de idade, parecia ser da mesma idade. Qualquer carícia dela poderia ser interpretada como carinho de uma mulher apaixonada.

— Filho, sabe quem poderia ter feito isso? Porque eu não acredito que essa secretária tenha culhões para agir sozinha.

— Eu acho que foi a Desirée.

Os olhos de Constance mudou radicalmente ao ouvir o nome da bruxa. Baron contou que a secretária havia dito no depoimento na delegacia que antes de perder a consciência uma mulher loira havia entrado no banheiro.

— Loira...? Maldita Desirée, maldita.

Obviamente Lilith usara peruca loira quando entrou naquele banheiro.

Na caverna da colina, Lilith meditava rodeada por velas e incensos. A peruca loira estava jogada sobre o encosto de uma cadeira. Abriu os olhos assim que sentiu uma presença maligna oriunda da sua casa no topo.

Uma chuva fraca atingiu a região. À medida que se aproximava, a sensação de perigo aumentava. Entrou na residência e com um estalo no dedo acendeu a luz do candelabro da sala.

— Lucie? — era a primeira vez que pisava em casa desde que voltara de Boston.

Assim que o relâmpago iluminou o interior da casa, Lucie apareceu. A criança estava com os olhos totalmente enegrecidos. Para a bruxa, aquilo não era assustador, mas Lucie definitivamente não era uma criança normal.

— Você foi caçar?

— Sim, mamãe — exibiu uma raposa morta que havia matado e comia suas vísceras. — Ele... tá lá em cima.

— Ele quem?

Os dois subiram de imediato. Lilith atenta para utilizar seus poderes para abater qualquer intruso. Do corredor viu o seu quarto aberto; assim que o relâmpago surgiu, uma sombra alta surgiu dentro do quarto. Logo uma risada malévola arrepiou até mesmo os pelos dela.

— Venha, minha pupila, venha. Huhuhuhuhu.

De dentro do seu quarto, na parede à frente da cama, um vulto preto surgiu. Ganhou forma carnal e revelou ser um impiedoso demônio sobrenatural do vodu haitiano. Ele desceu do colchão e exibiu seu sapato preto brilhoso.

— Papa Legba — disse ela. — O que faz aqui?

Papa Legba era um homem alto, com pelo menos 1,9 metro de altura, negro e ostentava dreadlocks. Sua cartola sinistra era cravejada de pequenas caveiras, sua roupa era um terno antigo, colar de ossos humanos, uma bengala com o crânio de um bebê na ponta. Seu rosto demoníaco era pintado de branco e tinha olhos escarlates.

— Estou aqui, porque tu decidiste me trair para fazeres pacto com Belial. Aquele pervertido estuprador que só sabe abusar sexualmente das almas do seu canto do inferno. Soube por um mensageiro que tu ofereceste teu sangue para ele beber e assim trocar a vida de tuas filhas pelo garoto.

Lilith sentou na cadeira e abaixou a cabeça.

— Desculpa, mestre.

As unhas grandes e afiadas do demônio deslizaram sobre os ombros dela, Papa fez uma expressão maligna com direito a dentes afiados e uma cobra saindo da sua boca. O animal era uma coral, deslizando pelo torso da bruxa até fugir no assoalho do quarto.

— Se desculpas resolvessem, o inferno estava vazio. Mas eu gosto de você, porque é a única bruxa branca que fez pacto comigo. Todas as outras são pretas. Quando houve a proibição de vossos poderes em Gaia, você veio até mim para pedir ajuda a ter magia. Eu te dei poderes e em troca eu te pedi pagamentos.

— Mamãe, quem é esse senhor?

— Oh, ele não se lembra? Pequeno Lucie, o gêmeo anticristo. Não sabia? Belial convenceu nosso chefe a liberar Lucie para a Terra a fim de conquistá-la assim como a sua irmã o fez em Gaia.

— Irmã?

— Não sabias? Constance é irmã de Lucie, a filha de número 3893 da vossa majestade Lúcifer. Ela foi mandada para Gaia para fins de conquista. Agora chegou a vez desse pequenino aqui. E sabe da boa? Lucie é mais poderoso que Abigail e pode fazer mais estragos do que ela. Tu podes te aproveitar disso como mãe adotiva huhuhuhu. Ou podemos resolver isso e voltarmos atrás, não é?

No espelho, Anjula e Madeleine surgiram, para a surpresa de Lilith. Ambas suplicavam pela ajuda da mãe.

— Filhas...

— Eu não posso destrocar mais, infelizmente Belial fez besteira ao se adiantar em trocar Lucie. Nem eu, nem Baphomet conseguimos reverter isso. Mas tem um jeito de trazer suas filhas de volta. Tua vida pela sobrevivência delas. Ambas estão nos seus infernos pessoais, sofrendo perpetuamente com os castigos que eu propiciei a elas. E então?

— Mamãe, estou com medo! — disse Madeleine dentro de uma gaiola.

— Nos salve!

A decisão de Montserrat foi a de total covardia com as suas próprias filhas. Falou ao Papa Legba que não se sacrificaria pelas duas.

— Você nunca me decepciona — bateu a bengala no chão. — Mas temos um pacto e o seu prazo está acabando. Para manteres teus poderes de bruxa negra, tens que me oferecer todos o anos a vida de um bebê recém-nascido. Durante séculos tu me enviaste centenas de bebês, e fico muito grato.

Papa Legba ostentou os crânios dos bebês com seu bizarro colar de ossos ao redor do seu pescoço. O crânio na ponta da bengala também era de um bebê que Lilith havia oferecido.

— Dê-me mais uns dias. Terei que invadir uma maternidade para...

— Não. Este ano decidi flexibilizar um pouco as regras. Não precisa necessariamente me oferecer um bebê recém-nascido. Estarei contente se for um feto de alguma mãe grávida de um não-humano. Entendeu? Tu terás que ir para Gaia para oferecer uma mãe grávida de um bebê não humano. Faça isso e não te castigarei.

— Sim, mestre.

— Não falhe. HUHUHUHU.

O demônio entrou na parede e voltou a se apenas uma sombra. Ainda processava a informação acerca de Lucie, mas a sua maior preocupação é sobre a oferta. Quem poderá ser a sua vítima? Uma mulher grávida de um não humano?

...

— Vamos ao próximo passo, garotas. O teletransporte é necessário para a essência de nossos poderes mágicos. Toda a bruxa precisa ser mais rápida do que uma bala e vou demonstrar isso. Frank, tome — entregou um revólver para o empregado caolho da mansão.

Ele atirou contra Donzel, mas ela se teletransportou. As meninas e meninos que estudavam magia bateram palmas para a demonstração.

Fiona saiu para o jardim da mansão onde as aulas das bruxas ocorriam. Sentou num banco de pedra. Viu Donzel interromper a aula para voltar para dentro.

Os alunos acompanharam a professora até a sala, viram Desirée, Crisântemo, Joanna e Luuk descerem as escadas. Os quatro abriram o portal e voltaram pelo quarto da diretora.

— Então essa é a garota?

— Sim, Donzel.

As bruxas alunas acenavam para Luuk numa tentativa de paquera mal sucedida.

— Donzel, venha para o meu escritório.

As três bruxas principais se reuniram na sala da diretoria. A suprema revelou algo que as duas não sabiam: que a Condessa era a verdadeira líder por trás da Hunter.

— Por que não nos contou antes? Pensei que aquela mulher nos deixaria em paz depois que acabamos com o selo na Terra, mas agora isso?

— Calma, Donzel. Precisamos ouvir Desirée antes de qualquer atitude precipitada.

— Obrigada, Cris. Escondi isso de vocês e até mesmo de Afrodine para a nossa segurança.

— Por quê?

— Há um traidor entre nós.

— Já ouvi o bastante. Suas palavras são um escárnio para as bruxas. Achar que alguma irmã sua é traidora? Tô fora.

— Vai aonde, Donzel?

— Espairecer. Volto só amanhã.

— Não esquece que amanhã é Halloween e dia da convenção — relembrou Crisântemo.

Passando por uma bruxa irritada, Fiona entrou na sala. A outra bruxa saiu, deixando as duas mais à vontade.

— Diga, Fiona.

— Encontrei isto. Um microfone que estava na flor da mesinha de centro. Acho que estão nos espionando.

— Há anos desconfio, mas nunca peguei no flagra. Obrigada por me ajudar, mas prefiro que fique longe desse assunto. E como vai essa criança?

— Eu completei dois meses ontem. Só não sei como ele vai ser.

— Igual o pai. Quando humano tem relação com um antropomórfico, o genes mutante fala mais alto. Esse bebezinho será um antropomórfico.

Enquanto isso, o Montgomery foi mostrar a mansão da sua mãe para Joanna.

— Aqui fica o jardim de rosas dela. Nem eu tenho autorização de entrar.

— São lindas.

Algumas bruxas viram o casal se aproximar demais e usaram telecinésia para jogar a água do regador na moça.

— Você está bem?

— Sim... o que foi isso?

— Só um minuto — ele foi até as bruxas. — O que querem, meninas?

— Estamos com ciúmes.

— A bruaca vai roubar você da gente.

— Eu já disse que não rola. Tenho 25 anos e vocês na faixa dos 16. Tirem seus cavalinhos da chuva.

As duas saíram com raiva.

Joanna sentiu o cheiro das rosas quando se lembrou do passado. Era muito novinha, mas o lugar dos seus sonhos era aquele. Sua mãe a amamentava no jardim de rosas daquela mansão.

...

ARÁBIA SAUDITA

Linda e Younnan chegaram na capital árabe no dia anterior e se hospedaram num hotel mediano. Batidas no quarto foram ouvidas pela bruxa que abriu a porta e presenciou Cordelia Schlesinger aparecer.

— O que está fazendo aqui? Desirée sabe disso?

— Eu sou adulta e Desirée nenhuma controla para onde vou. Cadê o Younnan?

— Você? Uma surpresa. Vai ser uma ajuda a mais.

— Não, Younnan! Essa garota não podia ter vindo.

A loira praticamente agarrou o pescoço do moreno.

— Vão me expulsar? — falou chorosa.

— Deixa ela, Linda. Somos uma equipe, não somos?

Linda revirou os olhos. Apesar de não viver na mansão, conheceu o comportamento fútil de Cordelia.

Um guia chamado Malik Al-Said apareceu para levá-los a uma cidade litorânea do Mar Vermelho. Ali ficava o palácio do sultão iemenita que supostamente estava em posse do cetro.

CIDADE DE FARRAKHAN

Homens armados guardavam a parte externa do palácio do sultão. Qualquer um que se aproximasse levava tiro sem pestanejos.

O sultão Mohamed Al-Qud, homem riquíssimo e perigoso, banqueteava com mais de vinte prostitutas no seu quarto enorme. Ouro e mais ouro em abundância e o Cetro do Olimpo em suas mãos. Provavelmente seria fácil para uma bruxa pegar o objeto, mas o que não se sabia era que Al-Qud na verdade jactava-se por ser um vampiro.

...

O desejo de Joanna naquele momento era voltar para a capital e revelar tudo para o seu pai. Lembrou-se das palavras da Condessa ao ameaçá-lo de morte. Desirée tentou convencer a garota a não cometer tal loucura, haja vista seus poderes ainda continuavam selados e a aproximação com o seu pai aumentaria o risco de vida dos dois.

— Espere depois de amanhã. Juro que não deterei você.

— Não, Desirée. Agradeço a tudo o que fez por mim e para a minha família, mas não posso ficar aqui esperando pela sorte.

A única coisa que a bruxa suprema poderia fazer era desejar boa sorte a jovem Bates.

— Eu também vou — disse Luuk.

— Mas... a sua mãe...

— Por que teima em se meter nos assuntos dos outros, filho? Joanna disse que ficaria bem sozinha.

— Desculpe, minha mãe. Preciso ir com ela.

Meio relutante Desirée assentiu. Seu filho fará compainha a herdeira do trono de Winchester.

Na noite do dia 30, Rutherford recebeu uma visita inesperada de um terapeuta que havia sido contratado para impedi-lo de ter algum tipo de estresse ou depressão. Na cama do quarto do hospital, o filho da Condessa respondia às perguntas do profissional.

— Desde quando você tem essas visões?

— Quando eu tinha oito anos aconteceu pela primeira vez. Isso foi quarenta anos atrás, nunca falei para minha mãe.

— O que acontece quando ocorre isso?

— Parece que tenho uma visão do futuro. Isso acontecia só em sonho, mas desde que perdi a visão fiquei tendo esses surtos esporadicamente. A frequência é de quatro em quatro horas.

— Oráculo. Na mitologia grega, o oráculo era uma pessoa que previa o futuro.

Baron riu do terapeuta, não querendo acreditar em suas palavras. Entretanto, sabia que prever o futuro seria o menor dos seus males.

— Segure a minha mão.

Ele obedeceu ao terapeuta e pegou na mão dele. Uma explosão de testosterona em seu corpo deixou-o completamente com tesão. Pegou o cobertor e cobriu sua cintura para baixo a fim de esconder a sua ereção.

— O que houve?

— Nada...

— Acho que seremos bons amigos. Nosso relacionamento será além de médico e paciente — Eros riu ao ver a reação química no corpo do homem gay à sua frente. Disfarçou-se como terapeuta para se aproximar do filho da Condessa.

Pouco depois de tentar seduzir Fiona, Eros saiu da mansão com uma missão: seduzir Baron di Rutherford. A princípio enojou-se, pois ele como todos os demônios do sexo nascem obrigatoriamente héteros. No entanto, aceitou a proposta quando Desirée afirmou que ele poderia roubar Rutherford o tanto que quisesse.

— Doutor... desculpa... preciso ficar sozinho.

— Claro — beijou a testa dele. Rutherford segurou o braço de Eros e tentou cheirar, mas o íncubo puxou com certa rispidez.

— Doutor... ahn... tem uma caneta sobre a cômoda. Pode anotar meu endereço.

— Pode falar. Tenho uma boa memória.

O íncubo conseguiu o que quis. Saiu do hospital, retirou o jaleco, pôs a jaqueta, óculos escuro e saiu na sua moto.

HALLOWEEN, 31 DE OUTUBRO DE 2018

A data comemorativa do dia das bruxas na América era um momento único que unia tradição, superstição e brincadeira. As famílias vestiam suas fantasias, faziam velas de abóboras e saiam em busca de doces ou travessuras. Em Salém não era diferente, com a cidade toda caracterizada. Na periferia, na vila de Salém, onde viviam as bruxas, a data tinha um tom mais sério, a Convenção das Bruxas. Quase todas as bruxas, feiticeiros e convidados viajavam para assistirem os rumos de suas vidas.

— Bem-vindos à minha humilde moradia. — recepcionava Desirée. Todas as convenções aconteciam na mansão da suprema.

Um casal de bruxos egípcios apareceu. Logo bruxas com seus típicos chapéus pontudos, aborígenes da Austrália, feiticeiros nórdicos, o clã tupi brasileiro, bruxas do vodu jamaicano, e muitos outros. As alunas ajudavam a suprema, pois nem Donzel nem Crisântemo estavam para a recepção.

Dentro da casa havia uma porta preta com desenhos vermelhos. Uma bruxa abria a porta e os convidados passavam. O quarto era a passagem para uma dimensão maior que servia de salão nobre para a reunião.

— Afrodine, parou de procurar homem?

— Tenho que conversar contigo sobre uma descoberta que eu fiz sobre a sua prima.

— Pode falar.

— A cretina despertou outro anticristo. Sim, eu vi a criança de longe enquanto ela comia um urso na floresta.

— Por que ela faria isso? Já não basta o que Abigail fez durante séculos e me vem ela com a mesma atitude do Conde Vance?! Maldita.

— Acho que ela quer destruir tanto você quanto a Condessa.

— Mas pra isso ela precisa de um aliado tanto aqui quanto na Hunter.

O iphone de Lilith, sobre a mesa da cozinha, fazia uma transmissão em vídeo com Skywalker. Este havia sido lançado de Gaia para a Indonésia e estava tendo dificuldades para voltar à América.

— Um humano chamado Luuk? Nunca ouvi falar.

— Pois aquele cretino ajudou a filha adotiva da Condessa. Fingiu ser aliado da Hunter...

— E descobriu o que ele tinha que ver com a Desirée?

— Não deu tempo... espera... preciso ir. Volto em alguns dias.

Lilith pegou a xícara, pôs água quente e mexeu o chá.

— Tá vendo? Aquele Skywalker é um incompetente insensato. Ele simplesmente chegou lá e fez o maior barraco. Homens e sua gana em usar mais testosterona do que neurônios. Por isso que prefiro uma garota para ser minha espiã. Mulheres são mais sutis. Mais chá?

— Não, obrigada. E só para responder a sua pergunta, Luuk é o filho da Desirée — Crisântemo sorriu ardilosa.

Lilith sequer sabia sobre esse filho. Se soubesse antes, teria matado-o como fez com outros parentes humanos de Desirée.

— Temos um problema maior. Descobriram o microfone que eu pus. Aquela Fiona pensou que eu não desconfiaria dela.

— Fiona? Ela é verde que nem a noiva do Shrek? Ou uma bruxa paupérrima? — brincou.

— Humana casada com um homem lobo chamado Younnan. Amiga da Desi. Está até grávida.

Os olhos azuis de Lilith encararam Crisântemo de uma maneira intimidadora. Ela sabia que quaisquer humanos que têm relação com antropomórficos têm filhos 100% antropomórficos. Papa Legba deu um prazo de poucas semanas para conseguir uma mulher grávida de uma criatura não humana.

— Fale-me mais sobre essa Fiona.

Notas finais
Ooooorrrrraaaa!