Salém
15 A Gata Sociopata
Notas iniciais
MANSÃO SCHLESINGER
2 dias antes da matrícula de Cordelia em Salém.
Sentada na sua poltrona, a patricinha aguardava ansiosamente pela presença da sua empregada. A queixa veio de uma outra empregada que havia delatado para Cordelia acerca da ação que a mulher fazia contra: entrando na justiça para uma gorda indenização por falta de pagamentos extras, lesão por conta das mordidas do rotweiller da loira e injúria racial.
Lois Johnson, uma afroamericana de 40 anos, chegou na mansão com o seu advogado.
— Bem-vindos — disse enquanto descia as escadas. — A que honra um advogado veio na minha humilde casa?
Ele entregou os papéis do processo. Cordelia tentou negociar ali mesmo, mas o homem ficou irredutível.
Lois acordou depois que levar uma forte pancada na cabeça. Amarrada e amordaçada na cadeira, a ex-empregada viu o corpo do seu advogado banhado em sangue num dos banheiros da mansão. Cordelia observava com um sorriso no rosto.
— Ó... tadinha. Pensou que passaria a perna em mim? Em mim? Você não me conhece, maldita mucama — dois homens altos apareceram e levaram o corpo. — Esses são membros da máfia e os meus empregados. Sabe, odeio esse trabalho do submundo que herdei do meu pai, mas quando ele é conveniente, torna-se minha principal forma de coação.
A empregada ficou tremendo e chorando enquanto via os homens levarem o advogado.
— Claro que uma negra e pobre não entenderia o que é ser da elite americana. Tentar atingir uma família rica é pedir para se suicidar. Você quer colocar seus dois filhos em risco?
Lois negou. Cordelia pegou o notebook sobre uma cadeira e mostrou o vídeo de um dos seus capangas ameaçando as duas crianças.
— Faremos um jogo divertido — retirou a mordaça e mandou o segurança desamarrá-la. — Tome, é um revólver. Aí tem apenas uma bala. Atire contra sua cabeça e eu deixarei os dois livres. Claro que pode me matar, mas você pode perder os dois a seguir.
— Po-por favor... senhorita...
— Suicide-se e juro que o Michael e a Bella estarão na universidade daqui a dez anos.
A loira entregou a arma para Lois na certeza que veria o suicídio dela. De repente um tiro.
...
O vulcão iniciou o processo de erupção minutos após a luta feroz entre as duas bruxas iniciar. A fumaça foi o primeiro passo antes de uma verdadeira explosão acontecer. Perto da boca, na cabana, uma Fiona desmaiada.
Younnan chegou perto do lugar que ambas brigavam. Testemunhou tanto Lilith perder o braço quanto Desirée perder um olho.
— Não! Desirée...
— Cala a boca, Younnan! Vá... atrás da tua mulher. Eu estou bem... — Desirée tampou a ferida com a sua mão, mas não conseguiu parar o forte sangramento.
Lilith foi outra que teve um ferimento gravíssimo. O seu braço esquerdo arrancado foi carbonizado e assim impedido de ser colocado no lugar com o seu poder de cura. Apesar de sentir uma dor aguda, a bruxa maligna permaneceu em pé e sóbria.
— Mas o seu olho...
— Não importa. Esta é uma luta até a morte, por isso a perda de um olho faz parte do processo. Não se preocupe mais comigo, estou conciente. Quem precisa de ajuda é Fiona. Vá logo salvá-la.
— Tá.
— Você não sai daqui!
— Paradinha, Lilith. É você quem não vai sair daqui. Younnan salvará Fiona e nós continuaremos a nossa batalha de morte.
— Está tão confiante, Desirée? Acontece que posso estancar o meu próprio sangramento e cicatrizar a ferida. Você estará em desvantagem, priminha.
— Parece que sim... mas vamos ver até onde isso vai dar.
Na sua subida, Younnan passou por muitas árvores até chegar num local mais plano. A cabana estava caindo aos pedaços por causa dos constantes tremores. O lobo não esperou muito e entrou. Desamarrou a esposa imediatamente e a segurou no braço.
O vulcão explodiu. Um fluxo de lava jorrou no céu e caiu sobre várias partes ao redor da montanha. Ávores foram incendiadas e pedaços de rocha derretida caíram perto da cabana. Younnan conseguiu fugir a tempo e desviava da chuva de magma.
Já as duas bruxas usaram seus poderes para afastar a lava que caía.
— O vulcão entrou em erupção. Meu Deus. E pensar que esta ilha era o paraíso. O que fizemos para merecer isso? — indagou o prefeito.
— Estou preocupada com a Desirée. Algo não está certo — disse Afrodine enquanto organizava os moradores na entrada para os navios.
Enquanto isso no cemitério, dois capangas morreram após serem atacados por alguém misterioso. Ele caminhava com uma dificuldade curiosa, além de ter uma aparência meio cadavérica.
Já na cidade, dentro do mercado, Skywalker acordou do seu sono.
A lava do vulcão escorreu pelas bordas da montanha e desceu como um verdadeiro rio. Arrastou várias árvores e chegou na cidade. Algumas casas foram imediatamente incendiadas.
Ambas as bruxas voltaram a disputar. Desceram até ficarem longe do alcance da lava.
— Capitã Sônia, aquilo é...
— A ilha.
Um helicóptero militar se aproximava cada vez mais da ilha dos antropomórficos. Uma das integrantes da Hunter e cotada para liderar a defesa de Gaia, Sônia, foi disposta a matar Lilith pelas ordens do seu senhor Lucie.
— Estamos nos aproximando — disse o piloto.
— Prepare os mísseis.
Fiona acordou do desmaio e percebeu que estava sendo levada nos braços pelo noivo.
— Younnan... cuidado!
Ele subiu nos telhados das casas e desviou do rio de lava na rua. Conseguiu um caminho seguro para passar sem ser interrompido pelo fogo.
— Você está bem?
— Sim — ela ficou quieta enquanto era carregada.
Os dois navios estavam prontos para zarparem. Afrodine observou o casal se aproximar e pediu para não subirem a rampa. Assim Younnan conseguiu salvar a sua mulher e filho.
— Madrinha. Ela continua na ilha.
— Não temos tempo. O pai daquela garotinha vai ficar encarregado do navio enquanto ficaremos aqui na caravela.
As duas embarcações saíram do porto da ilha e se afastaram cada vez mais.
— Prima, não é nostálgico esse cenário, essa sensação? Lembro-me quando éramos crianças e que eu sempre vencia as brincadeiras — falava Lilith num monólogo ao lado de Desirée que estava caída.
Depois da luta de ambas, Lilith se sobressaiu por causa da sua rápida recuperação que fez a ferida do seu braço cicatrizar rápido. Desirée, no entanto, sentiu muita dor por conta do olho arrancado, por isso a desvantagem.
— Nunca foi tão fácil para mim dar um fim nessa história — se agachou ao lado da loira.
Barulho de helicóptero surpreendeu a bruxa. Ao ver Skullbashloir, ela teve a certeza que fora traída.
— Atirem! — ordenou Sônia.
— Talvez essa história ainda precise de você. De alguém que derrube essa corja — chutou Desirée. A bruxa caiu no oceano e foi levada pelas ondas.
Os dois mísseis atingiram o rochedo, explodindo tudo.
— Missão cumprida. Matar Lilith nem foi tão difícil. Vamos voltar.
O pai de Peka nadou a fim de salvar Desirée. Ele a levou para a caravela para os cuidados de Afrodine.
...
Duas horas depois dos últimos acontecimentos em Tristão da Cunha, uma Desirée confusa acordou depois do tratamento médico que recebeu. Havia um curativo no lado esquerdo do rosto.
— O que houve? — ficou sentada na cama.
— Não se esforce muito. Conseguimos fugir da ilha a tempo. Estamos à deriva, sem direção definida.
— Younnan e Fiona...
A irlandesa apareceu no quarto e abraçou a bruxa. Chorosa, Fiona lamentou o fato de Desirée ter se ferido gravemente na batalha.
— Ficará tudo bem. Ainda estou viva, não estou? Vocês têm que ficar preocupados com o seu lar. Foi culpa minha que o vulcão entrou em atividade.
— Não é verdade. Você salvou aquele povo.
As três saíram do quarto e subiram ao convés da caravela. O homem lobo ainda estava sujo, descansando sentado. A bruxa se aproximou dele e o cutucou.
— Como vai essa força?
— Madrinha! Não recuperou seu olho?
— Óbvio que não. Quando vejo o que a Lilith fez na ilha me dá um nervoso. Não entendo o porquê ela me deixar viva. Bom, vamos finalmente para Gaia. Não tem condições de centenas de moradores retornarem para uma ilha perigosa.
— Onde vamos morar?
— Há uma vilarejo em Goa. Tal lugar faz parte do país natal da sua raça. Vá tomar um banho e lavar esses pelos. Estamos quase perto do portal.
A ilha Tritão da Cunha ficava num lugar muito longe. Sem a possibilidade de chegarem de avião, os turistas unicamente dependem de navios. No entanto, mesmo os barcos demoram dias para chegarem lá. Desirée conseguiu abrir um portal que serve como buraco de minhoca, ligando um caminho perto da ilha até a costa leste dos Estados Unidos. Um segundo portal abria para ir a Gaia.
— Vamos navegar até o portal de Gaia. Preparem-se.
Os navios continuaram a navegar juntos.
Dentro do convés, Cordelia apareceu para Fiona e a ameaçou com uma arma.
— Andando.
— Por favor, Cordelia. Não faça algo que vai se arrepender.
— Eu nunca me arrependo do que faço. Agora anda! Conversa fiada. Eu me arrepender de te matar? De que mundo você veio, Fiona? Dei uma pesquisada na família Gallagher e descobri que são ricos. Como uma mocinha rica e noiva foi se interessar por um pescador antropomórfico?
As duas subiram no convés, assustando os demais antropomórficos. Ela chamou Younnan para vê-la.
— Abaixa a arma, Cordelia — pediu Desirée cautelosa.
— Younnan, eu te amo. Vem aqui e me dá um beijo.
— Co... tudo bem.
Ela jogou Fiona na água. O lobo se jogou para salvar a mulher, decepcionando a vilã.
— Deixa que eu prendo essa bastarda — disse Afrodine.
Jogaram uma corda para os dois subirem. Momentos depois, Fiona estava a salvo.
— Como ousa entrar no meu barco e ameaçar os meus amigos? O que faço contigo, Cordelia? Acho que te pulverizar de novo será uma boa coisa a se fazer.
— Cadê o seu olho? Por acaso uma outra bruxa conseguiu te vencer numa batalha? Quando olho para o que fiz na vida de todos, sinto muito orgulho. Realização, sabe?
— Cala a boca, sua puta! Eu vou te matar agora! Não vou deixar um pedaço seu para ser reaproveitado!
— PARA!!! — gritou Fiona. — Por favor, Desirée, pare. Eu não aguento mais tanta violência, tantas mortes e sofrimento. Apenas encontre um jeito alternativo de resolver esse...
— Amor! Fala comigo.
Todos prestaram atenção no desmaio de Fiona. Estar grávida de quase 3 meses e ter esse estresse foi demais para ela. Ver todo o tipo de violência e maldade na ilha a fez ter um colapso.
— Maldita Cordelia...
— Eu te amo, Younnan!
— Eu te odeio, cretina! Por sua culpa a minha Fiona desmaiou!
— Younnan, é melhor você levar Fiona para o quarto. Não caia nas provocações daquela mulher.
— Sim.
— E você, por que esse sorriso no rosto? Se dependesse de mim, mataria a ti instantaneamente. Faria a mais pior das torturas, porque você merece. O ser mais vil que eu já testemunhei. E fico horrorizada que eu fui capaz de te aceitar no seio da minha escola. O que ganho? As mortes de Violet, Linda e Donzel; a destruição da ilha e a vida de centenas de cidadãos arruinada. Você se tornou um vendaval e muita coisa mudou, não posso negar. Mas preciso honrar com o clamor da mulher que você tentou matar diversas vezes. Ela não quer que você morra... ainda estou analisando o seu caso.
Cordelia permaneceu amarrada durante toda a viagem.
Os dois navios enfrentaram uma tempestade. O pai de Peka era o navegador do navio maior enquanto Desirée manipulava a caravela. Uma parede quase transparente era visível. Segundo a bruxa, aquilo era um portal.
— Passamos.
Os dois navios entraram na outra dimensão e agora subiam um rio largo. Estavam em Goa.
— É verdade. Esse portal não precisa de água. — Afrodine permaneceu surpresa.
— O que eu te disse? Que foi?
— Tapa-olho, caravela... você parece uma pirata.
— Tá, e você é a papagaia?
Havia um píer. A caravela parou nele e o navio parou mais longe. Alguns habitantes do vilarejo que pescavam aproximaram-se curiosos.
— Fiquem todos. Irei na frente para comunicar ao líder do local.
O vilarejo lembrava uma cidadezinha europeia. Seus moradores eram todos antropomórficos. O líder cara de touro assentiu, permitindo o acesso dos moradores no vilarejo.
— Como ela está?
— Já acordou, mas continua descansando. Fiquei com medo por ela e pelo meu filho.
— Não tenham pressa. Resolvi tudo.
Num depósito dentro da caravela, o sujeito que estava no cemitério permanecia escondido.
Muitas horas se passaram desde a partida. Os moradores foram recebidos pela população local de braços abertos. Havia casas sem moradores, além de muitos ficarem como hóspedes. Desirée conseguiu muito bem a casa de banho como moradia para o casal Russell.
— Estou um pouco tonta.
— Deixe-me ajudá-la — disse Younnan.
Ambos se hospedaram na casa de banho. Nesse meio tempo, Desirée entrou em contato com autoridades de uma prisão para levarem Cordelia presa.
— Amanhã pela manhã? Certo — desligou o celular.
O casal Russell só aproveitou o banho termal juntos depois de Younnan voltar a ser humano com a ajuda de Desirée.
— Como está se sentindo?
— Bem. Ficar entre as pernas do meu marido é a melhor coisa. Você salvou a minha vida naquela cabana, obrigada. — Beijou-o.
— Mesmo assim eu sinto que não sou o suficiente como marido ou como guardião. Fui fraco. Mal consegui derrotar aquela mulher...
— Ei, pare com isso. Não foi culpa sua que aquilo tudo aconteceu. A culpada está aqui, mas não é nenhum de nós. Fizemos tudo o que podíamos, acontece. Não se culpe. Estou orgulhosa que o pai do meu filho é um homem corajoso.
Ambos se beijaram apaixonadamente.
No dia seguinte, cavalos carregando uma jaula chegaram no vilarejo. O transporte de Cordelia para a prisão era certa.
— Younnan é você? — Fiona viu uma pessoa atrás da casa de banho. Uma mão tampou-lhe a boca.
Bebendo chá na frente de uma das casas, Younnan sequer percebeu a ausência da esposa. Um grito agudo vindo da floresta o fez vigilante a assim largar o copo para correr na direção dela.
— Younnan, o que foi? — indagou Desirée ao vê-lo passar por ela.
Dois guardas orcs levaram Cordelia para dentro da jaula e a manteve com grilhões nos pulsos.
— Ver minha obra quase concluída não tem preço. Eu sempre consigo o que quero.
— Vai conseguir o que quer no subterrâneo de uma prisão de segurança máxima. Ali passará o resto dos seus dias.
— Pelo menos passarei feliz. Sabe por que o seu afilhado passou correndo? O que será que houve? Pergunto se meu plano B vai acontecer antes das 7.
— Do que você está falando? Por acaso aquilo tem o dedo seu?
— Digamos que sim. Digamos que apostei no amor de um homem incorruptível e me ferrei. Nunca fui tão humilhada na minha vida, e pelo mesmo cara. Portanto, apostei alto naquela invasão da ilha. Sabe, antes de ir para Salém eu tinha uma empregada tão insolente que foi capaz de me processar. Ela era tão insolente. Daí mandei matar o advogado dela e fiz a mesma puxar o gatilho de um revólver na direção de sua cabeça. Ela se suicidou, porque eu consigo tudo o que quero. Descobri o "gatilho" de Younnan, ele estava enterrado a sete palmos do chão.
— O que fez?
— Eu peguei uma guerra e a transformei numa tragédia familiar. Agora Younnan vai ter que matar alguém que ama de um jeito ou de outro. O que ele vai escolher? Sou tão má haha... Pensou que eu apostaria tudo numa queda de braço contra você? Apenas um nome, Albert. Ele vai dobrar Younnan e me dará a vitória completa.
— TIREM ELA DAQUI!!! Antes que eu me arrependa.
A carroça com a jaula partiu. A última lembrança que Desirée teve de Cordelia foi o sorriso maligno da mulher gato. O seu medo era que aquilo que a vil mulher dissera poderia se cumprir.
Fiona foi amarrada no tronco de uma árvore pelo zumbi de Albert. Mesmo os apelos da moça, o homem não a ouvia.
— Fiona! Meu amor, o que houve?
— Younnan, não veja...
Albert apareceu atrás do neto. Os dois se reencontraram depois de meses. O moreno tremeu na base.
— O que foi, meu neto. Sou eu, seu avô. Vem me dar um abraço.
O neto caminhou aos poucos para dar um abraço depois de tantos meses separados.
— Isso é um sonho?
— Não, eu estou vivo. Sinto muito por ter morrido naquela vez. Já estava velho, mas poderia ter vivido um pouco mais.
— Vovô — dando o abraço no idoso, Younnan começou a chorar. — Perdão por deixá-lo morrer.
O idoso passou a mão na cabeça dele e deu um sorriso.
— Não se culpe. Estávamos vivendo nossas vidas tranquilamente até a família dela aparecer.
— Não... Fiona não teve culpa...
— Teve sim. Por culpa dela eu morri, muitos morreram e a ilha foi destruída. Ela é a gênese do caos em nossas vidas.
— Não fala isso...
— Mata ela agora — Albert entregou uma espingarda para o neto. — Já amarrei. Só falta o tiro.
— Não posso. Isso é absurdo. Ela é a minha mulher e está esperando o meu filho.
— Vai me desobedecer? — Deu um tapa no rosto do moreno. — Eu te criei, te dei todo o meu amor, me sacrifiquei e agora quando peço um favor seu você me nega? Pois bem, se você não faz, eu faço.
Albert apontou a espingarda na direção de Fiona. Naqueles segundos importantes, Younnan fez uma escolha. Apenas seu antebraço direito ficou na forma lobo.
Desirée se guiava entre as árvores quando ouviu um tiro. Imediatamente seguiu a origem do som.
O corpo de Albert caiu nos braços de Younnan depois dele ser morto pelo próprio neto. Antes que Fiona fosse morta, ele o matou estrangulado e o tiro foi para outra direção. Ajoelhado ao lado do corpo, pegou a espingarda e mirou no seu queixo.
— O que tá fazendo? PARA!!! YOUNNAN, NÃO!!!
— Acabei de matar meu avô pra salvar outra pessoa que amo. Não sei se tenho mais coragem de continuar vivo. Promete que vai cuidar do nosso filho?
— PARE! PARE! PARE!
Younnan estava para puxar o gatilho quando recebeu um chute no rosto, caindo alguns metros no chão. Desirée desamarrou Fiona.
— Por Deus, ele ia se matar — disse Fiona chorosa.
— YOUNNAN, IDIOTA!!! BASTARDO!!! O QUE PENSA QUE TÁ FAZENDO, PORRA? — Desirée gritou com todas as forças.
Ele permaneceu calado.
— Tentando se matar. Você é louco?
— Quando matei meu avô... perdi o sentido de viver. O meu avô cuidou de mim por 19 anos...
Desirée se aproximou dele, puxou a sua orelha e arrastou-o para perto da esposa. Fiona tentou consolar o marido.
— Como você é ingênuo. Acabei de ouvir da Cordelia algo que eu aposto que ela sabia de tudo isso.
— Cordelia? — indagou Fiona.
— Ela disse que teria certeza que venceria. Só de pensar que a sua morte seria a vitória dela... Pensa um pouco. Se você se suicidasse, Fiona passaria o resto da vida sofrendo, seu filho ficaria sem pai e tudo o que fizemos pra salvar esse povo seria em vão.
— Mas o meu avô não merecia isso.
— Cordelia conseguiu atingir o seu ponto fraco ao fazer essa covardia. E só havia um jeito de trazê-lo de volta. Pediu ajuda para Lilith usar alguma magia ou poção pra fazer a zumbificação. Eu li que esse tipo de recurso traz uma pessoa de volta à vida com as memórias distorcidas. Por isso que o seu avô tava pedindo pra matá-la.
Younnan deu um beijo na testa do ancião.
— Como ela pode? Com que direito ela manipulou o meu avô? Se eu soubesse antes o que ela planejava... Cordelia pegou o meu avô e esmagou-o. Com que direiro?
Fiona abraçou o marido. Seu medo era que o sentimento de culpa retornasse a ele. Vendo que fez a própria mulher chorar, pediu perdão. Nesse instante Desirée desmaiou depois do esforço que fez.
Passaram-se poucos dias e a suprema conseguiu se recuperar. Usou um tapa olho para cobrir a órbita sem o globo ocular.
— Preciso voltar. Vai ficar tudo bem?
— Sim. Obrigada por tudo. Se não fosse por você naquele dia, eu nem sei o que seria de mim. Viúva?
— Younnan?
— Juro que nunca mais faço a minha mulher sofrer daquele jeito. Nunca mais.
Os dois se abraçaram e se beijaram. Desirée se despediu dos outros moradores e voltou para Salém depois de uma batalha sangrenta e dias fora.
SALÉM
— Jura? Perdi muita coisa depois que voltei — bufou uma Afrodine inconformada. Assim que os navios foram para Gaia, ela retornou para vigiar Salém a pedido da suprema.
— Ainda bem que as coisas deram certo no final. Mas nunca imaginei que a Cordelia fosse tão cruel a ponto de chegar àquele nível baixo. Viver num inferno subterrâneo será melhor para ela.
— Alguma notícia do seu filho e a namoradinha? Faz tempo que foram para o Tibet.
— Nem vão dar notícia agora. Serão meses com Dai Kaminari. Apenas vamos torcer para que o novo imperador não faça nenhum movimento diferente. Ainda não acredito que a Condessa morreu.
— Jura?
O presídio subterrâneo era uma antiga mina. As celas eram jaulas onde as piores escórias viviam. O trabalho era forçado, os carcereiros brutamontes e de vez em quando havia mortes entre presos.
Às 5 da manhã uma carcereira orc e bem ranzinza abriu a cela de Cordelia.
— Acorda, princesa. Hora de carregar mais saco de areia.
Cordelia se levantou, calçou os chinelos e foi levada fora da cela. Esse era o destino dela.
...
4 MESES DEPOIS
27 de março de 2019
CASTELO WINCHESTER — NOVO CENTRO DO GOVERNO MUNDIAL
Grifos voavam sobre o castelo gótico durante o festival imperial que ocorria todo final de março em Gaia. Da sacada apareceu Lucie em seu novo visual: cabelo curto com uma coroa na cabeça. As pessoas que obtiam favores do governo — isenção de imposto em troca de lealdade política — dançavam na frente do castelo. Nenhuma bruxa foi convidada, haja vista eram banidas de Wilhelm.
Após os fogos de artifício, o imperador retornou para o interior do castelo. Os ministros, incluindo Sniper e Sônia, festejaram com o governante até uma certa hora.
— Majestade, a madame o aguarda no escritório.
Uma garota adolescente e loira pôs licor no copo e gelo. Deixou a marca de batom vermelho na borda do vidro. Lucie entrou.
— Demorou. Pensei que seria mais habilidoso nisso.
— Desculpa, o fato de eu ser o imperador de Gaia me deixa muito ocupado. Mas você tem experiência nisso, não?
— Claro — a adolescente era a Condessa rejuvenescida depois de voltar do inferno. — Passei séculos governando Gaia. Sorrir e ser falso é a principal tarefa da sua posição atual.
— Que honra tê-la hoje? O seu palácio nos Emirados Árabes ficou tedioso?
Abigail sentou-se na poltrona.
— Quero que me faça um favor. Por tudo o que eu te dei. Lembra que usamos a Lilith para te trazer do submundo? Agradeça a mim que convenci o Belial. Aquela besta quadrada é apaixonado por mim até hoje. Demônio fracassado.
— O que quer?
— Matar a Desirée e destruir Salém por completo. Depois de quatro meses, creio que hoje a minha ex-filha volte do seu treinamento. Preciso que vá pessoalmente e prove a sua gratidão.
Lucie retirou a coroa e passou a mão no cabelo loiro.
— Deixe-me adivinhar? O apocalipse nuclear está se aproximando. Quando vai ser?
— Neste domingo. A Terra vai passar um bom tempo sob uma pesada nuvem radioativa, governos cairão e eu serei a imperatriz da Terra.
Lucie se aproximou de Abigail e a beijou na boca. Os dois irmãos não se importavam com o incesto, Lucie não se importava de beijar a irmã mais velha agora que estava jovem.
— Meu futuro marido... ele veio comigo.
— Aquele cara? Não confio nele. Aposto que não tem a mesma pegada do que eu. Sequer transou contigo ainda.
— Ele está se guardando para depois do casamento.
— Aposto que é virgem.
— Para de ciúme.
Condessa trancou a porta do escritório. Retirou seu casaco preto e agarrou Lucie.
Meia-hora depois, um servo batia. Lucie atendeu.
— Madame, seu futuro marido.
— Já vou. Vá e traga Desirée para eu matá-la. Acabaremos com tudo em breve.
Ela se retirou do escritório. Meses isolada da opinião pública preparou o terreno perfeito para atacar sem quaisquer imprevistos. Matar Desirée será o último passo antes da conquista final, a dominação da Terra.
Fale com o autor