Notas iniciais
What's up, guys?So, digamos que eu tenha surtado e excluído minha antiga conta, assim como todos os arquivos do meu computador :)Okay, superado a fase loucura/merecia internação, uma pessoa maravilhosa me contou que tinha salvo minhas histórias antes de eu apagar tudo. Eu sei, surpreendente, to chocada até agora. Beijo, Gabrielle ♥ Muito obrigada.Então é isso, vou repostar tudo.Boa Leitura.

Era uma vez uma bailarina. Possuía feições delicadas e era diminuta como a maioria das bailarinas. Chamava-se Maisie, mas num futuro próximo passaria a ser reconhecida como A Garota que Conquistou as Estrelas. Cachos grossos e de um louro dourado desciam suavemente até a cintura. Olhos de um azul cristalino e bochechas emolduradas por pequenas sardas douradas. Sim, com certeza, ela tinha uma aparência um tanto frágil. Seus 16 anos também lhe agregava essa impressão.

Aconteceu nos tempos de reis e rainhas, em que dragões infestavam os céus, fadas concediam desejos e unicórnios corriam livres pelas florestas e bosques. E, é claro, havia uma princesa.

Pelo povoado corria a notícia de que o rei e a rainha fariam um grande baile em homenagem ao 15º aniversário de sua filha, Luna. Sendo assim, todos os rapazes solteiros do reino foram convidados. Esses jovens, exatamente como os pais da princesa, tinham a esperança de que a garota encontrasse a quem entregar o coração. Já estava na hora de arrumar um marido.

A bailarina Maisie fora convidada para dançar em honra à princesa. Aquela seria a primeira vez da bailarina no salão real. Seu sonho de dançar no salão real estava prestes a se realizar. O que mais ela poderia pedir? Era para aquele momento que ela, Maisie, tinha nascido.

E a grande noite chegara. Havia indícios do fim do verão. A princesa tinha o coração ansioso. A bailarina não cabia em si, tamanha era a excitação que sentia. Para aquela noite, escolhera um vestido dourado, que lhe apertava até a cintura e depois se armava de véus, caindo até os joelhos. E qualquer um que a visse poderia jurar ter visto estrelas refletidas ali. A princesa, por sua vez, escolhera um vestido azul gelo também apertado até a cintura e depois descendo em véus até os pés. Era apropriado para ela, que tinha a promessa de não deixar que ninguém descongelasse seu coração. Pobre princesa, não sabia que um dia seria obrigada a quebrar essa promessa.

O salão do castelo estava decorado com rosas brancas e vermelhas, e inúmeras luzes refletidas também no lustre de cristais no teto, exatamente no centro do salão.

A princesa ocupou seu lugar entre o rei e a rainha. A coroa de diamantes reluzia no topo da cabeça enquanto seus cabelos vermelhos desciam em ondas por suas costas. Era a personificação da beleza e exuberância, todos faziam questão de encará-la.

Os convidados começavam a chegar, cumprimentaram os anfitriões, e logo o salão fora preenchido por uma música animada e conversas. A bailarina Maisie chegara acompanhada de um bailarino alto, de cabelos negros e olhos azuis. Asher, esse era seu nome. Também era um dos rapazes solteiros que cobiçava a outra coroa de diamantes.

Logo formou-se um círculo ao redor do centro do salão, onde Maisie e Asher aguardavam a música. A família real se aproximara. A princesa Luna, até aquele momento tinha um ar entediado. Então a música começou.

Maisie deslizou pelo salão com uma delicadeza que só ela possuía; Asher a acompanhou, e os dois pareciam folhas soltas ao vento. Livres. Aliás, era isso que significava o balé para eles: liberdade. E toda a multidão ao redor era capturada por aquela aura.

De repente, a princesa prestava atenção a todos aqueles passos. Ela conhecia a coreografia. Sim, com certeza a conhecia. Era uma que aprendera quando criança. Oh, como ela se lembrava!Uma garotinha miúda de cabelos louros aprendera com ela. Não sabia o que acontecera com a garota, filha de uma das criadas do castelo, um dia ela simplesmente não apareceu mais para ensaiar com Luna. A garotinha devia ter uns 11 anos, enquanto que Luna, uns 10.

A garotinha crescera, assim como a princesa. E estava ali, apenas a alguns poucos metros de distância, mostrando para todas aquelas pessoa a coreografia que tinham criado juntas.

A música se encaminhava ao final, as duas folhas continuavam a bailar pelo salão, então uma delas aterrissou para a multidão, e foi substituída pela neve fina, tão delicada quando a pequena estrela que brilhava sob o lustre.

Maisie sentiu uma mão menor que a de Asher segurar a sua, e sentiu-se mais livre do que nunca. E a estrela e a neve cobriram juntas a multidão encantada antes do último acorde da canção.

Elas sorriram, junto de Asher — que voltara para o centro do salão após acabar a música — para seu público, que irromperam em aplausos animados. Eles aceitaram seus agradecimentos, mesmo estando certo de que quem deveria agradecer eram eles pelo privilégio de contemplar a folha, a estrela e a neve.

— Você lembrou! — Maisie sorriu, jogando os braços ao redor de Luna, que não sabia exatamente o que fazer naquele momento. Tinha outras coisas em mente.

— Por que foi embora? — Luna jogou para cima dela de uma vez, no mesmo instante de afastava de si os braços da bailarina.

— O que?! Você fala como se eu tivesse outra opção! — E a bailarina saiu correndo porta a fora.

A princesa não se deu o trabalho de ir atrás de Maisie.

No resto da noite Luna continuou com o mesmo ar entediado. Dançou com todos os rapazes. Inclusive com Asher, e seu irmão Kyle, que estavam encantados por ela, lhe prometeram a Lua. Mas ela mostrou algum interesse por Lucian Howe.

Do outro lado do povoado, Maisie ainda se perguntava entre lágrimas, enquanto se preparava para dormir, o que Luna pensava que ela era.

***

Os dias passaram, Luna estava disposta a conhecer melhor Lucian. Porém o rei e a rainha precisavam de uma prova de amor e bravura do rapaz. Luna também.

Consultaram as fadas e duendes, e a ideia surgiu: quem realmente merecesse o coração da princesa deveria salvá-la da prisão onde ficaria escondida até que o verdadeiro amor a libertasse.

Lucian foi o primeiro da lista ao ato heroico, seguido por Asher e Kyle. Maisie soube do desafio por Asher, durante um dos ensaios de balé.

— O quê? Que garota mais fútil! Onde já se viu exigir uma prova de amor e bravura? — Maisie estava indignada, amarrava a sapatilha distraidamente — Se você ama, não precisa de prova alguma, simplesmente ama, e sobre a bravura: já é uma prova e tanto a coragem de amá-la.

— Eu vou participar, é claro. — Asher disse num tom de completa ignorância ao que Maisie acabara de falar.

— Que surpresa!

Asher a ignorou outra vez. Mas agora a bailarina estava curiosa sobre os detalhes.

— Certo, então me conta Sr. Futuro Príncipe, como a Srta. Princesa deve ser salva por um bravo apaixonado.

— Eles vão prendê-la, num lugar que ninguém sabe ainda, e o verdadeiro Príncipe deve encontrar a chave antes, e depois libertar Luna. Parece que ela já está presa, sozinha, e adormecida.

— Ela já está presa? E o que diabos você ainda está fazendo aqui, vá salvá-la! — Maisie sentia a raiva corroendo-a por dentro, como tiveram coragem de prender a princesa? Como? Ela era só uma garota!

— Não, a competição só começa semana que vem, vão passar as informações, e mapas aos inscritos.

Maisie sabia que a garotinha de cabelos vermelhos com a qual crescera poderia sentir no fundo de seu coração congelado a solidão que se fazia presente em todos os cantos de sua prisão encantada.

Era um fato que Maisie tinha ido embora quando elas eram crianças, porque sua mãe havia sido mandara embora pelo próprio rei. Sob uma acusação de roubo.

E Maisie passou todos os próximos anos odiando toda a família real, inclusive a princesa. Asher a tinha ensinado a perdoar. E agora ela já não tinha certeza se realmente aprendera, pois sentia que ainda odiava a princesa, e... precisava salvá-la. Sim, ela aprendera.

***

O outono se impunha fortemente sobre o povoado, arrancando folhas alaranjadas das árvores e trazendo chuvas gélidas. Esperanças secas voando livres e lágrimas as acompanhando. Maisie vestia botas, calça e camisa, juntamente com um chapéu masculino que cobria seu rosto; roubara as roupas de Asher no último ensaio. Os cabelos, cortou na altura dos ombros, amarrou o que pode e os escondeu também. Usara um nome falso na hora da inscrição para a competição. Tom Howe, primo distante e desconhecido de Lucian Howe.

Então começou sua longa jornada ao coração da princesa. Assim, sem saber ao certo o porquê, mas certa de que aquele coração sempre lhe pertencera. Congelado, ou não.

Maisie saíra de casa antes de o Sol aparecer, a única coisa que levava consigo era o mapa. Que era algo inútil, pois não tinha nenhuma informação; nada que pudesse indicar ou servir de guia para a chave da prisão, nem para a própria prisão.

Ela seguiu para o bosque, onde viviam as fadas, e pensou que se capturasse alguma, poderia arrancar algo dela.

O bosque era um tanto fechado, Maisie sabia que ainda não amanhecera, mas não sabia se quando o Sol surgisse conseguiria penetrar pelas árvores do bosque, que também já mostravam sinais de outono.

A bailarina correu por léguas. Estava cansada, suada, faminta e com sede. E, como suspeitara, o Sol não brilhava para ela. Não encontrara fada alguma. Apenas alguns animais que passavam de hora em hora por ela, e uma quantidade considerável de insetos.

Seus pulmões queimavam, devido ao esforço.

Ela continuou andando, agora, mais calmamente, acompanhada de uma pontinha de arrependimento, medo e desespero. Ela não era um homem, bravo e apaixonado. Era apenas uma bailarina, uma garotinha, ainda presa na adolescência. E se nunca encontrasse Luna? Ela não se importava se outra pessoa a encontrasse, só queria a moça segura, em casa, confortavelmente feliz na sua poltrona real.

Maisie tombara, sem forças para levantar. Talvez já fosse noite. A garota fechara os olhos por um segundo, tentando acalmar o coração e a respiração. Concentrando-se em levantar. Segurou-se em uma árvore próxima, um pé após o outro, e caíra outra vez. Agora incapaz de outra tentativa, sentiu o mundo girar, e viu uma estrela coberta de neve, antes de desmaiar.

***

A viagem continuava dura para todos os participantes, os homens combinaram de viajar juntos, assim, suas chances de sobrevivência eram maiores, e quando encontrassem a prisão lutariam até a morte pelo coração da princesa. Aquecidos pela fogueira que fizeram com pedras e alguns gravetos, os estômagos saciados pela caça, adormeceram logo no chão frio e coberto de folhas secas do bosque.

***

A bailarina acordara pela manha, o Sol brilhava forte acima de sua cabeça, e ela não entendia a ausência dele no dia anterior. Ela abriu os olhos lentamente, a visão um pouco embaçada. O estômago ainda vazio, e a dor nas pernas um tanto forte. Sentou-se, coçou os olhos antes de olhar ao redor, havia uma pilha de maçãs no chão ao seu lado. Ela apanhou o chapéu, colocando-o sobre os cabelos dourados, e depois uma maçã, e a mordeu no mesmo instante.

Era deliciosa, se bem que qualquer coisa pareceria deliciosa àquela altura que sua fome se encontrava. Devorou rapidamente a primeira maçã, depois partiu para a segunda, e a terceira, só parou na sexta. Ela levou alguns segundos analisando a clareira em que se encontrava.

Havia um lago bem a sua frente e Maisie não pensou duas vezes antes de tirar a roupa e se jogar na água. Bebeu o que pode. Nadou e riu com os peixes e as sereias que se viam felizes pela visita de alguém tão bela quanto a bailarina.

Maisie contou sua história às sereias, que ficaram admiradas com a coragem da garota de cortar os cabelos e sair sozinha bosque adentro. Fora um centauro que arrastara a garota até o lago e colhera as maçãs, partira poucos minutos antes de Maisie acordar.

As sereias cantaram para ele, que as ignorou. Elas estavam muito ofendidas com a atitude do centauro.

Antes de Maisie continuar sua caminhada guardou as maçãs que conseguira nos bolsos, e uma das sereias sorriu para ela de um jeito estranho, daquele jeito que te desafia a tentar descobrir um segredo.

Maisie andou de volta até o lago, ficando de joelhos na margem. A sereia nadou até ela, pedido que se aproximasse mais, então tocou o rosto da bailarina com a ponta dos dedos, colocando uma mecha rebelde atrás da orelha de Maisie. Sorriu outra vez antes de puxar Maisie para um beijo calmo.

A bailarina estava assustada com o acontecimento. Sua primeira reação foi empurrar a sereia, sem força alguma, mas depois ela se rendeu, e correspondeu ao beijo. Lá no fundo de sua mente estava Luna, e a princesa não lhe deixou nenhum segundo enquanto os lábios da sereia esmagavam os da bailarina.

Maisie viu o céu. Tinha consciência de Luna, mas viu o céu. De um jeito confuso, era dia e noite.

Então a sereia soltou a garota, que a encarava com os olhos arregalados.

— Olhe seu mapa — a sereia sussurrou no ouvido da garota antes de mergulhar e não voltar a emergir.

Maisie pegou o mapa instantaneamente, junto com o chapéu. À primeira vista não parecia ter mudado alguma coisa, continuava inútil. Cinco segundos depois apareceram palavras. Um pequeno poema.

Era noite; porém era dia.

Havia a solidão do Sol,

E o seu calor.

A bailarina presa a sua melodia.

A Lua ao seu brilho,

E as estrelas ao seu amor.

Maisie encarou os versos e os repetiu em lentamente, tentando absorver cada palavra. Buscando um significado. Nada encontrara. Levantou-se, guardou o mapa num bolso interno do casaco de Asher e começou a andar, sem olhar para o lago ou qualquer outro lugar, com a mente no poema.

— Como você pode ter certeza de que é ela? — Ouviu a voz melodiosa de uma das sereias.

— Quando a beijei vi a princesa, e sem perceber em troca lhe dei a chave.

— E se não for ela? — A sereia insistiu.

— Eu sei que é.

E as vozes sumiram por detrás das árvores. O teto de galhos voltara a ser escuro, sem sinal do Sol.

***

Os homens não estavam tendo tanta sorte quanto Maisie. Alguns tinham sido atraídos ao fundo do lago pelas sereias, e já estavam mortos. Os outros continuavam. Lucian pensara ter perdido seu primo distante, Tom Howe, e estava radiante. Afinal, era um a menos na competição.

***

A noite chegara tão escura e fria quanto o dia, talvez mais. Maisie dessa vez fez uma fogueira, levou vários minutos riscando pedras umas nas outras até que uma faísca se acendera, juntamente com gravetos.

Comeu as maçãs restantes e tomou alguns goles da água que as sereias lhe deram num cantil roubado de algum caçador.

Adormeceu logo, seus sonhos foram dominados por uma visão do céu, que não sabia se era noite ou dia.

Sua viagem continuou; de dia ela corria e colhia frutos, à noite fazia uma fogueira e descansava. Seguiu assim por algumas semanas. O frio estava mais rigoroso e as árvores totalmente secas. Já era inverno.

Certo dia caminhava lentamente, o sol tinha um ar pálido, e ela recitava em voz baixa o poema do mapa, que não sofrera mais nenhuma alteração. Olhava para os próprios pés, distraída, deu de cara numa árvore e desmaiou.

Quando a garota acordou, já era noite e se podia ver algumas estrelas grudadas no céu. Ela estava certa de que nunca estivera num lugar como aquele. Era o interior de uma árvore enorme. Talvez a maior do bosque. Mas ainda assim ela conseguia ver o céu. Havia luzes mínimas para todos os lados que a bailarina olhava. E flores, muitas flores, vivas, pequeninas e perfumadas. Então um inseto pousou no seu ombro e quando Maisie ia esmagá-lo percebeu o que era. Definitivamente tinha minúsculas asas, mas também, um belo corpo de mulher. Uma fada. Sentada no ombro da garota e sorrindo do mesmo jeito que a sereia sorrira antes de beijá-la.

Mas a fadinha não a beijou. Apontou para uma florzinha no lado oposto de onde estavam. Maisie levantou, então, e se precipitou para a flor.

Ficou olhando. Nada aconteceu.

— Pegue-a — a vozinha fina e infantil da fadinha ordenou.

A bailarina colheu a flor, que se transformou num colar de diamantes, no mesmo estilo da coroa da princesa.

— É a chave? — Maisie perguntou.

— Não, mas vai ajudá-la muito.

Inúmeras fadinhas coloridas e brilhantes se aproximaram de Maisie, sorrindo e acenando. Depois cada uma pegou nas roupas roubadas da bailarina e a levaram flutuando para fora da árvore.

Maisie seguiu seu caminho, acendendo sua fogueira e depois adormecendo em um ponto qualquer do bosque, longe das fadas.

***

Só restava metade dos rapazes em busca da princesa. Alguns haviam voltado para casa, outros se perderam. Asher e Kyle voltaram para o povoado. Lucian continuava firme sua jornada. Luna seria sua. Ele sabia disso.

***

Na manhã seguinte ao encontro com as fadas, Maisie abrira o mapa outra vez e lá estava mais um pedaço de poema impresso no mapa.

Havia o lago congelado

Pelas lágrimas das nuvens.

Havia folhas secas, perdidas em liberdade.

O vento que as encontrava e arrastava de volta.

Nada fazia sentido ainda. Maisie memorizara cada palavra, e recitava o poema enquanto. Caminhava sem rumo, sem saber ao certo o que fazer. Encontrara as fadas, mas essas só lhe deram o colar e mais uma parte do poema. E agora?

Passaram dias, e a neve começou a cair lentamente e pintar toda a paisagem de branco. Não se sabia o que era céu e o que era chão. À noite, tudo era de um veludo negro.

Certa manhã fora acordada por um unicórnio. Deu-lhe uma fruta de seu escasso estoque. Depois montou o, deixando que o animal a levasse.

Chegaram ao final do bosque, Maisie desceu do unicórnio e o bicho lhe entregou uma pedrinha mínima de diamante, que a bailarina guardou num bolso interno. Depois o unicórnio a deixou. Ela pode ver as montanhas e sentiu que aquele era seu próximo destino.

Abriu o mapa. Um novo pedaço do poema sem sentido.

Árvore solitária,

Que secava as lágrimas das nuvens,

Cantava para sua bailarina,

Passava noite, passava dia,

Se banhava no brilho da Lua

Ao Sol, companhia se fazia.

Depois a bailarina peregrina continuou. Recitando o poema, prendendo-o na mente a cada segundo que se passava. Naquele mesmo dia chegara às montanhas. Estava exausta. Mais do que estivera todas aquelas semanas anteriores. Acabou adormecendo antes de começar a escalada.

***

Lucian era o único homem que ainda continuava na competição.

***

Maisie levou mais de dois meses até alcançar o topo das montanhas.

Era final do dia quando chegara ao topo, a neve já havia derretido. Maisie observou tudo ao redor. Podia ver o povoado todo. O castelo onde o rei e a rainha aguardavam ansiosos o retorno da filha. O bosque repleto de criaturas encantadas. O lago em que encontrara as sereias. Então as montanhas começaram tremer, como um terremoto, como se fossem tombar. E Maisie não pode evitar o grito que se precipitou pela sua garganta. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, e ela não conseguiu contar mais. Eles deveriam ter uns 3 ou 4 metros de altura, a pele escamosa causava arrepios na bailarina. Dragões. Muitos deles. Tinham uma cor entre a prata e o preto. Cor de rocha molhada.

— Que faz aqui, humana? — O dragão maior, que estava mais a frente, perguntou numa voz de trovão, grave. Sua voz ecoou pelas montanhas.

Maisie tremia, e não era de frio.

— Busco a chave para resgatar a princesa — sua voz saiu num sussurro.

— Prove-me. — O animal agitou as imensas asas.

Maisie vasculhou sua mente em busca de uma prova. Depois retirou com muito cuidado o mapa surrado.

— Certo, por que você mereceria o coração da princesa mais do que outro?

— Quando eu era criança minha mãe era criada no castelo real, cresci junto da princesa, quando eu tinha 11 anos mamãe foi mandada embora comigo, sob a acusação de roubo. Agora entendo, não fora mamãe que roubara algo, e sim, eu.

— Isso não responde à minha pergunta, humana.

— Eu roubei o coração da princesa.

— E você merece esse coração?

— Não, por isso preciso devolvê-lo.

Ninguém saberia dizer o que convenceu os dragões, talvez bem lá no fundo eles soubessem que aquilo não era roubo. Era uma questão de pertencer, e Luna toda sempre pertencera à Maisie.

Maisie abriu o mapa, e todas as partes que faltavam do poema, apareceram.

E ao lago congelado,

Ela pedia às estrelas,

Que lhe emprestassem seu amor,

Prometendo que o devolveria

Quando possível,

Assim que tivesse o seu próprio.

Que o pobre lago descongelasse,

Que talvez o Sol

Um pouco ajudasse.

E aquela estrela a guiasse.

E que o seu amor lhe encontrasse,

Para que seu mundo despertasse.

Maisie se empenhava em decorar o poema todo, enquanto montava no dragão e esse a levava noite adentro para a Lua.

Lembrava-se da sereia que a havia beijado. “Quando a beijei vi a princesa, e sem perceber em troca lhe dei a chave.” Isso significava que Maisie já possuía a chave? O vento batia em seu rosto, era difícil respirar.

— A sereia disse que eu já estava com a chave, mas como? — perguntou ao dragão.

— O que ela lhe mostrou? — o animal indagou de volta.

— Nada. Ela me beijou. Isso é a chave? Um beijo?

— Você não está se esforçando, humana. O que ela lhe mostrou?

— Eu não s... — então ela percebeu que sabia — eu vi o céu! E não era dia e nem noite, não tinha como saber, era confuso.

O dragão se calou e continuou a viagem. Ao chegarem perto da Lua todas as estrelas do céu se aproximaram, empunhando espadas e escudos.

— O que você quer? — Gritou uma das estrelas, com uma expressão furiosa. Enquanto as outras trancavam a passagem do dragão e da bailarina.

— Vim buscar a chave para libertar a princesa.

— Não, você não veio para isso, está mentindo!

— Vim sim, eu tenho o mapa, e o colar, e o poema, sou eu!

As estrelas a atacaram, com as espadas, todas elas correndo direto para a bailarina e o dragão.

O dragão tentou voar acima das estrelas, e elas correram atrás e o atingiram no peito. Maisie caiu. Exatamente sobre a Lua. Então ouviu uma música. Suave. E tudo o que via era a superfície esbranquiçada da Lua. Um sussurro lhe dizia “Feche os olhos.” E assim ela fez. De repente se sentiu nua, para logo em seguida estar coberta novamente pelo vestido da festa da princesa. A música continuava. Maisie levantou-se delicadamente e, de olhos fechados, rodopiou pela Lua, e dançou, exatamente como dançara com Luna. E sorriu, e era de novo uma estrela, ou uma folha, livre, solta ao vento.

Toda a confusão entre as estrelas e o dragão cessara. A Lua sorria apaixonada pelos movimentos da bailarina, o Sol, timidamente, se juntara a ela, abraçando-a. Maisie, então, abriu os olhos, a canção acabou, e ela percebeu estar dançando sobre um Eclipse.

Assim se tornara A Garota que Conquistou as Estrelas.

— Sou eu. Preciso da chave — disse para a Lua e o Sol.

— É claro — a Lua sorriu bondosa — tragam a chave, estrelas.

— Senhora, — uma estrela se adiantou, fazendo uma breve reverência — a chave não está mais conosco, um jovem a levou alguns minutos antes dessa menina chegar.

O quê? A chave estava com outra pessoa? Como? E todos aqueles meses de viagem? E o frio, o medo, a fome, a sede, e os perigos? Nada mais importava?

Maisie ficou tonta por um segundo e caiu outra vez sobre a Lua, que ainda repousava nos braços do Sol. Lágrimas queimando seu coração. Ou melhor, congelando seu coração.

— Humana? — o dragão chamou Maisie. Ela levantou os olhos úmidos para ele. — Existe outra chave. O unicórnio que a tirou do bosque, o que ele lhe mostrou?

— O unicórnio? — Ela perguntou, franzindo a testa, num sinal de confusão. — Ele me deu uma parte do poema, então eu vi as montanhas e fui para lá e encontrei com vocês, os dragões.

— Você está esquecendo algo, humana.

— O diamante... — disse mais para si mesma, levantou-se e retirou a pequena pedra de dentro do vestido. As roupas de Asher perdidas no espaço. — O que eu faço com ele.

— Destrua-o — disse a Lua docemente.

— Como?

— Aqui, eu ajudo você — ofereceu-se o Sol, estendendo a mão para a garota.

Maisie depositou o pequeno diamante na mão gigantesca do Astro Rei e assistiu enquanto ele apertava o objeto entre os dedos e tudo o que restava era um pozinho brilhando, que jogou para cima da garota.

Nesse instante tudo começou a girar, e Maisie teve de fechar os olhos para não cair outra vez. E quando os abriu a Lua, o Sol, as estrelas e o dragão haviam sumido. A bailarina estava de volta à clareira do lago das sereias, que tinha a superfície congelada.

Um rapaz alto e louro estava parado próximo ao lago.

— Quem é você e o que quer? — Perguntou a bailarina encarando o garoto.

— Lucian Howe, tenho a chave para salvar a princesa, mas não encontro a prisão.

— Não pode ser você a regatá-la! Sou eu! Eu tenho a chave!

— Não importa, não vejo a prisão em lugar algum!

Maisie ouviu um sussurro vindo do lago congelado, olhou meio de canto, sem Lucian perceber, e a sereia que a beijara lá estava, acenando e sorrindo sob a camada de gelo. Então ela soube. O lago era a prisão da princesa.

— Lucian, eu a conheço desde que nasceu, meu coração é dela, sou eu que devo salvá-la. Acredita em mim?

— Por que você a merece mais do que eu? Eu cheguei até aqui! Eu fiz tudo o que disseram para fazer! Você é uma garota, nem deveria estar aqui!

— Tudo bem, vá em frente! Me mate! — Lucian não pensou duas vezes, empurrou a garota para o lago congelado, exatamente como Maisie sabia que ele faria. A bailarina mergulhou até tocar o fundo do lago. As sereias ao seu redor lhe deram um punhado de pó brilhante, que quando Maisie o segurou se transformou num pequeno diamante em forma de chave.

Certo, mas e a fechadura onde estava? Maisie estava ficando sem ar, precisava achar rapidamente a porta! Então lembrou que o poema deveria ser mais que um simples poema sem sentido.

Ela recitou cada palavra do poema mentalmente, absorvendo o significado para si.

Era noite; porém era dia.

Havia a solidão do Sol,

E o seu calor.

A bailarina presa a sua melodia.

A Lua ao seu brilho,

E as estrelas ao seu amor.

Havia o lago congelado

Pelas lágrimas das nuvens.

Havia folhas secas, perdidas em liberdade.

O vento que as encontrava e arrastava de volta.

Árvore solitária,

Que secava as lágrimas das nuvens,

Cantava para sua bailarina,

Passava noite, passava dia,

Banhava-se no brilho da Lua

Ao Sol, companhia se fazia.

E ao lago congelado,

Ela pedia às estrelas,

Que lhe emprestassem seu amor,

Prometendo que o devolveria

Quando possível,

Assim que tivesse o seu próprio.

Que o pobre lago descongelasse,

Que talvez o Sol

Um pouco ajudasse.

E aquela estrela a guiasse.

E que o seu amor lhe encontrasse,

Para que seu mundo despertasse.

E uma árvore começou a crescer, suas raízes fixas no fundo do lago, que já descongelara. Folhas verdes presas aos galhos, e no tronco uma porta com uma pequena fechadura, onde a bailarina enfiou a chave no mesmo instante.

Ela entrou no único cômodo da árvore, que era um quarto simples, com uma única cama, onde a princesa dormia serenamente. “Isso é a chave? Um beijo?” sua própria voz ecoou em seus pensamentos.

Suas roupas secaram instantaneamente, quando adentrara a árvore. E qualquer um que a visse juraria ter visto uma estrela refletida ali.

A bailarina se aproximou lentamente da cama. A princesa estava metida num vestido bege e simples que descia até seus pés. O cabelo vermelho vivo emoldurando aquele rosto tão delicado. Um beijo era a outra chave.

Maisie respirou fundo. Um. Dois. Três. Pronto, seus lábios, agora, pressionavam suavemente os de Luna.

Antes que Maisie pudesse se afastar, Luna acordara, e passara os braços ao redor do pescoço da bailarina, tornando o selar de lábios num beijo um tanto sedento.

E a promessa de Luna se quebrara. O coração descongelando e sendo aquecido por aquela garotinha que a ensinara dançar. Mas não era como se isso importasse naquele momento. E Maisie soube que nunca roubara nada, aquele coração sempre lhe pertencera.

Era como se todas as estrelas do céu explodissem ao mesmo tempo e cada partícula fosse um diamante brilhando à luz do Sol. Aquilo eram amor e bravura. A princesa agora era oficialmente da bailarina, não tinha que provar mais nada a ninguém.

Então elas se separaram e sorriram, assim, como quem diz “sempre foi você e sempre vai ser”.

— Vamos sair daqui — Luna disse, levantando-se da cama.

— Como?

— O que as fadas lhe deram?

— Um pedaço do poema.

Luna sorriu e puxou o colar de diamantes do pescoço de Maisie. Segurou a mão da garota enquanto apertava um dos diamantes de murmurava a última parte do poema: “E que o seu amor lhe encontrasse, para que seu mundo despertasse”.

De repente tudo começou a girar, mas antes de desaparecerem totalmente do lago, Maisie teve um vislumbre de Lucian sendo arrastado por uma sereia.

E logo estavam no castelo.

E todos as receberam com uma festa. Asher e Kyle dançaram com as garotas, mas sabiam que uma pertencia à outra.

Enquanto todos os convidados se divertiam no salão, Luna e Maisie fugiram para o jardim do palácio.

Elas olharam para o céu, as estrelas e a Lua observavam-nas e, elas poderiam jurar terem ouvido uma voz doce dizer “Vocês conquistaram minhas estrelas” seguida por uma risadinha.

— Obrigada por ir me buscar.

— Ah, não foi nada. Eu só tive que cortar o cabelo, me vestir de homem, passar fome, frio, medo, montar um dragão, ir à Lua, nada de mais, sabe?

— Besta.

E viveram felizes para sempre.

FIM!

Notas finais
Comentários são sempre bem-vindos. Beijos.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!