Sala 7

6 Capítulo 5 - Criaturas Sombrias


— Ela não sabe o que diz! — Ralhou o homem.

Dei de ombros. Pelo canto dos olhos vi Adam olhando para todas as direções, menos para Elias. Tive vontade de rir, mas me lembrei que estava prestes a embarcar numa missão suicida, e pior, ainda estava arrastando meu melhor amigo comigo. O quão desastroso isso seria?

— Isso é um insulto.... Ela nem deveria saber sobre nós... — Continuou.

Adam e eu cruzamos os braços em frente ao peito esperando ansiosamente pelo momento que ele pararia de falar. Seu discurso passava de meia hora.

Pegamos o ônibus até o shopping logo que saímos da minha casa, tentei continuar brava com Adam, mas era impossível. A medida que íamos nos aproximando da sala do Sr. Esquisito os calafrios, antes apenas na minha nuca, espalhavam-se pela minha espinha. O pobre Adam estava ficando verde e suas mãos tremiam ligeiramente, mas continuou ao meu lado. Eu admirava sua coragem. Quando chegamos fomos levados de volta para a temida Sala 7. O que antes parecia apenas mais uma sala de cinema comum, agora havia se tornado algo muito mais intenso e sinistro, talvez até um pouco sagrado. Agora escutávamos em silêncio enquanto o homem surtava após eu ter lhe contado da minha “conversa” com a minha mãe, deixando de lado o fato de que ela preferia me mandar para Rússia do que me ver de volta onde eu estava naquele momento.

— Podemos pular para a parte em que você nos instrui e nós caímos fora? — Perguntei num tom monótono, encarando minhas cutículas horríveis. Mal sabia ele que por dentro tremia a ponto de convulsionar.

Ele me lançou um olhar fulminante e ajeitou as mãos atrás das costas antes de responder com a voz como um trovão.

— Conseguiu o anel, filha de Camir?

Ergui a mão esquerda, exibindo o anel opaco.

— Bom. — Assentiu. — Não fale com ninguém, não olhe para ninguém e permaneça o mais invisível que puder. Tudo o que a senhorita tem de fazer é perambular de dimensão para dimensão até receber algum sinal vindo do anel, você vai saber quando estiver no caminho certo. — Ele olhou para Adam, que se encolheu imediatamente. — A presença dele não é aconselhável.

Adam abriu a boca para protestar, mas o calei com um apertão na mão.

— Ele vai. — Garanti, com o nariz empinado.

Elias deu de ombros e suspirou.

— Passe brevemente pelas dimensões e... Evite o vácuo. — Instruiu com um pequeno sorriso frio no final.

— O que é o vá...

Com um movimento dos dedos, uma fresta se abriu na tela de cinema rodando como um furacão, nos sugando para dentro.

Primeiro senti o baque surdo da minha bunda se chocando contra o chão, então o barulho ensurdecedor de uma buzina de carro e uma luz cegante mirada diretamente nos meus olhos. Gritei e me arrastei para trás, ainda sem enxergar. Outra buzina e um vento quente passando por mim. Quando já não conseguia mais contar quantas buzinas haviam, fui puxada para trás bruscamente no momento em que ouvi o derrapar de rodas e, finalmente pude ver, alguns carros colidindo. Ouvia o martelar do meu coração nos meus ouvidos enquanto corria até o final da ponte, não exatamente indo para algum lugar. Meu estômago parecia estar querendo pôr para fora as coxinhas que eu comi mais cedo e eu estava quase cedendo ao peso dos meus pés, que pareciam carregados de chumbo. Ainda estava desorientada por causa da viagem – se é que dá para chamar isso de viagem —, tanto que demorei alguns minutos para notar que eu estava ensopada. Caia uma torrente de água do céu negro. Ao passo que estávamos prestes a chegar ao fim da ponte, corria com a cabeça jogada para trás para observar a ponte tão familiar e ao mesmo tempo estranha. Ponte de aço suspensa por cabos e duas gigantescas torres de suporte. Só notei que tinha parado de correr quando senti mão masculinas me segurarem gentilmente pelo braço. Agora eu encarava um rio logo abaixo da ponte, os vincos na minha testa se relaxando quando finalmente compreendi o cenário em que me encontrava.

— Estamos em New York. — A voz que verbalizou meus pensamentos não saíra da minha boca.

Assenti, ainda com a boca ligeiramente aberta como uma gaveta enferrujada que se recusa a se fechar. As luzes da ponte do Brooklyn refletiam no East River tão majestosamente que tive vontade de chorar. Escorreguei minha mão até a de Adam e entrelacei nossos dedos dando um aperto firme. Naquele momento nada mais importava; nem a chuva – agora fraca – nos ensopando, nem o leve vento gelado que poderia nos dar um resfriado, nem o caos devido a batida dos carros…. Até eu ouvir uma voz, como um relâmpago nos alcançar.

— Ei, seus moleques! — Gritava um motorista furioso vindo em nossa direção. O homem era rechonchudos e gritava outras palavras de baixo calão enquanto corria para nos alcançar como um pinguim. Ele agitava nas mãos gordinhas o que parecia ser um retrovisor de carro.

Adam e eu trocamos olhares divertidos e voltamos a correr para longe da ponte, para um destino incerto.

Não me pergunte como chegamos ao Central Park vindos do Brooklyn. Naquele momento éramos movidos pela excitação de estar na cidade dos nossos sonhos, ao mesmo tempo movidos pelo medo de sermos assaltados ou assassinados, afinal, haviam loucos como esses em todos os lugares. A única certeza que eu tinha era que não estávamos mais no ano de 2017, pude dizer isso pelas vestes das pessoas que passavam por nós, modelo dos carros e outras coisas óbvias. Com a dose certa de inocência e determinação, conseguimos trocados para pegar o metrô para qualquer lugar com mais movimentação. Era tudo muito novo, incluindo o metrô, as pessoas, todas aquelas luzes brilhantes. Só fomos ter tempo de voltar para realidade quando nos sentamos no primeiro banco que avistamos. A chuva repentina molhou boa parte das nossas coisas dentro da mochila, mas o dinheiro estava a salvo, graças a Deus. Só percebi o quanto eu tremia quando Adam me envolveu com seus braços.

— Você fez de novo. — Resmungou.

Lancei lhe um olhar que dizia “Do que diabos você está falando?” e ele riu ao segurar meu queixo carinhosamente.

— Cantar. Você canta quando está assustada, ansiosa ou com medo. — Respondeu num tom casual.

O empurrei levemente com o ombro e sorri. Realmente não notei que estava cantando, mas sabia que tinha uma música presa na minha cabeça desde aquela manhã.

— We don't wanna be like them, we can make it 'till the end, — Cantou Adam com sua voz rouca por ter tomado tanta chuva.

— Nothing can come between — continuei. — You and I. — Cantamos juntos e fora de ordem, cada no seu tom e se exibindo de sua maneira, nossas vozes ecoando entre as árvores.

Um vento gelado balançou os galhos das árvores, que se chocaram uns contra os outros como se estivessem nos aplaudindo. Nossos olhos se encontraram e rimos como costumávamos fazer quando as coisas eram mais simples e tudo o que importava era quem ia ficar de goleiro no jogo de futebol do parquinho.

O farfalhar constante das folhas num local menos iluminado logo a frente me chamou a atenção, porque o vento tinha parado. Coloquei a mão bruscamente sobre a boca de Adam quando o mesmo fez menção de falar. Apontei com a cabeça para o local e ele assentiu. A partir desse momento até minha respiração tornou-se cautelosa a medida que nos levantávamos do banco já com a mochila nas costas e íamos nos afastando em silêncio absoluto, até Adam decidir que estava silencioso demais e tropeçar na lata de lixo quando caminhava de costas sem tirar os olhos de onde as folhas chacoalhavam sem parar. Cerrei os dentes para não gritar com ele ao ouvir o estrondo de metal contra metal. Uma silhueta incomum saiu detrás as árvores e caminhou com tamanha agilidade até nós, só dando tempo de ouvir a cabeça oca de Adam bater no chão. O agarrei pela camisa, ajudando-o a ficar de pé, mas a criatura com três cabeças nos alcançou. Tinha um porte médio, sua aparência se fazia letal com suas mandíbulas enormes das quais se penduravam fios verdes melequentos de saliva. Torci o nariz ao sentir seu cheiro podre de carne estragada, meias suadas, chulé e todo o lixo mais tóxico do mundo junto num só lugar.

— É um demônio Hydra, Adam. Levanta! CORRE, CORRE. — Gritei puxando-o com força pelo braço para longe do demônio.

Eu sabia tudo sobre aqueles demônios, como uma boa fã totalmente obcecada, é claro. Sua saliva era venenosa e queimava quando entrava em contato com a pele. Nossa vantagem era que ele era cego, a desvantagem que não precisava enxergar sendo que ouvia perfeitamente bem e tinha o olfato de um lobo. Nossas chances eram quase inexistentes.

Fui empurrada para a esquerda pelo meu amigo grosso e rolei uma pequena colina abaixo por alguns metros de grama, terra e sujeita até cair em um pequeno lago mal iluminado. Já não me importava mais se estava molhada de novo, mas a atitude de Adam me surpreendeu. Mesmo estando chocada com seu surto repentino de inteligência, dei um beliscão em sua barriga por cima da camisa molhada. A água não passava da altura dos meus seios, mas ficamos abaixados para despistar.

Não durou muito tempo até o maldito nos farejar e descer até o lago em busca de comida fresca. Só não sabia por que se importava com meros mundanos. Correr dentro da água era difícil, ainda mais com Adam dando gritinhos apavorados a cada três segundos. Balancei os braços dentro da água empurrando-a para trás, dando braçadas, para tentar me mover mais rápido. Adam imitou meus movimentos e conseguimos algum progresso com o monstro sibilando e babando veneno logo atrás de nós.

Um brilho tão forte quanto o da lua na outra margem do lago chamou minha atenção. Ele movia-se ligeiramente.

— Aquilo é um sabre de luz? — Perguntou Adam com a voz trêmula.

Revirei os olhos ao ouvir a pergunta daquela anta, nem me incomodando em responder. Ao alcançar a margem fui puxada para fora da água por mãos fortes e firmes. Cai no chão repleto de folhas mortas com a respiração ofegante, enquanto o homem portando uma lâmina Serafim entrava no lago. Apoiei-me com os cotovelos no chão e levantei a cabeça afim de observar o que estava acontecendo. Meu melhor amigo caiu ao meu lado como um saco de batatas e ergueu o polegar para mim com uma expressão irritada no rosto.

— Valeu pela ajuda. — Ralhou antes de cair de costas.

Ignorei o garoto ao meu lado e me concentrei no barulho constante de água sendo remexida como resultado dos movimentos habilidosos do garoto. Ele brandia a espada flanqueando o demônio e o golpeou em uma das cabeças. A pouca luz me impedia de enxergar quem era o Caçador de Sombras, tudo o que sabia era que ele era realmente bom. Jogou-se para trás na água e ficou imerso por alguns segundos confundindo o monstro burro, emergiu atrás da criatura e o chutou, logo cravando-lhe a lâmina na cabeça do centro. O monstro guinchou como um porco e se desfez.

O rapaz permaneceu parado por alguns segundos antes de voltar para onde estávamos. Sua lâmina estava limpa pela água do lago, mas ele pingava da cabeça aos pés como nós.

— Da próxima vez escolham um local melhor para namorar! — Esbravejou antes passar bruscamente entre Adam e eu, caminhando apressadamente para longe em passos arrastados.

Antes que pudesse notar já estava de pé e correndo atrás dele, quase tropeçando nos meus próprios pés.

— Ei! — Chamei ao alcançá-lo. Peguei em seu braço e o fiz virar-se de frente para mim para que pudesse vê-lo.

Seus cabelos eram negros e os olhos azuis opacos, os lábios juntos numa linha fina e nariz empinado. Expressão de superioridade. Mesmo assim conseguiu arrancar de mim um suspiro e uma vontade louca de abraçá-lo, mas não o fiz.

— Alec Lightwood — Minha voz saiu como um suspiro. — O que faz aqui tão tarde da noite sozinho? — Foi uma pergunta estúpida, eu sei. Mas foi meu primeiro instinto.

Era raro vê-lo sem Jace ou Isabelle por perto. Havia algo errado.

Adam já estava do meu lado protetoramente. Alec franziu a testa e fez cara de espanto, como se eu tivesse lhe desferido um soco.

— De onde me conhece? — Perguntou quase num sussurro. — Não, espera... — Falou rapidamente alternando o olhar de mim para Adam. — Quem são vocês? — Apontava o dedo para nós enquanto mantinha a outra mão segurando a lâmina serafim pelo cabo firmemente, como se fosse usá-la a qualquer minuto.

— Como assim não se lembra? Aquela noite foi inesquecível para mim, achei que se lembraria! — Respondeu Adam com a voz falsamente indignada e as mãos na cintura. Ele não perdia a chance de atuar.

Senti todo meu sangue deixar meu corpo. Eu era um fantasma. Minha boca se formando num O perfeito enquanto Alec se dava conta das palavras de Adam. Coloquei o menino para trás de mim rapidamente, ficando entre os dois, e balancei a cabeça em negativa repetidamente.

— Ele quis dizer que nos conhecemos no Pandemonium. — Corrigi. — Ou acho que foi no Taki's, tenho uma memória péssima. — Dei de ombros soltando uma risada nervosa.

O garoto nos encarava como se fossemos uma coisa gosmenta e de outro mundo que ele encontrou grudada na sola de suas botas.

— Quem são vocês? — Dessa vez seu tom era sério.

Eu precisava da ajuda dele e todos que eu pudesse achar para me levar até meu pai, mesmo estando ciente de que não poderia me misturar com os personagens. Sabia que cada mundo tinha suas próprias batalhas para lutar, principalmente agora que estava enfestado com o Vírus do Portal. Senti o anel em meu dedo formigar. Mordi o lábio inferior para pensar numa resposta rápida e ela surgiu ao mesmo tempo que a temperatura do local parecia ter caído bruscamente. Foi tão repentino que até Alec pareceu estar confuso. Me abracei e esfreguei as mãos nos braços para aquecer-me enquanto varria o local com os olhos cautelosamente da mesma maneira que os outros garotos.

— Vocês estão fazendo isso? — Alec perguntou, fumaça saindo de sua boca por causa do frio.

— Claro que não, idiota. — Adam retrucou, indignado.

Antes que começassem uma discussão avistei sombras voando pelo céu noturno, cobrindo o brilho da lua, pareciam fantasmas negros e macabros. As criaturas vinham em direção ao Central Park. Pareciam estar envolvidas em mantos esfarrapados.

Tive vontade de chorar e correr de volta para os braços da minha mãe. O que diabos eu tinha na cabeça? Por que fui me meter em toda essa confusão? Era loucura. Eu nunca acharia meu pai e ainda seria a culpada pela morte de Adam. Encolhi-me ainda abraçando a mim mesma. Adam saiu do estado de choque e gritou para que corrêssemos.

— Por aqui! — Indicou o Caçador de Sombras.

O seguimos sem hesitação, afinal, quem além de um Caçador de Sombras poderia nos manter seguros?