Sala 7
9 Capítulo 8 - Pedras no Caminho
Apoiei a cabeça na borda da banheira enquanto outra lágrima escorria pelas minhas bochechas, como se eu já não estivesse encharcada o suficiente. Funguei, limpando as lágrimas com as costas das mãos enquanto sentia o olhar repreensivo de Magnus sobre mim. A torneira gotejava a cada minuto, fazendo um barulho agudo que ecoava pelo banheiro, ou talvez fosse só minha audição super aguçada e… As orelhas elficas. Magnus brilhava. Literalmente. Ele passara um creme para pele dourado e brilhante, aquilo era perturbador. O homem ajeitou os cabelos em frente ao espelho enorme pendurado na parede de seu banheiro luxuoso e voltou a me encarar, juntando as mãos em frente ao corpo.
— Acabou? — Perguntou.
— Escuta, se você não percebeu, o meu dia está indo muito mal e eu tenho o direito de chorar por ter perdido minhas pernas! — Gritei, como uma criança mimada.
Ele olhou para suas unhas, então me olhou e balançou a cabeça em reprovação, com os lábios franzidos.
— Você trouxe criaturas desconhecidas para Nova York, invadiu minha casa e só sabe mentir. Como acha que eu me sinto? — Retrucou. — E aliás, você ganhou uma linda cauda em tons de azul em troca, pare de reclamar! — Completou, apontando com as mãos para onde costumava ficar minhas duas pernas.
Já tinha perdido as contas de quantas vezes nas últimas horas disse mentalmente o quanto eu estava arrependida de ter atravessado aquele maldito portal.
Desde que o hipogrifo pisoteara todo o carro de Magnus, era impossível adentrá-lo sem ser esmagado. Eu, fazendo uso de minha mente brilhante, sugeri que voltássemos para casa do feiticeiro montados na criatura, então, aproximei-me da mesma com cuidado, olhando em seus olhos e, lentamente, comecei a me curvar numa reverência. Apesar de estar hesitante, a criatura repetiu o gesto e, minutos mais tarde, sobrevoávamos a Times Square. A sensação do vento gelado em meus cabelos clareou minhas ideais, foi a sensação mais maravilhosa que senti na vida… Até eu sentir um formigamento incomum nas pernas, das pontas dos dedos até a cintura, a sensação aumentando no ritmo da batida do meu coração. Foi questão de segundos e eu me vi caindo, atravessando as nuvens como fumaça e indo em direção ao chão repleto de pequenos humanos.
— Aresto Momentum! — Pronunciou uma voz masculina, de origem desconhecida.
Parei repentinamente há alguns centímetros do chão, para depois cair de cara e ouvir por último, antes de apagar, exclamações surpresas de Nova Iorquinos.
Você pode dizer que seu dia foi ruim quando você está atrasada para ir para escola e mancha seu uniforme com suco de uva. Pode dizer que seu dia foi péssimo quando você é demitida do trabalho. Pode dizer que seu dia foi um pesadelo quando descobre que seu marido está te traindo. No meu caso, não há adjetivos o suficiente quando você vira uma MALDITA SEREIA voadora no meio da Times Square.
Dá para imaginar a sensação de voar em um hipogrifo com um feiticeiro e seu melhor amigo atrás de você e, de repente, suas pernas se transformarem numa cauda enorme, escamosa, bifurcada e com cinquenta tons de azul?
— Eu não sei porque isso está acontecendo. Não entendo! — Murmurei. — Você tem que tentar algum feitiço, Magnus. — Choraminguei.
— Vai me contar a verdade? — Perguntou.
— Isso não é uma negociação, Bane. — Suspirei. — Mas eu vou te contar o máximo que posso, apenas porque preciso de sua ajuda. — Recostei-me no enorme espaço cheio d'água e fiz um gesto indicando que se sentasse.
Apesar de a história toda ser insana, o homem apenas escutou, sem questionar. Contei-lhe sobre o portal, ocultando a maior parte das informações e modificando outras, contei tudo o que sabia sobre seu passado e o passado de todos os outros, sem mencionar sobre o futuro. Não pude contar toda a verdade, o portal ficou apenas como uma espécie de ferramenta que separava os mundos, que havia coisas que não deveriam ser misturadas (Tipo Acampamento Meio-Sangue e Acampamento Júpiter) ou os danos seriam irreversíveis, por isso existia os Guardiões dos Portais, como meu pai. A história do meu pai não foi ocultada, não foi necessário.
— E aquele tal de hipogrifo veio de outro mundo? — Perguntou.
— Sim. — Respondi, mordendo o interior da bochecha. — Foi por causa do Vírus que se espalhou pelo portal. Não sei exatamente o que está havendo, só sei que coisas que não deveriam acontecer estão acontecendo e fragmentos de outros mundos estão entrando nesse. Adam e eu precisamos seguir em frente e ver a extensão do estrago. — Rodava o anel da minha mãe no dedo inconscientemente enquanto falava. — Independente do que aconteça, as coisas só voltarão ao normal quando eu recuperar meu pai.
— Suponho que não saiba onde ele está.
Balancei a cabeça negativamente em resposta.
— Ninguém sabe. Essa é minha missão. O anel só funciona comigo, por causa da nossa conexão, então só eu posso encontrá-lo. — Dei de ombros, sorrindo pesarosa.
Magnus soltou um suspiro alto enquanto fitava a rua do lado de fora da janela de vidro fechada logo acima da minha cabeça. A campainha tocou. Ele pareceu não notar. Pigarreei ao mesmo tempo que a campainha tocou novamente. Levantando-se rapidamente, passou as mãos pelas vestes antes de se virar para mim.
— Tenho um compromisso agora, espero que não se importe. — Avisou.
— Tudo bem. Adam já deve estar chegando para me fazer companhia. — Dei de ombros.
— Não acho que o garoto vá chegar tão cedo, se quer saber. — Murmurou.
— O que quer dizer? — Involuntariamente, minha cauda enorme se elevou e bateu na água, respingando em todo lugar, como se correspondesse meus sentimentos.
— Ele e Isabelle estão cuidando da criatura no Instituto, Aquamarine. — Respondeu, limpando a água que escorria do seu cabelo para o rosto. — Muitas coisas podem acontecer durante esse tempo, sabe. Não esperaria por ele, se fosse você. — Após dar uma piscadela, saiu do local antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa.
Não deveria ter permitido que os Lightwood levassem o hipogrifo para o Instituto, muito menos que Adam acompanhasse. A sugestão veio de Isabelle, garantindo que seria seguro, já que Maryse e Robert estavam em Idris. Jace não gostou da ideia. Entretanto, meu melhor amigo tinha razão quando disse que era o único, além de mim, que sabia tudo sobre o animal mágico, e que, estando nas condições em que me encontrava, eu não poderia acompanhá-los. Deveria saber que Izzy estava tramando algo. Deveria ter feito aquilo caber dentro do apartamento. E se a garantia de Magnus de que nós éramos do bem não valesse de nada para eles? E se machucassem Adam?
E agora nós tínhamos mais um problema adicionado à equação; quem executou o feitiço que me impediu de ser espatifada no chão? E como diabos eu virei uma sereia? Fiquei repetindo a voz na minha cabeça, mas não tocou um sino. Tudo o que sabia era que tinha criaturas de outros mundos vindo para esse, incluindo um bruxo. Não dava nem tempo de resolver um problema antes que outro aparecesse. Aposto que essas pedras eram só o começo do que eu teria que enfrentar no caminho até meu pai.
Bati as mãos na água como uma criança emburrada, feliz em ver o chão sendo inundado. Quando parei, escorreguei minha bunda escamosa pelo chão de mármore da banheira até estar imersa da cabeça aos pés… ou cauda, tanto faz. Debaixo d'água tudo era silencioso, pacífico. Sem precisar levantar para tomar fôlego, quase desejei que pudesse ser jogada no oceano e ficar por lá até o fim dos meus dias, sem toda a loucura em que eu havia me metido. Passos abafados interromperam bruscamente meu momento de paz, assim como o ronco do meu estômago. Apoiei os cotovelos nas bordas e levantei a cabeça, já a espera de alguém no local, mas não havia ninguém. Os passos vinham da sala de estar. Quase me esqueci da super audição de sereia.
— Ele é só um amigo meu, querida! Só vamos tomar um chá. Gostaria que o conhecesse, só isso. — Disse a mulher, uma voz calma, acolhedora.
— Não pode ser outro dia, mãe? Eu tenho um compromisso com o Simon. — Explicou a outra voz, contrariada.
Mais alguns passos. Uma terceira pessoa chegara na sala. Mordi os lábios com força, prevendo que alguma merda estava prestes a acontecer, mas ainda não estava acreditando. Louças sendo remexidas, cheiro de canela.
— Como vai, Clary? — Perguntou o feiticeiro.
Não. Não. Não. Não. Não. Usando ambas as mãos, dei impulso para cima e joguei o corpo para frente, me espatifando no chão fora da banheira. Demorei alguns segundos para me recompor do choque contra o chão gelado, mas consegui me mover para frente usando as mãos. Minha cauda não parava de se debater sem motivo, impedindo minha chegada até a porta. Chá? Eu tinha que impedir o que estava prestes a acontecer!
— Se eu sobreviver a isso, juro que nunca mais quero saber de peixe! — Murmurei para mim mesma.
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