Salém

1 O Infante e a Donzela


SALÉM, MASSACHUSETS, 1692

Pela floresta de árvores frondosas, nas entranhas de Essex, um grupo de homens e mulheres caminhavam com tochas e armas rumo ao interior da natureza. O coro uníssono era um cântico religioso que, supostamente, espantava espíritos malignos, inclusive as famigeradas bruxas. A população, bastante espiritualista, temia que a cidade fosse amaldiçoada por Satanás ao permitir que degenerados convivessem com os humanos.

Despreocupados, os membros do clã Montgomery viviam em paz na natureza, sem perturbarem a vida na cidade. Eram bruxas e bruxos da floresta, cerca de 25 membros de uma mesma família. Formaram uma comunidade pequena com sete casebres de madeira. Viviam da mais simploriedade vida no campo, haja vista não se arriscariam perturbar os humanos.

Oriundos de uma terra distante chamada Gaia, eles sequer cogitavam retornar. A Condessa herdeira do trono real era uma tirana implacável que desde sempre odiava os Montgomery.

Um "pai da mata" com sua barba espessa e assemelhando a um caipira, correu ofegante até a comunidade para avisar sobre a invasão de Salém. Entretanto, foi alvejado pelo tiro de uma mosquete e caiu morto. A população encurralou todo o clã, sem a possibilidade de escapatória.

Um missionário dissidente da igreja católica pregava a Palavra dentro de um casa quando percebeu a invasão. A família era composta de pai, mãe, filha criança e uma adolescente que era uma prima órfã.

— Vocês estão presos pela lei e ordem de Essex que condena bruxaria à fogueira — falou um oficial fardado e portando uma mosquete.

As bruxas e bruxos tentaram argumentar que não haviam feito nada, mas o povo ficou irredutível e queria porque queria a punição imediata de todos.

— Por favor, cuide de nossas filhas, senhor missionário — pediu a mãe.

As duas garotas abraçaram os pais. O missionário assentiu. Homens armados invadiram a casa e viram o padre.

— Prenda-nos. Sequestramos os três para fazermos magia negra — mentiu o homem.

Apenas o padre e as duas garotas de 8 e 14 anos respectivamente ficaram livres.

Como foram expulsos de Gaia pela Condessa, os poderes das bruxas de Salém foram reduzidos a pouca coisa como criar poções medicinais ou ler pensamentos alheios. Poderes como telecinese ou pirocinese, por exemplo, foram selados pelo Tratado de Netherland. Assim, todos os bruxos do clã foram presos e julgados na corte distrital do condado de Essex.

As 22 pessoas foram julgadas por bruxaria e condenadas à morte pela legião Hunter, caçadores de bruxas. As estacas foram postas no centro da praça, vistas por centenas de moradores. Cada um do clã foi levado para cada estaca.

— Morte às bruxas de Salém!

Os Hunter amarraram os condenados nas estacas e lançaram fogo na lenha. Em minutos, os gritos de dor e desespero soavam por toda a cidade.

O padre abraçou as duas garotas na paróquia da cidade enquanto a execução prosseguia.

Desirée abriu os olhos, transpirando por causa do pesadelo que teve. As lembranças do seu povo nunca foram esquecidas.

— Dona, você está bem? — indagou um jovem atlético de 20 anos.

Ela assentiu, levantando-se da cama que há pouco foi usada para o sexo. Vestiu sua roupa e utilizou seu poder para fazer o jovem atletista adormecer e esquecer a noite anterior.

— Tenha bons sonhos, bebê.

SIDNEY, AUSTRÁLIA, 2018

Olhou-se no espelho para pentear suas mechas onduladas e loiras. Na saída do hotel, sequer foi percebida pelas pessoas graças ao feitiço da invisibilidade.

— Teve outro sonho da sua infância? — arguiu uma morena enquanto tomava café num restaurante.

— Está cada vez mais frequente e perturbador. Afrodine, amiga, temo que isso seja um mau sinal de algo vindouro.

A súcubo pediu para a colega se acalmar e não pensar nessa possibilidade. O garçom trouxe a nota com o preço do café quando sentiu um forte tesão ao chegar perto da morena. Desirée pediu para a amiga parar com a provocação.

— Você não tem jeito mesmo. Ele quase teve um orgasmo ali mesmo. — Dirigia um carro roubado.

— Sou uma gênio muito geniosa. Esqueceu que me alimento dos sonhos eróticos dos homens? E não vá pensando que só porque fiz amizade com aquele Pedro que eu virei santinha.

— Sei. Escuta, próxima semana já é a convenção das bruxas. Melhor estar preparada, porque a megera da Condessa vai estar lá.

Elas pararam no sinal. Um carro preto encostou paralelo ao delas, homens saíram com pistolas e começaram a atirar. Alvejaram centenas de vezes e logo foram embora.

— O que foi aquilo? — indagou Afrodine.

— Não sei. Parece que foi encomendado — respondeu a loira. Ela usou o teletransporte para escaparem dos tiros. Desirée levitava no céu com a sua amiga e foram voando para o caminho em que o carro tomou.

Os quatro integrantes daquele sedan entraram na garagem subterrânea de um prédio com três andares.

— Que foi? Vamos.

— Não dá. Há um campo de força que me impede de entrar.

— Você é a Suprema das bruxas. Não as decepcione!

Outro poder que Montgomery desfrutava era da audição aguçada. Conseguiu ouvir ruídos, sussurros, burburinhos, falas baixas, diálogos.

— O que falaram?

— Quieta! Eles estão falando de algo relacionado a Salém... Agora falam sobre o Cetro do Olimpo e o Bracelete do Nilo.

— Os dois objetos que ainda estão atrás. Não encontrei o Anel de Nibelungo, ou seja, estão um passo à nossa frente.

Para a bruxa suprema, era uma questão de tempo para forças corruptas se unirem para acabar com as bruxas ou quaisquer seres não-humanos da face da Terra.

...

WASHINGTON D.C

Repórteres do mundo todo ficaram em frente ao hospital militar de Washington a fim de saberem o estado de saúde do presidente William Bates, vítima de um atentado a bala quando dava coletiva de imprensa.

Uma limusine preta entrou no hospital, saindo dela um poderoso financiador de campanha do presidente democrata.

— Não, já não aguento mais sopa — resmungou o bigodudo para a esposa.

— Duas semanas atrás e quase tivemos uma segunda morte do presidente desde o Kennedy. Agora está forte como um urso e reclamando da comida.

Um militar bateu à porta para informar a visita do melhor amigo de Bates.

— Senhor presidente, o senhor Rutherford acaba de chegar.

— Peça-o para entrar.

O empresário entrou no recinto com toda a intimidade que possuía com o casal Bates. Cumprimentou Constance, a primeira-dama, e logo seu amigo de longa data, William.

— Como vai, Bill? Soube pela Constance que sua saúde é de ferro. Típico do homem que conheci na universidade.

— Eu quero voltar logo para o Salão Oval e trabalhar, mas o médico só dará alta em dois dias.

— Ele não entende que foi atingido na perna. Milímetros à direita poderia ter atingido a veia e matado-o — informou Constance.

Rutherford pediu a primeira-dama para sair um pouco a fim de poder conversar sobre negócios com o marido. A ruiva deixou os cavalheiros a sós.

— Que grande mulher dedicada. — Rutherford ajeitou seu óculos de grau no rosto. Ele passava dos quarenta anos, porém sua genética o beneficiava por parecer mais jovem.

— Não veio para falar de minha esposa. O que pretende?

O caucasiano sentou-se na poltrona, desabotoou o paletó e cruzou as pernas. Retirou um pendrive do bolso e jogou sobre o amigo.

— O que é isso?

— Uma cópia da imagem de uma das câmeras de vigilância do hotel Meridional. Aí mostra o atirador pouco antes de atingi-lo. O mais engraçado é que ele utilizou de magia negra para chegar perto sem que o serviço secreto detectasse.

William desdenhou Rutherford pela alegação constante de bruxaria no país. Aos olhos do presidente, a América era o lugar de liberdade religiosa, portanto não faria sentido perseguir um grupo minoritário de uma seita. Rutherford, porém, explicou que o atirador fazia parte da seita de bruxaria e que a filmagem nunca foi alterada.

— Essa é apenas uma cópia. Peça para darem a original e verá do que eu falo. A América um dia estará a mercê de poderes malévolos e a culpa será sua. Ou você acha que foi eleito por 271 delegados e 57 milhões de votos somente por progressistas? Você é da igreja católica, portanto milhões são cristãos católicos. Quer ver essa massa indignada e acabar com sua persectiva de reeleição? Pense nisso. — Encarou o presidente com seus olhos azuis por trás das lentes.

William resolveu olhar a gravação com cautela, contudo, não daria nenhuma resposta significativa.

Numa escola primária do Mississipi, a bela Joanna Bates ajudava as vítimas de um furacão recente que assolou a costa sudeste do país. A única da família Bates a comparecer por causa do atentado a tiro, ela era praticamente uma celebridade. As moças pediam para tirar selfie, os rapazes queriam ver sua beleza de mais perto.

O ginásio serviu como depósito dos alimentos para as vítimas.

— Muito obrigada, senhorita — agradeceu uma idosa.

— Foi um prazer atendê-la, senhora. Boa sorte.

O próximo da fila ficou em silêncio enquanto encarava a donzela à sua frente. Joanna notou a beleza do rapaz, seus olhos azuis extremamente chamativos e quase hipnotizantes. Estava calmo como se o desastre natural não tivesse abalado seu estado de espírito.

— Err... tome sua cesta básica. — Ela parou um instante quando viu que o jovem loiro havia dado um papelzinho na sua mão. Ele saiu da fila sem pegar a cesta.

A curiosidade da jovem Bates falou mais alto, precisando sair do trabalho voluntário e ir para onde o homem estava.

— Prazer em conhecê-la, senhorita — além de bonito, o moço era educado.

— Prazer. Você me chamou aqui pra quê?

— Pedir um favor.

— Posso falar com a minha acessora para te ajudar em alguma... — ele segurou sua mão, com os olhos pedindo clemência.

— Por favor, só você pode me ajudar. Antes de tudo, quero te pedir desculpas.

— Por quê?

Um golpe rápido e cirúrgico na nuca de Joanna fez com que ela desmaiasse no ato. O homem a segurou para não cair no chão.

— Ei, você! Solte-a — exclamou um dos seguranças.

O teto do ginásio foi totalmente destruído por uma força desconhecida. Ele aproveitou para segurar a jovem nos braços e sair sem ser percebido pelos seguranças.

Muitas pessoas foram esmagadas pelos escombros do teto do ginásio.

— Eu disse pra não ter feito aquilo, Anjula! — esbravejou uma bruxa gordinha sobre a vassoura.

— Fala sério, Madeleine. Se tá com pena desses humanos então leve-os para casa — replicou uma bruxa negra com longos cabelos em dreadlocks.

O rapaz passou pela porta de entrada da escola, aproveitando a multidão que também saía do ambiente. Desceu a escadaria da entrada, passou pelo gramado da frente até chegar no estacionamento dos carros. Colocou Joanna deitada atrás e dirigiu.

— Quem você está chamando de balofa, sua boca de caçapa?

— Você! Comendo demais vai acabar explodindo.

Madeleine e Anjula saíram no tapa no céu, perdendo um precioso tempo para elas mesmas. As nuvens escureceram repentinamente e um trovão as assustou.

— CHEGAAAA!!! Duas preguiçosas e incompetentes. A garota está fugindo! Se não trouxerem ela, juro que serão punidas!

— Sim, mamãe — disseram em uníssono.

Joanna acordou aos poucos. Tentando recobrar a consciência, ela se levantava no banco, mas caía por causa dos braços enfraquecidos. A única coisa que viu foi a silhueta do motorista do carro

Ambas as bruxas se aproximaram do carro na autoestrada.

— Olha, mamãe, bruxas — apontou um garoto. Logo os motoristas bateram uns nos outros.

— Droga. Saiam da frente! — buzinava ele.

As vassouras eram velozes o suficiente para alcançarem o carro numa velocidade de 80 quilômetros por hora. Anjula lançou um boneco de palha de vodu para cobrir o veículo, mas o loiro reduziu a velocidade e dobrou numa curva. Ambas bateram na placa perto do viaduto.

O carro dele entrou numa rua morta. Assim que parou, entrou com Joanna nos braços para dentro de uma fábrica abandonada. Por conta das fortes chuvas, o local estava inundado com água até o joelho.

— Espera!

— Não vai escapar!

Ele colocou um rosário sobre o corpo de Joanna e a jogou sobre a água. Quando a primeira-filha foi engolida pelo portal, ele pulou em seguida.

— Eles foram para Gaia. O que vamos dizer para a nossa mãe?

— Eu não sei, bolo fofo. Pior para ela que terá que enfrentar a Condessa Netherland.

O presidente olhava a filmagem da câmera de segurança num notebook. Um rapaz loiro suspeito dobrava o corredor, porém na outra câmera ele desaparecia. Pela posição das duas câmeras era impossível um ponto cego, porque uma terceira câmera no final do corredor registrava o que tinha abaixo da segunda. Não havia nenhum ponto cego, mas como explicava o fato do suspeito desaparecer em menos de um segundo?

Constance e os acessores entraram de uma vez só. O homem mais poderoso do mundo soube do desaparecimento da filha.

— Achem-na. Encontrem-na! — ordenou o supremo comandante.

Algo de estranho acontecia sob os olhos de Bates. Coisa boa não era.

Numa caverna desconhecida, Anjula e Madeleine foram algemadas perto da parede como forma de punição por sua incompetência. A matriarca apareceu entre as sombras.

— Eu não sabia que as duas eram tão inúteis — aproximou-se, revelando uma jovem mulher de cabelos pretos num penteado de trança única. Seus olhos azuis eram marcantes.

— A culpa é da orca. Se eu tivesse ido sozinha...

— Essa cabelo de fumo... ela é irritante!

— Anjula, meu bem. Você é uma boa bruxa vodu. Herdou 70% dos genes do seu pai, o ditador daquele país africano. Madeleine, meu neném. Seu pai era um Czar influente no império russo. Ambas possuem mais de uma centena de anos, suas famílias são oriundas de líderes mundiais, mas agem tolamente feito duas crianças mimadas — as unhas vermelhas pontiagudas da bruxa apertou o rosto de ambas. — Mamãe precisa dar uma lição nas filhotas ou não posso me chamar Lilith Montserrat Buckimganshire.

As suas filhas pediram clemência para não serem punidas. Lilith fez surgir um demônio por meio de magia negra. O monstro era uma sombra horrível que foi ganhando forma até virar um homem grande, pelo menos 2,3 metros, com cabeça de bode. O órgão sexual dele estava para fora, arrancando gritos de pavor das duas bruxas.

— Belchior é o meu mais novo bichinho de estimação. Oriundo da área governada por Belial, no inferno, ele costuma estuprar suas vítimas. Resolvi domá-lo com os meus poderes, e agora meu bichinho faz o que eu pedir. As duas não precisam temer pois são bruxas e vão sobreviver — desapareceu na penumbra da caverna.

Belchior soltou um berro apavorante e investiu com brutalidade contra as duas. Os gritos foram abafados pela chuva forte.

O vestido negro de Lilith fazia as plantas e animais morrerem se tocarem nele. Uma verdadeira bruxa maligna que era o completo oposto de Desirée.

— Eu esperava mais de você, Lilith. Deixar aquela menina sair ilesa foi um erro. Agora as bruxas de Salém terão um reforço por sua incompetência — dizia Rutherford pelo vídeo do celular da bruxa.

— Ora, estamos juntos nessa como parceiros, não como subordinada e patrão. Meça as suas palavras, Baron, porque posso enrolar a sua língua qualquer dia desses. — Ela ficou na beira do penhasco.

— Meus homens hoje quase mataram a Desirée, porém ela foi mais esperta e fugiu a tempo — Baron di Rutheford era chupado por alguém na cama. — Depois eu ligo.

Ele chegou ao orgasmo. O garoto de programa cuspiu o esperma na pia do banheiro e pediu a comissão. Baron se levantou nu, foi para a carteira e retirou quase mil dólares.

— Isso é muita generosidade, Baron.

— Vista-se e saia. — Costumeiramente usava óculos e cabelos penteados para trás. Contudo, Rutherford parecia ser mais novo sem as lentes e com os cabelos pretos bagunçados para frente.

O gigolô saiu imediatamente com o dinheiro que recebeu, deixando o empresário sozinho na cobertura do hotel.

...

SALÉM, MASSACHUSETS

A vila das bruxas era visitada por turistas e curiosos. A localidade virou atração turística e até ponto de encontro par estudiosos do mundo inteiro. As casas eram de madeira, negras e com telhados pontudos.

A escola das bruxas ficava no centro da praça do vilarejo. Jovens bruxas eram contactadas no mundo todo para estudarem as artes da magia. As professoras eram todas bruxas e a diretora, claro, era Desirée.

— Há quanto tempo, Desirée. Como foi as missões pelo mundo?

— Professora Witzel, tenho péssimas notícias. Temo que precisaremos agir antes do dia 31.

Crisântemo Witzel era uma bruxa da natureza que curava ferimentos somente de animais ou plantas. Seu jeito meigo e sua aparência baixa e tímida eram notáveis. Uma das melhores amigas da Suprema.

— Olha só quem apareceu. Pensei que não viria para o seu lar nunca mais — a bruxa desceu as escadas e deu um abraço na loira. A morena de cabelo branco era a professora de História.

— Donzel Lavínia, nunca que você vai se livrar de mim.

— Pois eu tenho algo para você fazer antes de subir ao seu quarto. Vamos à sua sala.

Uma patricinha loira ficou aguardando a diretora, sentada na cadeira e maquiando o rosto. A moça mostrava impaciência ao olhar a hora do celular.

— Sabe que não podemos abrigar uma garota dessa espécie aqui. Para isso existem as comunidades antros. Inclusive preciso falar com vocês duas sobre uma ilha.

— Eu sei, mas os pais dela são do Vale do Silício. Acho que ela é prima do Zuckerberg. Pagou um cheque de cinquenta mil só para se matricular.

Os olhos de Desirée virara cifrões ao saber da notícia. A matrícula era de dois mil dólares. Um valor que a loirinha pagou foi absurda de tão alta.

— Olá.

— Até que enfim alguém veio. Fiquei quase uma hora aguardando alguém resolver a minha situação.

Desirée se sentou à sua mesa e iniciou o processo para admitir a nova aluna.

— Sabe que aqui é uma escola para bruxas, não é? Por que veio?

— Bruxas são mutantes, mas com poderes mágicos. Já o meu caso é que me transformo num animal, por isso minha aptidão física aumenta. Eu descobri este lugar pela internet e pensei "deve ser uma escola para jovens superdotados como no X Men"... daí eu vim.

— Qual o seu nome e idade?

— Cordelia. Cordelia Melissines Schlesinger. Tenho 20 anos.

— Tudo bem. Vamos abrir uma exceção para você, e nem pense que é pelo dinheiro — cruzou os dedos. — Pode mostrar a sua antropomorfose?

Ela ficou com pelos brancos, focinho e bigode de gato. Sua forma híbrida era de uma gata branca.

— Eu virei uma bichana.

— Querida, você é uma antropomórfica. Humanos que se transformam em animais. Meses atrás eu visitei uma ilha com centenas de humanos com aparência animal. Até meu afilhado consegue se transformar em híbrido.

Cordelia sentiu-se mais aliviada e pediu para um dia ser levada até a ilha dos antros. Sabendo da merda que deu quando pessoas ricas visitaram aquele povoado no passado, negou a possibilidade para a riquinha.

— Não me peça isso. Se quiser eu te levo para a Sentinela do Sul. Quer?

— E que lugar é esse?

Montgomery assinou a papelada para a admissão da mutante na escola.

...

TERRA GAIA — LAR DOS HUMANOS ESPECIAIS.

Numa terra além da dimensão normal, existia um planeta chamado Gaia. Era o reflexo da Terra, portanto ficava no mesmo lugar que o planeta azul. Foguete nenhum conseguiria chegar, pois somente pelo portal de magia a passagem era possível.

Na floresta de sequóias, o jovem infante saiu do portal com Joanna nos braços. Ele encostou a moça no tronco da árvore, pegou lenha para fazer a fogueira. A moça acordou subitamente.

— Fica quieta.

— Tira a mão de mim! Sai de perto de mim! — ela alcançou uma pedra e jogou contra a cabeça dele.

— Não fiz nada contigo. Fique tranquila, senhorita — o sangue escorreu pela sua testa. — Eu salvei a sua vida.

—Onde estou?

— Você está longe da América, se isso serve como explicação. Acalme-se e me escute — uma flecha atingiu o tronco da árvore. Ele puxou a garota pelo braço e correram pela floresta.

— Dá pra me soltar?

— Quer ficar e morrer? Os berserkers são treinados para matar imediatamente. Eles já perceberam que uma intrusa da Terra apareceu em solo sagrado.

Espectros negros corriam pela floresta com arcos e flechas. A missão era matar os dois jovens que atravessaram o portal. Por conta da agilidade, eram como sombras, mas eram elfos ninjas de classe alta do governo da Condessa.

— Não dá mais. Sem saída — ela viu um penhasco com um rio abaixo.

O infante empurrou a donzela e pulou logo na sequência. A dupla caiu na água e foi arrastada pela correnteza. Os elfos-caçadores desistiram da caçada por ora.

O Rio Glendalle levou ambos por cerca de dois quilômetros do ponto em que pularam. Saíram da água.

— Seu cretino. Você me empurrou! — tentou bater nele, mas foi contida.

— Calma, senhorita. Não tínhamos mais tempo a perder. Eles iriam nos matar, fato. Podia pelo menos me agradecer já que salvei a sua vida duas vezes. Agora vamos, pois falta pouco para chegarmos à civilização.

— Odeio esse cara! E qual o seu nome?

Ele pediu para ela manter o silêncio durante a caminhada na floresta. Num lugar como aquele não podiam se tornar alvos fáceis.

— Estou cansada, com fome e com sede. Quero dormir — bateu nas costas dele. — Que foi?

— Chegamos. Aquela cidadezinha fica longe do reino da Condessa.

Ela correu atrás dele e viu cavalos puxando carruagens a vapor. Pessoas andando de carro com roupas do século XVIII, pessoas utilizando de tecnologia, mas agindo como no passado. As casas eram todas feitas de ferro.

— Isso é steampunk. Que massa. Em qual lugar da América nós estamos?

— Em nenhum lugar, senhorita. Estamos em Strelth, a cidade dos refugiados. A propósito, meu nome é Luuk.

...

Casa Branca

Os acessores do presidente Bates fizeram coletivas com a imprensa, contudo o próprio chefe não deu entrevistas. Chegou ao Salão Oval na noite do mesmo dia, e não esperou a alta médica. O diretor do FBI mostrou as filmagens do momento exato do desabamento da escola. Numa das filmagens dava para ver Joanna sendo carregada nos braços por um rapaz loiro que estava de costas.

— Espera um pouco. Esse rapaz... ele apareceu na outra gravação.

— O quê?

Bates colocou a filmagem do homem que desapareceu no corredor. A aparência batia, mas o rosto era imperceptível.

— Quem é esse homem?

— Não sei. Só sei que ele tentou me matar.

A silhueta de Luuk era a única coisa que eles possuíam.