Salém
9 Neve, Capa Vermelha e Presidente
Notas iniciais
DIAS ANTES...
O presidente dos EUA estava prestes a subir no palanque para um discurso de um comício. A única pessoa que acompanhou-o foi a primeira-dama.
— Está nervoso?
— Nem me fale. Dois anos de governo e ainda ajo como amador.
— Você consegue.
Os dois subiram ao palanque e logo começou o comício. As pessoas aplaudiram e bradaram. Nesse dia, o presidente Bates foi baleado na perna.
Voltando um pouco mais no tempo, em Gaia, Rutherford deu ordem para Luuk ir até o presidente e vigiá-lo de perto. Sem o consentimento do filho da Condessa, o rapaz levou uma pistola para proteção a si e ao presidente. No momento do discurso fora do púlpito, um tiro ocorreu no meio da multidão. Sniper, um dos mercenários da Hunter, atirou e acertou a perna do presidente. Luuk, um policial, conseguiu dar um tiro certeiro na arma do assassino. Sniper correu do meio da multidão e sumiu.
O jovem foi delatado por Sniper.
— Esse é o carinha que o senhor confiou, não é? — disse Skywalker.
— Calma, gente, calma. Vamos levar tudo isso para o lado bom. Uma coisa infalível em um bom plano é o bode expiatório — disse Rutherford.
O homem teve acesso às gravações das câmeras de vigiláncia e pediu para os feiticeiros usarem a sua magia ilusória para fazerem com que Luuk surgisse na filmagem como um bruxo e atirasse contra o presidente. Deu certo, e a filmagem alterada foi levada para o leito hospitalar de William pelo próprio Baron.
O plano B agora seria usar Bates para autorizar um decreto presidencial para perseguir as bruxas, mas com o desaparecimento de Joanna, ele sequer teve tempo para isso. Foi frustrante para Abigail que o seu marido tivesse retrocedido.
— Nem aquele seu plano idiota de usar o Thanatos como bode expiatório deu certo. William precisar morrer e sua irmã assumir a presidência.
— O que a senhora está pensando?
— Vamos vigiar de perto esse rapaz. Daqui a alguns dias teremos uma reunião secreta e anunciarei que ele fará parte do conselho. Você fará o papel de mentor desse garoto, daquele que o apoiará da decisão.
— Eu sempre o apoiei. Pena que ele seja o suposto traidor que tá trabalhando com a Lilith. Ele é...
— Você e sua tara por garotões.
Acreditando que Luuk era o traidor, os dois bolaram o plano para cercá-lo de todos os lados. Matar Joanna seria um teste de fidelidade enorme. Condessa pediu aos guardas para matá-la, crendo que ele sequer se moveria, mas quando ele se dispôs a fazer o serviço, sua disconfiança acabou.
— Ele não é o traidor.
A imperatriz de Gaia, porém, não sabia que Luuk era o filho de Desirée.
...
Em Salém, no dia das bruxas, os convidados para a convenção não paravam de chegar. Uma surpresa esse ano era a presença da família Schiarelli. Pedro e Marcela finalmente puderam conhecer a capital mundial das bruxas. Afrodine os viu chegar.
— Pensava que nunca mais a veria. Faz um ano que tudo aquilo aconteceu — falou Pedro.
— Marcela, querida, dê-me um abraço. Vem conhecer a minha residência.
— Uau. Desirée, você é rica. Olha o tamanho dessa mansão.
— Modéstia à parte, comprei o terreno há muito tempo com o preço relativamente barato. Mudando de assunto, pensei que o seu marido viesse.
— Ele está cuidando da reforma do salão de beleza.
Pedro, filho da bruxa Marcela, perguntou se já encontraram as três relíquias mágicas. Desirée e Afrodine se olharam.
— Temos o bracelete. Daqui ele nunca será roubado, mas inimigos já conquistaram o anel e estão atrás do cetro.
Pedro coçou a cabeça e suspirou. Lembrou que o Cetro do Olimpo estava protegido com a sua família e achou lastimável que ele havia sido transportado para tão longe.
— Aquele Absalom foi um pé no saco. Não acredito que antes de tudo isso o cetro estava guardado no escritório do meu pai.
— Não se preocupe. Já enviamos pessoas responsáveis para ir atrás dele — afirmou a súcubo.
Helicópteros, carros blindados e motos chegaram na vila de Salém. Um dos oficiais saiu do carro se identificando como agente Smith e que estava lá em nome do FBI. Desirée pediu um documento de identificação e descobriu que o DOJ (departamento de justiça) havia mandado os agentes para lá.
— O que significa tudo isso? — perguntou Afrodine.
— Condessa mexendo os seus pauzinhos.

ARÁBIA SAUDITA
O grupo de Younnan pegou um avião de médio porte e pousou num aeroporto clandestino da cidade de Farrakhan. Pegaram carros jipes e entraram na cidade.
A população vivia em casas de alvenaria com lajes. Mulheres em seus hijabs, homens vestindo túnicas e camelos espalhados pela rua.
— O palácio do sultão fica perto do Mar Vermelho, num tipo de oásis artificial. Tem um lago e muitos seguranças — disse Malik.
Cordelia estava visivelmente desconfortável em solo estrangeiro. Younnan, no entanto, admirava estar presenciando a cultura árabe.
— Temos que ficar numa posição não muito vulnerável — disse Linda.
Os quatro pararam longe dos muros do palácio. Pagaram a um morador, dono de uma casa com três andares, para terem acesso à janela do quarto e assim verem de camarote a entrada do palácio.
— E agora? — perguntou Younnan.
— Vamos esperar — falou Linda na luneta.
Dois jipes entraram pelo portão principal e pararam em frente a entrada. Dois homens armados eram os guardas do sultão e pediram para que as pessoas ali saíssem. No jipe da frente, cinco homens usando ternos vermelhos apareceram, mostraram as armas e foram liberados. No de trás, dois com os ternos vermelhos, dois homenzarrões usando roupas militares e uma pessoa pequena usando uma capa vermelha.
— Isso não deveria acontecer. Há mais pessoas lá.
O grupo foi levado até as dependências do sultão. As meretrizes saíram do quarto antes do guarda chegar e anunciar uma visita.
— Ora, ora. Cinco décadas da minha vida e nunca pensei em negociar com uma criança.
— Eu não sou criança, apenas sou baixinha... né? — disse Loli, tirando o capuz vermelho da cabeça. Ela parecia uma bonequinha frágil ao lado dos seus guardas.
— A Condessa está enganada se pensa que darei o cetro feito na Grécia. Não tenho mais preço para vender uma coisa que não quero vender. E mesmo que uma oriental bonitinha como você se humilhasse, eu não darei.
Loli ficou parada, segurando uma cestinha de doces.
— O que quer?
— Vovozinha, que boca grande a senhora tem! Que mãos enormes a senhora tem! Que nariz grande a senhora tem!
— Do que está falando? Ficou louca? Retira essa corja da minha frente.
Loli deu um sorriso malicioso.
— Vovó, que olhos grandes você tem! Já sei, é pra me olhar melhor? — retirou um revólver de dentro da cesta e atirou contra o sultão. A bala atingiu o olho, atravessou e pegou na parede.
Os guardas pegaram as armas na tentativa de matar os convidados, mas os dois maiores paravam balas com seus corpos. Já o sultão não morreu, porque era um vampiro.
— Vagabunda! Eu vou te matar — duas asas de morcego surgiram em suas costas.
Nesse ínterim, Linda Locklear percebeu a atmosfera pesada e saltou da janela para a calçada. Younnan e Cordelia seguiram a bruxa e deixaram Malik para trás.
— Que foi?
— Younnan, escute os tiros. Os tiros! Isso não estava planejado para acontecer.
Ela deu um pulo alto no muro, seguida pelos dois híbridos. O trio passou pelo oásis particular e foram para a entrada principal. Os carros continuavam lá. Assim que entraram, viram a cabeça e o corpo do sultão separados caírem no salão.
Loli apareceu segurando o cetro mágico e viu os intrusos.
— Quem é você?
— Quem sou eu? Humm, uma menina muito bonita, né. Agora saiam da frente se não quiserem o mesmo fim daquele lá.
— Obrigue a gente! — esbravejou Younnan, assustando as duas do seu lado.
Loli riu da atitude do moreno e pediu para os sete guardas da Little Red Riding Hood para abatê-los. Os homens usaram armas de fogo.
Linda utilizou uma parede de chamas para bloquear as balas, Younnan atravessou o fogo e bateu em todos os guardas.
— Como isso é possível? Espera... você é uma bruxa? E vocês dois?
Cordelia se transformou em mulher gato. Younnan mostrou ser o homem lobo.
— Um lobo?! Então deve ser o cara que matou Zamba-sensei. Ele era tão bonito. Eu gostava dos pelos dele, branquinhos. Você, me venceria numa corrida?
Os dois guardas restantes soltaram bomba de fumaça e assim o trio de criminosos saíram correndo. Younnan foi na frente, Linda e Cordelia foram atrás.
Loli e seus lacaios correram entre os jipes, pularam o muro e foram pela direção da cidade. Younnan e as duas foram na sequência.
— Vamos ao ponto de encontro perto daqui.
— Sim, senhorita.
Eles correram pela pista, passando por cima dos veículos. Ao virarem a esquina, correram pela parede de uma residência — desafiando a gravidade —, pularam alto o bastante até ficarem em cima de uma carreta.
— Eles estão ali. Vem, Cordelia.
— Eu nunca fiz isso. Quero minha vida de luxo de volta!
Younnan pulou do terraço de uma casa até sobre o caminhão.
— Devolva o cetro — ele mostrava os dentes numa tentativa de intimidar.
— Haha isso não me assusta. Por que uma garota usando uma capa vermelha como eu teria medo de um lobinho como você? Pra chegar até mim você precisa enfrentar esses dois.
Os guardas caminharam para perto de Younnan e se transformaram. Viraram como homens lobos, mas algo um tanto diferente. Olhos vermelhos, garras maiores, boca salivando, pernas caninas.
— O que diabos são vocês?
— Eles são licantropos. Foram humanos amaldiçoados pelos feiticeiros da condessa. Digamos que você é um produto verdadeiro e os licantropos são os piratas, porém mais fortes. É uma pena ter conhecido o lobo pardo que matou Zamba-sensei nessas condições. Adeus.
Loli viu uma pessoa no meio da pista. O motorista freiou, mas Linda usou uma bola de fogo por debaixo da carreta para causar uma propulsão e assim fazer o veículo voar. Loli, os dois licantropos e Younnan voaram. O motorista foi salvo pela Linda que teletransportou.
— Vai ficar tudo bem.
— Linda.
— O que foi? — virou-se ao escutar a voz de Cordelia.
A loira enfiou um punhal no peito da bruxa, mais duas vezes. Linda tentou resistir, mas seu coração foi atingido e assim morreu.
— Mesmo não falando meu idioma, você é testemunha.
Com as suas garras afiadas, a gata cortou a garganta do motorista.
— Agora somos só eu e o meu futuro marido.
Enquanto isso, Loli e os dois licantropos enfrentavam Younnan no meio da pista, com labaredas de fogo ao redor. Um helicóptero apareceu e jogaram uma escada de corda para eles subirem.
— Foi bom te conhecer, lobinho.
Os dois monstros quebravam o maior pau com Younnan. Loli segurou na escada, mas esquivou quando viu um punhal ser lançado na sua direção. Caiu de volta para o chão e viu Cordelia ao lado do corpo de Linda.
Russell deu vários socos e chutes contra os lobisomens. Venceu e voltou a sua atenção ao cadáver de Linda.
— Meu Deus! O que aconteceu?
— Eu não sei. Acho que foi aquela garotinha.
— O cetro?
— Ela levou embora — o cetro estava escondido atrás dela. O objeto era retrátil, por isso cabia.
— Vamos achar uma porção de água. Voltaremos por Gaia. Desirée me deu instruções — disse o moreno ao segurar um rosário pequeno.
Ambos carregaram o corpo de Linda.
Enquanto isso, Loli estava no helicóptero. Matou o piloto, atravessando seu corpo com uma mão com garras afiadas, um braço cheio de pelos de lobo. O rosto dela permanecia oculto até voltar a ser humana e pilotar a aeronave.
...
Horas antes...
Uma frente fria atingiu a costa leste dos EUA, causando geadas. As estradas e quase tudo estava branco com a neve.
— Há tempos que não fico num lugar como este — falou Joanna dentro de um quarto de motel. — Acho que sequer eu fiquei.
— Você é a filha do presidente. É comum viver no luxo da Casa Branca — retrucou Luuk.
— Mas eu ficarei mais dois anos, com a reeleição talvez seis. Somos uma família de classe média... tirando a condessa. Mas não sou eu quem dirijo aquela maravilhosa BMW. Fala a verdade, você é rico?
Luuk suspirou. De fato era rico por causa da riqueza da sua mãe. Desirée viveu séculos e juntou riquezas com o passar do tempo.
— Cem milhões?
— Perguntei pra minha mãe há uns cinco anos e ela me disse esse valor. Hoje nem sei quanto nós temos de posse. O que eu sei que temos a mansão de Salém e o estábulo.
— Estábulo?! Não tinha percebido.
— Atrás da mansão temos uma área de vinte hectares. Basicamente nem vou lá, mas as bruxas que vão cavalgar em momentos de lazer.
Joanna não acreditou que o simples Luuk que conheceu em Gaia era um filhinho de mamãe. Ele, porém, não se considerava playboy ou coisa parecida. Afirmou ser um homem respeitável e que o seu sonho era ser capitão da polícia.
— Estou curiosa. Quero saber um pouco mais sobre você. Aff... essa neve não para de cair. O pior que tento ligar para o meu pai. Já sei! Vem cá — puxou o rapaz e mostrou uma loja Starbucks bem em frente. — Quer tomar café?
Vestidos em casacos, ambos atravessaram a pista e entraram na loja de cafés. Sentaram à mesa de madeira em um ambiente aconchegante. Pediram capuccino simples.
— Posso confessar uma coisa? No dia que o seu pai foi alvejado pelo tiro, eu estava lá. Não faça essa cara, eu sequer cogitei em atirar nele. Fui enviado pelo filho da condessa para vigiar seu pai, mas eu nunca imaginaria que um dos assassinos da Hunter fora mandado para matá-lo. Eu consegui impedir a morte do seu pai.
Ela segurou na mão dele e agradeceu por ser sincero e ter salvo seu pai. Luuk ficou um tanto vermelho com a reação repentina.
— Mas ainda tô chateada por aquilo em Gaia.
— Hehe... mesmo depois de descobrir toda a verdade?
— Preciso pegar os cafés.
Vinte minutos depois, Joanna retornou com os dois copos. Esbarrou num homem elegante que estava de saída. Este olhou para amoça e chamou atenção por usar uma máscara que cobria-lhe a boca. Enquanto isso, Luuk se abaixou e escondeu-se debaixo da mesa.
— De-desculpa, moço... — mesmo assim a moça não obteve resposta do esquisito. Ele foi embora.
— Ele já foi?
— Tá fazendo o que aí?
— Aquele é um dos subordinados da condessa. Precisamos voltar.
Sniper acendeu um cigarro e ficou na rua observando os dois atravessarem a pista. Como nevava, a visibilidade era pouca, mas o Orc assassino tinha uma visão aguçada.
Arrastada pelo loiro, a moça ficou assustada quando o viu ofegante. Luuk verificou pelas janelas qualquer movimentação atípica na rua.
— Ufa. Caramba, você esbarrou com o maldito Sniper. Aquele cara é tão perigoso quanto o Skywalker.
— O que faremos?
— Parece que ele não te reconheceu. Tomara que esse tempo fique melhor à noite, pois dirigir nessas estradas congeladas é um risco que eu não quero ocorrer.
Joanna se aproximou de Luuk e aproximou o seu rosto do dele.
— Já teve uma namorada?
— Mas que cortada de assunto! Eu preocupado com a nossa segurança...
— Teve namorada?
— Por que quer saber?
— Luuk Montgomery, não me diga que ainda é virgem? Vinte e cinco anos?
Ele ficou avermelhado feito uma pimenta. Nunca que alguém o fez essa pergunta de uma maneira tão maliciosa. Lembrou das vezes que as alunas de Salém davam em cima dele, mas aquilo nunca o incomodara. Agora Joanna, apesar de ser sete anos mais nova, já era uma adulta.
— Vai, fala. Eu também sou... mentira, tirei a minha com o meu ex-namorado aos quinze anos. Foi a única vez que transei. Não é lá grande coisa, doeu um pouco e o moleque teve um orgasmo tão rápido que deu nem pra eu fingir que estava com tesão.
— Joanna, você foi abduzida! Aquele maldito Sniper deve ter feito alguma coisa.
Ela riu da cara de inocente dele. Luuk explicou que não gosta de falar em sexo ou algo assim por causa da sua mãe.
DESIRÉE: Filho, não importa o que você faça. A vagabunda que tentar dar em cima de você irá arcar com as consequências. Mais uma coisa, sexo só depois do casamento.
LUUK: Mas a senhora transou com centenas de pessoas mesmo não estando casada...
DESIRÉE: Ai, meu bem, estou doente. Fecha a porta do quarto. Tchau.
Ele sentiu um calafrio ao relembrar as conversas que tinha com a sua mãe. Retirou-se do quarto da moça e foi para o seu.
Por volta das 18:45, Sniper apareceu na porta do motel. Calçou as luvas pretas, destravou a pistola, entrou no motel. O recepcionista protestou, mas foi atingido na garganta com a cortada de uma lâmina pequena. Folheou os nomes e o número dos quartos. Viu o nome de Joanna, no entanto desconheceu o nome Luuk.
Luuk tomava um bom banho quente quando escutou um pequeno alarme do app do celular. Ele havia instalado um pequeno sensor no corredor, na frente da sua porta. Imediatamente saiu do banheiro, deixando o chuveiro ligado.
O assassino abriu a porta com um grampo e foi na maior vontade de matar. Luuk enrolou sua cintura nua com a toalha, pegou a calça jeans e uma camiseta simples, abriu a janela do banheiro e fugiu.
— Joanna, abre a janela. Eu vou morrer aqui fora!
— Meu Deus você tá... caraca se veste! — ela se virou com vergonha.
— Até parece. E aquela conversa maliciosa toda hein? Enfim, o Sniper tá no quarto que trocamos. Ele quase me mata. Que foi?
Ela deu um beijo surpresa na boca dele. Luuk ficou estático.
— Acho que estou te crushando.
— Não entendi. Caramba, melhor a gente não perder tempo.
Vestido apenas com uma calça e camisa, ele saiu pela janela. A moça também o acompanhou e foram para o carro.
— Você vai congelar vestindo isso.
— Tem roupa minha no porta-mala.
Sniper atirou diversas vezes contra o vidro do banheiro. Foi até a janela e viu um carro sair em disparada. Pegou o celular a fim de ligar para a Condessa.
Durante o trajeto para Washington, o casal teve uma breve conversa sobre como seria o acesso ao presidente. Ele aconselhou que ela contatasse um conhecido do governo, pois alguns empregados da Casa Branca podiam ser cúmplices de Abigail.
...
A recepção aos convidados para a convenção das bruxas ganhou um contorno sinistro quando Lilith Montserrat resolveu aparecer em Salém. Afrodine, percebendo o clima pesado, pediu a Marcela e Pedro para entrarem imediatamente. Desirée seria capaz de explodir em fúria e partir para cima da morena, mas seria o maior erro da sua vida, pois elas poderiam destruir o vilarejo de Salém por completo.
— Eu falei para não aparecer por aqui. O que faz aqui?
— Ora, ver minha prima liderar a convenção e participar, afinal eu também sou um bruxa.
As duas se encaravam. No meio do fogo estava uma Afrodine tentando acalmar os ânimos.
— Parece que esta noite será agitada — disse Lilith apontando para os carros do governo. Ela passou do lado da loira e sussurrou — descobri que você tem um filho. Mande as minhas lembranças a ele.
Os olhos da loira arregalaram-se. Afrodine teve que segurá-la.
— Ela definitivamente está pedindo pra morrer. Como foi que descobriu da existência do Luuk?
— Melhor entrarmos. Está a começar a chover.
A sala de reuniões disponibilizava uma mesa grande de mármore em forma oval com capacidade para trinta lugares. A maioria eram bruxos, mas havia membros da comunidade antropomórfica, élfica, um orc ancião entre outros. Perto dos pilares, uns vinte e cinco assentos em cada lado para os convidados. Marcela, Pedro e Fiona eram convidados, portanto só podiam se sentar ali.
— Vamos começar esta reunião para falarmos sobre a nossa situação em Gaia. Senhoras e senhores, estamos esperançosos agora. A filha da rainha Liùseidh descobriu toda a verdade sobre a condessa e está do nosso lado.
— E onde está essa garota? — indagou uma bruxa idosa.
— Com o filho dela. Olhe, eu vi a foto e é um bombom. Queria ter a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente.
Desirée deu um soco na mesa assustando quase todos. As provocações de Lilith passavam dos limites.
— Gente, por favor — Afrodine tentou acalmar.
— Saibam que ela está do nosso lado. Temos uma ponta de esperança a partir de agora.
Do lado de fora, uma pessoa entrou na mansão acompanhada de seguranças. As bruxas que vigiavam a porta nada puderam fazer para impedir a sua passagem.
— Eu não teria tanta certeza. Se a condessa descobrir que estamos mancomunados com a filha adotiva para derrubá-la, será o nosso fim — disse um mago elfo.
— Alguém falou em derrubar algo? — todos olharam a porta abrir. Levantaram quando Abigail apareceu diante deles — Não se incomodem, sentem-se.
— O que faz aqui?! — indagou Desirée.
Enquanto isso, Joanna reencontrou um dos acessores da Casa Branca, um senhor idoso e de confiança dela. O velho Bill nunca se enturmou com a primeira-dama, por isso estava longe de suspeitas.
— Graças a Deus a senhorita está viva! — eles se encontraram no seu apartamento em Washington.
— Preciso que o senhor nos leve até o meu pai. Não... não posso aparecer de repente lá, porque existem pessoas que querem matá-lo.
— Pelos céus. E quem é esse rapaz?
— Um amigo.
Bill pediu que os dois entrassem em seu carro e foram para a Casa Branca.
A Condessa retirou o casaco, revelando um vestido sedutor vermelho.
— Falei pra você que eu viria à convenção, não falei? Os agentes federais já estavam antecipados — sentou-se numa cadeira da cabeceira oposta a de Desirée.
— A chatice vai começar. Estávamos falando sobre dar um golpe no seu império, e para isso eles vão usar a sua filha.
— Cala a boca, Lilith! — gritou Desirée.
— Hahaha. As duas menininhas brigando outra vez. Vocês não se cansam? O fato é que eu já sabia que a minha adorável filha está viva — escorou o cotovelo na mesa e o rosto no punho fechado.
Bill ultrapassou a barreira de segurança para chegar até a ala oeste da Casa Branca. Os agentes do serviço secreto quiseram saber a identidade dos dois, Joanna se identificou.
— Quero ver o meu pai.
Eles foram levados ao Salão Oval. William abraçou a filha depois de pensar no seu desaparecimento e na sua morte. Viu Luuk e pediu ao segurança prendê-lo. Joanna se meteu na frente.
— Filha, esse homem tentou me matar e te sequestrou!
— O senhor não sabe da verdade.
— Eu não fiz nada com o senhor nem com a sua filha. Qualquer vídeo que tenha recebido, foi fraudado.
— Que fraude mais perfeita — escorou-se na mesa Resolute.
— Papai, escute, o senhor não pode viver mais nessa ilusão. Vai parecer loucura, mas nesses últimos dias descobri que minha mãe não é a minha mãe biológica, que ela é uma assassina e está manipulando o senhor.
— E a Terra é plana, Illuminatis, George Soros dominando geral. Por favor, isso é uma aberração o que você acabou de falar da sua mãe. Agora mesmo Constance está visitando outro estado para arrecadar fundos para crianças desamparadas. Aposto que esse sujeito persuadiu você.
— Saco!
— Escute, rapaz, olhe o linguajar. Há um agente atrás daquela porta e posso fazer você ser preso. E Joanna, estou decepcionado contigo.
— Liùseidh. Esse nome soa familiar?
— Não mesmo.
Ela retirou uma fotografia do bolso do casaco e deu para ele. A imagem mostrava Liùseidh, ela e seu pai.
— Essa foto mostra o senhor e essa mulher. Sabe quem é?
William segurou a foto.
— Todos vocês aqui são patéticos, porque há séculos tentam me derrubar e só ficam na promessa. Provavelmente eu morra de velhice, mas digo logo que meus netos irão herdar o trono de Gaia, portanto será em vão qualquer golpe de estado.
— Golpe de estado é a sua especialidade, não é, Condessa? — ironizou Desirée.
Constance se levantou, caminhou até onde a bruxa estava sentada e pousou sua mão no ombro da loira.
— Não guarde mágoa comigo, pequena suprema. Jogue seus peitos para aquela inútil ali de olhos azuis. As duas se engalfinham e eu bato palma no camarote. Não vou ocupar mais o seu tempo e dessa corja aqui.
— Que mulherzinha nojenta — disse Fiona.
— A vontade de dar na cara dela é muita, mas ela é esposa do presidente — disse Marcela.
— Tô com fome — Pedro.
— Acabei de vir de um encontro com uma ONG que cuida de crianças de rua. Passei aqui só pra avisar que em breve o governo vai fechar esta espelunca.
— Do que você tá falando, Condessa? Não pode fazer isso.
— A partir de amanhã posso tudo. Vai se acostumando que o governo fechará a escola.
— Como pode falar isso com tanta convicção? Você nem é do governo do William. Você é a usurpadora que matou sua esposa e roubou a filha.
— Apenas negócios.
— HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! — todos olharam para Lilith.
— O que você tá rindo, desgraçada?
— Ai... eu... eu não aguento. Hahahaha. E como... como é que a baixinha suprema vai sobreviver sem a escola? Ela praticamente vive extorquindo um bando de inúteis a usar poderes patéticos. A minha prima é patética hahaha.
— Eu vou te matar, Lilith!
Foi preciso Afrodine e mais quatro pessoas segurarem Desirée. A convenção se tornou uma bagunça e a suprema praticamente soltando fogo pela boca na tentativa de pegar a bruxa má de jeito.
— Até porque a partir de amanhã teremos um novo presidente.
Em um passe de mágica todos se sentaram e ficaram sérios.
— O que tá falando? — questionou Desi.
— Liga a TV amanhã e verá que uma mulher se empoderará e virará a primeira presidente deste país. Estou falando, claro, da minha filha que é vice-presidente.
Um silêncio tomou conta do recinto. Condessa se despediu e passou pela porta.
— Reconhece essa mulher?
— Não. E esse cara deve ser um sósia meu, porque se fosse eu, lembraria na hora.
Um acessor abriu a porta e chamou o presidente para a coletiva no gramado ao lado do Salão Oval. Normalmente repórteres ficavam no lado oeste para fazerem perguntas. Bates caminhou com sua filha e Luuk até o gramado.
— Para com isso, filha. Eu vou pensar em não acusar esse rapaz, mas que ele é muito suspeito.
— Papai...
— Senhor, eu já disse que não fiz nada. Eu salvei o senhor...
Antes de Luuk terminar a frase, uma bala surgiu de um lugar desconhecido e atingiu o peito do presidente. Joanna viu o seu pai morrer na frente de todo mundo.
Fale com o autor