Salém
3 A Ilha dos Antropomórficos
Notas iniciais
TORQUAY, INGLATERRA, 1999
Na famosa cidade de Agatha Christie, um famoso general se aposentou do seu serviço depois de quase quarenta anos servindo ao exército real. O maior dos feitos foi na Guerra do Golfo. Albert Hockley Russell ostentava as várias medalhas conquistadas na parede de sua casa. No entanto, devido ao trauma pela perda de sua família num acidente aéreo, perdeu completamente o sentido da vida.
Aos 69 anos, o ex-militar preferiu morar num lar para veteranos a ter que se torturar vendo fotos de família. A catástrofe vitimou seu filho único, sua nora e seus dois netos. Um pouco antes, a sua esposa, ávida fumante, morreu de câncer no pulmão.
Cory Gallagher, 61 anos, era o seu melhor amigo. Um professor de biologia extremamente inteligente, conseguiu provas de que seres humanos híbridos de animais existiam. Pediu para que Russell o acompanhasse na viagem.
— Que loucura. Você deve estar viajando na maionese, e eu que sou o traumatizado.
— Tenho provas, tá bom. Um padre português visitou a ilha e relatou tudo. Tirou até uma foto — mostrou uma mulher lobo.
Ambos viajaram para essa ilha no sul do Atlântico. Puseram os pés no território desconhecido.
— Como nos velhos tempos? — disse Cory relembrando a época em que os dois exploraram algumas ilhas da Indonésia.
Ao caminharem, foram cercados por dez habitantes. Eles estavam armados com facas, foices e outras armas brancas. Cory pediu aos homens e mulheres que não atacassem e permanecessem calmos.
— Não somos bichos — o ancião da ilha apareceu. Um idoso com mais de cem anos e carregando um cajado.
— Espere... você fala a nossa língua? Sinto muitíssimo. Não foi a nossa intenção. Viemos de longe para buscarmos a paz — argumentou o biólogo.
E ambos fizeram o primeiro contato entre um cientista com a população. Segundo o padre crúzio que visitara anteriormente, eles eram como os humanos dos circos de horrores do século XIX, portanto foram pejorativamente chamados de freaks.
Uma moça negra foi amarrada em um poste para ser humilhada pelos mais velhos. A moça havia cometido fornicação com um humano, o mesmo padre crúzio que havia visitado a ilha.
— Quero que retire a sua criança bastarda do seu ventre — falou uma velha.
— Nunca! Ele é meu. O meu filho é fruto de um amor.
Albert ficou indignado como tratamento com a moça e propôs cuidar dela.
— Qual o seu nome?
— Zennyan.
— Aposto que está faminta depois de tanto tempo amarrada aí — deu água e comida para a garota.
Zennyan criou um vínculo fraternal com Albert. Ela era órfã, por isso não tinha pais para o consolo.
A barriga aumentou com o.passar dos meses e Cory Gallagher teve que voltar para a Inglaterra. Aparentemente pessoas corruptas também queriam visitar a ilha, por isso ele regressou e nunca mais voltou.
Enquanto isso, Desirée apareceu na casa de um dos moradores para tomar seu chá da tarde. Ouviu a história do ex-militar e foi visitá-lo no casebre fora do vilarejo.
— Olha só que barrigão. Já pensou num nome para ele?
— Não...
— Zennyan está acamada, porque seu estado de saúde piorou com o passar dos dias.
— Entendo — ela lembrou de Donald Scofield duzentos anos antes. — Que tal ele se chamar Younnan? Acho que é como se fosse Jonah ou Jonas, mais utilizado no Oriente Médio. Quando visitei a Turquia, vi esse nome numa revista.
— Que nome lindo. Obrigada.
Quando o bebê Younnan nasceu, Zennyan morreu. Albert tomou conta da criança com a ajuda de Desirée até ele ficar com cinco anos. A bruxa se despediu dos habitantes, de Albert e de Younnan.
EM 2018
A ilha recebeu três turistas. Entre eles havia um que fez contato com um pirata somali chamado Zamba Hariri, que invadiu, matou e sequestrou muitos moradores. Younnan, já o guardião do seu povo, conseguiu vencer a batalha e matar Zamba. No entanto, durante a luta sangrenta, ele perdeu o seu avô Albert.
Fiona Gallagher era neta de Cory e noiva de Flynn Griffin. Apaixonou-se por Younnan, matou Flynn e foi morar na ilha. Nos dias atuais, ambos inauguraram uma pousada e um filho estava a caminho.

Na ilha Tristão da Cunha, uma chuva forte caía pela manhã bem cedo. Os bovinos e ovinos ficaram protegidos num tipo de estribaria, os moradores permaneceram em suas casinhas a portas fechadas. Um coroinha entrou na igreja para começar o trabalho.
A única cidade era um vilarejo chamado Edimburgo dos Sete Mares.
Fora do vilarejo, havia uma pousada toda de alvenaria, com dois andares. No térreo e no primeiro, quartos para os turistas, no segundo ficava a moradia do casal Russell.
Aproveitando que fazia frio, Fiona aninhou-se aos braços do noivo. Recentemente eles noivaram depois que, dois meses atrás, fizeram um filho. Younnan também permaneceu agarrado com a cônjuge naquela manhã.
Passado das sete horas, Younnan abriu os olhos ainda pesados; precisava colocar as vacas e ovelhas para pastarem. Beijou Fiona, saiu da cama só de cueca e foi ao banheiro. Poucos minutos se passaram, o rapaz preparou um café da manhã.
— Bom dia, amor — disse a irlandesa ainda com sono.
— Bom dia. Temos pão, presunto, bolo, suco, leite... tem mais coisa na geladeira, mas escolhi apenas esses — explicou sentado à mesa e comendo pão.
Fiona foi preparar o café enquanto ainda estava disposta. De vez em quando enjoava fácil com o cheiro de qualquer coisa. Younnan aumentou a sua ajuda pra tocar a pousada — recentemente com pouco ou nenhum cliente, diga-se de passagem. O moreno beijou a noiva e foi para o pasto.
O cachorro labrador que ambos adotaram seguiu o homem até o curral para liberar as vacas e ovelhas. O canino latiu para o gado, mas os animais ignoraram o cão. Younnan não teve outra escolha a não ser ficar na forma híbrida de homem-lobo para espantar os animais para o pasto.
— Calma, Dofy. Não precisa ficar com medo de mim — abraçou o cão. O animal lambia seu dono.
A forma híbrida de homem-lobo era natural da espécie dos antropomórficos. As pessoas que conseguem se transformar não precisam de um estímulo externo, como a luz do sol refletida na lua, por exemplo. No entanto, o povo antro estava sendo substituído por licantropos, bem diferentes dos homens lobos. A Condessa pediu para que parte dos seus soldados virassem licantropos ao verem a lua cheia, e, para isso, contou com a ajuda dos magos para lançar a maldição nesses homens. O resultado foi a forma demoníaca de homem lobo, com sede assassina, dentes e garras mais afiadas, olhos vermelhos e inteligência reduzida.
— Pega aqui, garoto hahaha — lançou uma bola para Dofy pegar. Os dois ficaram por um tempo brincando.
A última visitante pagou a estadia para Fiona e foi embora no navio. Quando Younnan retornou, viu a mulher preocupada.
— Que foi?
— Não vamos bem. O movimento diminuiu no último mês e quase não aparece turistas para se hospedarem. Desse jeito vamos à falência! Não quero ter que pedir ajuda mais uma vez ao meu pai.
O rapaz abraçou a noiva por trás e passou seu focinho na orelha dela, que logo se arrepiou com o ato. Pediu para ela ter fé com a pousada nova. Fiona confiou muito nas palavras dele.
— Olá — apareceu um padre com rosto de gorila. — Quero saber se ainda tem vaga neste lugar.
— Claro, padre... Solta, Younnan! Claro, padre Freyo.
— É que tenho uns familiares que estão vindo esses dias, porém minha casa é pequena demais e na paróquia não há quartos.
— Conte conosco, padre. Temos vagas de sobra. E também Fiona e eu queremos que o senhor batize nosso filho na igrejinha da cidade.
Conversa vai, conversa vem, o tempo passou, um navio parecido com uma caravela antiga surgiu do horizonte. Uma neblina acompanhou a embarcação.
— Olhem aquilo. O que será? — indagou um pescador homem-boi.
— Devem ser piratas de novo! — esbravejou um homem-porco.
Os pescadores saíram de seus barcos e foram avisar a população. O sino da igreja tocou, assustando Younnan e Fiona.
— Parece com um navio antigo. Younnan você...
Ela viu o noivo com os braços cruzados, despreocupado com aquela chegada. O vento batia nos pelos marrons dele.
— Não se preocupem. Parece que é uma compainha boa.
— Sente isso pelo olfato, meu jovem? — perguntou o padre.
Era uma caravela imponente toda feita de madeira. A capitã era nada mais nada menos que Desirée Montgomery.
— Ai... será que eles são canibais? Tipo aquelas tribos da Polinésia?
— Claro que não, Cordelia! Os habitantes da ilha são amigáveis. É o seu povo.
A caravela que Desirée usou estava com uma magia de teletransporte. Normalmente, a bruxa conseguia se teletransportar diretamente para onde bem quisesse, mas quando precisava levar outras pessoas, não havia outro jeito.
...
Madeleine e Anjula foram castigadas pelo terrível demônio Belchior. Depois foram obrigadas a ir atrás de Joanna Bates em Gaia. Como o Tratado de Netherland impedia das bruxas de usarem seus poderes, ambas ficaram indefesas.
Numa cidadezinha perto da capital, a dupla caminhou pela calçada, perguntando aos moradores se eles viram a moça da foto. Cada morador negou.
— Eu vi! Eu vi! — gritou um morcego do alto de um telhado.
— Senhor morceguinho, fale-nos onde viu essa jovem moça — pediu Madeleine.
— Hum... deixa eu me lembrar...
— Vai logo! Não deve ser difícil — apressou Anjula.
O morcego negou ter conhecimento da moça da fotografia, mas se as duas visitantes comprassem chaves dele, poderia se lembrar.
— Ei, não me deixem falando sozinho — voou para frente delas e se transformou num velho vampiro usando uma clássica capa preta. — Eu me chamo Kremer e já fui presidente do meu país. Agora só faço chaves... Hey! Cadê elas?
Os soldados passaram na calçada depois que souberam que duas desconhecidas usando vestidos pisaram ali.
— Essa foi por pouco. Aquele maldito vampiro chamou muita atenção — disse Anjula dentro do bueiro.
— Anjula, estou ficando cansada! — resmungou a outra com a irmã sobre os seus ombros.
— Fica quieta, Madeleine. Você é forte. Seus músculos se chamam gordura, mas ainda assim são músculos. Isso não tá me cheirando bem.
— Claro, estamos num esgoto.
O mordomo do castelo levou uma bandeja para o gabinete da Condessa, porém um soldado orc impediu que o elfo entrasse. A governante estava numa reunião com associados e pediu para não ser incomodada.
— Desculpa, não conseguimos matar uma bruxa sequer este mês.
Dois assassinos profissionais informavam à mulher sobre o trabalho recente da Hunter.
— Condessa, precisa entender que a Suprema está mais ativa neste período antes da convenção. A culpa não é nossa.
A líder tamborilou seus dedos sobre a mesa e leu um relatório completo da empresa. Pediu para que os dois saíssem para uma reunião importante de trabalho.
Dentro do recinto, dois feiticeiros entraram com alguns homens vestidos de paletós. Eram deputados federais de Washington associados com a Hunter. Uma bancada obscura do Capitólio, que trabalhava para a extinção total das bruxas na América.
— Quando o seu filho virá, Condessa?
A misteriosa mulher respondeu um "em breve" e voltou para o trabalho paralelo que tinha na Terra.
ESTAÇÃO DE TREM DE STREALTH
O trem de ferro apareceu por volta das nove da manhã do dia seguinte. Passageiros pagaram pela passagem, entraram na locomotiva e partiram para fora da cidade.
Luuk e Joanna ficaram no penúltimo vagão, na classe econômica. A moça acordou de um breve cochilo e viu o rapaz olhando para a paisagem através da janela.
— Você está pensando em alguma coisa? Tem algo que queira dizer?
— Não. Devia voltar a dormir — ele tentou se levantar, mas foi puxado pelo braço.
— Fica mais um pouco. Por favor?
Atendendo ao pedido dela, o infante sentou-se ao seu lado e pôs o braço em volta do pescoço. Joanna sentiu o coração acelerar mais ainda. Ambos aproximaram os rostos, mas Luuk se afastou rapidamente.
— Melhor não.
— Só me responde pra onde estamos indo?
— Para vermos uma pessoa que pode te ajudar — voltou a sentar à frente da moça.
Os sentimentos da bela morena de cabelo liso pareceram aflorar perto do corajoso homem que a salvou três vezes. Parecia uma impotente por sempre ser salva, mas não reclamaria se na sua próxima salvação o herói fosse o Luuk.
— Tá tenso — ela se levantou e fez massagem em seus ombros.
— Oi? Não precisa.
— Seus músculos estão tensos. Parece que carrega um peso no corpo. Relaxa.
Mais outra vez ele fugiu das investidas da garota. Pediu para que ela ficasse sentada em seu lugar até chegarem ao destino.
...
ILHA TRISTÃO DA CUNHA
Younnan, Fiona e o padre receberam as quatro mulheres que estavam no navio. Desirée apresentou Zoe, a bruxa cantora, e Nina, a bruxa que manipulava o vento, para que ficassem conhecidas como as duas guardiãs enquanto Younnan estivesse fora. Apresentou também Cordelia, que achou o moreno lindo demais para ser pobre.
— Cordelia Melissines Schlesinger ou somente Cordelia.
— Prazer, Cordelia — cumprimentou Fiona.
A loira sentiu uma atração avassaladora por Younnan e já cogitava a ficar com ele. Desirée se tocou ao sentir o desejo libidinoso da moça.
— Fiona se tornou minha amiga também. E quando vai ser o casamento? Afinal, esse bebezinho precisa de pais com situação estável.
— Acho que em 2019. Estamos vendo isso direito — respondeu a grávida.
Younnan passou a mão na barriga da noiva e beijou, constrangendo a mulher. Ficou alegre por ser pai por dois meses.
— Mudando de assunto. A minha aluna Cordelia também é uma híbrida. Mostra pra eles.
A patricinha se transformou numa mulher gata branca. Fiona achou linda a transformação. Younnan virou lobo homem e o padre no gorila humano.
— Younnan, por que não apresenta a Cordelia aos demais habitantes? Ficarei para conversar com Fiona.
A ideia de apresentar uma antropomórfica aos demais era boa para fazer com que ela se associasse aos seus iguais e até melhorasse o seu jeito de ser. Porém, Schlesinger não dava ponto sem nó.
Os moradores de Edimburgo saíram das suas casas para verem a moça. Um minotauro deu flores a ela, que agradeceu o gesto do homem touro.
— Esta é como a minha irmã. Peka!
— Quem é a perua?
— Hã? Como assim "perua"?
— Eu só tava brincando. Sou a menina peixe que ganha do Younnan na pescaria!
— Peka, está me envergonhando na frente da moça.
Depois de apresentar a dondoca, ele retornou para a pousada no jipe novo. Durante o trajeto, ela tentou lançar charme para cima do rapaz.
— Você é bonitão, é forte, e consegue virar um lobo másculo. Sua mulher deve ficar preocupada contigo, pois uma qualquer aí pode fisgá-lo.
Younnan riu quando ouviu aquilo.
— Moça, vocês da sociedade são tão engraçados. Isso funcionaria, se eu fosse um cara que havia nascido numa dessas cidades grandes. Em resumo, isso é impossível de acontecer. Só tenho olhos para Fiona.
— Vai saber... o coração é traiçoeiro.
— O meu é fiel. A Fiona é a minha primeira e única mulher. Passei dezenove anos sem precisar pensar em me relacionar, porque fui criado como conservador. Meu avô me ensinou princípios que me influenciaram e vão me influenciar até eu morrer.
Cordelia ficou pasma quando Younnan disse que era virgem quando se relacionou com Fiona. Transar pela primeira vez com dezenove anos era uma raridade na sociedade atual. Viu que seu plano de conquista será adiado.
— Então esse é o trato. Younnan vai atrás desse objeto, você se hospeda na minha escola e protejo a ilha com moradores, pousada e tudo.
— E quem vai cuidar do meu avô? Ele tem demência.
— Zoe e Nina serão suas acompanhantes. Vamos, Fiona. Aceite minha proposta, mulher — falou Desirée convicta. Olhou para o relógio de pulso como se estivesse com pressa.
Na mesma hora que Younnan e Cordelia chegaram, Fiona aceitou o convite da bruxa.
— Amor, prepara as malas. Vamos para Salém — beijou o moreno, deixando Cordelia com inveja.
— Tudo bem, amor.
Depois de minutos, a pousada Albert fechou e os donos entraram na caravela com Desirée e Cordelia. Zoe e Nina se despediram com Cory na cadeira de rodas.
— Está preparado, afilhado?
— Claro. Se for para um bem maior.
— Claro que é. O teu povo vivia em paz e prosperidade num reino chamado Goa, mas há um século mais ou menos a Condessa expulsou teu povo de lá. Muitos se espalharam pela Terra assim como as bruxas. Você lutou contra um pirata no passado, mas desta vez essa luta será nossa.
O navio entrou no nevoeiro e desapareceu.
...
RIO DE JANEIRO, RJ, BRASIL
Um homem moreno, alto e forte entrou num motel de luxo da capital carioca com uma garota de programa. Eles não esperaram muito tempo para iniciarem a transa.
Durante as estocadas, as luzes do quarto piscavam estranhamente. O homem, aproveitando-se da distração dela, pegou uma pistola com silenciador da mochila que trouxera, apontou na têmpora esquerda da prostituta e puxou o gatilho. Sangue e partes do cérebro dela respingaram na parede e na cama.
Preparou-se para sair do motel quando foi encurralado pela polícia no seu quarto. O lugar ficou cercado por muitas viaturas. Sem saída, o homem apontou a arma para dentro da boca e se matou.
CAMP DAVID, MARYLAND
Numa casa de campo perto de um lago, uma mulher preparava um prato gourmet com uma faca profissional. Os pedaços de legumes eram pequeninos e perfeitos. Colocou-os na panela para temperar a carne cozida que fazia.
Duas criancinhas correram para a cozinha onde a dona preparava o jantar.
— Vovó!
— Vovó!
Um homem do serviço secreto trouxe o telefone e informou ser Baron di Rutherford. Ela exigiu algumas novidades, mas se decepcionou com a morte de um dos membros da HUNTER.
— Infelizmente o Patrick Matarazzo se matou alguns dias atrás. Ele havia acabado de matar uma bruxa que não sabia que era bruxa. Mas soubemos que uma bruxa de Salém havia feito a denúncia para a polícia daquele país — informou Baron no seu escritório. — Eu sei, senhora... sei. Tudo bem, estou indo aí agora mesmo.
BOSTON, MASSACHUSETS
A sede da PoliTEC ficava no centro da maior cidade do estado. Um prédio de vinte andares, todo de vidro e vistoso. A empresa fabricante de armas não chegava aos pés da National Rifle Association, mas tinha ganhos líquidos na casa dos milhões todos os anos. O seu presidente, Baron di Rutherford, era um gênio que decidiu investir na indústria das armas. Entretanto, sob a máscara de CEO bem sucedido, escondia um ardiloso líder de uma seita chamada HUNTER que tinha como meta principal o extermínio total de quaisquer bruxas oriundas do reino Winchester.
Rutherford entrou na sala de reunião e manteve a pose de empresário com os demais acionistas. No término, teve uma segunda reunião com os assassinos da seita.
— Infelizmente este ano foi de perdas para a nossa causa. Três dos melhores assassinos morreram. No começo do ano a nossa atiradora de elite foi morta num confronto no Oriente Médio quando servia ao exército, meses atrás Zamba Hariri morreu num confronto no Atlântico Sul e ainda nos vingaremos disso, dois dias atrás tivemos o suicídio de Patrick Matarazzo após matar uma bruxa no Brasil. Percebem? Nosso poder está enfraquecendo. Se não fizermos nada, correremos o risco de perdemos para as bruxas.
A secretária avisou pelo viva-voz que uma mulher aguardava o homem na sala de espera.
—Você ficou louca? Quem mandou aparecer na minha empresa? — repreendeu à bruxa que havia se sentado na cadeira presidencial.
— Temos um trato, não é mesmo? Eu ajudo vocês a acabar com Desirée e eu fico longe da mira da Condessa. Mas recentemente eu sinto que uma das partes não está cumprindo o acordo.
— Ora, Lilith, está reclamando da falta da minha atenção à sua pessoa? Estou lisonjeado. Acontece que estamos com muitos problemas com a sua prima se metendo nos nossos negócios. Três membros de elite foram mortos em menos de um ano, e isso é preocupante.
— Saiba que mandei minhas filhas para Gaia. Não vou depender da boa vontade de vocês.
O segurança entrou de uma vez, sendo arremessado contra a parede por causa da telecinese da bruxa.
— Eu já disse que posso arrancar seus olhos e dar a sua língua para o gato comer? Avise para a velha que comigo não se brinca — soltou o homem e foi embora. Rutherford afrouxou o nó da gravata, aliviado pela bruxa ter partido.
...
Uma mulher de longos cabelos pretos e vestido branco aparecia nos sonhos de Joanna. Ela não entendia quem era aquela mulher e o que ela queria. Apenas observava ela de perto, como se fosse um bebê sendo segurado por ela. Logo a moça acordou quando o trem parou na estação.
— Chegamos — avisou Luuk.
A cidade portuária de Harleyport era rica e mais próxima da ilha de Netherland. Muitos navios atracavam nos portos, pessoas bem vestidas expunham o contraste avassalador entre a população ajudada pelo governo e uma que comia sobras como em Strealth.
— Um quarto para duas pessoas solteiras, por favor.
— Claro, senhor. — A elfa levou o casal para um dos quartos do hotel. As camas eram separadas, dando melhores condições para ambos que não eram namorados.
— Que vista maravilhosa. O que acha, Luuk? Luuk? Tá no mundo da Lua desde a viagem.
— Não é nada. Pode ficar aqui para descansar — os intensos olhos azuis do infante eram misteriosos demais para serem decifrados.
A única coisa que Joanna queria era se deitar na cama e não pensar mais em nada.
Numa outra cidade...
— Não sei a que ponto chegamos para merecermos isto.
— Eu quero a minha mãe!
— Cala a boca, bola de gordura!
Madeleine e Anjula foram presas pelos soldados e levadas dentro de gaiolas para uma prisão.
...
Eros e Afrodine chegaram do Japão com o valioso Bracelete do Nilo. Donzel recepcionou os dois.
— Que tal me fazer um boquete antes, professora Lavínia. Afinal, eu sou gostoso demais pra ser verdade.
— Ah é? — Donzel apertou o órgão do íncubo que se contorceu de dor. — Esqueceu que seu poder não influencia as bruxas de Salém? Agora pede penico.
— Pe... penico! Que mulher bruta tu és, Lavínia. Eu só estava brincando. Sabia que meu pênis é praticamente uma divindade? Você seria massacrada por miríades de fãs minhas.
— Olha eu me tremendo de medo!
— Witzel, aqui está o artefato. Cadê a Desirée?
— Foi atrás de mais pessoas para ajudar a ir atrás do cetro. Aliás, Afrodine, precisamos de você e o seu irmão aqui até o dia 31.
— Nah! Eu acho este lugar chato demais. Prefiro ficar sete dias num harém com vinte mulheres.
— Ficaremos.
— QUÊ?! Não devia decidir isso pelos outros.
— Então deixa que eu decido. Se você não for, eu te encho de porrada! — exclamou Donzel.
— Calma, amor. Eu brinquei de novo. Vocês, garotas, levam tudo tão a sério. Queria que minha Desi estivesse aqui.
— Por falar nela, viemos ansiosos para falar com ela sobre um assunto grave. Quando fomos pegar o bracelete, um demônio com corpo de aranha e cabeça de touro apareceu. Descobrimos que ele foi invocado a mando da Condessa.
— A Condessa? Não eram os caçadores que estavam interessados nos três objetos? — indagou Crisântemo.
CASTELO DE NETHERLAND
Os oficiais tentaram se comunicar com a chefe de estado acerca da prisão das duas bruxas, mas o mordomo interveio. Não era possível ver a Condessa pois ela havia se ausentado novamente.
CAMP DAVID
As mãos da mulher misteriosa preparava um bom uíque com gelo em dois copos. Um ela deu para seu visitante e o outro se serviu enquanto sentava na poltrona.
— Vovó!
— Vovó!
As duas crianças eram pálidas e possuíam olhos negros. A mulher afagou a cabeça dos dois meninos e pediu que eles aguardassem em outro lugar.
— Conte-me as novidades. Os últimos acontecimentos — bebeu o uísque.
À sua frente estava Baron di Rutherford.
— Precisamos nos livrar de Lilith imediatamente. Está sendo insuportável a presença constante dela. Ela foi para PoliTEC hoje pela manhã praticamente me exigindo coisas.
A misteriosa condessa mexeu no gelo do uísque com o dedo indicador. Na sua mão esquerda havia o famoso Anel de Nibelungo.
— Você mesmo disse que as filhas dela estavam em Gaia. Provavelmente serão queimadas na fogueira quando chegarem em Netherland.
Rutherford se ajoelhou e beijou a mão da Condessa. Com um ato de afeto, ela passou a mão no rosto do homem.
— Meu amado Baron. O que uma mãe não faz por um filho?
— Eu te amo... minha mãe.
Um segredo que poucos sabiam.
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