Saints Future
46 Epitáfio
¾ Vim pedir dois favores. Primeiramente queria que entregasse isso ao senhor Nakao quando ele voltar, depois da minha partida. Depois gostaria de saber sobre meu último pedido... –disse ela entregando ao homem um papel dobrado.
¾ Esta logo ali senhorita. Peça ao jardineiro. Cresceu espantosamente nos últimos dias. –Esmeralda sorriu para o funcionário e seguiu até o outro homem ali próximo, que lhe entregou um vaso com um lindo arbusto florido.
¾ Para onde senhorita?
¾ Para o cemitério.
Lá encontrou Liceu e Appendex, que haviam terminado a cova do cavaleiro de Capricórnio.
Não se dirigiu para lá, apenas pediu um instrumento ao jardineiro, pegou o vaso e enviou uma mensagem para os dois cavaleiros por meio do jardineiro.
Encaminhou-se até um túmulo distante e isolado, ajoelhou-se e começou a cavar.
Rompida a terra, plantou o arbusto, que pareceu crescer ainda mais em questão de segundos, as pétalas caindo e cobrindo a mensagem gravada na pedra...
Afastou as pétalas e leu.
“Aqui jaz Hélios
De Poseidon traidor
De Atena fiel servidor.
29/11/2183
12/03/2199
Epitáfio por Hayao de Câncer”
Sorriu tristemente.
Hayao era genial.
¾ Esta é a despedida definitiva. Eu decidi aceitar... Minhas ultimas palavras podem não terem sido as melhores, por isso decidi usar Shakespeare. Soneto 62.
“O pecado de amar-te de mim se apodera
Dos meus olhos, minha alma, tudo em mim
E para esse pecado não há fim
Porque em meu coração ele se gera.”
Vai ser difícil, mas será um sonho não é? Vamos enterrar o corpo de Ukyu agora. Adeus Hélios de Sirene.
Se voltou para a cova do amigo, onde já estavam reunidos todos os sobreviventes.
Ninguém tinha entendido o porque de enterra-lo com sua armadura, se nas próximas eras... Mas Atena sabia o que estava fazendo.
As palavras emocionadas de Nakao e o silencio sofrido de Yuuhi marcaram a cerimônia.
Nakao lembrou-se de seus pensamentos antes da invasão.
Eles se realizaram... E isso doía.
Não era medo de morrer. Não era nem medo de sofrer na carne algum ferimento.
Era medo do que estava por vir, medo de ver os outros sofrerem. No fim das contas –se esmiuçasse bem- o que ele tinha medo mesmo era de continuar a viver, e não de morrer.
Talvez Ukyu também pensasse assim, mas isso não tornava menos difícil.
Mégara lhe dissera para não dar ouvidos, para continuar sem pensar naquilo. E estava, agora e também, morta.
Suspirou e se viu acompanhado pelos outros nesse ato de expressão nostálgica.
Esmeralda pegou um punhado de terra e o jogou sobre o corpo do amigo com um sopro.
Saíram do cemitério e, em silencio, se dirigiram ao aeroporto da fundação, onde Esmeralda os barrou.
¾ Vocês não podem vir comigo. Gostaria de lhes dizer algumas palavras antes de partir. Nakao, venha aqui. –o geminiano se afastou dos outros e ela lhe sussurrou, como faria com todos os outros- Mantenha seu coração generoso...
¾ ...?
¾ Yuuhi...
¾ Esmeralda, o que você...?
¾ Escute. Ser amazona não quer dizer não ser humana. Yamato... –a amazona se afastou, confusa, dando lugar ao ultimo rapaz jovem do Santuário- Jamais se culpe ou se arrependa.
Ele assentiu.
O mesmo ela falou para Monikee, que já tinha os olhos transbordados de lágrimas quando se aproximou.
Passou suas mensagens para todos os cavaleiros e embarcou.
Todos sentiram os corações se apertarem quando o helicóptero partiu.
Se separaram, todos, e se encaminharam para lugares isolados, onde pudessem refletir sob o negro eclipse.
Appendex, Liceu e Nakao, depois de muito pensar, se reuniram. Apesar de tudo, deviam se orgulhar. Eram a ultima amizade intocada do Santuário. E sentiam que todas as outras tivessem terminado de uma forma tão brutal.
Yamato estava sentado na ponta do rochedo que descobrira na parte isolada do campo da gigantesca fundação. Fora lá também que uma estranha mulher lhe dera o pentagrama e se jogara...
¾ Yuuhi. –disse, sem se voltar- Por que insiste em se esconder? Sabe que eu reconheceria seu cosmo em qualquer lugar.
¾ A melhor técnica de camuflagem de Camaleão não te ilude?
¾ Nem se você fosse invisível eu não perceberia. –ele sorriu, ainda sem se voltar.
¾ Yamato...
¾ Sim?
¾ A muito eu adio essa decisão, e decidi...
Ele sentiu ela tocar levemente seu ombro e lhe pôr algo nas mãos.
Olhou e se voltou, assustado.
¾ Yuuhi!
Os olhos azuis dela o fitaram, inertes.
¾ Eu te amo,Yamato.
¾ Eu...
¾ Sei que não me ama, eu... Não estou te pedindo nada... –murmurou algo como Monikee, que Yamato ouviu muito bem- Só queria que soubesse agora, porque estou partindo.
¾ Não precisa partir. Yuuhi. Você é muito importante para mim. Porque pensa que eu percebo sua presença? Enquanto estive aprisionado por Hades, tudo o que eu queria era te avisar, queria que você levasse Atena e Nikeè para longe, que vocês se protegessem dos ataques do deus do submundo...
¾ Aquele cosmo...
¾ Sinto muito ter te importunado, mas você era a única que podia sentir minha manifestação... A única que podia me ouvir...
¾ Mas Monikee...
¾ Nós somos apenas amigos Yuuhi. Como você e... Como você e Ukyu eram.
¾ O que está dizendo...?
¾ Eu vivi e percebi o erro de Hayao, não vou cometer o mesmo.
Ele a beijou, e ambos não se preocuparam com mais nada, nem mesmo com uma mascara inexpressiva que jazia no chão.
Após conversar com os amigos, Nakao encontrou a irmã, sozinha, na terceira casa.
¾ Monikee...
¾ Eu estou voltando para Moscou Nakao. –ela falou, decidida, fazendo Nakao vacilar.
¾ Mas...
¾ Vou utilizar meu cosmo para ajudar os realmente necessitados, e no que depender de meus esforços, tenho certeza de que os níveis de mortalidade na Sibéria diminuirão muito nos próximos anos. Adeus. –ela lhe deu um beijo estralado na bochecha, pegou a mala e se dirigiu a porta- Ah, já ia me esquecendo, mande lembranças aos outros.
Saiu, sem vacilar.
Sabia que Esmeralda não voltaria, podia sentir.
Subindo as escadarias do Antigo Santuário, Esmeralda se sentia cada vez pior.
Ignorou os próprios pensamentos e se esforçou em chegar logo, lhe restavam duas horas.
Na sexta casa, uma coisa a surpreendeu.
Entre duas árvores retorcidas, um pequeno broto surgia.
Twin Sal renascia.
Na ultima casa, unindo os restos de seu escudo e as contas do Rosário na ânfora, elevou o cosmo ao máximo, pensando em todo o sacrifício que via os humanos fazerem para continuar vivendo, como não podia deixar um deus mesquinho destruir tudo isso...
Esmeralda Pettra acordou com uma terrível dor de cabeça.
Não sabia onde estava e não fazia idéia de qual era o caminho para casa.
Descendo aquelas infindáveis escadarias, encontrou um homem.
Vestia roupas muito longas e esquisitas, e tinha longos cabelos brancos, apesar de ser jovem.
¾ Está tudo bem? –ele assentiu sem se virar- O que você está fazendo aqui?
¾ O que você faz aqui, essa é a pergunta certa menina.
¾ Estou perdida.
¾ Eu também, de certa forma.
¾ Posso sentar? –ele assentiu e ela sentou ao seu lado- Talvez você possa me ajudar a encontrar minha casa... Podemos ser amigos.
¾ Creio que não.
¾ Como é seu nome mesmo senhor?
¾ Hayao.
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