Saint or Sinner
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Sangue ruim.
Apenas duas palavras. Um erro gigantesco.
Severo ainda não conseguia acreditar que aquelas palavras saíram de sua boca. Ele era um hipócrita, sabia disso. Quantas vezes ele rira com Avery e Mulciber quando insultavam um aluno com essas mesmas palavras tão sujas? Ou até mesmo concordava com eles quando discursavam sobre a necessidade de manter o sangue bruxo puro?
O termo o incomodava, talvez por ele mesmo ser um meio-sangue e ter um pai trouxa, ou talvez fosse por causa dela. Ele ria porque esse era o esperado dele, ele concordava porque era necessário, o que devia se fazer para participar daquele grupo tão seleto. Ele estava cansado de ver Tiago Potter e seus amigos andando pelos corredores de Hogwarts como se fossem reis, azarando todo mundo simplesmente porque podiam. Ele queria provar a todos e principalmente provar a ela, que ele poderia ser parte de algo grande.
Algo que mudaria o mundo um dia.
Mas mesmo assim, nada justificara chamar Lílian Evans de sangue ruim. Ela apenas viera ao seu socorro, mais uma vez, quando Tiago e seus amigos o encurralaram e o usaram para a diversão do dia. Ele estava furioso, seu orgulho estava ferido, ele não conseguira vencê-los, ele nunca conseguia. E novamente ali estava ela, por ele, defendendo o pobre e fraco Severo Snape.
Ele odiava se sentir assim.
Não preciso da ajuda de uma sangue ruim imunda como ela.
A frase se repetira com perfeição em sua mente, fazendo o garoto sentir o monstro da vergonha se agitar dentro de si mesmo. Ele jamais se esqueceria das bochechas que queimaram num vermelho quase tão escarlate quanto os cabelos da garota, do olhar magoado que cruzou seu rosto e aos pouco foi sendo substituído por aquele brilho de orgulho e raiva. Ela erguera o queixo numa atitude altiva e segurara qualquer lágrima, quando se dirigira a ele, não havia nem uma sombra da menina que tinha sido amiga dele por quase metade da sua vida.
— Ótimo — respondeu calmamente — No futuro não me incomodarei. E eu lavaria as cuecas se fosse você, Ranhoso.
Ele desejou correr atrás dela naquele instante, mas ainda estava estático, não apenas por causa do levicorpus que o mantinha preso no ar pendurado pelos pés. Mas sim culpa, vergonha, orgulho e medo. Tudo se agitava num caos dentro do jovem bruxo. Tiago exigira dele que se desculpasse, Snape queria fazê-lo, mas não porque o inimigo exigia, e sim porque era o certo. Mas como conciliar os dois lados de si mesmo? Ele jamais se humilharia na frente de Tiago, nem mesmo por algo certo, nem mesmo por ela. Ele já se humilhara demais. Logo Tiago e Lilian se perderam em uma discussão. Porém Snape não percebia mais nada a sua volta, ainda estava tentando encontrar um modo de retirar as palavras que dissera, de consertar o que ele havia quebrado.
Mas não havia mais conserto.
Por isso ele apenas permitiu que Tiago o azarasse novamente depois que Lilian partiu, as ofensas do garoto ou as risadas das pessoas ao seu redor não importavam mais, nada importava mais, tudo o que ele via eram os cabelos cor acaju cada vez mais longe dele, se distanciando, se tornando ainda mais inalcançável do que costumava ser.
Foram manhãs em que ele sequer conseguira encarar a si mesmo no espelho, sem que se sentisse um verme sujo por dizer aquilo a ela. Tardes em que ele tentara ir até ela durante as aulas, e se desculpar, mesmo sabendo que um “me perdoe” era pouco a oferecer. Foram noites sentado em frente ao quadro da mulher gorda, esperando por uma oportunidade de se desculpar, de rastejar e implorar pelo perdão dela, se isso a trouxesse de volta para a sua vida.
Eu nunca quis te chamar de sangue ruim...
Ele finalmente dissera, e a desculpa lhe parecera pobre até mesmo para seus ouvidos. Claro que Lilian não as aceitou. Ela o enfrentou e esfregou tantas outras verdades em sua cara, verdades sobre os amigos dele, sobre a magia negra que eles praticavam e como se preparavam para se tornarem comensais da morte um dia.
Ele não tinha como se defender de nada daquilo.
Porque era verdade.
Você escolheu o seu caminho, eu escolho o meu.
Lilian estava certa, ele seguia por um caminho que era oposto ao dela, um caminho que ele sabia pertencer as trevas, que contrariava tudo o que Lilian pensava e acreditava. O garoto ainda tentara uma última vez dizer a ela que não queria dizer aquelas palavras e ela apenas apontara o quão hipócrita ele era.
Mas você chama de sangue ruim todos que nasceram como eu, Severo. Por que eu seria diferente?
Porque eu te amo.
A justificativa ficou presa em seus lábios. Ele não era corajoso o suficiente para falar, e ao mesmo tempo sabia que isso não mudaria nada entre eles, então apenas calou-se, resignado.
Lilian Evans sempre lhe pareceu inalcançável.
Mas agora ela realmente era.
Ela era sua amiga antes mesmo de entrarem em Hogwarts, a primeira e única, e continuara sendo durante todos esses anos. Mas ela era bonita, inteligente e vivaz, como um sopro de ar fresco numa manhã abafada de verão, ela era o oposto dele. E ele se apaixonara por ela desde a primeira vez que a vira. Como não se encantar pela beleza dela? Pela graciosidade de seus movimentos ao girar tão elegantemente a varinha ao lançar um feitiço? Sua inteligência? Ou ainda, pela força que aquela garota tinha?
E esse sentimento continuara dentro dele, crescendo e tomando forma, mas a cada dia que se passava as diferenças entre os dois se tornavam mais evidentes, e ia além da simples rivalidade entre sonserinos e grifinórios. Ele ouvia as amigas dela cochichando, dizendo que não entendiam como uma garota como ela pudesse ser amiga de alguém como ele.
Mas Lily nunca dera importância, embora recentemente ela demonstrasse seu incomodo com as novas amizades, ela não lhe dera as costas, ela permanecia sua amiga fiel, mesmo não concordando com Severo, mesmo ainda tentando fazê-lo ver que Mulciber e Avery não eram boas companhias. E ele havia arruinado tudo com duas palavras. Sangue. Ruim.
Ela virava o rosto para o outro lado quando o via, ou tomava um caminho diferente apenas para não ter que andar próxima a ele.
Ele a via com Tiago agora.
O grifinório estava sempre a rondando procurando fazê-la sorrir com seu jeito idiota. E o que mais lhe doía, era que as vezes ele conseguia. Tiago e seus amigos não mais o confrontavam e o sujeitava à uma sessão de humilhação pública, se divertindo a suas custas. Ele continuava tão arrogante quanto antes, mas era como se a aversão que ele sentisse por Severo tivesse se tornado tão ruim agora, que o garoto não o achasse nem mesmo digno para ser objeto de suas afrontas.
Severo sabia o porquê.
Ele mostrara o seu lado mais feio, e isso transcendia a aparência exterior e agora todos o viam do mesmo modo, por dentro e por fora. Ele sentia os olhares frios, os cochichos e caretas de aversão que fazia quando passava, até mesmo os via se afastarem como se temessem que a proximidade com o garoto pudesse contaminá-los. Grifinórios tem essa lealdade inabalável, insulte um deles e todos os outros tomarão suas dores. Não que estivessem errados naquele caso.
Mas aquilo iria acabar.
Não que Severo se importasse com a opinião de alguns deles, só havia uma pessoa com a qual se importava, uma única pessoa que ele gostaria de abraçar mais uma vez, e receber seu sorriso cálido.
Ele faria por ela. Faria qualquer coisa por ela.
Severo tocou o objeto dentro de seu bolso, sentiu o frio do metal enviar uma estranha onda de animação por seu corpo.
Ele havia quebrado muitas regras para consegui-lo, e Snape sabia que furtar aquele vira-tempo o colocaria numa situação muito delicada. A expulsão seria o menor dos seus problemas. Mas aquela era uma oportunidade única. Ele vira o objeto nas mãos de Regulus Black na noite anterior. O garoto mais novo se gabava de que Lucius Malfoy — agora um homem influente e amigo próximo da família Black — havia confiado a sua família a relíquia para "guardar em segurança" longe de inspeções do Ministério em sua mansão. Regulus, tolo e vaidoso, levara para a escola para impressionar os colegas. Era um Vira-Tempo diferente. Dourado, pesado, com engrenagens que pareciam sussurrar promessas perigosas. Lucius dissera a Regulus que aquele objeto não apenas voltava as horas, mas dias e permitia reescrever erros. Os olhos escuros do garoto sequer piscaram ao ouvir o relato, enquanto o outro jovem bruxo sacodia o colar dourado com a ampulheta dentro de dois aros giratórios na frente de todos. Tudo o que Snape vira era uma nova chance, um modo de voltar no tempo e desfazer seu erro.
Voltar em uma semana, permanecer por uns quarenta e cinco minutos.
Precisaria ser metódico. Ele estudara sobre viagem no tempo e sabia o quanto aquilo era perigoso. Precisava seguir todas as regras: não poderia ser visto por ninguém, não alterar nada que pudesse ter grande impacto. Ele iria apenas voltar e impedir a si mesmo de falar aquelas palavras odiosas.
E então tudo ficaria bem entre ele e Lily.
Snape se escondeu atrás de uma árvore frondosa e afastada, nenhum estudante gostava de ir ali, além disso, o tempo estava chuvoso e a maioria dos alunos preferia aproveitar o calor de uma lareira e o aconchego das amplas e macias poltronas de suas casas comunais. Ele começou a contar as voltas enquanto girava os aros ao redor da pequena ampulheta, quando sentiu a presença de mais alguém ali.
— Por que eu tenho a impressão que você não está fazendo nada de bom, Ranhoso? — o garoto virou-se encarando a última pessoa que gostaria de ver. — O que é isso? — Os olhos de Tiago, afiados por trás dos óculos, fixaram-se no brilho dourado entre os dedos de Snape.
— Não é da sua conta, Potter! — tentou afastar Tiago com um tapa certeiro na mão, mas Tiago foi mais rápido, pegando o objeto com a agilidade que só um apanhador possuía. — Tire suas mãos daí, seu idiota!
No puxão violento que se seguiu, o Vira-Tempo escorregou. A corrente longa se enroscou nos dedos de Tiago enquanto Snape segurava a ampulheta. Houve um som de vidro estalando, seguido por uma vertigem nauseante.
Em questão de segundos tudo ao redor deles andava rapidamente para trás. Pessoas iam e vinham com rapidez como se caminhassem de ré, o tempo se modificou enquanto as nuvens desapareciam dando lugar a um céu limpo, até mesmo o sol inverteu seu movimento nascendo ao oeste e se pondo ao leste, bem diante dos olhos dos dois jovens bruxos.
— Pelas barbas brancas de Merlin! O que aconteceu? — Tiago perguntou cambaleando para trás e sentindo-se ainda tonto e enjoado. – Que tipo de magia das trevas é essa?
— Me devolva, seu babaca. — sibilou Snape.
— Não até dizer o que é!
— Ora, não é você o todo inteligente Potter? Descubra sozinho! – revidou, tentando puxar o objeto de volta.
Snape estava certo sobre uma coisa. Apesar da fachada arrogante e despreocupada, Tiago era sim inteligente. Girou o objeto cuidadosamente em suas mãos, observando a areia da ampulheta, que não importava o movimento que fizesse, permanecia estática.
— Isso é um Vira-Tempo. – constatou após alguns longos segundos avaliando o objeto — Onde você conseguiu isso? — os olhos de Tiago brilhavam de excitação e curiosidade – Precisa de uma autorização do ministério da magia para se ter um.
— E desde quando se importa com a lei? — Snape deu um passo à frente se impondo ao rival — Não é como se eu fosse um animago sem registro... – deu um sorriso cínico — O gato comeu sua língua, Potter? Ou foi um cervo?
Tiago abriu a boca, mas nenhum som saiu.
Tiago ainda estava processando a resposta ácida quando o mundo parou de girar. O enjoo da viagem mal havia passado quando Snape o agarrou pela gola das vestes, puxando-o bruscamente para trás da grossa árvore onde estavam.
— Abaixe-se, seu imbecil! — sibilou Snape, os olhos negros varrendo o terreno com pânico.
Tiago olhou ao redor. O sol estava alto, o céu de um azul límpido que contrastava com a chuva de segundos atrás. O ar estava mais quente.
— Que dia é hoje? — Tiago sussurrou, a ficha começando a cair.
Snape não respondeu. Ele sacou do bolso um relógio de bolso amassado, as mãos tremendo levemente.
— Temos menos de quarenta minutos antes que o efeito acabe e sejamos puxados de volta. — Ele guardou o relógio e encarou Tiago com uma intensidade assustadora. — Escute bem, Potter. Se você for visto pelo seu "eu" do passado, ou por qualquer outra pessoa, a linha do tempo se fragmenta. Fique calado, fique invisível, ou eu mesmo azaro você.
— Você é sempre tão simpático... — Tiago revirou os olhos, mas obedeceu. Havia uma urgência na voz de Snape que ele nunca vira antes. — Ficarei de olho em você, Ranhoso! Uma gracinha e não terei pena de azará-lo!
O garoto soltou uma risada cínica.
— E quando foi que você precisou de motivos para me azarar, Potter?!
Os dois avançaram pelas sombras da orla da Floresta Proibida. Era uma missão furtiva. Estudantes começavam a sair do castelo, desabotoando as golas e rindo, aliviados e ansiosos para aproveitar o sol. Tiago reconheceu a cena.
— Espere... — Tiago parou, um sorriso maroto surgindo nos lábios. — Eu me lembro disso. É o dia dos N.O.M.s de Defesa Contra as Artes das Trevas.
Ele apontou para longe, onde um grupo de quatro garotos barulhentos caminhava em direção ao lago. Sirius, Remo, Pedro e... o próprio Tiago, jogando um pomo de ouro para o alto com arrogância.
— Olha só para mim! — Tiago riu, achando graça da própria exibição. — Eu estava em ótima forma. Ei, ranhoso, quer ver uma coisa? Aposto que consigo acertar uma pinha na cabeça do Almofadinhas daqui sem ele notar. Vai ser a pegadinha do séc...
Ele ergueu a varinha, mas Snape a golpeou para baixo com violência.
— Não estamos aqui para as suas brincadeiras infantis! — Snape rosnou, empurrando Tiago contra o tronco de uma faia. — Estamos aqui para impedir um desastre. Você consegue deixar de ser um completo imbecil por apenas alguns minutos?
Tiago franziu a testa, a diversão desaparecendo ao ver a expressão atormentada no rosto do inimigo. Ele olhou para o grupo no passado, depois para Snape, e então para uma garota ruiva que caminhava mais atrás, segurando os livros contra o peito.
A compreensão atingiu Tiago como um balaço.
— Você não voltou no tempo para se vingar... — Tiago murmurou, a voz perdendo o tom de zombaria. — Você veio impedir a si mesmo. Você vai mudar o que disse para ela.
Snape não confirmou, mas o silêncio foi resposta suficiente. Ele se virou, focado apenas na cena que começava a se desenrolar perto do lago.
— Temos que subir ali — Snape apontou para um barranco elevado, oculto por arbustos, que dava uma visão clara do local onde a briga aconteceria. — É o único lugar onde vamos estar perto o suficiente para eu lançar o feitiço, mas ainda assim longe dos olhos de todos.
Eles subiram apressados. O tempo estava se esgotando. Lá embaixo, o conflito começava. O Tiago do passado lançava feitiços, o Snape do passado revidava.
O Tiago do presente assistia a tudo de cima, estranhamente quieto. Ver a cena de fora não tinha a mesma glória que ele lembrava. Parecia... covardia. Quatro contra um. Pela primeira vez em dias, ele não sorria. Havia um desconforto em sua postura ao ver o que sempre achou ser uma simples brincadeira, sob uma nova perspectiva.
— Eu... exagerei — murmurou Tiago, quase inaudível.
— Cale a boca — sibilou Severo.
Ele ergueu a varinha. Sua mão não tremia. Ele havia ensaiado isso mil vezes em sua mente. O plano era simples: um feitiço Langlock não verbal no momento exato em que Lilian interviesse. Seu eu do passado tentaria falar, mas nenhum som sairia. A ofensa nunca existiria. Lilian ficaria brava pela briga, mas não decepcionada com o preconceito.
E o sol voltaria ao centro do seu universo particular.
Lá embaixo, Lilian Evans marchava em direção aos marotos. É agora. Severo prendeu a respiração, a ponta da varinha mirando o próprio peito de sua versão mais jovem.
Mas a terra sob os pés deles era traiçoeira.
Tiago, tentando se ajustar para dar espaço a Snape, pisou em falso na borda do barranco erodido pela chuva recente. Houve um som de raízes se partindo.
— Severo!
O grito foi instintivo.
Tiago escorregou. Segurava desesperadamente uma raiz fina e escorregadia com apenas uma das mãos, com a outra tentava alcançar a varinha em seu bolso. Abaixo um fosso de pedras pontiagudas e antigas ruínas, escondidas pela vegetação densa. A queda daquela altura, naquelas pedras, quebraria seu pescoço instantaneamente.
O tempo pareceu parar.
À esquerda, o momento crucial chegava. Lilian gritava com o Tiago do passado. O Severo do passado abria a boca, o rosto contorcido de humilhação e fúria, pronto para disparar a ofensa fatal.
À direita, Tiago Potter, seu inimigo, seu tormento, estava a um segundo da morte. Menos, considerando que naquele momento a raiz se partira e Tiago caía.
Severo tinha um feitiço. Um alvo. Salve o seu futuro com Lily, sussurrou sua mente egoísta. Deixe-o cair.
Mas a mão de Severo não obedeceu ao seu ódio. Foi instinto. Foi a alma que, apesar das trevas, não era de um assassino. Com um rugido de frustração que rasgou sua garganta, ele girou o corpo.
— Arresto Momentum!
O feitiço atingiu Tiago centímetros antes de sua cabeça chocar-se contra a rocha, paralisando sua queda no ar.
Mas, simultaneamente, vindo da margem do lago, a voz do Severo do passado ecoou, clara e terrível, carregada pelo vento:
— Eu não preciso da ajuda de uma sangue-ruim imunda como ela!
Severo fechou os olhos. O feitiço de salvação ainda vibrava em sua varinha, mantendo Tiago vivo. Mas seu coração afundou em um abismo gelado.
Tinha acabado. Ele salvara o corpo de seu inimigo, mas se condenara a uma vida sem seu amor.
Ele puxou a varinha num puxão violento, trazendo Tiago de volta para terra firme. O garoto aterrissou, pálido e trêmulo, olhando para Severo com olhos arregalados de choque. Ouviu Tiago Potter pronunciar a palavra que nunca esperara ouvir dele.
— Obrigado. – Esticou a mão na direção de Snape. Assim que se tocaram, sentiram um puxão no umbigo e a náusea, com se usassem uma chave de portal.
Quando aterrissaram de volta no presente, ambos caíram na grama, ofegantes.
— Isso... isso foi uma loucura! — Tiago ria animado enquanto dava tapinhas amigáveis nas costas de Severo — Se me dissesse ontem que tudo isso aconteceria, eu jamais teria acreditado. Mas quem teria? — o garoto sorriu.
Snape não compartilhava de toda a sua animação.
Ele havia falhado. O erro se repetira.
E novamente ele perdera Lily.
— Eu sinto muito, Severo, — Tiago começou hesitante — Que você não tenha conseguido impedir que aquilo acontecesse, eu quero dizer. – limpou a garganta — Eu posso falar com Lily, eu tenho certeza de que com um pouco de paciência e tempo, ela vai te perdoar. — o tom de Tiago foi surpreendentemente amigável e sincero, esse era um lado generoso do bruxo que Snape jamais esperou ver, não com ele. E não gostava disso. — A garota é teimosa, mas ela tem um coração enorme.
Snape encarou o grifinório enquanto falava de Lilian. A forma como os olhos dele brilharam de um jeito conhecido por detrás das lentes dos óculos redondos, os lábios curvaram-se para cima num sorriso, e Snape sentiu um sentimento conhecido voltar. Ciúmes.
Era estranho, odiar tanto uma pessoa e ainda assim ter algo em comum com ela.
— Esse parece um bom plano. — respondeu, ainda sem saber como agir.
— É sim! Severo, todos nós cometemos erros, eu e meus amigos também fomos ruins com você, eu não tenho uma razão que não fosse um pouco de inveja. — Aquilo surpreendeu severo. Inveja dele? Como, se Tiago Potter tinha simplesmente tudo? Capitão do time de quadribol, boas notas, amigos leais... — Talvez esteja na hora de apagar o passado e apenas tentar outra vez, sendo pessoas melhores dessa vez. — O jovem bruxo compreendeu o que o garoto lhe oferecia: o vira-tempo, com todo o seu poder não servira para mudar o passado, mas talvez as pessoas pudessem escrever um novo futuro mudando o presente.
Mas seria possível? Esquecer anos de rancor e mágoa que hoje estavam tão enraizados no garoto? Foram anos de humilhação, uma aventura como aquela não poderia mudar a aversão mútua que havia entre os dois. Nunca haveria uma amizade real entre os dois, os marotos jamais o aceitariam e tampouco Severo conseguiria esquecer das vezes em que foi feito de idiota.
— Olhe, Lilian está ali. — Ele indicou a garota que estava a poucos metros dos dois, segurando uma pilha de livros e conversando animadamente com Lupin. Ela parecia feliz. E nos últimos momentos da amizade dos dois, Lily sempre parecia aborrecida e incomodada com os amigos sonserinos de Snape, eles discutiam e por vezes a garota revirava os olhos para ele, a amizade se desgastara e ela já não sorria quando estava com ele fazia algum tempo.
Mas ela sorria agora.
— Eu vou falar com ela agora, não saia daqui. — Tiago disse.
O canto dos lábios de Severo se ergueu num pequeno sorriso agradecido para Tiago. Essa seria a única vez que um sorriso sairia de seus lábios e se dirigiria a ele. Severo Snape havia aprendido sua lição. Não se tratava de corrigir seus erros voltando no tempo os impedindo de serem cometidos. Ele havia feito uma escolha ruim, não apenas ao chamar Lilian de sangue-ruim, mas ao deixar-se ser movido pelo ódio e rancor. E um homem de verdade encara sozinho as consequências de seus atos ao invés de tentar fazê-los desaparecer.
E embora a oferta de paz de Tiago parecesse a solução perfeita, ele agora compreendia que não havia como desfazer o que disse a Lily, não havia como colar os cacos do que ele havia destruído e esperar que tudo voltasse a ser como antes, sem rachaduras, sem mágoas. E seria ainda mais absurdo acreditar que aquela aventura com Tiago, pudesse de alguma forma, cicatrizar os ferimentos causados por aquela inimizade tão longa.
Ele sabia que estava sendo rancoroso.
Mas assim como Lilian não o perdoaria e esqueceria as palavras tão sujas que ele proferira, ele também não poderia simplesmente esquecer e perdoar os anos de ofensas de Tiago e seus amigos. E, além disso, Lilian estava certa, ele escolhera um caminho e ela seguira por outro.
O jovem bruxo segurou a varinha apontando-a para as costas de Tiago, que caminhava em direção a Lilian cheio de esperanças. Soprou as palavras que selariam o fim daquela história.
— Obliviate.
Uma única palavra.
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