Podia ouvir ruídos dos animais se movendo na floresta, os galhos se agitavam e Noath acreditava ser por causa dos morcegos. Através das folhas, a Lua crescente o fitava e o deixava constrangido, assim evitava olhar para o céu. Noath queria chegar ao castelo de Afrodite, mas não sabia ao certo pelo que procurava. Uma porta? Talvez. Ou ainda uma fosse escondida por de baixo das folhas. De qualquer forma, sabia que estava mais quente do que frio.

—Está perdido? – sussurrou uma voz em seu ouvido, arrepiando a espinha do Unicórnio.

A voz era feminina, ele percebera, mas não via a boca de onde saíra. Seus olhos procuravam, e mesmo que aguçando os sentidos, Noath não obtinha sucesso. Assim, disparou dos punhos uma rajada de luz, a fim de iluminar o interior da floresta. Sua tentativa foi no mínimo frustrante, já que não encontrara mais que o tronco das árvores e alguns esquilos.

—Não seja tão presunçoso – voltou a ouvir – A magia da floresta me protege de invasores.

Noath não sabia para onde olhar.

—Não sou um invasor – disse – Meu nome é Noath, sou o cavaleiro de Unicórnio e procuro por Afrodite. Suponho que saiba do que estou falando.

Era uma sensação estranha, falava com alguém e ao mesmo tempo com ninguém; virava-se para um arbusto amigável, imaginando o rosto da mulher que parecia querer jogar.

—Sei bem quem é você – disse ela – O levarei ao Castelo, mas somente quando fechar os olhos e acalmar os punhos.

Cheio de desconfiança, Noath o fez. Agora se encontrava na maior das escuridões e imerso em silencio; sentiu então os lábios da mulher tocarem os seus tão suavemente que por um instante se esquecera de onde estava. Quando por fim abriu os olhos, Noath se viu do lado de fora dos portões; eram negros como carvão e tinham as pontas afiadas como lanças, logo ao seu lado, uma dama de vestido carmesim executava com as mãos algum feitiço que os levariam para o lado de dentro.

—Sou Ilsa – disse a mulher. Sem dúvidas era a mesma que estivera com ele na floresta; agora podia de fato ver seu rosto, e sentia até seu perfume que de alguma forma cheirava a outono – Siga-me, eu o levarei até Afrodite.

O Castelo era luxuoso, repleto de torres e janelas e as portas ostentavam detalhes trabalhados em rubis e obsidianas, Noath não podia esperar menos de Afrodite. Pelos arredores, algumas moças caminhavam rastejando seus vestidos pelos arenitos que formavam o caminho, ele se perguntava se eram hóspedes ou criadas, quem sabe não fossem até amantes? Contudo, essas questões se dissiparam em sua cabeça feito vapor quando viu uma mulher, certamente diferente das outras por ali, passar por uma porta estreita e caminhar em sua direção. De alguma forma, seu brilho ofuscava o das estrelas e acelerava os batimentos de Noath sem que ele pudesse entender.

—Então ela é...

—Afrodite – completou Ilsa – Sugiro que controle o queixo e os olhos, o namorado poderia se zangar – disse ela em tom divertido.

A deusa rapidamente estava a menos de dois metros de Noath, que tentava seguir o conselho de Ilsa, mas acabava falhando eventualmente.

—Obrigado, Ilsa. Agora pode deixa-lo comigo – indicou a deusa, sem tirar os olhos do rapaz, constrangendo-o certamente.

Noath mirava o olhar para o gramado, estava certo de que encarar a fúria de Zeus não era tão difícil quando encarar os olhos de Afrodite.

—Venho em nome do Santuário – disse ele – Procuro por meu mestre, Ephos de Touro; pelas informações que obtive, acredito que esteja por aqui.

—Então este é o famoso Noath de Unicórnio, o pupilo. Ouvi falar muito de você, Ephos te estima mais do que pensa – afirmou ela em tom agradável.

—Então ele está mesmo aqui?! – o Unicórnio não pode evitar em se animar, e por aquele segundo parecia não estar tão embaraçado.

—Está sim. Siga-me, eu o levarei a ele.

Noath seguia os passos de Afrodite, que o levava para longe do Castelo. Chegou a pensar que o levaria até algum tipo de matadouro distante, onde os gritos não podiam ser ouvidos, mas não era algo que se assemelhava com o que já ouvira falar da deusa; imaginou então que Ephos estava em um chalé, escondido por alguma razão. No fim das contas, nada disso parecia fazer sentido.

Afrodite não disse uma só palavra desde que deixaram o Castelo, sua feição era serena e mantinha a postura ao caminhar, os olhos apontavam sempre para o horizonte e o queixo jamais se afrouxava. Porém, qualquer um que navegasse em seus olhos, encontraria em sua profundidade lamentos e um imenso desejo de desmoronar o corpo, firme como as rochas antigas, na grama.

—Estamos perto – disse então ela.

Noath assentiu.

—Vê aquele lago? – prosseguiu a deusa, indicando um lago não muito extenso e nem muito profundo a alguns metros dali – Sua água jamais se esfria, é o melhor lugar do mundo pra se tomar um banho quente, especialmente nos dias de inverno. Banho-me nele quando preciso ficar sozinha, longe de qualquer voz ou perfume que não sejam os meus ou o das flores.

O Unicórnio, sentindo que Afrodite buscava ser gentil e trazer assuntos agradáveis àquela madrugada, não teve medo em perguntar:

—O que leva os deuses a guerrear? Sabe, me parece muito mais simples quando estão em paz.

—Acho que nunca em toda a história houve um segundo em que todos os deuses estiveram simultaneamente em paz. Deuses são como humanos, até certo ponto. Eles têm as mesmas emoções, os mesmos conflitos, com a diferença de que são muito mais poderosos. E é aí que mora a grande questão, nosso poder é a raiz de nossa maior fragilidade. No fim, quando o Sol se põe, somos uma versão piorada dos humanos, nosso ego é pútrido e recheado de ambições, não nos sentimos no direito de sermos negados ou rejeitados, afinal, somos poderosos. É por isso então que há guerra, por que somos egoístas – concluiu a deusa – É louco pensar que foi Ephos quem me ajudou a compreender isso. Mas, falando nele... aqui está.

Noath não via ninguém senão ele mesmo e Afrodite. Olhava para os lados e não havia nada senão um jardim extenso, com rosas vermelhas, brancas e negras, um chafariz dez metros há direita e a Lua que voltava a encarar.

—Não entendo – murmurou.

—Ele espera por você há seis meses – explicou Afrodite – Quando chegou até mim em nome de Atena, estava desacordado e com ferimentos por todo o corpo. Ele falava de você, Noath, e sabia que viria busca-lo. Estamos sobre Ephos agora, e daqui, podemos ver a constelação de Touro brilhar. Antes de adormecer, escreveu uma carta, esperando que ela chegasse ao Santuário.

As lágrimas que Afrodite guardava pareciam querer escorrer então pelo rosto de Noath, que se ajoelhara em luto. As mãos do cavaleiro passavam pelo gramado como se quisesse cavar até dar um último abraço em seu mestre, ouvir sua última piada, seu último conselho e uma palavra de despedida.

—O Grande Mestre sabia quando me enviou até você – disse ele.

—Foi ideia de Ephos. Ele queria finalizar seu treinamento.

Com as costas da mão, Noath enxugou as lágrimas.

—Obrigado por cuidar de seu corpo. Devo voltar ao Santuário, partirei agora, assim chegarei mais cedo.

—Não se apresse – sugeriu Afrodite – Tome um banho quente no lago, eu o deixarei a sós. Quando quiser, volte ao Castelo, terá um quarto o esperando e uma mesa de jantar, imagino que esteja com fome.

Ele estava, o que o levou a concordar.

—Partirei pela manhã – finalizou.

...

Noath subia as escadas das doze casas do Santuário, e, sempre que passava por cada casa, o cavaleiro de ouro que a protegia o cumprimentava. As exceções se davam somente pelos cavaleiros que não se faziam presentes, como em Áries e Aquário, mas para Noath, a única real ausência estava na casa de Touro; levou mais tempo nesta do que nas outras, ainda podia sentir o espírito de Ephos guardando o local, como se os ventos dali sussurrassem sua voz e o Sol que entrava e batia nas paredes deixasse uma marca dourada.

Após passar pela casa de Peixes, faltava pouco para o Salão do Grande Mestre.

—Ei, garoto! – uma voz feminina e jovial o chamou.

Quando virou-se, Noath viu subindo as escadas uma amazona trajando uma armadura de prata. Não a conhecia, nem se lembrava de tê-la visto antes pelo Santuário, mas, de alguma forma, podia reconhecer seu cosmo, que era familiar como se o conhecesse há anos. Os cabelos da amazona caiam ondulando sobre seus ombros e havia em seu pulso uma pequena corrente dourada, presente de seu pai quando se mudara para a Grécia.

—Você é Noath, não é? O pupilo de Ephos.

As pessoas não costumavam procurar por ele, e isso o deixou confuso.

—Sim, sou eu. Eu a conheço?

—Sim e não – disse a amazona – É complicado. Está indo até o Grande Mestre, certo? Eu estou também, lhe farei companhia.

Noath nada falou, e mesmo se quisesse, não saberia o que dizer. Assim, ambos seguiram pelas escadas. Eram mais íngremes do que se lembrava, é bem verdade que passara poucas vezes por ali, apenas uma pra ser exato, quando fora chamado pelo Grande Mestre para a jornada em busca do paradeiro de Ephos.

Estava bem quieto, tentando se lembrar de onde conhecia a garota com quem dividia o caminho, mas não encontrava qualquer pista. Não a conhecia pela voz, tampouco pelos trejeitos, ainda menos pela armadura. Passou pela cabeça de Noath que talvez fosse apenas uma confusão em sua mente, melhor então se desfazer dessa ideia.

O salão não era muito diferente das demais casas, exceto pela proporção de cada detalhe. Os pilares eram maiores e mais robustos, alcançando o teto distante e escuro; as paredes eram mais espessas e os tijolos mais rígidos, da porta até o trono havia um tapete de camurça escarlate, esticando-se pelo corredor; ao final dele, após alguns degraus, ficava o assento do Grande Mestre, uma cadeira grande e imponente, prateada e recheada de ornamentos em ouro. Por fim, atrás do trono, uma imensa cortina violeta cobria a passagem.

O Grande Mestre repousava sentado em seu lugar, aguardando por Noath. Era um sujeito de pele cor de caramelo, com olhos negros e profundos e de voz sonolenta. Vinha da Turquia, onde fora descoberto ainda aos quatro anos pelo então cavaleiro de Sagitário; ainda hoje retornava para dar graças ao seu povo com roupas novas e alimentos frescos. Dizia que as lembranças do passado eram o que sustentavam o futuro.

—Não tem a sensação de que há uma aura que rodeia aquele homem? – indagou a amazona enquanto caminhavam pelo tapete até o Grande Mestre.

—Uma aura? O que quer dizer?

—Não sei ao certo, ele me parece tão superior a todos os outros... tão mais evoluído.

—Deve ser por isso que o chamam de Grande Mestre, não é? – indicou o Unicórnio.

Ela parecia concordar.

Assim, quando chegaram aos degraus no fim do corredor, Noath ajoelhou-se em respeito.

—Noath de Unicórnio à disposição – disse com firmeza.

A Amazona não fez o mesmo, manteve-se de pé, com os braços atrás das costas e quieta.

—Essas formalidades não são necessárias, eu lhe falei em nosso último encontro – disse o Grande Mestre Ahmed a Noath – em tom sábio e afetivo. Noath então se levantou, tendo a certeza de que a amazona ria dele por de trás da máscara – Imagino que tenha tido uma aventura e tanto.

—Eu não chamaria de aventura – respondeu ele.

—Tem razão. Parece mais com um ensinamento.

Ahmed levantou-se do trono, deixava as mãos escondidas e cruzadas por de baixo da toga e seus passos pareciam lentos, tanto quanto pareciam prudentes e cautelosos. Encarava algo nas paredes, algo que somente ele via, como se o horizonte por de trás do cimento o dos tijolos o chamasse.

—Ephos enviou-me uma carta antes de morrer – continuou enquanto se dirigiu à uma mesa de mármore próxima ao trono. Sob ela um relicário velho, de onde tirou um pedaço de papel amassado – Dizia que seu pupilo era forte e que em seu coração havia muito do que um cavaleiro deve ter... senso de justiça, humildade e hombridade. Mas ainda que tivesse tamanho potencial, faltava algo, algo que Ephos não teve tempo de ensinar – O Grande Mestre entregou o papel a Noath e prosseguiu enquanto o rapaz a lia – O que fazer então? Não poderia deixá-lo incompleto, ainda estava verde, imaturo e cheirava a novo. O último ensinamento de Ephos ao pupilo não poderia ser então em vida.

Ahmed deixou então que Noath terminasse de ler a carta e tirasse as conclusões sozinho. O Unicórnio lia com olhos incrédulos e segurava as lágrimas, que ansiavam em escapar. Não podia perceber enquanto caminhava, mas a viagem até o Castelo de Afrodite fora tão cheia de ensinamentos quanto qualquer outro de seus dias treinando no Santuário; nessa jornada pôde salvar vidas, se viu obrigado a encontrar soluções improváveis e até sobreviveu a um deus, o mais poderoso deles. As peças se encaixavam como em um quebra-cabeças, e, por fim, lembrou-se do jardim onde estava enterrado.

—Ephos concluiu seu trabalho comigo – disse – Eu jamais teria sangue para enfrentar Zeus até então.

—Você, garoto, teve culhões. Não é todo dia que se depara com Zeus e o confronta de peito aberto – murmurou o Grande Mestre, dando-lhe tapinhas nas costas – É claro, bem, que o resultado seria outro se aquele fosse o verdadeiro Zeus...

—O que? – indagou Noath com incredulidade na voz – Se “fosse” o verdadeiro Zeus?

Ahmed gargalhou.

—Espere um minuto – disse – Você realmente achou que chutou a cara de Zeus e o fez fugir? – então riu mais uma vez – Zeus de verdade teria feito diferente com você, rapaz.

—Mas... mas... se quem enfrentei não era Zeus, então quem era afinal?

—Pelo modo como entraram no salão, suspeitei que ainda não a conhecesse verdadeiramente. Apresento a você Genie de Camaleão – apontando com os olhos para a estranhamente familiar amazona que conhecera há pouco.

—Espere, você?

Genie então removeu sua máscara, apresentando na maçã de seu rosto a cicatriz que ganhara de presente naquele dia.

—Pois é – murmurou ela – Foi um belo coice, tenho que admitir.

Corado e sem jeito, Noath tentou se desculpar.

—Foi mal pelo chute, eu não costumo bater assim em mulheres, é que eu, bem...

—Já levei pancadas piores – interrompeu ela – Além de que, espero retribuir o favor algum dia.

Noath e Genie trocaram mais provocações e tiraram risadas honestas do Grande Mestre Ahmed, que, por sua vez, ainda tinha trabalho a fazer. A estratégia do Santuário na guerra contra Zeus ainda não passava de um esboço carente de muitos retoques e as reuniões para tal não podiam parar. Os cavaleiros de Virgem e Peixes aguardavam pelo Grande Mestre e por Atena.

A Atena desta geração era provavelmente a mais discreta entre todas as outras, e por isso era tão difícil ver seu rosto perambulando pelo Santuário sem razão. Noath nunca a tinha visto de tão perto quanto naquele dia. Como um fantasma, surgiu por de trás das cortinas, era apenas uma menina, mas dentro do vestido branco e com o báculo em suas mãos seu rosto jovem era muito além de só um rosto jovem. Com um sorriso, Atena cumprimentou Noath e Genie, e com um olhar disse a Ahmed o que fazer.

—Muito bem – continuou o Grande Mestre – Se não há mais dúvidas, estão liberados por hora.

Noath e Genie assim desceram juntos todas as escadas das doze casas, deixando o salão. Perto do meio-dia, o Sol queimava o chão e seus estômagos o convidavam para um almoço. Fizeram bem ao aproveitar estes momentos de paz, a guerra ainda estava por começar e os dias de tempestade estavam perto de rugir.

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