O garoto observava a armadura que se impunha encima de um balcão, a mesma tinha adotado uma coloração vinho escuro com o passar do tempo e as partes que antigamente eram alaranjadas agora cintilavam em dourado. Sua grandiosidade sempre impressionava Robert e lhe inspirava em momentos difíceis como aquele. Ele estava no que tinha sido um bar a alguns anos atrás, e agora era o mais próximo de “lar” que ele poderia vir ter, as calhas entupidas, o cheiro de mofo, as madeiras apodrecidas e até mesmo os ratos tinham deixado de fazer importância há algum tempo.

Robert era um órfão como muitos de sua geração, a geração conhecida como a do apocalipse, pois com a vinda das sombras varias famílias tinham morrido e deixado crianças sozinhas naquele mundo que agora só era escuridão.

Robert que desde que acordara apenas tinha ficado parado, admirando a armadura, se viu distraído por outra coisa, batidas na porta dos fundos, como se alguém chama-se. Deviam de ser umas oito horas da noite e ele tinha aprendido que ninguém batia na sua porta com a intenção de vender uma enciclopédia, pelo menos não depois das cinco da tarde, que era quando os espectros saiam em direção as ruas e saqueavam o pouco que restava dos cidadãos que tiveram a vida “perdoada” pelo todo poderoso Hades. Então a porta voltara a soar e das escadas de madeira foi possível ouvir passos se aproximando, um homem apareceu vindo do segundo piso da construção, seus olhos cinzas penetrantes encaravam a porta que ainda clamava por atenção. Ele vestia uma camiseta cinza básica junto a um jeans escuro e pés descalços, faixas brancas estavam firmemente pressas aos seus punhos e calcanhares e os cabelos ondulados, pretos como a noite caiam até seus ombros. Aquele era Vega, o dono da armadura de Escudo que Robert tanto admirava e também mestre marcial do garoto. Ele fez um sinal para Robert se abaixar e então se aproximou da porta, abrindo-a com cautela olhou para o lado de fora e ali estava um espectro. O jovem não consegui-o reconhece-lo pela falta de luz no local mas como aquele era o local que um dia tinha sido a Av. Paulista de São Paulo ele deduziu que deveria ser o espectro de Sapo ou o de Deep, pois os dois faziam a ronda naquela região.

- Onde esta seus tributos ao senhor Hades cidadão ?

Disse com uma voz ronca o espectro. Vega não respondeu apenas pegou uma moeda de seu bolso direito e a entregou ao homem que vestia aquela armadura sapuris. Logo após fechou a porta e se dirigiu a parte de trás do balcão, pegou um copo e colocou o que parecia ser whisky, bebendo-o de um só trago.

- Por que você não luta Vega ? Sabe que derrotaria qualquer um desses desgraçados facilmente.

Disse com firmeza Robert a seu mestre, que se limitou a sentar em uma poltrona de couro rasgado, ao lado de seu discípulo.

- Você acha que eu nos protegi durante estes últimos onze anos para jogar tudo a perder só porque um espectro veio me cobrar dinheiro ? Eu prometi ao seu pai que cuidaria de você, e assim eu farei.

A resposta de Veja tinha sido bastante amarga e Robert preferiu calar-se depois daquilo. O sotaque espanhol que Vega ainda possuía dava mais força e entonação a suas palavras o que fazia do mesmo uma fonte de respeito e autoridade. Ele tinha sido um cavaleiro de Athena enviado da Espanha para ajudar na defesa do cerco a São Paulo montado pelo Espectro de Grifon no começo de 2013. Foi ali que Robert e seu pai que também era um cavaleiro conheceram Vega, o cavaleiro de Escudo. O pai de Robert era Kondo de Cão Maior, um poderoso Cavaleiro de Athena que tinha sido treinado na Grécia no mesmo santuário que agora servia como palácio de Hades. Na batalha que havia ocorrido dentro da Catedral da Sé, Kondo tinha sido derrotado pelos espectros de Behemot e Harpia e desde então Vega era o tutor de Robert.

- Como me tornarei um cavaleiro se os espectros nem sabem que eu existo ?

Perguntou nervoso o garoto. Vega ao mesmo tempo parou para observa-lo, ele não devia medir mais de 1 e 70 de altura, tinha já seus dezesseis anos e músculos definidos uniformemente, seu cabelo castanho era curto e repicado e vestia apenas uma calça de moletom cinza. O mestre coçou o ralo cavanhaque e finalmente respondeu.

- Para que você quer se tornar um cavaleiro, se esse titulo nem existe mais.

Robert bateu o punho na mesa a sua frente, sempre que Vega tocava naquele assunto o clima ficava complicado entre os dois.

- Você sempre me disse que Athena um dia ira retornar e então conseguiremos derrotar Hades.

Vega se levantou e foi pegar outro drink, o bebeu em um gole e encarou o rapaz com um olhar irônico.

- Hora, agora você voltou a acreditar que Athena voltara para nos libertar Rob ?

Robert abaixou a cabeça e sentou-se em um banco de madeira que estava junto a mesa.

- Não tenho mais no que acreditar Vega. Athena é nossa ultima esperança, não é ?!

Vega deixou o copo encima do balcão junto a sua armadura e se aproximou de Robert novamente, apoiou sua mão contra o ombro do garoto e seus olhos sérios o fitaram.

- Então se você quer se tornar um cavaleiro, o melhor será que os espectros nunca descubram que você existe. Não acha ?

Notas finais
(Em homenagem a aquele que me adentrou neste incrível mundo que vivo hoje. Obrigado Senhor Masami Kurumada.)