Saint Seiya Seitoushi
3 Capítulo 3
Enquanto o trem sacudia, Yusuke de Gêmeos olhava pela janela a paisagem correndo e mudando quase rápido demais para que se pudesse ver com clareza. Estava com a face apoiada na mão e quase dormindo, já fazia pelo menos duas horas que nada acontecia e isso o incomodava. Experimentou abrir a janela, mas estava emperrada e só conseguiu abaixá-la um pouco, o que fez os cabelos castanhos arrepiados ficarem ainda mais para cima, mas as pontas mais longas, nos ombros, ficaram intocadas. Não foi o suficiente para distraí-lo, e resolveu virar os olhos um pouco mais escuros que o tom dos cabelos ao outro garoto que estava dividindo aquela cabine. Swedenborg de Aquário parecia uma estátua não fosse o movimento dos olhos vermelhos percorrendo as palavras do livro velho que segurava, os óculos escondendo as íris rubras quando um clarão de luz tomava as lentes, com os cabelos da mesma cor caindo até o meio das costas, sacudindo vez ou outra quando o trem se movia.
— Cara, você não larga desse livro. – disse para o ruivo, sem entender o que tinha de tão bom em páginas amareladas e palavras difíceis.
— É interessante. – retrucou Swedenborg, voltando para onde tinha parado.
— Do que fala? – ao perguntar aquilo, Yusuke percebeu o quanto estava desesperado para quebrar o clima de tédio daquele lugar.
— É uma peça de Shakespeare, Macbeth. – o ruivo pareceu satisfeito com seu interesse, erguendo a voz para recitar a passagem que estava lendo. — ...A vida é uma sombra errante; um pobre comediante que se pavoneia no breve instante que lhe reserva a cena, para depois não ser mais ouvido. É um conto de fadas, que nada significa. Narrado por um idiota cheio de voz e fúria...
Quando terminou de ler, virou os olhos para o moreno em busca de uma opinião sobre as palavras, mas este estava com a face encostada no vidro, os olhos fechados, caído no sono. Irritado, Swedenborg fechou o volume grosso e atirou-o na cabeça do outro, que acordou meio confuso. – Que foi? – apesar da pergunta, o Cavaleiro de Aquário não respondeu, cruzando os braços num sinal de que tinha se ofendido com o que fizera. Por sorte, aquela situação não durou muito, porque com um solavanco mais forte o trem parou na estação final.
— Finalmente. – comemorou o geminiano enquanto pegava debaixo do banco a alça de couro amarrada a uma urna quadrada e dourada, com a imagem de duas crianças com asas abraçando-se, puxando o tecido escuro que tinha colocado sobre o metal para que não se visse de que era feito e chamasse atenção demais, deixando o peso sobre um único ombro. Swedenborg fez o mesmo, ajeitando a própria urna bem coberta de tecido escuro, e o peso nos ombros fez sua postura ficar reta, parecendo até antinatural.
— Vamos, não quero demorar muito aqui. – avisou o ruivo, descendo na estação e colocando a mão diante dos olhos para enxergar sob o sol forte. Detestava lugares quentes.
— O que acha que está causando problemas aqui? – Yusuke tentou puxar conversa para ver se compensava o incidente de pouco antes. Por mais estranho e reservado que o aquariano fosse, ainda era a única pessoa com quem se entendia.
— Não sei, o Grande Mestre não deu muita informação...
Naquele ponto, os dois concordavam. Antes de manda-los, o Mestre do Santuário dissera apenas que algumas pessoas estavam sumindo, mas eram um, dois casos por ano. Aquilo não deveria incomodar os Cavaleiros de Athena, pelo menos não até que alguns de bronze que estavam por perto também sumissem. O primeiro incidente fora há cerca de um mês e envolvera três jovens cavaleiros, que tinham voltado ao Santuário uma semana depois, com as armaduras aos pedaços e sem um traço de cosmo em si. Dois tinham perecido ao chegar, mas o terceiro conseguira alertar sobre algo grande nas ruínas de Esparta, antes de entrar em coma, do qual ainda se recuperava. Desde então, havia incursões de cavaleiros de bronze e prata eram enviados ao local, mas a maioria não encontrava nada, e aqueles que encontravam, voltavam no mesmo estado ou pior do que os primeiros. Chegara a tal ponto que era hora de apelar aos santos de ouro, o motivo para Yusuke e Swedenborg estarem ali. A perspectiva não era animadora, mas era melhor do que ficar trancado em uma das Doze Casas, sem poder sair.
Num acordo mútuo, os dois se afastaram da parte restaurada e moderna da cidade, que havia sido instalada pelo governo grego havia cerca de dois séculos, restringindo a parte antiga da capital que havia governado a Grécia inteira, mesmo que por um breve momento. As pessoas nas ruas os olhavam com curiosidade ou mesmo com irritação, o que parecia estranho, mas não eram incomodados. Já era pouco mais do meio dia quando eles chegaram à parte antiga da cidade, que não tinha nada do esplendor de outrora que os livros descreviam. Era apenas pedra, poeira e calor.
— Está vendo alguma coisa? – Yusuke colocou as mãos nos bolsos e olhou em volta, mas não havia ali nada, só insetos e um ou outro lagarto que fugiu deles. Nada ameaçador.
— Não, mas há outras formas de ver. – o ruivo retrucou e tirou os óculos, o que não era uma boa ideia porque sua visão se resumia a borrões sem as lentes. Uma vez sem aquele sentido, tentou se concentrar nos outros, ouvindo quando os insetos voavam, sentindo o vento mudando de direção contra a pele, mas nada que ajudasse. Pensou ter sentido um zumbido mais alto, e para ter certeza foi na direção do som. Yusuke reparou, observando-o.
— Tá procurando o que?
— O que é esse som?
— É um bando de insetos, acho que um lagarto morreu naquele canto. – apesar da resposta, Swedenborg seguiu para ter certeza, mas no caminho tropeçou numa daquelas pedras soltas, que pela visão borrada eram praticamente invisíveis, fazendo o moreno cobrir a face com a mão, suspirando antes de ir até ele e lhe segurar o ombro para se erguer. Para sua surpresa, o outro o afastou, apoiando as mãos no chão.
— Tem alguma coisa errada aqui. – e para demonstrar, colocou os óculos de volta, batendo com o punho fechado no chão. Para qualquer pessoa normal, o som era de quem socava um chão de terra batida, mas para a audição bem treinada de ambos, tinha um traço bem baixo que denunciava algo errado.
— Parece oco. – a surpresa e a confusão eram completos, e já erguido, o aquariano pensou um momento antes de juntar as mãos, levantando e abaixando rumo ao chão. – Diamond Dust!
Seu ataque gerou um turbilhão de gelo e neve que atingiu aquele chão árido, deixando o ar gelado por alguns instantes enquanto o solo se congelava. O ataque fora concentrado, de modo que a área a ser coberta era pequena, mas chegou mais fundo. Quando terminou, Yusuke chutou o gelo, criando rachaduras cada vez mais fundas até que tudo ruiu, deixando à vista um buraco negro, do qual não dava para ver nada. O moreno pegou uma pedra pequena – a que Swedenborg tinha tropeçado – e deixou cair lá dentro. Levou alguns segundos para fazer algum som, batendo várias vezes antes de parar.
— É fundo, e tem alguma coisa lá dentro. – e virou os olhos ao ruivo. – Vamos nessa?
Em concordância, libertaram as armaduras das urnas, a imagem dos gêmeos se desfez e as placas cobriram o corpo de Yusuke, enquanto a imagem de uma pessoa segurando uma jarra moldou-se como armadura em Swedenborg. As urnas vazias foram deixadas sob uma pedra onde ninguém as acharia, voltando à abertura, cujo gelo já havia derretido.
— Quem vai primeiro? – o geminiano quis saber.
— Você. – o ruivo foi rápido ao responder, como se fosse óbvio.
— Obrigado. – com aquele comentário em tom seco e sem muita opção, o Cavaleiro de Gêmeos sentou-se no chão e colocou as pernas dentro daquela fenda, apoiando as mãos no chão e empurrando-se para dentro. O vazio o engoliu e por um momento sentiu apenas o vento forte agitar seus cabelos, até ver a forma dourada e vermelha do aquariano próximo de si, também em queda livre. Só quando estava caindo se deu conta de que não tinham como retardar a queda, e olhando para os lados, notou uma formação larga e estreita de pedra, onde o seixo que jogara devia ter batido enquanto caía. Com dificuldade, se movimentou até chegar perto do paredão de rocha, agarrando-se a esta com os dedos e a ponta das botas. A princípio tudo o que conseguiu fazer foi machucar as mãos, mas pouco a pouco foi indo mais lentamente, até chegar a dois metros do solo e cair contra o chão. Em vez de um chão sulcado e acidentado, pisou em algo liso gerando um som metálico quando tropeçou e caiu com mais ruídos de metal, enterrando a face em densos fios rubros. Foi só então que notou que caíra sobre o cavaleiro de aquário, por ser menor devia ter chegado mais rápido.
— Yusuke... Sai de cima de mim. – rosnou o ruivo, e seu corpo ficou tão gelado que o geminiano pulou e se ergueu, saindo daquela posição... estranha. Batendo a poeira das placas de ouro, Swedenborg olhou em volta, e a visão fez esquecer até o incidente.
Havia diante de si uma cidadela inteira escavada em rocha escura, com luzes não-naturais iluminando as ruelas e o teto. Os edifícios eram baixos e retos, uniformes, como as ruas, que convergiam numa construção larga até quase o teto de pedra. A formação onde os dois tinham se agarrado era uma torre de vigia, alta e estreita. Estranhamente, não havia ninguém à vista.
— Mas o que... – começou a dizer o geminiano, quando um ofego atraiu a atenção de ambos, vindo de trás.
— Intrusos! – gritou um rapaz que não parecia muito mais velho que os dois cavaleiros, trajando uma armadura de cores acobreadas e tons de negro. Ergueu os punhos, armados de garras afiadas.
— Faça-o calar a boca. – pediu Swedenborg, não achando o estranho uma ameaça. Yusuke esticou o indicador, murmurando em voz baixa.
— Genrou Maou Ken. – com a ordem, um feixe fino de luz chegou ao guarda, que parou e se acalmou, olhando-os fixamente. Estava sob seu controle. – Quem é você?
— Ewan de Lince, Lacedemônio de Ares e guarda da cidadela. – o vigia respondeu prontamente. Um olhar preocupado correu entre os dois santos de ouro. Ares era o deus da guerra, mas não ressurgia a mais de quatrocentos anos, podia ser algo totalmente diferente.
— Há outros Cavaleiros de Athena aqui? – os olhos rubros do aquariano se estreitaram quando o guarda assentiu. – Nos leve até eles. – exigiu.
Ewan de Lince o olhou como se duvidasse de sua autoridade, mas o olhar duro do Cavaleiro de Gêmeos – quem lançara o ataque – o convenceu, e como se guiasse um superior em vez de invasor, o guarda se virou e foi seguindo pelas ruas estreitas em direção à grande construção no centro. Mesmo de longe, parecia emanar uma energia ameaçadora, como um gigante mergulhado em sono leve.
— Que lugar é esse? – inquiriu Yusuke, ainda achando estranho as ruas vazias. Vez ou outra um guarda passava e ambos se escondiam nas sombras, mas afora isso, nada acontecera.
— A Cidadela Espartana, uma das treze províncias que Ares mandou fazer para suas tropas. – outro olhar sério entre os dois cavaleiros foi cortado por outra afirmação do Lacedemônio. – Logo o toque de recolher terminará. – disse isso vendo as luzinhas azuladas descendo para mais perto, deviam ser a marcação de tempo uma vez que não havia sol embaixo da terra. Com isso, eles apressaram o passo, pois não tinham ideia de quantos Lacedemônios havia, e o Genrou Maou Ken não controlaria um exército inteiro. Ewan os levou até quase os portões negros da construção principal, mas antes de darem de cara com os guardas da entrada, desviou-se para o lado, dando a volta num muro alto de pedra negra. Havia o som de vozes do outro lado, mas eram tantas que não se entendia mais do que palavras desconexas. Eles deram a volta por aquele muro até um portão de ferro retorcido, mas que parecia bem forte. – Os cavaleiros estão aqui. – terminou o Lacedemônio.
— Volte para o seu posto e esqueça que nos viu. – ordenou o Cavaleiro de Gêmeos para o guarda, que assentiu e se afastou, deixando-os diante do portão. – Derrubamos?
— Não estamos aqui para chamar atenção. – retrucou Swedenborg, agarrando o ferro negro torcido e se içando para cima, escalando o portão com facilidade, pulando do outro lado. Dando de ombros, o geminiano foi atrás, embora algo estivesse lhe incomodando.
— Ei, não acha que tá fácil demais? – perguntou ao ruivo, que estava ajeitando os óculos na face. – Acha que sabem que estamos aqui?
— Tenho certeza. O que quer que façam aqui, eles querem que entremos. – a resposta não foi animadora. – Acho que nossa única vantagem é que eles esperam cavaleiros de bronze, não ouro.
E, com aquela perspectiva, não restava nada além de seguir em frente. Nos primeiros metros nada foi visto além de um chão manchado de sangue e pedras que saíam do chão como dentes negros e afiados. Quando ouviram passos, Yusuke se preparou para atacar, mas o aquariano puxou seu braço e levou atrás de uma daquelas pedras, escondendo-se da vista de um outro guarda que carregava um visível Cavaleiro de Athena, sua armadura era a de Urso e parecia apenas desacordado. O Lacedemônio abriu os portões apenas parando diante deles, atirando o cavaleiro para fora e voltando.
— Por que fez isso? Eu acabaria com ele. – Yusuke não entendeu o porque de estarem escondidos, não podia ser por medo de uns guardas fracos.
— Nossa missão aqui é de reconhecimento – frisou o ruivo, sério. – Se acabarmos como aqueles cavaleiros, ninguém vai saber o que há aqui. Tem coisas bem mais perigosas que esses guardas aqui, você também sente.
O geminiano ficou sem resposta, ele estava certo. A presença de algo poderoso na construção logo atrás era a prova, e não queria despertar o que houvesse ali. Assim sendo, correram de pedra em pedra para que ninguém notasse sua presença, se aproximando daquelas vozes. Na última pedra, viraram a face para ver adiante, onde havia mais dois cavaleiros, um de bronze e um de prata, pelo menos à vista. Alguns Lacedemônios os seguravam, mas pelo estado atual, nem era preciso, estavam a poucos minutos de ficar igual ao jovem que fora jogado para fora. Os guardas não seriam problema, mas havia mais dois homens, um de físico forte e outro mais esguio, e armaduras que até então não eram conhecidas.
— Quem são esses caras? – Yusuke perguntou em voz baixa, mas Swedenborg negou com a cabeça, por mais que tivesse lido todos os livros na biblioteca do Santuário, nunca vira nada parecido.
— Não tenho ideia, mas parecem mais fortes. – e como se fosse uma resposta a isto, os dois cavaleiros segurados gritaram pragas e lutaram contra os que os seguravam, enquanto fios azulados saíam de seus corpos e subiam, entrando por uma abertura naquela construção logo atrás. Levou um bom minuto para o Cavaleiro de Aquário entender o que faziam. – Estão roubando cosmo deles! As pessoas de antes deviam despertar alguns fios de cosmo por acidente e chamaram a atenção, e os cavaleiros...
Ele não continuou, porque viu o geminiano pulando para fora daquela pedra, avançando correndo na direção daqueles guerreiros estranhos. – Eu não acredito... – suspirou o ruivo enquanto ia atrás dele antes que acabasse se metendo em problemas, se é que já não tivessem feito isso.
— Galaxian Explosion! – atacou erguendo um dos braços e concentrando o cosmo para lançar um ataque, lançando uma energia tão forte quanto a de uma estrela nascente nos Lacedemônios e os dois estranhos. Os guardas foram feridos com o golpe e alguns nem se moveram quando foram ao chão, mas o mais forte daqueles desconhecidos puxou o que parecia ser um escudo de suas costas, longo e estreito, colocando diante dele e do companheiro, de modo que suas armaduras escuras nem ficaram arranhadas. – O que acham que estão fazendo, lacedemônios? – ergueu a voz, parando a uns cinco metros da dupla.
— Lacedemônios? – repetiu a figura esguia, saindo de traz do escudo do outro, com tom irritado. – Não somos soldadinhos, somos os Torturadores, servos de Deimos e Phobos. Varaugh de Guilhotina. – apresentou-se.
— Aegon de Sepultado. – o maior disse, ajeitando aquele escudo, que se revelou ser uma tampa de caixão de metal. Um longo minuto se passou sem uma palavra, no qual Yusuke percebeu que estavam esperando que ele fizesse o mesmo, como se fosse algum rito de guerra.
— Yusuke, Cavaleiro de Ouro de Gêmeos. – e assim que o som de passos às suas costas parou, apontou para trás, onde sabia que estava seu parceiro de missão. – Ah, é, Swedenborg de Aquário.
— Cavaleiros de Ouro... – Varaugh de Guilhotina os olhou de cima a baixo. – Achei que eram mais velhos, mas devem ter bem mais energia que esses inúteis. – e ao falar, chutou um dos cavaleiros do qual tiravam o cosmo, que não se mexiam tampouco respiravam.
— Por que estão roubando a energia deles? – inquiriu o ruivo, se aproximando alguns passos. Aegon de Sepultado abriu um sorriso que de bom não tinha nada.
— Vocês vão saber logo, da pior forma. – e com isso, avançou a passos fortes, e não havia dúvida que se chegasse perto para golpear um grande estrago seria feito. Esticando o braço, Swedenborg fez o ar de tornar mais frio.
— Kolisto! – atacou, fazendo aquelas correntes de ar irem congelando na forma de anéis pelo corpo do Torturador, que rosnou e parou, lutando contra a pressão, que se tornava mais forte.
— Perdendo pra um quatro-olhos magrelo, Aegon? – zombou Varaugh, erguendo os braços. O ar acima dele tremulou, com formas compridas apareceram, voando rapidamente em sua direção. – Blade’s Volley!
Com a ordem, ficou claro que aquelas lâminas eram como as de guilhotina, avançando como uma parede afiada para os dois cavaleiros. Apesar de serem inúmeras lâminas, desviar-se não foi difícil, mas uma das pontas afiadas raspou no braço de Swedenborg. Este se curvou com um gemido, vendo o talho aberto liberando uma luz azulada e clara para cima. Estava roubando o seu cosmo, e antes que fosse tarde, cobriu com a mão o corte, criando uma camada de gelo para estancar o sangue e o fluxo de energia. Aegon de Sepultado se soltou dos anéis de gelo, mas parou de avançar, se concentrando.
— Starving Sepulture! – a princípio nada aconteceu, mas ao olhar para cima, Yusuke viu a tampa do caixão flutuando cair em sua direção e sentiu o chão tremer. Num impulso, agarrou o braço de Swedenborg e o puxou no exato momento em que do chão emergiu um caixão de metal negro, as duas peças se unindo. A pior parte foi que havia dentes nas bordas do caixão que estremeceu como se fosse um animal faminto que perdera a caça.
— Temos que dar o fora daqui. – o ruivo disse quando foi solto, notando que o caixão sumira de novo, e provavelmente tentaria prendê-los em seu interior na próxima.
— O que? – Yusuke pensou ter ouvido errado. – Vamos acabar com eles!
— Não! – o ruivo agarrou seu braço com força, causando um arrepio por ser frio. – Se eles nos desacordarem ou capturarem, ninguém vai saber o que acontece aqui, e mais pessoas serão usadas para alimentar o que tem lá dentro. – e apontou para a construção central da cidadela. Por seu tom, o Cavaleiro de Gêmeos reparou que ele estava controlando a raiva, ele também queria lutar contra aqueles dois estranhos e puni-los pelo que faziam. Mas a razão tinha que se sobrepor a esses sentimentos para sua missão ter sucesso.
— Que seja, mas quando isso terminar, quero caçá-los.
— Ótima ideia, não esqueça de me chamar.
Concordando, Yusuke ergueu os braços, concentrando a energia em mais um golpe, com mais força que antes. – Galaxian Explosion!
O golpe desta vez foi com muito mais força, mas Aegon se protegeu da mesma forma, convocando de volta a tampa do caixão e usando como escudo para si e o outro Torturador. Só que desta vez o golpe não era ofensivo, era para criar uma distração enquanto os santos de ouro saltavam até um teto baixo de um prédio próximo, correndo ao longo das construções, assim evitavam as ruas. Foi uma boa tática, já que o toque de recolher já fora revogado e as ruas estavam apinhadas de soldados e pessoas em roupas surradas, apontando e gritando em aviso quando os viam. As armaduras não eram discretas, mas o tempo da discrição já se fora.
— Não deixe eles fugirem! – Varaugh gritou e saltou para os telhados, assim como Aegon, que arrumou aquele escuro-caixão nas costas para se mover melhor. A perseguição foi notada pelo geminiano, que virou a face sobre o ombro.
— Precisamos detê-los, ou vão nos seguir para fora.
— Eu tenho um plano. – retrucou Swedenbog, os olhos fixos na torre de vigia que tinham usado para entrar, murmurando com a voz baixa e rápida, se modo que o moreno não soube o que fazia, mas que requeria bastante esforço. – Temos que chegar lá rápido.
Não foi preciso mais nenhum incentivo, e por sorte eram mais rápidos que aqueles dois Torturadores, logo chegando à torre. A pedra parecia normal, mas quando saltou para ela, o Cavaleiro de Gêmeos sentiu um tremor, olhando para o ruivo que já escalava com pressa. – O que você fez?
— Agora não! – ele o cortou e instigou a subir, e imaginando que não tinham tanto tempo, foi saltando até se agarrar nas bordas do buraco feito no chão antes. Quando subiu, agarrou o pulso do aquariano e o trouxe para cima, esperando quando os Torturadores aparecessem em seu encalço. Eles levaram um pouco mais de tempo para chegar, mas logo saltaram para a torre, escalando como arranhas antes que os tremores cada vez maiores da estrutura os fizeram parar e olhar confusos em volta. Foi tarde demais quando notaram que a torre estava afundando no chão, levantando uma nuvem de poeira por centenas de metros, espantando os mais próximos. Surpreso, o moreno se virou para o Cavaleiro de Aquário. – O que você fez?
— Congelei o chão embaixo da torre a ponto de quebra. – ele riu, o que era muito raro. Mas logo voltou à seriedade. – Temos que ir, podem mandar mais soldados em nosso encalço.
Enquanto os Cavaleiros de Ouro deixavam Esparta o mais rápido possível, as pedras negras e quebradas da torre tombada se moveram com um som cavernoso até que uma passagem foi aberta, deixando Aegon sair e puxar Varaugh para fora. Eles estavam escoriados, esfolados e com as armaduras rachadas, porém muito vivos. Ofegando de raiva, Varaugh levantou o rosto para a abertura no teto de pedra. – Quando for a hora de invadir o Santuário, vou poupar aqueles dois... – disse entredentes, atraindo um olhar confuso de Aegon. – Vou poupar suas vidas para tortura-los e implorarem pela morte!
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