Saint Seiya Reboot

1 Capítulo 01 - Raposa


Desde eras mitológicas foi confiado a Athena, a deusa da sabedoria e estratégia, o planeta Terra e todos os seus habitantes. Os mares foram entregues a Poseidon, assim como o reino dos mortos ao deus Hades. Ares, o deus das batalhas, da guerra e da carnificina, fora punido pelos deuses pela sua violência perdendo suas posses terrenas. A partir deste momento, Ares e seus soldados, os Berserkers, guerreiros furiosos como bestas enfrenta Athena e seus santos guerreiros, Cavaleiros, em uma batalha sem fim.


Atualmente é o ano de 2002. A guerra contra Ares perdura por cento e quarenta meses. As tropas de Athena (que em seu máximo ostenta oitenta e oito guerreiros, cada um representando uma das oitenta e oito constelações no firmamento) estão pela metade. As tropas do deus da guerra não param de crescer, mesmo chegando ao seu limite, continua a se expandir.



A cidade de Aoginbara, no centro do litoral oeste do Japão desconhece esta guerra sanguinária, assim como mais de noventa e cinco por cento do mundo. Chamada de Aobara para encurtar, é um pequeno município que serve de porto para embarcações do continente. Está ao pé de uma montanha conhecida por seu enorme templo xintoísta, gerando um enorme número de peregrinos religiosos a cidade. Sua economia depende das importações e do turismo.



Um garoto chega ao porto. Veste roupas atuais, calças jeans, uma camiseta abotoada, negra, com as mangas levantadas e um par de sapatos, também pretos. Seu cabelo era um pouco avermelhado, possivelmente tingido. Seus olhos eram escuros, seu rosto ostentava traços orientais. Duas alças de couro seguravam uma caixa metálica em suas costas. Era algo diferente, todos o olhavam como um estranho.



– Que nostalgia... – Disse o jovem levantando os dois braços, se esticando após uma viagem desconfortável. – Não venho aqui há um bom tempo. Dirigiu-se ao centro da cidade, onde estão os restaurantes e outros tipos de estabelecimento.



Enquanto andava por uma estreita rua, dos dois lados os movimentos de turistas não paravam, eram lojinhas vendendo pequenos itens religiosos, restaurantes vendendo pratos típicos. Era praticamente impossível adentrar qualquer uma daquelas barracas. Um quiosque discreto estava no meio daquela multidão, quatro cadeiras em frente a uma pequena bancada escondida com pequenos panos. O garoto se sentou.



– Boa tarde. – Cumprimentou. Retirou a caixa metálica de suas costas e posicionou ao lado de sua cadeira.



Dentro lá estava uma jovem, deveria ter seus dezessete anos, tacos asiáticos, longos cabelos negros. Em sua cabeça estava um pano que a cobria, em seu busto um avental, era bela, mas não parecia ter tempo para se cuidar. Estava apenas ela lá.



– Bem vindo. – Ela se abaixou em respeito. Pegou o cardápio de uma pequena pilha (deveria ter apenas uns cinco), estava um pouco velho e empoeirado.



O jovem homem recebeu o cardápio e o abriu. Não lia os nomes, embora crescera no Japão até uma certa idade, não aprendeu a ler boa parte de seus ideogramas. Escolheu o prato apenas pelas suas ilustrações laterais.



– Eu quero este aqui. – Apontou para uma das ilustrações.



– Ah... – A garota estranhou que ele não falou o nome em voz alta. Entendeu naquele momento que ele não sabia os ler. Entretanto, ela não sabia tão mais quanto ele, deixara seus estudos ainda no início da adolescência.



Por alguns minutos a moça ficou na cozinha, escondida da frente do pequeno recinto. De lá trouxe uma tigela, dentro, sopa e macarrão. Serviu-a ao cliente e finalizou colocando um par de hashi sobre o prato.



– Obrigado.



Ele partiu os palitinhos de madeira e começou a comer, visivelmente com dificuldade em manuseá-los. A garota observou a cena por algum tempo.



– Eh... – Ela murmurou.



O garoto dirigiu seu olhar a ela.



– Você quer talheres? – Perguntou.



– Preferiria. – Respondeu.



Adentrou novamente na cozinha, trouxe um garfo e uma colher, os colocou na mesa ao lado do cliente. Ele largou os palitos de madeira e usou o par de talheres para comer. A garota se sentou em um pequeno banco do lado interno da barraca.



– Você por acaso não é daqui? – Questionou a garota com curiosidade.



– Daqui? O que considera “daqui”? – Perguntou como uma resposta. Já havia comido quase metade de sua refeição.



– Japão.



– Então eu sou “daqui”. – Respondeu num tom de deboche.



– Então por que... – Foi interrompida pela fala de seu cliente.



– Por que eu não sei usar um simples par de hashi ou por que eu não consigo ler kanji? – Completou a frase.



– É... – Concordou.



– Não piso em solo nipônico há... – colocou os talheres na mesa e começou a contar usando seus dedos. – Seis... sete anos.



– E onde morou o resto do tempo? – Perguntou.



– Estive em tantos lugares, não sei a onde posso considerar como uma “moradia”. Mas passei a maior parte do tempo da Grécia. – Respondeu à curiosidade da garota.



– E o que te trás de volta?



– Preciso visitar o templo de Otomegawa. – Terminou de comer o macarrão. Com a colher começou a sopa. – Tenho que encontrar um velho amigo.



– Ah sim... – se conformou.



– Afinal, porque a cidade está tão cheia? – Neste momento, terminou sua sopa.



– Semana que vem já é o tanabata. – Respondeu. – O templo faz uma grande comemoração.



– Ah é, o tanabata, também esqueci como é isso... – Retirou do bolso uma pequena bolsinha cheia de moedas e algumas cédulas. – Quanto foi o macarrão?



– Seiscentos ienes.



– Erh... – O garoto ficou envergonhado. – Eu poderia pagar em euros?



– Euros? – Era um pouco confuso receber numa moeda internacional, ainda mais uma que era recente. – Tudo bem... – Como não tinha muitos clientes, concluiu ela que era melhor do que não receber.



Tirou da pequena bolsa uma nota de cinco euros e algumas moedas, as colocou em cima do balcão.



– Aqui devem ter uns setecentos ienes. – Afirmou. – Muito obrigado.



Ele retirou a sua caixa metálica do chão e continuou seu caminho em direção ao famoso templo nos arredores da cidade. Seguiu até o momento em que pequenas construções desapareciam, dando lugar a árvores aos pés da montanha. Enquanto subia pela floresta, a jovem garota recolhia a tigela e os talheres e os colocando em uma pia na cozinha.



– Garoto estranho... – Cochichou enquanto lavava os itens.



Pingos de chuva começaram a cair do lado de fora. Em pouco tempo, a chuva se tornou intensa.



– Está chovendo? – Questionou. – Estranho estar chovendo... o céu estava claro... – Fechou a torneira da pia, usou um pano que estava pendurado ao lado para enxugar as mãos e foi para o lado externo. O que viu a chocou. Um enorme número de cadáveres estava no chão, todos violentamente perfurados, poças de sangue se misturavam a água pluvial, o ataque foi tão repentino que não puderam gritar, algumas pessoas conseguiram fugir, outras estavam na mesma situação da garota. Não conseguia falar nada, tampouco se mexer.



– Ouça, Aobara, eu voltei! – A voz ecoou por toda aquela rua.



Um homem adulto, deveria ter aproximadamente trinta e cinco anos, de pele extremamente pálida, também de traços orientais, estava em pé no centro daquela carnificina. Vestia uma armadura metálica de cor azul marinho que cobria grande parte de seu corpo, o elmo que cobria sua cabeça era do formato de uma cabeça de tubarão. Em sua mão direita estava um sabre, seu fio era dentado, todos tão afiados como lâminas, coberto com o sangue de suas vítimas.



– Kamishiro Masame está de volta! – Exclamou.



Em seguida, erguei o sabre a altura de sua boca e lambeu cada gota de sangue que está ai.



– Aqueles que ousarem a desobedecer minhas regras terão o mesmo destino! – Gritou, perfurou um dos cadáveres com o sabre, o deixando no chão.



Outro homem, um pouco mais baixo, se aproximou dele. Também era protegido por uma armadura metálica, de mesma cor, mas não possuía um elmo, suas extremidades lembravam barbatanas. Em suas costas estava guardado um machado. Assim como o outro guerreiro, era oriental de cabelos negros.



– Aqui aniki, mais alguns. – Em cada uma das suas mãos carregava um corpo, os segurando pelas roupas. Em seguida os arremessa junto aos outros.



– Bem poucos, para o poder que recebeu. – O homem o encarou.



– Calma, só estamos nos divertindo. – O outro homem sorriu um pouco amedrontado.



O segundo homem olhou em volta a procura de algo interessante, quando visualizou a jovem garota do pequeno quiosque, ainda paralisada. Ele se aproxima dela.



– Olá, pequenina... – Acariciou o seu rosto com as mãos cobertas com o sangue das vítimas.



– Ah... – A garota murmura, tenta se afastar, mas é segurada pelo braço.



– Não vá fugir, minha amiga. – Avisou.



– Pare ai, Berserker. – A voz heroica ressoou por todo o local.



O garoto, turista, retorna ao local de onde há poucos minutos saíra.



– Eu não vou deixar que faça nada a ela. – Notificou. – Se tentar, não poderei garantir sua segurança.



– E quem é você, por acaso? Não me diga que é um Cavaleiro? – Questionou o homem, empurrando a garota no chão.



As duas tiras de couro que seguravam a caixa em suas costas se soltaram a fazendo cair. No mesmo instante ela se abre, revelando uma estatueta em forma de raposa. A um olhar mais atento, é visto que ela é articulada, formada por várias peças.



– Mas é apenas um Cavaleiro de Bronze. – Segurou o riso. – O que acha que fará contra nós.



O garoto não respondeu aos insultos. As placas metálicas que formavam a raposa se separaram, dando lugar a uma armadura que agora cobre o seu corpo. Era vermelha como um rubi. Um diadema ornamenta sua cabeça relembrando o olhar de uma raposa.



– O Cavaleiro de Bronze da Constelação de Raposa. Touki de Vulpecula. – Se apresentou.



– Também irei me apresentar. Sou um Berserker do Esquadrão do Desastre. Tsuchi de Hammerhead. – Respondeu. Em seguida ergueu a mão aberta em direção ao outro homem. – E este é o meu invencível mestre, Masame de Shark!



O outro homem continuou estático.



– Entendo. – O jovem Cavaleiro, Touki, abaixou sua cabeça em consentimento. – Já nos apresentamos.



Avançou em grande velocidade, o impacto contra o corpo do inimigo o fez com que se arrastasse por mais dois metros. Assim, conseguiu o afastar da garota.



– Kitsunebi! – Touki ergue as duas mãos abertas, pequenas esferas de chamas de aproximadamente dez centímetros de diâmetro, cada, surgem em sua frente. São todas arremessadas contra Tsuchi.



O Berserker posiciona seus braços em frente ao seu corpo, em defesa. As chamas causam pequenas queimaduras.



– Que golpe fraco! – Exclamou boquiaberto, gargalhando. – Então esta é a força dos tão falados Cavaleiros de Athena? – Debochou.



– Mostre o que tem, Berserker. – Touki respondeu no mesmo tom, abriu os braços, sem defesas.



– Estas serão suas últimas palavras, Cavaleiro. – Tsuchi retirou o machado guardado em suas costas, com sua haste bateu duas vezes na palma de sua mão, e, num piscar de olhos, avançou contra o Cavaleiro. – Hammer Fang!



Touki impediu o golpe segurando o machado usando as duas mãos nuas, com um movimento de sua perna realizou uma rasteira, derrubando o Berserker que largou seu machado nas mãos do inimigo.



– É tudo o que tem? – Questionou Touki, se aproximando do corpo no chão.



– Argh... – Balbuciou o adversário.



Touki ergueu o machado, como um carrasco ao assassinar sua vítima.



– Você não faria! – Exclamou Tsuchi. – Cavaleiros de Athena não são permitidos a usar armas!



O Cavaleiro aplicou o golpe, entretanto, propositalmente acertou o chão, errando o Berserker.



– Eu estava certo, vocês são uns fracos! – Debochou. – Hammer Vortex! – Levantou suas duas mãos contra Touki, conjurou sobre si um turbilhão de água capaz de arrastar seu inimigo, conseguindo tempo suficiente pra se levantar. Novamente os dois estavam frente a frente.



– Então vamos acabar com nossa diversão! – Exclamou o guerreiro de Athena. – Tamamo no Mai!



Seu corpo se dividiu em nove cópias iguais, todos pareciam ser reais. Os vários clones assumiram a arranjo de um círculo com centro no Berserker inimigo.



– Tudo acaba aqui, Berserker! – Touki ameaçou.



– Do que está falando? – Questionou o inimigo.



– O golpe mais poderoso da constelação de Raposa! Kyuhadou! — Gritou.



De cada um dos corpos emanaram nove sinuosas cabeças de dragão inteiramente compostas por chamas. Totalizando assim, nove vezes nove serpentes flamejantes, todas alvejando apenas Tsuchi. Mais de dois segundos não foi necessário para ver o corpo dele queimar, o assassinando.



Ao final do golpe, as ilusões de Touki despareceram, estavam em pé apenas o cavaleiro, ofegante, gastara todo o seu cosmo em seu último ataque, e o outro Berserker, Masame. O silêncio durou alguns segundos.



– E então, Berserker? – Disse Touki, tentando esconder o cansaço.



– Me recuso a lutar com um Cavaleiro de Bronze. – Afirmou Masame, virando de costas.



– Espere! O que está dizendo? – Touki se sentiu ofendido com o comentário. Ergueu sua mão contra ele, mas não conseguiu mantê-la assim por muito tempo.



– Mal aguenta ficar em pé. – Respondeu Masame, sem ao menos se virar. – Kouga Giri!



Um feixe de água é lançado em direção a Touki, o cavaleiro de Bronze é derrubado. Masame segue o seu rumo em direção as docas da cidade. A única pessoa que ainda tinha coragem de permanecer naquele lugar era a jovem que servira Touki. Ela se aproximou do corpo dele, ajoelhou-se. A chuva neste instante parou.