Saint Seiya: O Vazio do Submundo / Parte 2
1 Reencontros
Notas iniciais
As vagas do Pacífico estavam tranquilas naquela manhã.
Elas vinham e quebravam-se contra o porto, contra as muretas, contra os navios; e ao quebrarem-se, o sal efervescia o branco das ondas. Os barcos rangiam gravemente, inclinando-se ao prazer das vagas e torcendo suas madeiras como se bocejassem atracados. O tempo era diferente, a força também, mas tudo se repetia: vinham as ondas, quebravam-se, os barcos rangiam de volta. Ao longe, os pássaros marinhos gorjeavam, adicionando, apenas de longe, sua canção caótica ao marulho do porto.
Longe, o largo sol do oriente refletindo moroso em alto-mar, onde as ondas nem existiam.
É um dia tranquilo, vazio, é um dia de se lamentar, um feriado de respeito no Japão; as pessoas costumam ficar em casa com suas famílias e tampouco o comércio abria-se naquele dia praticamente morto.
Perto do porto, uma janela aberta, um garoto observava justamente a todos esses eventos repetidos, pensativo.
Atrás dele, Ichi, inquieto, olhava com um ar muito desapontado para um violão empoeirado encostado no canto do quarto. Respirou fundo em desagrado.
— Não acredito que a Fundação fez a gente ficar no apartamento do Seiya.
A voz de Ichi tirou Jabu de seu estado contemplativo.
— Você precisa superar isso, Ichi. — sorriu Jabu, ainda olhando pela janela.
— Ah, Jabu, tudo é o Seiya, o Seiya, o violão do Seiya. — resmungou ele. — E a gente sempre atrás.
— É feio ficar falando do moribundo, ele nem pode se defender. E além do mais, nós lutamos em Poseidon também. E protegemos Seika com nossas forças.
— Mas nossas armaduras não ficaram douradas. — resmungou ele sem saber o que mais dizer, como se seus argumentos ficassem ralos.
Jabu riu do amigo, voltando-se para ele.
— Estamos lutando agora, Ichi. Até você está vencendo alguns inimigos.
— O que quer dizer com isso, Jabu? Eu te enveneno aqui e agora se não abrir os olhos!
Aí que ele riu mais ainda e sentou-se de frente para Ichi.
— Eu odeio ter que dizer isso, Ichi, mas Seiya e os outros são realmente especiais de alguma maneira. — disse ele, enquanto Ichi reagiu como se não acreditasse no que estava ouvindo. — É verdade. Veja todas as coisas que eles fizeram até agora. É incrível que tenham feito tantos milagres, seus cosmos são inacreditáveis para meros Cavaleiros de Bronze.
— Eles só deram sorte. — comentou Ichi, e na verdade ele mesmo havia abandonado a face de escárnio e tinha um olhar mais pensativo. Claramente não acreditava ser apenas sorte.
Jabu levantou-se e voltou pra janela.
— Mas não se engane, eu ainda acabo com o Seiya a qualquer hora!
— Com certeza! — concordou Ichi, empolgado, socando o ar
A porta abriu-se: era Geki.
— Bom dia! — anunciou ele, com uma cara alegre.
— Ah não, Geki, é muito cedo. — resmungou Ichi, desfazendo seu soco no ar.
Geki aplicou um mata-leão nele, que tentava desvencilhar-se sem chances.
— Se não treinar, vai continuar chorando que os outros são mais fortes que você. — e ria do amigo, soltando-o. — Nachi e Ban já desceram.
Jabu fechou a janela e puxou Ichi pelos braços até a porta, aos tropeços, e os três, juntos, deixaram o apartamento.
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Uma rajada branca percorre o terreno de pedra e explode em um ponto de onde brota violentamente um grande cristal de gelo; rapidamente destruído por uma força avassaladora, estilhaçando o frio para todos os lados. Por entre o gelo destruído avança a figura de Shiryu, seus cabelos esvoaçantes, seu cosmo esverdeado ao redor de seu corpo, seu punho no formato da cabeça de um dragão. Ele é surpreendido por um gancho poderosíssimo no queixo, que o lança para o ar antes que pudesse chegar perto de Hyoga.
O Cisne tenta aproveitar-se da situação e pula num ensaio de voadora no Dragão, mas também é surpreendido por um soco no estômago da mesma pessoa que derrubou Shiryu. Caem os dois, um de cada lado.
Tudo é muito rápido.
— Vamos, assim vocês jamais conseguirão se tornar Cavaleiros de Ouro! — soou a voz de Shaina para os dois.
Grunhidos de dor como resposta.
— Vocês precisam ser rápidos como a luz. Vamos, de pé!
E ela partiu para cima de Shiryu; ele desviou, mas levou o punho de gelo de Hyoga no peito. Acabou arrastado pela terra; Hyoga pulou para cima dele e foi surpreendido por Shaina atacando-o por baixo. Ele até conseguiu desviar no ar, mas ficou vulnerável para o punho do Dragão que veio forte e, para tornar as coisas ainda piores, após ser atingido por Shiryu, Shaina surpreendeu-o com um giro de pernas fortíssimo, jogando Hyoga contra uma pilastra que se quebrou.
— Hyoga! — gritou Shiryu, preocupado. — Shaina, desse jeito nós vamos morrer!
— Não me faça rir, Shiryu. Vocês foram pro Inferno e voltaram! — e ela foi pra cima do Dragão, atacando-o furiosamente.
Shiryu conseguia desviar de todos os ataques dela de forma até tranquila, embora não revidasse qualquer ataque; em vários momentos ele percebia uma janela em que poderia virar o jogo. Hyoga levantou e aproveitou-se do ataque de Shaina para partir para cima de Shiryu, mas num último instante Shaina deixou de atacar o Dragão para atacar Hyoga com uma voadora giratória, exatamente quando Shiryu decidiu desferir um punho forte no amigo. Atacado, portanto, pelos dois.
Mas Hyoga neutralizou a voadora de Shaina com um punho e segurou o punho do Dragão com o outro.
Foi tudo muito rápido.
Shaina afastou-se dos dois, ofegante. Era a primeira vez que eles conseguiam atacar-se enquanto ela mesmo interferia no treinamento.
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A tarde na Fundação Kido é tensa; uma gritaria instaurada no principal salão social.
— Eu vou dar na sua cara se você tocar no meu irmão! — berrou Seika contra Tatsume.
June e Shun estavam sentados em um sofá; ela sempre um pouco mais apreensiva, mas Shun tinha até um traço de sorriso no rosto, de quem sempre parece se divertir com aqueles entreveros cômicos entre o mordomo e a irmã de Seiya. Ikki estava sentado em uma poltrona, sozinho, também parecendo deliciar-se de Tatsume encontrar um adversário à altura dentro de sua própria mansão.
Isso porque Seika, desde que recuperara sua memória seis meses antes, convergiu toda sua revolta e implicância para Tatsume, a única figura de autoridade naquela Mansão e largamente responsável pelo legado dos Kido na ausência de Saori. Ela fazia com razão, mas depois de seis meses, Shun percebeu que também fazia para infernizar a vida dele, para contrariá-lo de toda maneira possível, para deixá-lo sem graça e desbaratado.
"Aposto que é coisa do Tatsume." — dizia ela sempre que algo dava errado.
— Seika, entenda, o Seiya precisa de um tratamento apropriado. — tentava ele, de maneira cômica, dialogar com a garota, segurando a cadeira de rodas do irmão. — Quanto mais ced… — mas era logo interrompido.
— Nem vem Tatsume! Vocês já tiraram ele de mim uma vez, se tentarem de novo, eu queimo essa casa inteira! — ameaçou ela, e o clima só não ficou pior porque uma voz se fez ouvir, grave e séria.
— Ela tem razão. E se precisar de ajuda pra queimar essa Mansão toda, pode contar comigo! — ameaçou Ikki, com sua voz calma e de braços cruzados sentado na poltrona. — E vou começar por você, Tatsume. — o homem fez uma cara de pavor.
— Ikki! — repreendeu Shun, sorrindo, mas atirando um olhar terno pro irmão. — Assim você não tá ajudando.
— Não fale asneiras, Ikki! — repetiu Tatsume, absolutamente tremido, com tanto medo que até mesmo Seika começou a rir de Tatsume.
— É isso aí! O Ikki vai queimar tudo mesmo, depois vai trazer você de volta das cinzas e vai queimar tudo de novo!
Ikki descruzou os braços e arregalou os olhos para a garota. Até para ele parecia um exagero.
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Atena pisa novamente no Mundo dos Vivos.
Seu vestido está sujo e carcomido nas pontas, seus olhos humanos estão fundos de cansaço, suas unhas malcuidadas, seus pés descalços no chão grego. Ela apoia-se em seu báculo e aparenta muito desgaste. Diante de Atena, já prostrava-se a figura da Amazona de Ofiúco, devidamente trajando sua Armadura de Prata e ajoelhada diante de sua deusa.
— Atena. — cumprimentou ela.
Notou que a Deusa estava descalça e, embora consternada, não encontrou solução imediata para aquilo; seu descompasso foi tão evidente que, embora não transparecesse qualquer feição por causa da máscara, ela foi logo notada por Atena.
— Não há necessidade. — confortou a Deusa e indicou o caminho. — Vamos.
Shaina levantou-se e seguiu sua Deusa, descendo a escarpa do pontilhão que dava no Mediterrâneo para dentro de Rodório.
O vilarejo acordava para o dia. E quem levantou-se primeiro logo pôde ver a figura de Shaina e de Saori caminhando do fundo do vilarejo. Embora não soubessem com exatidão que Saori era, na verdade, a própria reencarnação da Deusa Atena, eles a conheciam por ser a princesa do Santuário e, portanto, alguém muito importante para todo o lugar e, principalmente, zeladora, se não do mundo todo, certamente de Rodório.
Então esses poucos vilões matutinos avisaram aos que dormiam que a princesa do Santuário havia retornado.
E Atena desfilou por Rodório junto do sol que nascia, passou diante de aplausos, flores sendo jogadas, seu nome sendo chamado de vários lados, as crianças empolgadas seguiam-na como numa procissão; rodopiavam perto dela em legítimo júbilo. Ela foi seguida por essa procissão até o ponto do vilarejo em que as casas terminavam e a rua seguia por uma estrada para dentro do vale que cortava a montanha até o sopé da colina das Doze Casas.
Shaina, muito atenta, escoltava sua Deusa e notava, também, o quanto ela estava mudada. Saori sempre fora muito atenciosa com os vilões, com as crianças, e embora a empolgação deles não tenha mudado em nada, ela percebeu como ela dera muito menos atenção que o normal para o povo de Rodório. Em certo momento, na verdade, nem parecia que Saori estava ali andando entre eles, tamanha indiferença Shaina notava daquela garota que caminhava descalça.
“Ela deve estar muito cansada; não é possível mensurar o tamanho do peso que teve de carregar durante todo esse tempo trancada no Inferno.” — Ponderou Shaina consigo, embora também não pudesse afugentar pensamentos de que Saori, lentamente, parecia perder-se dentro de sua divindade.
Foram recepcionadas ao sopé da grande colina por Shiryu e Hyoga. Shaina notou como a feição de Atena amainou-se e ela, inclusive, esboçou um sorriso e talvez um olhar de alívio.
— Saori! Atena! — disseram os dois vindo ao seu encontro.
— Hyoga. Shiryu. — cumprimentou ela, e aquele olhar de alívio e o breve sorriso que ela desenhou deram logo lugar a um profundo respirar e um olhar tão longínquo que ela talvez tenha sido capaz de perscrutar toda a dimensão daquela colina até pousar na estátua de Atena ao topo dela.
Ela voltou a olhar para os dois, deu um sorriso cansado a eles e então, lentamente, apoiada apenas em seu báculo, Atena começou a subir as Doze Casas.
— Atena, não acha melhor descansar no vilarejo primeiro? — disse Shiryu, preocupado com o semblante cansado; Saori, afinal, preferia ficar em Rodório. Ou pelo menos era assim.
Mas não veio nenhuma resposta das costas de Atena.
— Ah, Saori! — tentou Shiryu novamente..
A garota descalça vacilou um momento e parou sua subida.
Somente para voltar a subir as escadarias no instante seguinte.
O Dragão pareceu um pouco consternado, mas Hyoga segurou em seu braço e olhou fundo nos olhos do amigo.
— Shiryu. Ela é a Deusa Atena.
De longe, Shaina sentiu-se orgulhosa ao ver os dois, embora pesasse o seu coração dentro do peito.
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Tarde da noite, uma estrela caiu no firmamento grego. Então outra, e outra, e outra. Um mau presságio.
Atena acordou sobressaltada; caminhou brevemente e foi surpreendida por um vulto mascarado, usando uma túnica fúnebre e um capuz escondendo sua identidade. Ela imediatamente reconheceu-o:
— Hades.
Houve silêncio, pois o vulto não lhe respondeu, tampouco Atena sabia o que dizer ao Senhor do Submundo depois de ter-lhe obliterado a existência.
— Deixou-a desprotegida, Atena.
— Ela sabe se proteger. — retrucou a Deusa.
Ele moveu-se quase flutuando na pedra do Santuário e passou a acusá-la de forma agressiva, aproximando-se cada vez mais de Atena.
— Ela foi capturada. Raptada. Trancada. Calada. Sequestrada.
E então Saori acordou de seu pesadelo pela ira do Senhor do Submundo, que existia tão somente em sua cabeça, mas tão vivo quanto estivesse com as rédeas de seu Reino infernal.
De real mesmo, as estrelas tiravam toda dúvida de Atena: uma nova batalha havia começado.
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