Saint Seiya: O Vazio do Submundo / Parte 2
8 Os Corpos Espalhados no Chão
Kebechet encontra Jabu encostado na escadaria e imediatamente põe-se em guarda. Lentamente circundando o Cavaleiro de Unicórnio, imóvel. Ela finalmente avista o corpo de Ramsés de Chacal no pé da escada, morto. Ela desarma-se pouco e, ainda olhando Jabu moribundo, desce até o cadáver.
Ao lado de Ramsés, ela percebe que Jabu está completamente fora de combate por enquanto. Volta-se para o corpo de Ramsés, desata um dos panos da cintura e refaz o ritual que havia feito antes com Berenice.
— Qual era o nome dele? — soou a voz cansada de Jabu.
Ela sobressaltou-se, assustada, e armou para se defender dele, embora tenha aliviado ao perceber que ele ainda mantinha uma feição alheia. Abaixou os braços e voltou a enrolar aquele corpo nos panos.
— Era Ramsés.
Silêncio.
— Ele era um grande guerreiro.
— Eu não preciso que você me diga isso! — ralhou ela, imediatamente olhando furiosa para ele. — Ele era uma pessoa maravilhosa. Acreditava na paz… — chorou um pouco. — Odiava ter que lutar, mas tinha um senso de dever infalível.
Jabu finalmente desencostou a cabeça e olhou para os olhos de Ramsés, agora para sempre fechados.
— Eu conheço alguém assim. — disse ele, apenas.
— Eu não conheço mais ninguém assim. — lamentou ela. E olhou para ele, depois de terminar de enrolá-lo. — Você está sob o efeito da técnica dele, não é?
Jabu ficou em silêncio.
— Você não merece esse presente que ele lhe deu.
Jabu concordou em silêncio.
— Porque não me mata? — perguntou Jabu, lacônico. Ela parou de mexer no corpo do cadáver, virou-se para ele e o segurou pelo pescoço com força e lágrimas nos olhos.
— Porque eu não sou como vocês. — e jogou o rosto dele para o lado e voltou para o corpo. — Gosto de acreditar que deixá-lo vivo pra pensar na morte de Ramsés e de quem quer que seja que você já tenha matado até hoje… seja uma punição melhor do que lhe dar o presente da morte.
Dizendo isso ela finalizou o tratamento no corpo de Ramsés, que agora estava besuntado e com um pano cobrindo-lhe o peitoral, sobre o qual as mãos se juntavam. Com uma mão no rosto dele, Kebechet fechou os olhos e orou em árabe algumas poucas palavras.
Ela se levantou e, sem olhar para Jabu, dirigiu-se a ele:
— O efeito deve passar em breve agora que ele está morto. Pense no homem que quer ser. — ela respirou em desaprovação, como quem tem pouca fé. — Talvez eu te veja antes do fim, não é? Humpf.
E saiu correndo, entrando na próxima câmara.
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A sétima e última Câmara da Pirâmide de Anúbis. A Câmara dos Mortos.
Geki, Ichi, Nachi e Ban chegam em estado deplorável: o Urso de Bronze tem um ferimento profundo no ombro e a armadura muito rachada por conta de sua brutal batalha contra o gigantesco guerreiro de ouro; Ichi tinha espasmos de dor por conta de seu encontro com Faraó e a investida do gigante que o levou às colinas do Yomotsu; Nachi, com seu braço quebrado desde a luta contra Kebechet; Ban com uma mão completamente queimada, em sangue e carne viva, e muito da sua armadura em frangalhos por causa de Berenice.
Chegaram exatamente no momento em que Atena também adentrava o local; os quatro Cavaleiros de Bronze, antes de olhar para qualquer coisa que os esperasse naquela câmara, olharam com devoção e pavor para sua própria Deusa, dado o estado deplorável que o defensor da sexta Câmara se encontrava. Jamais haviam pensado em Saori como o tipo de quem batalha de maneira tão sanguinária.
E ali estava ela: de vestido branco sujo, os braços nus e também assombreados pela fuligem e poeira da pirâmide, o suor escorrendo-lhe no corpo humano, os cabelos colados na pele e o sempre eterno báculo luzindo dourado na escuridão.
Geki é o primeiro a acordar do transe e prontifica-se à frente de sua deusa, sendo logo seguido pelos demais.
Um trono levantava-se ao fundo de uma câmara muito cuidadosamente talhada e limpa, ao contrário das últimas que estiveram. O piso liso refletia as luzes em globos de fogo espalhados por todo o teto, que dava à câmara uma iluminação muito melhor do que todas as outras.
Mas o bafo do inferno.
O local era o mais profundo da pirâmide e fazia jus à sua distância da superfície, de modo que o local era pesado e quente. Ao fundo da câmara, uma mulher estava de pé diante do trono, com um vestido em tubo aberto na lateral das coxas e seguro na cintura por um cordão de ouro que combinava em seus padrões egípcios com um gorjal maravilhoso na altura do peito. A ankh sagrada luzia de seu gorjal. Seus cabelos negros caíam-lhe dos dois lados cortados de forma reta nas pontas até a altura dos ombros, o resto jogava-se para trás na mesma altura. O rosto envelhecido via-se livre do cabelo por uma franja reta, deixando os olhos descobertos para mostrar as linhas douradas desenhadas no rosto.
Os únicos adornos eram um diadema de ouro e um cetro de cedro.
— Atena . — soou sua voz maternal.
Atena nem respondeu, seu cosmo simplesmente ascendeu, paralisando a todos no local.
Isso porque atrás do trono um enorme Portão do Inferno levantava-se completamente aberto, deixando-se avistar o piso bruto do que ela conhecia bem como sendo o chão de Giudeca.
Atena caminhava toda a distância da Câmara, sendo observada pelos quatro Cavaleiros de Bronze e pela mulher que, de pé, fazia um esforço monstruoso para levantar seu cetro, mas não conseguia mover-se por nada; ela tremia, tamanho esforço que fazia. Quanto aos Cavaleiros de Bronze, eles também não moviam-se, mas era como se a eles simplesmente estivesse proibido qualquer movimento, enquanto a mulher tentava com todas as suas forças reverter aquela força invisível.
Sem sucesso.
Atena passou por ela incólume; de longe os Cavaleiros de Bronze viram como os olhos da mulher desesperaram-se ao vê-la passando sem poder fazer nada. Quando a Deusa finalmente atravessou o limiar para o Inferno, todos foram liberados de sua paralisação e a mulher, como se uma corda tensa houvesse estourado, imediatamente levantou seu cetro e atirou uma esfera gigantesca que chocou-se contra o Portão do Inferno e dispersou sem fazer qualquer dano à imagem ou à moldura; tudo que ela pôde fazer foi observar as costas da Deusa Atena caminhando na Giudeca.
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Kebechet velou o corpo de Faraó com carinho, ainda que não o conhecesse tão bem como os outros; só voltou a verter lágrimas diante do corpo gigantesco do guerreiro de ouro que lutou contra Geki.
— Ah, Amenhotep. — lamentou-se ela.
Seus panos não eram suficientes para cobrir o homem; tudo que ela conseguiu foi cobrir a fronte daquele grande corpo deitado de mãos juntas. Também orou por ele e lamentou-se uma vez mais:
— De todos, você é quem teve o pior destino, não é? — chorou baixinho. — O corpo de Ammut. A vontade da Morte. Que privilégio e que maldição.
Orou novamente em árabe e seguiu adiante.
Somente para cair de joelhos em desespero ao ver o estado do corpo do sexto defensor; completamente varado em muitos pontos e muito, mas muito sangue espalhado ao seu redor. Kebechet não pôde suportar e, de joelhos, seu urro primal ecoou por todo o lugar, talvez atravessando câmaras e até mundos, tamanho seu desespero.
— Porquê?! Porquê vocês são assim?! — gritou ela para a entrada daquela câmara.
Jabu apenas reapareceu na entrada olhando com pesar para ela.
— Olhe! — apontava ela para o guerreiro. — Quer saber o nome dele também? — perguntou ela, com ironia.
Jabu ficou em silêncio.
— Era Dario.
— Tenho certeza que ele morreu de forma honrada. — limitou-se a falar Jabu.
Ela voou no pescoço dele.
— Como ousa?! — e arremessou-o para perto do corpo do Guerreiro de Ouro; um corpo profundamente varado por esferas de impacto, como se alvejado por meteoros.
— Nenhum dos meus amigos poderia ter feito esses ferimentos. — comentou Jabu, embora ele soubesse que havia um que poderia; um que não poderia estar ali, no entanto.
— Isso importa?
— Importa pra você. — retrucou ele.
Ela ia matá-lo ali, talvez, não fosse o corpo do homem ter aberto os olhos em profunda agonia.
— Dario, Dario! — Jabu observou como ela caiu de joelhos para junto dele. Ele mal conseguia respirar, mal conseguia sobreviver.
Ele balbuciava coisas inaudíveis; Kebechet precisou aproximar-se:
— Mate-me.
Jabu nem precisaria ter escutado, tamanho o sofrimento em que ele se encontrava e tamanho desespero a que ela reagiu. Kebechet chorou no peito de Dario.
— Eu odeio vocês do fundo da minha alma. — repetiu ela, sem olhar para o Cavaleiro de Unicórnio.
Ficou ainda um tempo choramingando no peito de Dario, que sofria de dor, e a cada gemido de dor dele lágrimas escorriam de Kebechet.
Finalmente, ela depositou sua mão carinhosamente nos cabelos de Dario com a mão esquerda e levantou a mão direita como uma navalha para atingir o coração do amigo; mas antes que pudesse descer a lâmina, Jabu segurou-a. Ela olhou-o, não com raiva, pois não tinha espaço em seu rosto para qualquer outro sentimento que não fosse a tristeza.
— Deixe eu te dar mais um motivo para me odiar. — disse ele. — Além do mais… eu já não tenho qualquer salvação e você não precisa passar o resto da sua vida pensando que tirou a vida de um amigo.
— Ah, você…
Ele a levantou e pediu para que se afastasse; Jabu ajoelhou-se no corpo de Dario e olhou fundo nos olhos escuros daquele homem que sofria; talvez fosse sua mente, mas parecia-lhe agradecido, o que aliviou seu peito ligeiramente. A mão de Jabu desceu feito uma navalha e tirou o último suspiro daquele guerreiro. A última agonia. Ele mesmo fechou os olhos e continuou ao lado do cadáver. A voz de Kebechet acordou-o de certa maneira:
— Qual seu nome?
— Jabu. — respondeu ele.
Ela o tirou de perto do corpo e embalsamou e colocou o corpo de Dario em seu penúltimo tecido funéreo. Finalmente teceu algumas poucas palavras para ele, como havia feito com todos os outros.
— O que diz a eles? — perguntou Jabu.
Ela olhou para o Cavaleiro de Unicórnio e respondeu com a voz ainda trêmula.
— “Dario era amado por muitos e Dario será lembrado por todos. Descanse em eterna paz, irmão.”
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Atena pisa o Inferno. Mais uma vez.
A grande construção em Giudeca está mudada; para começo, ela está íntegra. Nenhum sinal de ruína, nada fora do lugar, nenhum sinal de rachadura ou buracos em sua fundação. A decoração era evidente a esse ponto e já não surpreendia Atena: motivos egípcios cobriam todo o lugar.
Onde antes levantava-se o trono de Hades, agora, de forma irônica, levantava-se um único sarcófago de pé em que a figura evidente de uma mulher toda enfaixada jazia de olhos fechados. Atena conhecia aquele semblante.
Era Perséfone.
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— Saia de nosso caminho! — bradou Geki.
— Nós seguiremos Atena até o Inferno se for preciso. — disse Nachi.
Mas seus ataques eram miseravelmente parados por um movimento simples do cetro de cedro daquela mulher.
— Não passarão por Anput!
E então os papéis estavam invertidos: se até então os Cavaleiros de Bronze precisavam impedir os defensores de Anúbis de correr atrás de Atena, agora eram eles que precisavam ajudar sua Deusa no inferno, sem poder seguir diante da postura daquela rainha.
Tentavam, tentavam e tentavam de todas as maneiras sem que tivessem qualquer sucesso passar pela defesa daquele cetro. Não havia corte de vento, fogo vulcânico, veneno ofídico ou punho de urso que passasse pela mulher; tentaram combinados, um de cada lado, dois de cada lado. Nada funcionava e seus corpos estavam já no limite.
Quando ela finalmente atacou, fincando o cetro de cedro no chão, a mulher fez com que os quatro Cavaleiros de Bronze subissem com força e quebrassem suas armaduras contra o topo do lugar, apenas para caírem novamente ao redor dessa Rainha em aparente derrota.
Com o silêncio, Anput pareceu escolher um deles. Decidida, andou até Geki, apenas para ser surpreendida por Ichi ao lado dele; ele agarrou no seu cetro pela primeira vez e o atirou longe. Os quatro levantaram como se combinados, sangrando e de punho em riste para atingí-la finalmente. Gritaram e um grande clarão se espalhou quando atingiram aquele vestido branco como o dia da Rainha Anput.
Apenas para verem-se bloqueados quando a luz se dissipou: de um lado Kebechet segurava os punhos de Ban e Nachi, sua armadura de ouro completamente destruída nos dois braços; do outro: Jabu segurando Geki e Ichi.
— Desgraça, Ichi. Você bate forte mesmo!
A Rainha ilesa.
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