A Armadura de Ouro.

O fogo de Benu foi completamente varrido do céu por uma força dourada absolutamente devastadora; seu brilho chegou a deixar Ikki cego por instantes, tamanha a intensidade daquele cosmo magnânimo. Entre as labaredas que ainda resistiam, revelou-se à frente da cruz de Ikki uma figura em brasa dourada na forma de uma mulher, uma mulher ajoelhada, alada e de mãos coladas em oração. Atrás, um grande infinito cósmico.

— Não é possível, mas será que… — a imagem voltou imediatamente em sua mente. — Shaka!

Um sino soou no horizonte.

Então a imagem daquela mulher que orava pela sua salvação, pois foi assim que Ikki a percebeu, simplesmente metamorfoseou-se no horizonte para uma outra forma feminina e essa sim, muito mais familiar à ele.

— Não. Esse cosmo…

Foi quando o brilho dourado finalmente espalhou-se por todo o horizonte, limpando as nuvens e varrendo toda a cosmo-energia de Takelot, bem como as areias mais profundas daquela galeria em que lutavam; tudo retornou ao normal, com a exceção de um gigantesco cosmo presente que antes não existia. Ikki não podia vê-lo, crucificado que estava, mas reconheceria aquela presença em qualquer canto do universo.

— Quem é você? — perguntou Takelot ao notá-lo também, mas foi Ikki quem respondeu:

— Se você ficou espantado comigo, espere só pra ver o meu irmão.

As correntes arrastaram-se no chão e Shun pisou adiante da luz, revelando-se junto de sua sagrada Armadura de Andrômeda.

— Não vai tocar em meu irmão. — anunciou ele, brandindo suas correntes

“Shun” — sorriu Ikki sozinho.

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Kebechet, liberta das agruras da técnica mental de Ikki, entrou lépida na primeira câmara, onde as marcas de uma batalha recente espalhavam-se nas pedras quebradas, nas marcas de fogo, no rastro de sangue e no corpo calcinado e nu já sem vida. O corpo de Apophis.

— Ah, Berenice! Berenice! — ajoelhou-se ela no cadáver da amiga. — Não, não é possível.

Ela segurou a mão da guerreira e não pôde deixar de sentir uma profunda dor ao notar que partes de seu corpo estavam absolutamente queimados de forma que Kebechet sentiu aversão àquela figura. Odiou o autor daquela atrocidade, muito pelo fato de que não poderia perdoar quem quer que tenha feito com que ela sentisse aversão ao corpo de Berenice. Mas então não estavam todos eles prontos para morrer se fosse preciso? Kebechet sabia que sim. Sabia que, embora a tristeza lhe roesse o ventre, era desrespeitoso demais para com Berenice chorar sobre seu corpo.

Colocou as duas mãos no ventre de Berenice e seu cosmo branco fez verter de seus braços um bálsamo dourado que, lentamente, cobriu por completo o corpo negro da amiga, deixando-a besuntada em um óleo espesso e levemente dourado. Então, Kebechet levantou-se e foi até uma parede ilesa em que as estátuas de cães ainda seguravam as tochas de fogo. Pressionou um tijolo falso que afundou-se levemente apenas para deslocar para o lado uma parede escondida em que estantes toscas empilhavam víveres curiosamente selecionados para o dia mundano daqueles guerreiros.

Ela pegou um pano branco.

Hesitou, como se ponderasse tristezas em silêncio e foi justamente com um rosto desolado que pegou outros mais.

Juntou as mãos de Berenice cruzadas no peito e carinhosamente enrolou-a nos panos brancos de forma rápida, mas suficientemente para mantê-la apenas com o belo rosto negro de fora e também as longas pernas. Kebechet fechou os olhos, disse algumas palavras em árabe e desatou a correr para a próxima câmara. Suas lágrimas voando no ar.

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A figura avançava na direção de Atena, Ichi e Geki a passos calmos.

— Você devia estar morto. — comentou a voz de Atena.

— O Senhor Anúbis me deu uma nova chance. — respondeu ele de maneira confiante.

— Mas quem é esse homem? — perguntou Geki, colocando-se adiante da Deusa.

— É um dos Espectros de Hades. Faraó de Esfinge.

Ichi e Geki ficaram atônitos.

— Não sou mais um espectro de Hades. — disse ele. Verdade que sua armadura, antes escura como a noite, agora tinha o brilho e um gorjal de ouro. Ele ainda complementou no que parecia ser um tom de deboche: — E me admira que a Deusa Atena conheça meu nome.

— Eu carrego o nome de todos aqueles que morreram nas guerras que causei. Para nunca mais me esquecer.

Houve um silêncio em que o próprio Faraó parou de andar, quase como se o que Atena dividia era de uma esfera tão divina e incompreensível que tudo que todos ali poderiam fazer era parar de respirar, não fazer absolutamente nada em respeito à essa gigantesca confissão de uma deusa. Geki e Ichi pensaram, juntos, que jamais haviam sentido a presença de Atena tão fortemente quanto naquelas palavras.

Mas o inimigo era menos paciente e havia um fogo maior em seus olhos que Atena logo adivinhou.

— Quer vingança.

— Mais do que isso. — disse ele. — Quero seu coração.

E o seu cosmo, que antes brilhava como a escuridão nas sobrepelizes de Hades, agora luzia em branco pela bênção de Anúbis contra aquela armadura de Esfinge dourada. Geki ameaçou tomar a dianteira, mas Ichi precipitou-se.

— Não, grandalhão. Essa aqui vai ser minha, você continua com Atena. — olhou para o amigo. — Cá entre nós, você defende melhor do que eu. — e sorriu.

E depois de sorrir jogou-se na direção de Faraó como uma cobra, mas foi repelido com um punho direto no estômago que o arremessou de volta na direção de Atena e Geki; o urso, então, foi mais rápido e improvisou de cara: usou o momento do corpo de Ichi voando para pegá-lo, girá-lo no ar e atirá-lo de volta com o triplo da velocidade e força na direção de Faraó. Apenas o grito de Ichi ecoou na câmara:

— Gekiiiiiiiii!

Mas foi o suficiente para pegar Faraó de surpresa, que não conseguiu montar defesa nenhuma e viu-se agarrado no rosto por Ichi, que montara em seu torso segurando-o em constrição.

— Vão! — berrou ele, debatendo-se.

E tanto Geki como Atena apressaram-se para a próxima Câmara.

Foi o tempo certo para que sumissem, pois um segundo mais e, óbvio, Faraó estava livre das garras pouco penetrantes de Ichi de Hidra; ele foi esperto o suficiente para ficar entre Faraó e a porta de saída, mas havia algo de diferente nesse oponente: ele não parecia querer o mesmo que os outros. Atena estava certa: ele queria vingança.

— O que um servo de Hades faz com Anúbis? Você deveria estar do nosso lado, não? — indagou Ichi, sem muito abrilhantamento.

Tanto que Faraó sorriu, quase sem esperar semelhante pergunta desconjuntada. Ele retirou sua harpa egípcia das costas e, embora Ichi tenha tentado adiantar-se para evitar o pior, ele foi rápido e dedilhou um arpejo terrível, cujo som paralisou o corpo de Ichi completamente. Ele caminhou até o Cavaleiro de Hidra.

— Eu poderia simplesmente ir atrás dela e dos seus amigos, mas sinto que sua morte é necessária para que eu acabe com esse gosto amargo que sinto quando penso nos Cavaleiros de Atena.

Ichi está claramente tentando falar algo, embora a paralisação musical de Faraó o impeça; mas tamanha é a força que Ichi faz para ser ouvido, que Faraó dedilha um acorde com diminuto apenas para deixar sua boca livre novamente.

— Fiquei sabendo que desafinou para um de nossos amigos. Argh! — e foi trancado e torturado novamente pelos acordes maiores do harpista do Egito diante da provocação.

— Deboche agora, pois quando estiver congelado em Cocito, receio que não terá audiência para sua insolência, a não ser é claro… — corrigiu-se ele rapidamente, como quem comete um erro justo. — A não ser que o senhor Anúbis acabe mudando outras coisas no Inferno também.

Ele parece ponderar algo ainda com um meio sorriso na boca, mas rapidamente parece decidir-se também.

— Você perguntou como pode alguém como eu, um seguidor de Hades, agora estar com Anúbis, mas veja que é aí que você se engana. — andou em círculos ao redor de Ichi. — Eu sempre fui um Seguidor de Anúbis. Eu e Stand, o Besouro, assim como outros em outros tempos. Sempre fomos e sempre seremos. — andou ele, rodeando o corpo torturado de Ichi. — Hades nos dava o privilégio de fazer parte de seu exército, pois era um senhor agregador e muito gentil. Uma vez que o nosso senhor Anúbis não poderia jamais exercer sua presença magnânima em seu terreno por excelência, ou seja, o Submundo, Hades ao menos teve a gentileza de incorporar desde os tempos mitológicos alguns representantes egípcios. — e ainda adicionou, como se precisasse fazer justiça ao outrora senhor do Submundo. — E não somente egípcios. Aliás… — respirou fundo. — … Hades era tão bom que até mesmo um Cavaleiro de Atena ele aceitou em sua corte, apenas por conta de sua música maravilhosa.

Havia nesse final um certo tom de inveja, de ironia. Finalmente Faraó ficou cara-a-cara com Ichi.

— Muito diferente de Atena, não acha? — sorriu debochado. — Mas chega de história, pois chegou sua hora de morrer, Ichi.

Seu cosmo branco levantou-se na escuridão. O paredão ao seu lado direito, onde inscreviam-se diversos hieróglifos foi também iluminado e uma grande balança evidenciou-se inscrita na parede perfeitamente equilibrada. De um lado, uma pluma em um prato; de outro, um prato vazio.

— Balança da Maldição!

Sua voz ecoou, batendo contra aquela parede; o corpo de Ichi retorceu, seu grito rasgou a câmara e aos poucos seu coração foi sendo sugado para fora de seu peito. Quebrando os ossos, rasgando a pele, rompendo sua roupa, trincando sua armadura, até que o pedaço de carne do tamanho de seu punho, ainda batendo, simplesmente flutuou à sua frente, quase levando Ichi à loucura.

O coração, lentamente ao som daquela melodia terrível, flutuou até o prato vazio da balança para ser pesado contra a pluma de Maat.

E o coração pesava mais do que a pluma.

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Ban e Nachi chegam à Câmara dos Chacais e prontamente são atacados pelos mesmos cães que então haviam sido derrubados pelo choque de Jabu. Recuperados, deram pouco trabalho à dupla de Bronze, mesmo estando os dois praticamente desarmados de algum lado e Ban ainda severamente espancado por Apophis. Lutando de costas um para o outro, no entanto, ainda eram formidáveis guerreiros e cachorros não os parariam. Seus punhos saudáveis logo puseram os cães fora de combate.

Chegaram até o final da câmara e começaram a descer a longuíssima escada que ligava até a Câmara de Faraó. E foi somente perto de seu final que finalmente encontraram Jabu sentado na escada com a cabeça encostada na parede; mais abaixo dele o corpo morto do guerreiro de Ouro.

— Jabu! — gritou Ban. — Jabu, está tudo bem? O que aconteceu com você?

Ele estava preocupado, mas olhando melhor para o Cavaleiro de Unicórnio percebeu que não havia nada claro que o houvesse tirado de combate como aparentemente estava, inclusive seus olhos estavam abertos, embora parecesse que não via nada. Vazio.

Nachi estava mais abaixo, certificando-se sem qualquer prazer que Ramsés estava mesmo morto.

— Vamos, Jabu, precisamos alcançar Atena. — O nome ameaçou tirar Jabu daquela situação, mas ele voltou a ficar catatônico. Respondeu com lábios vacilantes:

— Sigam sem mim.

— O que está dizendo?

— Vamos, Jabu. Atena precisa de você. — tentou Nachi.

E ele não falou mais.

Nachi e Ban ainda tentaram chacoalhar, estapear, argumentar, gritar, tentaram de tudo, mas o homem parecia determinado a simplesmente não existir. Tampouco mostrava sinais de recuperação. Nachi, mais impaciente, convenceu Ban de que os dois perderam muito tempo já ali e Atena continuava adentrando o Inferno sem as suas proteções.

— Não sai daqui, então. — ordenou Ban para Jabu, quase um chiste e, evidentemente, uma última forma de tentar trazê-lo de volta: pelo humor. Falhou.

Nachi o puxou e os dois partiram dali sob os olhos vazios de Jabu e o corpo inerte de Ramsés.

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A balança imediatamente desequilibrou-se em favor do coração pesado de Ichi. Faraó sorriu.

— Óbvio.

Seu cosmo branco ascendeu, iluminando sua armadura de Ouro, e Ichi começou lentamente a sentir muita dor pelo seu corpo, de modo que ela parecia aumentar conforme seu coração desequilibrava mais e mais aquela balança.

— Uma vida regada a sangue, desrespeito, mentiras; essa é a vida de um Cavaleiro de Atena? Seu coração jamais poderia ter o peso da pena de Maat, portanto sua alma está destinada a ser devorada pela ânsia de Ammut, de modo que será punido e vagará eternamente pelo Inferno.

Sua voz retumbou pelo local acompanhada pela harpa dissonante de sua terrível técnica e também os gritos de dor do Cavaleiro de Hidra.

— O que diz em sua defesa?

Mas Ichi apenas contorcia-se de dor, seus gritos de tortura eram tão altos que mesmo Nachi e Ban, que àquele momento deixavam Jabu, começaram a escutar e, horrorizados, estacaram na entrada daquela câmara vendo o corpo esguio de Ichi jogado no chão rastejando de dor. Até mesmo Jabu, quase inconsciente, perdido em seu amálgama de vácuo, reagiu levemente voltando os olhos para a direção do grito do amigo.

Ichi começou, aos poucos, a tentar se levantar; muito embora suas mãos quase inconscientemente ainda buscassem um ferimento que não existia no corpo, varrendo a cabeça e o peito procurando onde aquelas mil agulhas o perfuravam em vão. Estava quase rouco de tanto berrar, até que algo pareceu começar a ceder; como um osso quebrando, um dedo fraturando ou então… um tijolo se rachando.

— O quê?

Faraó pareceu estupefato, não havia dado atenção, pois observava até com certo prazer as dores infligidas em Ichi. Mas quando olhou para o paredão ficou sem ar, pois a balança egípcia estava completamente desequilibrada de tal modo que o coração parecia afundado no chão e a barra do equilibrista disposta quase a noventa graus; no mais baixo, o coração pesado de Ichi, bem no alto, a pena de Maat. E o coração continuava a pesar mais e mais, de modo que o tijolo em que se inscrevia aquela balança maldita já começava a rachar.

— O que significa isso?!

O cosmo de Ichi ascendeu.

— A inveja. — respondeu ele.

— Como?

— A inveja que eu sinto deles. — completou Ichi. — Ter que olhar as costas daqueles idiotas toda vez que uma batalha começa.

— Do que está falando? Argh…

O coração finalmente pressionou tão fortemente a barra da balança que ela simplesmente cedeu, quebrando-se no meio, rachando os tijolos e derrubando todo o paredão egípcio. A queda do muro fez o cosmo de Ichi crescer ainda mais e tomar toda a câmara; antes que Faraó pudesse compor qualquer acorde, completamente chocado com aquele evento inimaginável, as garras da Hidra tomaram sua harpa de assalto e romperam as cordas todas deixando Ichi e Esfinge cara-a-cara.

— Eu não sou perfeitinho. Eu não sou um exemplo de Cavaleiro. Toda vez que aquele idiota do Seiya ganha todas as batalhas, toda vez que ficam todos puxando o saco dele e dos outros imbecis, toda vez que esquecem que nós também somos Cavaleiros de Atena! Eu sinto uma inveja que você não tem ideia do tamanho, Faraó. Sua balança não suportaria o peso de meu coração jamais! — vociferou ele, aumentando seu cosmo enormemente. O Cavaleiro de Hidra abriu os dois braços ao lado da cintura e o infinito do cosmo tomou conta do local, desenhando a grande constelação de sua Armadura. — Mas sabe qual é o pior pra você? É que que por culpa deles, por causa dessa inveja toda, minha vontade de mostrar que eu também sou um Cavaleiro só cresce! Eu finalmente pude sentir o cosmo dentro de mim!!!

Sua voz ecoou pela primeira vez, soltando aquele grito amargurado na garganta:

— Garras Deslumbrantes!!!

As duas mãos juntaram-se na frente de seu corpo, liberando uma energia cortante e poderosa na forma de um X perfeito; a energia viajou rápida e atravessou o corpo de Faraó rasgando a sua armadura de ouro que despedaçou-se perfeitamente no formato daquela técnica. O Guerreiro de Ouro, usando apenas seus trajes ordinários viu Ichi avançar e finalmente penetrar suas garras em seu coração, de onde o veneno o derrubou imediatamente para a morte. Outra vez.

— Devia ter aproveitado melhor essa segunda vida, seu idiota.

O som de passos veio ao seu encontro.

— Ichi… — Nachi parecia espantado com o amigo. — Está tudo bem?

— Sim. Era só uma ilusão. Mesmo que a dor fosse real. — respondeu ele, tocando o peito para certificar-se de que o coração continuava ali. Ban estava incrédulo com o amigo.

— O que foi?

— Nossa… até você tá lutando bem aqui. — comentou Ban.

— Ah, eu vou matar você Ban, seu…!

Mas Ban saiu correndo na frente com Ichi indo atrás dele, furioso e Nachi rindo no fundo.

Notas finais
Próximo Capítulo: Os Cavaleiros de Atena Seguem em Frente