O dia está lindo no Japão.

Seika está sentada em um banco com os pés descalços no gramado e os olhos nas flores; Seiya, ao seu lado, inerte em sua cadeira de rodas. June caminha até os dois e também senta-se no banco junto dela. Seika procura seus olhos e desenha um pequeno sorriso. June anuncia:

— Acabou.

Seika olha para ela, enigmática.

— Eu sei. Não consigo imaginar a dimensão daquilo que você consegue sentir, mas… eu sinto como se o dia estivesse mais leve. É tudo que nós podemos compreender, não é?

— Nós?

— Nós, meros mortais. — pareceu repetir ela, debochadamente.

— Talvez seja melhor assim.

— Talvez.

Seika pegou na mão de Seiya, ela estava quente; olhou para ele e ele ainda perdido nas flores que coloriam o solo.

“Sem poder ver cor alguma.” — pensou Seika.

— Você está bem? — perguntou June.

— Sim. — respondeu ela, rapidamente. — Faz tempo que você não pergunta.

— Que bom, né?

— É. — Seika olhou para June profundamente. — Não tem com o quê se preocupar. Nunca mais vou esquecê-lo.

June sorria.

As duas haviam ficado próximas depois desses meses todos morando juntas; era o único motivo pelo qual preocupava-se com Shun e com alguma coisa que pudesse acontecer com ele: pela dor que causaria em June. Ela era a única coisa ali que não pertencia aos Kido.

— Por que decidiu tornar-se Amazona, June? — perguntou subitamente Seika, e June não espantou-se, pois vira aquela dúvida crescer diariamente nos olhos dela.

A pergunta era justa, afinal June também pertencia àquela rara casta de guerreiros que viviam para proteger uma causa praticamente invisível aos comuns como Seika. E, no entanto, June também era alguém que levantava-se como ela pela manhã, almoçava como ela, jantava, dormia, banhava-se. Era tão humana, pensava Seika às noites.

— Não se decide virar uma Amazona. — comentou June, de modo honesto. — Ou um Cavaleiro. — disse ela, olhando para Seiya.

Seika imediatamente bufou em descontentamento.

— Ele jamais teria virado Cavaleiro se a Fundação não tivesse roubado ele de mim.

— É o que estou falando. Não é uma escolha que fazemos.

June olhou para o céu, para longe.

— Perdi meus pais muito nova na Etiópia. Não escolhi ir para a Ilha, mas era a única saída para crianças como eu naquela região. Era uma época de muita guerra… — June fechou os olhos e respirou fundo. — Como ele, também não tive escolha.

— Desculpa, June.

— Não precisa. Já faz tanto tempo, e outras crianças nem essa sorte tiveram.

— Ainda assim parece terrível que crianças tenham que passar por isso. — June parece concordar. — Já é um destino terrível crescer sem ter os pais, sozinhos, mas só de pensar no Seiya, no Shun, em você... crianças sem escolha passando por provações terríveis. É uma vida ainda pior.

— Na falta dos adultos, as crianças precisaram lutar. — disse ela, misteriosa. — Essa é a lenda dos Defensores de Atena. Tanto tempo depois, parece uma maldição que aquelas crianças que perdem seus pais, os seus adultos, sejam justamente as melhores para defender a justiça no Mundo.

— De que mundo? Pois o mundo que vocês vivem não parece ser o mesmo que o nosso.

— É o mesmo Mundo, no final das contas. — comenta June, mas Seika discorda.

— Não é se você não o vive.

June calou-se, pois Seika tinha razão.

— A solidão de um Cavaleiro, de uma Amazona, é tão grande quanto a força dos laços que criamos nesse nosso mundo. — disse ela, concordando em diferenciar aquelas existências. Seika sorriu, pois sabia que June pensava em Shun. E que Shun preocupava-se tanto com Seiya.

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Hyoga, Shiryu, Marin, Shun e Ikki rasgam o pulso, derramando sangue em cinco Armaduras Sagradas montadas no chão da Casa de Áries.

Os totens muito danificados, peças faltando, rachaduras espalhadas pelas cinco figuras mitológicas dos Cavaleiros de Bronze que lutaram bravamente naquela batalha. Enquanto o sangue era derramado para reviver as Armaduras, Jabu e os outros novamente encontravam-se recebendo a bênção curativa e reconfortante da Deusa Atena; Saori estava com um semblante muito triste e mal conseguia olhar para seus defensores.

Shaina observava sua Deusa abençoando os Cavaleiros de Bronze e tinha absoluta certeza da natureza da dor que ela sentia, embora não fosse capaz de mensurar sua dimensão completa. Ela estava, sobretudo, envergonhada.

— Já está bom, parem. — disse a voz petiz do aprendiz Kiki.

Imediatamente, Shun fez seu curativo e ajudou aos demais a estancar o sangue também. Kiki já estava no centro das Armaduras Sagradas banhadas em muito sangue com uma ferramenta dourada em cada mão e um saquinho preso na cintura. Havia claramente um certo nervosismo nos olhos; ele anunciou:

— Vai demorar um pouco. Se puderem esperar na entrada, eu aviso quando estiver pronto.

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A entrada da Casa de Áries ainda guardava as marcas da Guerra contra Hades, mas aos poucos algumas seções eram reconstruídas, como bem sabiam Hyoga e Shiryu.

— Estão se sentindo bem? — perguntou Saori para os Cavaleiros de Bronze.

— Sim, Atena. Muito obrigado. — respondeu Geki.

Ichi foi até Hyoga.

— E aí Hyoga, como foi ficar paradinho olhando a gente lutar? — disse ele, apertando o próprio muque em cara debochada.

— É, ouvi dizer que até você lutou bem. — comentou Hyoga com deboche, para desespero de Shun, que não queria que o amigo comentasse nada.

— Como assim?! Eu vou é dar na sua…

— É verdade! — adiantou-se Ban. — Ele usou até uma técnica nova, precisavam ver. Cheio de estilo e...

— Uma técnica nova? — surpreendeu-se Shiryu, entrando na conversa.

— Por que está surpreso, Shiryu? — perguntou Ichi, desconfiado.

— Não, nada. Eu só…

E todos riram juntos.

De longe, observando seus Cavaleiros sorrirem, Saori até experimentou um momento de alegria que rabiscou um sorriso leve em sua boca. Ela jogou um olhar por cima de todos, encontrando os dois que ela precisava que ficassem no Santuário para tornarem-se Cavaleiros de Ouro.

“Hyoga… Shiryu…”

Eles devolveram o olhar para Atena e apenas concordaram em velado silêncio, acenando positivamente. Jabu e os demais perceberam que Shiryu e Hyoga estavam longe dali e também olharam para sua Deusa, finalmente. Viram-na aproximar-se de Shun:

— Shun, Ikki, voltarei com vocês para o Japão. — anunciou ela, de certo modo, para todos ouvirem.

Não houve qualquer protesto, pois todos imaginavam o que ela queria fazer. Shun tinha certeza, pois no ápice de seu ataque na pirâmide ele teve certeza de ter sentido o cosmo do seu amigo. Não houve qualquer diálogo, apenas um aceno positivo de olhares.

— Cuide do Santuário. — disse ela para Shaina, que sentiu-se extremamente honrada.

Foi na direção de Marin.

— Marin…

— Eu sei, Atena. — acenou ela em respeito, mas por baixo daquela máscara, no entanto, Marin sentia-se traindo sua Deusa ao ter pensamentos intranquilos sobre algo diferente à sua missão. Tocou o sino na cintura; Shaina também percebeu a amiga irrequieta.

— Cavaleiros. — disse, aproximando-se do círculo dos Cavaleiros de Bronze e ganhando a atenção de todos. — Muito obrigada por terem me protegido. — disse ela, e havia um sorriso gostoso no seu rosto quando ela completou: — A gente lutou super bem juntos, não acham?

Eles esmurraram o ar e urraram absolutamente felizes da vida rodeando Saori, que precisou manter sua própria compostura por uns minutos. Jabu anunciou:

— Atena, eu e o Ichi vamos ficar aqui pra treinar com a Shaina também.

O sorriso de Saori era sinal de que nem era preciso ter pedido; Ichi parecia um pouco surpreso de não ter sido avisado pelo amigo. Nachi, Ban e Geki também anunciaram seus planos.

— Shaina nos disse que nem todas as 88 Armaduras estão de volta ao Santuário. — começou Ban.

— Então pensamos em procurar pelos quatro cantos do Mundo todas aquelas que ainda estão perdidas. — adicionou Nachi.

— Talvez possamos criar um lugar para treinar jovens a se tornarem Cavaleiros. — finalizou Geki.

O rosto de Saori radiou-se com aquela ideia, o que os aliviou o espírito; havia muito o que discutir sobre aquela missão, mas Saori deixou a cabo de Marin guiá-los.

— Sei que terão sucesso. — finalizou ela. — Retornem as Armaduras ao Santuário. — pediu, finalmente.

— Ei!

A voz de Kiki veio do fundo.

— Está pronto. — sorriu ele, todo sujo com pó dourado nos cabelos e por todo o corpo.

Todos correram para dentro da Casa para verem as cinco Armaduras de Bronze ressoando seus cosmos absolutamente novinhas em folha. Não havia uma rachadura, um risco, uma nesga de sujeira naquelas Armaduras de Bronze. Próximos delas, os olhos de Jabu e dos demais brilharam de felicidade ao verem suas armaduras absolutamente restauradas. Não demorou muito para que o cosmo se manifestasse no corpo de todos eles, ressoando perfeitamente com suas vestimentas que, finalmente, destacaram-se no ar e equiparam parte a parte os corpos dos meninos de maneira acachapante.

— Elas não mudaram de forma, porque eu ainda tô aprendendo. — disse Kiki com um super sorriso no rosto, quase que se desculpando com eles. Foi surpreendido pelo grandalhão Geki que o pegou por um braço, rodou-o no ar e jogou-o para o alto. E assim foi carregado e festejado por todos, muito felizes.

— Viva o Kiki! — gritou Jabu.

— Ei! Me coloquem no chão!!! — protestava o menino.

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Alguns dias depois

Saori está no quarto de Seiya; ele está em sua cadeira de rodas olhando catatônico para baixo. Ela aproxima-se dele olhando-o perdido, fora de ação, absolutamente distante daquele garoto insolente e determinado que conhecera sempre. Sentiu uma gigantesca vontade de chorar ao vê-lo daquela maneira e, talvez, fora justamente não saber lidar com esse sentimento o que a fez fugir para o Santuário depois do final da batalha contra Hades, de modo que não se sentisse culpada toda vez que encarasse a falta de vida de Seiya que era, sem dúvidas, o mais inquieto de todos eles. Era muito duro vê-lo daquele jeito. Fez menção de tocar o rosto de Seiya quando percebeu que não estava sozinha no quarto.

Levantou os olhos e encontrou Seika atrás da cadeira de rodas, olhando-a.

Houve um segundo de tensão.

— Eu… Eu só vim me despedir. — começou Saori.

— Está me expulsando? — começou Seika, com pouca paciência para com ela.

— Não. Sou eu… Eu preciso de um tempo sozinha. — disse Saori, quase desculpando-se. — Preciso entrar em contato com minha humanidade novamente.

“E não cometer os erros que cometi”

— Precisa mesmo. — concordou Seika, de forma dura. — Mas se acha que pra isso precisa ficar sozinha, então você não sabe nada mesmo do que é ser humana.

— O quê?

— Não é se afastando de todos que vai se lembrar do que é ser humana, é ficando perto de quem ama.

Seika coloca a mão na cadeira de Seiya. Saori fica sem resposta.

— Ele fez com que minha memória voltasse. Talvez faça o mesmo com sua humanidade.

Saori finalmente olhou nos olhos de Seika e pôde ver naquele par de estrelas a mesma profundidade e força que tanto lhe acalmava nos olhos do Cavaleiro de Pégaso. Sentiu uma enorme vontade de abraçar Seika, mas não tinha a coragem para tanto.

— Seika… Me perdoe. — disse ela, com a voz trêmula.

— Nunca, Kido. — Saori sentiu uma pontada profunda no coração. Seika continuou: — Eu vou voltar ao orfanato e ajudar Miho com as crianças. Cuide bem dele e um dia talvez eu lhe perdoe.

E saiu do quarto, deixando Saori sozinha com sua enorme dor e a figura inerte de Seiya olhando para longe.

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Saori empurra a cadeira de rodas de Seiya e ajuda-o a subir a pequena rampa até uma varanda de madeira. A mansão fica no meio de um bosque afastado da civilização, rodeado por árvores altas, com um campo de gramado baixo e um grande espelho d'água. Não há qualquer som ali que não seja o dos pássaros, dos insetos, do rufar de galhos, o silvo do vento e as rodas da cadeira de Seiya.

É meio da tarde. O sol escapa por algumas folhas e joga seus raios na varanda, iluminando o rosto do combalido Cavaleiro de Pégaso. Ele não percebe o sol tocando-lhe o rosto. Ele não percebe que está sequer vivo.

Saori finalmente desaba em prantos ao lado da cadeira de rodas, que recua levemente recebendo seu peso. Sua cabeça apoia-se na perna direita de Seiya e a outra mão segura o joelho morto da perna esquerda. A única forma de abraçá-lo naquela cadeira. Ela soluça, procurando estar próxima dele lembrando-se de que se a vida estava longe do corpo de Seiya era culpa dela. As lágrimas escorrem copiosamente e ela teria usado sua mão para limpar os olhos marejados não tivesse sentido algo absolutamente febril que a fez terrivelmente feliz. A mão de Seiya na sua.

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