O belíssimo rosto de Perséfone, branco como a morte, de olhos fechados guardados por suas sobrancelhas grossas e escuras; seu nariz afinado e a boca grossa desenhada em um batom profundamente rubro. Esse belíssimo rosto é a única parte de seu corpo que ainda não estava coberta pelas faixas brancas de uma mumificação sinistra. Seus longos cabelos ondulados, cheios e profundamente castanhos, caíam-lhe até a altura do busto coberto.

Ela está desacordada e guarda ainda um semblante de paz; Atena sabe que é inútil tentar alcançá-la em seu sono catatônico, pois ela já vagava por campos inalcançáveis mesmo para uma deusa como ela.

Um vulto abandona uma pilastra para materializar-se atrás de Atena, ela sabe quem é.

— Anúbis.

— Atena. — cumprimentou ele.

O peito nu, o corpo moreno, um rosto jovem de olhos escuríssimos, uma barbicha pontuda e um elmo de chacal negro na cabeça. O gorjal de ouro mal cobria seu peitoral e apenas adornava seu pescoço; o saiote trespassado terminava onde começavam as sandálias de couro. Uma figura indubitavelmente filha do Egito. Nas mãos um cetro metálico com uma ankh na ponta.

— Não esperava vê-la de volta tão cedo no Inferno, Atena.

— Anúbis, o que pretende com tudo isso? — perguntou Atena mui severa, principalmente referindo-se à Perséfone.

— Ora, não vá me dizer que não gostou da decoração? — disse ele. — Estava muito destruído esse lugar, desde que vocês o abandonaram. — flexionou ele com mais força em ‘vocês’.

— Você sabe do que estou falando.

— E você também. — respondeu ele, estalando os dedos. — Vamos, vamos, saia da escuridão, eu odeio que fiquem escutando minhas conversas às escondidas.

Atena olhou para o escuro e viu a figura de uma sagrada Armadura de Ouro aparecer: a de Gêmeos.

— Kanon.

— Ah, então esse é o nome desse homem maravilhoso? — debochou Anúbis, olhando diretamente para o Cavaleiro de Gêmeos. — Eu não tinha lhe dado uma nova vida? — perguntou ele. Kanon foi assertivo:

— Eu percebi o quanto me queria longe daqui. Então fiz questão de ficar. — respondeu Kanon, o que Anúbis ligeiramente achou insolente, mas tentou manter sua compostura.

— Um homem que engana aos deuses merece a punição da vida, não o presente da morte. — ponderou ele.

— Atena é a única deusa que pode decidir meu destino. — respondeu ele, ao que Anúbis respondeu com um aceno de mãos apenas, diminuindo a devoção daquele mortal.

— Bom, não sobrou muita coisa desde que você, Atena, e esse homem varreram o Inferno, destruindo tudo que eu construí.

— Anúbis. Você não tem direito sobre o Submundo, sabe muito bem disso. Está pisando em um terreno muito perigoso ao levantar-se dessa maneira. Sabe que não deveria.

— Ora, mas até aí você nunca teve problemas em fazer o que não deveria, não é mesmo, Atena? — adicionou ele, com um certo tom humorado. — Você realmente mostrou ao mundo dos homens todo os seus defensores? — perguntou ele, incrédulo. — Matou sua própria confraria no seu próprio Santuário? Pra não dizer, é claro… do grande motivo pelo qual estou aqui.

Silêncio brutal.

— Matar Hades? — ele fez uma careta, como quem sugere um perigo terrível e ainda virou-se para Kanon. — E você ainda acordou Poseidon antes da hora? Manipulou ele destruindo o reino de Asgard no processo? — e então para Atena. — E é ele quem você traz como seu protetor? — teria dado risada — Atena, Atena…

Ela não respondeu e Kanon sentiu como a tensão parecia crescer entre os dois; foi ele, Anúbis, quem continuou falando:

— Agora que você destruiu Hades, o Submundo precisa de alguém para cuidar dos Mortos!

— O Submundo tem Perséfone. Ela é a Rainha do Submundo. Liberte-a!

— Atena. — respondeu ele de forma condescendente, apontando para o sarcófago. — Esse é o destino de Perséfone, não há nada que possa ser feito.

— Então mude o destino dela, Anúbis. — Atena olhou nos olhos do deus egípcio.

— Sabe que não existe coisa do ti…

— Eu mudei o meu próprio destino! — bradou ela.

Anúbis, pela primeira vez, desmanchou sua face debochada e viu-se consternado com a facilidade com que Atena dizia aquilo.

— Isso… não é possível.

************************************

Jabu de um lado, Kebechet de outro, Anput entre os dois. Os punhos dos Cavaleiros de Bronze parados.

— Jabu? — confundiu-se Ichi.

Ele sorria, estava de volta da técnica de Ramsés finalmente; restava saber que Jabu era esse depois de uma experiência tão reveladora. Quando finalmente ele e Kebechet repeliram os golpe de seus amigos, ele anunciou:

— É inútil irmos ao Inferno.

— Mas Jabu!

— Não lembram-se do que aconteceu na Itália? Ichi? — tentou ele. — Nós morreremos se atravessarmos o Portal.

— Somos Defensores de Atena, devemos ao menos tentar.

— Você tem certeza, Geki? Tem certeza de que Atena precisa da gente nesse ponto?

— O quê? — perguntou-se Ban.

E Ban lembrava-se, como também o faziam os outros quatro Cavaleiros de Bronze, que a Deusa Atena paralisou não somente Anput para poder atravessar sozinha o Portão do Inferno sem que ninguém a perturbasse, mas também a eles o seu grande cosmo impediu de se moverem.

— Quando foi que… — ponderou Ban, finalmente.

A partir de que momento eles passaram a ser um fardo para sua Deusa? Perguntaram-se, todos em silêncio. Jabu finalizou:

— A Saori não é mais aquela garota que nós conhecíamos, que precisava de uma proteção por ser indefesa. Ela é a Deusa Atena e no Inferno não é ela quem precisa ser protegida, mas qualquer um que esteja em seu caminho.

Houve silêncio entre os Cavaleiros de Bronze pois, veladamente, eles sabiam que Jabu tinha razão:

— Então nesse caso… — finalizou ele. — Não tem porque lutarmos. Tudo que podemos fazer é esperar que Atena retorne.

Os demais quatro Cavaleiros de Bronze finalmente baixaram a guarda e juntaram-se a Jabu perto da entrada daquela câmara; Nachi colocou a mão nos ombros dele e sorriu em aprovação e Jabu devolveu o sorriso. Ban, Ichi e Geki também já ensaiavam sair daquele lugar.

— Esperem!

A voz de Anput soou forte de seu trono. Jabu olhou para ela e abriu os braços.

— Não há motivos para lutarmos mais. Somos meros mortais, não há nada que possamos fazer quando os Deuses colidem entre si. Apenas esperar.

— Você tem razão, garoto. — disse ela. — Somos meros mortais.

Uma lágrima solitária caiu de seu olho de Rainha.

— E vocês mataram todos… os meus filhos.

Então seu cosmo levantou-se com uma força imensa, absolutamente aterradora e solitária; não era uma cosmo-energia como todas as outras que eles já haviam sentido. O cosmo é como uma assinatura; todos derivam do mesmo ponto, da mesma explosão cósmica, e então dividem-se como árvores em uma floresta. O cosmo dos Tenentes Marinas tem uma mesma assinatura, uma mesma sensação que a dos Generais, e finalmente que a presença magnânima de Poseidon; assim como os espectros queimam uma energia que é tão somente um galho dos braços longos de Hades.

Esse cosmo, no entanto, era um cosmo diferente. Solitário e terrível. Não parecia a eles que levantava-se naquela câmara a Rainha de Anúbis, mas a mãe de muitos filhos. Seus cabelos negros esvoaçavam assustadoramente na luz ígnea; ela estendeu a mão e o cetro de cedro arremessado por Ichi retornou voando para ela.

— Por quê? Eu me perguntava: por que vocês precisam derramar tanto sangue? Por que fazem isso? — perguntava-se ela. — Só consigo pensar que para vocês, gregos, somente vocês importam!

— Não! — bradou Geki. — Não escolhemos derramar tanto sangue, mas aprendemos que na esfera em que lutamos todas as lutas são de vida ou morte. Ou você está pronto para morrer em nome de Atena ou você não está pronto!

Geki aprontou-se novamente. Nachi, Ichi e Ban montaram guarda junto com ele; Jabu procurava os olhos de Kebechet atrás de sua mãe.

— Kebechet! — suplicou Jabu.

Ela chorava e também tinha ira nos olhos jovens.

— Não poderei perdoá-los nunca. — limitou-se a responder.

Subitamente, a luta tornou-se pessoal.

Se até então era de se espantar o profundo dever dos Guerreiros Dourados em tentar, a todas as custas, impedir Atena de prosseguir com seu intento, fazendo valer um profundo senso de dever para com sua divindade e limitando aquela batalha justamente no âmbito divino; agora Anput, incapaz de prosseguir lutando por Anúbis viu-se também incapaz de afastar a terrível realidade de que todos os seus filhos haviam sido mortos pelos Cavaleiros de Bronze. Com exceção apenas de Faraó, todos os demais eram irmãos de Kebechet.

E todos eles estavam mortos fatalmente pelos punhos daqueles cinco Cavaleiros de Bronze.

Uma vingança pessoal que soa absurda e sem sentido para os Cavaleiros de Bronze, já que a eles é estritamente proibida a luta em causa própria. Mas como aquela batalha inteira contra Anúbis já mostrava-lhes, suas verdades não eram as únicas e aqui está uma Rainha e, porque não, uma Princesa que usariam suas armaduras sagradas para lutarem tão somente por vingança.

Do cetro de Anput, uma enorme esfera de energia brotou, varrendo o lugar e levantando os cinco Cavaleiros de Bronze de maneira que eles não tinham escapatória. Seus corpos foram cobertos pela energia da Rainha e viram-se rotacionados por toda a extensão da câmara para finalmente serem lançados contra as paredes de forma violenta.

*************************************

— Liberte Perséfone, Anúbis.

— Você está fora de si, Atena. — houve uma ligeira comoção de Kanon.

— Anúbis, esse é um truque barato. Aproveitar-se que o Mundo dos Mortos está vazio para tomá-lo como seu. Isso não está certo e você sabe disso.

— Atena… — disse ele com severidade. — Os deuses não confiam mais em você.

Kanon engoliu em seco, mas Atena pouco se alterou. Havia uma profundidade naquela afirmação que a humanidade de Kanon vacilou em suportar por completo, pois ele sabia, mais do que ninguém, o peso do conflito divino, e ali estava exposto um acordo velado não somente entre aqueles dois, mas entre quantos?

— Anúbis. Pela última vez, liberte Perséfone e saia do Submundo.

— Ou o quê, Deusa Atena?

Atena apertou a mão em Nike, levantou-a e cravou no piso da nova Giudeca, jorrando um cosmo magnânimo pelo Inferno; Kanon precisou levantar a mão contra os olhos de modo que não cegasse. E quando a luz se dissipou, Atena estava vestida dos pés à cabeça com sua kamui.

A eterna armadura da Deusa Atena.

Lhe faltava apenas o escudo; em seu íntimo, Kanon ponderara se a confiança de sua Deusa era tamanha que ela sequer julgara necessário defender-se. E ainda que de costas, o Cavaleiro de Gêmeos podia adivinhar a severidade daqueles olhos divinos que tantos dias ele passou ao lado quando rasgavam o Inferno derrubando cada assentamento dos egípcios.

Anúbis tinha um semblante severamente preocupado; ele trocou de mãos o cetro com a Ankh e empunhou-a com as duas mãos, finalmente.

— Vai fazer comigo o que fez com Hades, Atena? — era um convite e uma ameaça.

Ela ficou em silêncio. Um silêncio ameaçador.

Frente a frente, Anúbis finalmente fez acordar seu cosmo e, de onde Kanon podia ver e sentir, não devia nada à força de Atena. Eram deuses, afinal. A natureza daquele cosmo era diametralmente oposto a de Atena e severamente distante daquela do de Hades. Mas era, sobretudo, um cosmo divino.

E dali a toda extensão do Mundo dos Mortos espalhou-se o conflito entre dois cosmos de Deuses.

Próximo do coração do conflito, Kanon viu-se deitado no chão, incapaz de observar aquele embate silencioso entre os deuses; não conseguia levantar os olhos para vislumbrar o que era a imagem de dois deuses se enfrentando. Talvez por não conseguir, dada a força daquela trava, ou talvez porque simplesmente não lhe era permitido.

As duas figuras apenas encaravam-se e o Mundo dos Mortos sentia toda a imensidão daquela energia.

Notas finais
Próximo Capítulo: Capítulo 10 — A Profecia e o Prólogo