Saint Seiya: O Vazio do Submundo / Parte 1
4 Os Devaneios do Portão do Inferno
O Lago Avernus é um lago vulcânico na região de Nápoles, na Itália. Criado a partir de uma cratera e carregando o conteúdo sulfuroso de sua outrora existência, levantou muita importância ao redor de si por ser considerado uma das entradas ao Mundo dos Mortos pelos romanos. Não exatamente o lago, mas as cavernas que o circundam.
Em uma delas, Jabu observa seu oponente com pura descrença; chega a ter um sorriso de escárnio no rosto, de quem não parece dar crédito algum para aquela tentativa vã de enganá-lo; embora não confie muito na habilidade de seu adversário, Jabu ainda estava com a armadura severamente avariada e apresentava em leves momentos alguns espasmos de seu encontro com Andros. Diz ele:
— Está muito enganado se acha que vai conseguir me parar assim. Vai apenas me fazer querer bater ainda mais. — comentou ele.
Seu oponente pôs-se em posição de batalha, mas Jabu cumpriu com sua promessa e bateu tanto no adversário, mas tanto, que assim que terminou a primeira sequência de socos ele pulou e aplicou-lhe uma voadora que fez a imagem desaparecer no ar.
— Humpf. Essa é boa. — disse ele, procurando resquícios daquela ilusão e não encontrando.
Seguiu adiante e desembocou em um corredor central para onde convergiam muitas outras cavernas; de uma delas vinha Ichi. Parecia animado.
— Seiya também?
— Sim. — concordou ele. — Aí que eu bati mesmo.
Jabu e Ichi sorriram e viram Geki sair de uma outra mais adiante, foram até ele provocá-lo cada um de um lado.
— Geki! E aí, finalmente bateu no Seiya, não é? — comentou Ichi rindo e prosseguindo com eles.
— Ahn? — fez cara de desentendido o Cavaleiro de Urso.
— Ah, não faz essa cara, grandalhão. Você bateu no Seiya, não foi? — tentou Jabu.
— Não, veja bem… — mantinha-se sério.
— Aposto que adorou, deve ter finalmente enforcado aquele idiota, haha!
— Não, não é bem assim, que isso, digo, eu…
E os três caminharam leves adiante na caverna.
Aquele corredor com diversas reentrâncias foi descendo cada vez mais na terra e tornando-se cada vez mais quente, pois aproximava-se mais e mais da lava vulcânica que corria em suas entranhas. Os três, que antes conversavam levemente, foram tornando-se mais sorumbáticos à medida que a temperatura aumentava.
Já incomodados com o calor, finalmente pareceram chegar a algum lugar: uma câmara iluminada pelo próprio brilho da lava que escorria pelas paredes e algumas chamas que precipitavam-se de nichos em paredes; se estavam vivos era tão somente por serem guerreiros treinados. No fundo dela: o Portão do Inferno.
Nachi já estava lá e, de costas para ele, havia alguém que olhava diretamente para o Portão, quase sem dar-se conta de seus arredores; Jabu, Ichi e Geki prepararam-se para a batalha, mas Nachi fez um sinal para que esperassem, embora parecesse não ter coragem de o dizer propriamente, limitando-se a acenar para os amigos. O homem tinha cabelos escuros que lhe escorriam pelas costas; vestia o que parecia ser uma roupa muito básica de prisioneiro de tempos remotos. Não tinha qualquer armadura. Não parecia ser um guardião, um inimigo guardando aquele Portão.
Tampouco parecia amigo.
Havia uma esfera de tensão gigantesca naquele lugar, potencializada ainda mais pelo calor e o bafo da câmara. Jabu e Ichi flanquearam o homem e Geki uniu-se a Nachi no centro; não podiam ver seu rosto e, no entanto, tinham um mau pressentimento. Dentro de cada um, perguntavam-se se havia sido ele o projetor daquelas tolas ilusões.
Passo a passo, Jabu e Ichi aproximavam-se do homem pelos lados. E quando a imagem foi abrindo-se para Ichi, aos poucos sua face foi revelando-se por entre os cabelos ensebados de suor. Ao ter a certeza do que via, o Cavaleiro de Hidra assombrou-se, seus olhos saltaram da órbita e, sem perceber, deu alguns passos para trás, afastando-se daquela ameaça e encostando na parede incandescente, acuado. Sua voz embargou, incapaz de dizer qualquer coisa, como se tivesse puxado o ar forte demais e não tivesse o suficiente para ser ouvido.
Jabu, do outro lado, experimentou a mesma coisa.
— Gê… Gêmeos. Saga de Gêmeos!
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Shun levanta-se da cadeira, sobressaltado, naquele fim de tarde no Japão.
— Você também sentiu? — perguntou June.
— Sim.
Ele imediatamente foi até o parapeito observar Seiya, que estava sob os cuidados de Seika no jardim; ela mais afastada. Queria ver se o amigo reagiria também àquele pressentimento.
Mas nada.
Shun olhou para o horizonte e para June, ela estava realmente preocupada com Shun e era natural que fosse assim, a própria Fênix a encarregara de cuidar de seu irmão menor. Ela não iria querer contrariá-lo.
— O cosmo de Atena deixou esse Mundo. — encerrou ele, e os olhos de June para ele perguntavam de modo suplicante: o que pode significar? Ele não sabia: — Não sei, June.
E respirou fundo.
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O olho do homem dardejou contra Ichi e então contra Jabu.
Os dois rapidamente recompuseram-se ao lado de Nachi e Geki, que estavam igualmente tensos. Não havia dúvidas, aquele homem de costas vestido de prisioneiro era Saga. Saga, o antigo Mestre do Mal. O Cavaleiro de Gêmeos. O Espectro Renegado.
Ficaram todos quase sem ter coragem para puxar o ar diante das costas daquele homem; sua falta de ação, sua imobilidade, até mesmo seu cosmo não presente eram de uma ameaça invisível que os impedia de respirar, tamanho o peso do ar ao redor dele e daquela câmara.
Não sabiam quanto tempo ficaram em posição de ataque ou de defesa (não sabiam precisar), mas o homem tampouco lhes falou qualquer coisa. Foi Nachi quem tentou uma nota de comunicação inicial:
— Viemos destruir o Portão do Inferno. — ele disse, hesitante. Não havia sido perguntado, mas ele sentia como se devesse uma explicação, uma desculpa. Houve uma ligeira respirada em desafio de volta. Jabu prosseguiu:
— Sa… Saga. Atena nos ordenou que destruíssemos os Portões do Inferno.
— Não sou Saga.
Todos assombraram-se ainda mais com aquela voz de trovão. Não sabiam o que os arrepiava mais, o fato daquele corte seco ou o real dono daquela resposta. Como se o irmão fosse, de certa maneira, muito mais perigoso. Jabu e os demais sabiam da história. Estava diante deles alguém que foi capaz de enganar a um Deus Olímpico. E, no entanto, ali ele mal dignava-se a olhar para os Cavaleiros de Bronze; parecia em transe, parecia ocupado em qualquer outra tarefa que não a de estar ali diante deles. Observando o Portão do Inferno como se, mesmerizado, tentasse absorver a real natureza daquele evento.
E eles sabiam também que todos os Cavaleiros de Ouro, Kanon incluso, haviam morrido no Muro das Lamentações, portanto assim como os Cavaleiros Negros e os Tenentes de Poseidon, Kanon havia sido trazido de volta.
— Kanon. — arriscou Geki. — Precisamos destruir o Port…
— Calem a boca! — vociferou ele.
E então seu cosmo dourado simplesmente apareceu, sua mão direita elevou-se acima da cabeça e foi envolvida por um globo de luz negra estalando energia por todo o lado; levitou o corpo dos Cavaleiros de Bronze, incapazes de se moverem. Quatro desses estalos de energia despregaram-se da esfera e alojaram-se diretamente no cérebro dos garotos.
Foram ao chão imediatamente, como se tomados por uma dor de cabeça ensurdecedora, ao ponto do crânio assemelhar-se a uma bomba. A dor engatilhou imagens horríveis de campos sulfurosos e oceanos de lava comendo-lhes a carne do corpo que putrefazia-se aos poucos. Debatiam-se no chão, desejando que seus cérebros fossem simplesmente apagados para que parassem de doer. Caíram todos desacordados, vencidos pela dor e pela ilusão diabólica.
Kanon precisava de silêncio e tinha pouca paciência.
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Atena caminha do Muro ao trono de Hades; uma pilastra cai ao seu lado, resultado da lenta degradação do Submundo. Ela pode sentir a estrutura de Giudecca tensa, como se, aos poucos, fosse perdendo sua essência, sua substância. Era necessário fazer algo.
Ela caminhou com seu báculo e ficou exatamente de frente ao trono do Deus do Submundo; onde antes encarou-o em posse do corpo de seu Cavaleiro de Andrômeda, Shun.
Olhou fixamente para aquele trono vazio e ponderou sozinha os perigos do Submundo estar desguarnecido. Olhou para o alto e para várias direções distintas; levantou seu báculo e apontou-o para todos os lados, como se procurasse algo no ar; até que ele pareceu ressoar com uma direção específica.
Fechou os olhos e fez seu cosmo divino ascender.
Demorou pouco e Atena abriu novamente seus olhos, assustada. Não tinha dúvidas: alguém estava agindo no Submundo.
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Kanon olhava fixamente para o Portão do Inferno. Para todas as figuras humanas ali representadas, para todas as cenas dantescas e todos os relevos bem desenhados. O Portão, assim como todos os outros, estava entreaberto, e ele sabia, no fundo de sua alma, que havia sido cuspido exatamente dali.
"O que significa isso agora? Até quando os Deuses vão brincar com nossas vidas?"
Pensou sozinho, e então pareceu responder para o próprio Portão.
— Sim. Devo destruí-lo e, no entanto… — Respondeu ele para a porta. — Não. Não me apego a essa vida, deveria saber que eu já superei isso. — fechou os olhos. — Apenas fico me perguntando o motivo de terem nos escolhido para reviver novamente.
Nachi foi o primeiro Cavaleiro de Bronze que, aos poucos, foi recuperando a consciência. O gêmeo continuou falando:
— Eu não concordo com isso, e você deveria saber muito bem sobre isso. Apenas os piores foram trazidos de volta à vida, como se expulsos do próprio Inferno.
Seu silêncio durou pouco e sua resposta foi ríspida:
— Ou sou um traidor? — Breve silêncio e então: — Você talvez seja…
Kanon ficou mais tempo em silêncio, ainda fixando aquele Portão, para então continuar seu devaneio:
— Então... Porque eu estou vivo e eles estão mortos?
Nachi estava confuso.
— Será uma punição? — continuou Kanon.
O Cavaleiro de Lobo olhou escondido para todos os lados, pois não queria ser notado, e não viu ninguém na parca iluminação de fogo, seus amigos todos ainda desacordados.
"Mas com quem ele está falando?"
— Atena não tem o que temer. — Nachi estremeceu na menção de sua Deusa, e a voz de Kanon pareceu responder com força a qualquer interlocução própria: — Eu não pertenço ao mundo dos vivos!
Mas então ele finalmente pareceu surpreso pelo vazio que soprava daquele Portão.
— Ahn!? Você acha que…
A morte ele havia sentido já por duas vezes, o renascimento também tantas quanto, mas agora era diferente; embora sua consciência lhe dissesse que todo Renascimento carregava um propósito, Kanon não estava exatamente certo disso. Ao menos não daquela vez.
Perdido em suas divagações, o gêmeo finalmente notou que estava sendo observado e escutou, por conta de um descuido de Nachi com sua própria dificuldade em manter uma dor mental dentro de si, que um dos Cavaleiros de Bronze ainda mantinha-se vivo, ou ao menos consciente.
— Não deveria lutar contra sua mente. — disse ele; ao que Nachi, por um momento, perguntou-se se ele continuava falando consigo mesmo ou se pior: falava diretamente com ele. Kanon decidiu sua dúvida: — Levante-se, Cavaleiro de Bronze.
Nachi recompôs-se finalmente, obedecendo a voz daquele homem. Abriu a boca quase desculpando-se por não estar morto por seu poder, como se buscasse explicar ao homem porque não havia simplesmente apagado ou até morrido:
— Um golpe não funciona duas vezes contra um Cavaleiro. — Kanon estranhou. — Ikki já destruiu minha mente uma vez. — disse Nachi, e completou: — Mas se você realmente quisesse realmente nos matar, teria feito, não é?
— Hmm… — Kanon lembrava-se de Ikki, mas não respondeu seus reais intentos.
— Kanon. Nós precisamos destruir os Portões do Inferno! — tentou novamente Nachi em sua teimosia. — Eu não tenho a menor condição de vencê-lo, nem teria se nós cinco ou dez ou vinte de nós estivéssemos contra você, mas preciso saber se está do nosso lado ou se irá se opor a isso.
Kanon riu.
— Então eu ainda sou um traidor, não é? — já vislumbrando, erroneamente, um possível motivo para estar vivo.
— Não. Você é o Cavaleiro de Gêmeos, mas nesse momento você está entre a mim e o Portão que preciso destruir.
— Que azar o seu. — comentou ele. Nachi preparou-se para lutar, resignado.
Kanon apenas expandiu seu cosmo e o Cavaleiro de Lobo foi arremessado contra a parede da caverna. Levantou-se novamente sem muito esforço.
— Alguém está controlando o destino dos Mortos. Se eles não podem resistir a uma técnica tão simples, jamais poderão proteger Atena. — aludiu Kanon aos Cavaleiros de Bronze desacordados.
— Nós já derrotamos os Cavaleiros Negros e os Tenentes de Poseidon, eles também foram trazidos à vida como você. — quase tentando provar o valor de seus comparsas.
Uma lufada de vento mórbida desprendeu-se do Portão entreaberto e fez Kanon considerar seus arredores. Ele parecia ter compreendido algo. Caminhou até o Portão e abriu suas portas por completo. Nachi espantou-se.
— O que está fazendo, Kanon? Devemos destruir o Portão, não abrir ele por completo!
— Saia daqui, Cavaleiro de Bronze. — Kanon finalmente olhou para Nachi, aquelas sobrancelhas arqueadas caíram feito uma montanha sobre ele. — Eles acordarão em algumas horas. — olhou fundo nos olhos de Nachi e o Lobo resistiu a esse olhar pesado, Kanon pediu-lhe: — Proteja Atena.
— Mas de quem, Kanon?! — suplicou ele, mas Kanon, com seu cosmo dourado, começou a entrar no Portão do Inferno.
E mais: seu cosmo fez uma grande dimensão aparecer na caverna, tirando o chão de Nachi e levitando o corpo de seus amigos. Então a gravidade acelerou naquele cosmo infinito, distorcendo fatalmente o corpo de Nachi e dos outros três Cavaleiros de Bronze, de modo que eles se esparramaram por dimensões e acabaram por reaparecer exatamente em frente ao Lago Avernus.
— O quê?! — espantou-se Nachi.
E então o gigantesco cosmo dourado de Kanon elevou-se e desapareceu por completo logo após uma grande explosão.
— Será que ele?...
Mas a sensação mórbida que habitava o Lago Avernus e os arredores simplesmente sumiu. Kanon havia destruído o Portão do Inferno.
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Atena então caminhou até o trono do Senhor dos Submundos e colocou a mão no seu respaldo; fechou os olhos, comiserada, como se precisasse fazer algo que não queria. Então pareceu despertar, olhou adiante para a entrada e, chamando pelo firmamento do Inferno, sua voz soou:
— Perséfone!
Não houve resposta. Um silêncio se alastrou quase por toda a extensão do terreno do Submundo.
— Perséfone! — clamou Atena uma segunda vez.
E não houve uma brisa infernal em retorno. Ela tentou uma terceira vez.
— Perséfone!
Foi quando finalmente um cosmo poderoso manifestou-se no Inferno tomando a Giudeca por completo.
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